sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A ORAÇÃO DE SHIVA : ALCANÇANDO A META DA VIDA



Shiva

A Oração de Shiva:Alcançando a Meta da Vida


(Excerto do capítulo 24 do quarto canto da obra Srimad-Bhagavatam)

Oração ensinada por Shiva aos Prachetas e a todo aquele que deseja alcançar a meta última da vida.

Quem quer que seja rendido à Suprema Personalidade de Deus, Krsna, o controlador de tudo – da natureza material, bem como da entidade viva – realmente me é muito querido. Alguém que executa seu dever ocupacional adequadamente por cem nascimentos torna-se qualificado para ocupar o posto de Brahma, e, se ele se qualifica ainda mais, pode aproximar-se do Senhor Shiva. Uma pessoa que é diretamente rendida ao Senhor Krsna, ou Visnu, em serviço devocional imaculado, é promovida de imediato aos planetas espirituais. O Senhor Shiva e outros semideuses alcançam esses planetas após a destruição deste mundo material. Como todos vós sois devotos do Senhor, eu posso entender que sois tão respeitáveis como a própria Suprema Personalidade de Deus. Dessa maneira, sei que os devotos também me respeitam e que lhes sou muito querido. Assim, ninguém pode ser tão querido pelos devotos quanto eu. Agora, cantarei um mantra que, além de ser transcendental, puro e auspicioso, é a melhor oração para quem quer que aspire alcançar a meta última da vida. Quando eu cantar este mantra, por favor, ouvi-o cuidadosa e atentamente.
A Oração de Shiva
Ó Suprema Personalidade de Deus, todas as glórias a Vós. Sois o mais ilustre de todos os seres que conhecem a si mesmos. Uma vez que sois sempre auspicioso para os autorrealizados, desejo que sejais auspicioso para mim. Sois adorável em virtude das instruções sumamente perfeitas que transmitis. Vós sois a Superalma; portanto, presto minhas reverências a Vós como o ser vivo supremo.
Meu Senhor, Vós sois a origem da criação em virtude da flor de lótus que brota de Vosso umbigo. Sois o controlador supremo dos sentidos e dos objetos dos sentidos, e também sois o Vasudeva onipresente. Sois muito pacífico, e, devido a Vossa existência autoiluminada, as seis classes de transformações não Vos perturbam.
Meu querido Senhor, Vós sois a origem dos ingredientes materiais sutis, o senhor de toda a integração, bem como o senhor de toda a desintegração, a Deidade predominante chamada Sankarsana, e o senhor de toda a inteligência, conhecido como a Deidade predominante Pradyumna. Portanto, ofereço-Vos minhas respeitosas reverências.
Meu Senhor, como a suprema Deidade diretora conhecida como Aniruddha, sois o senhor dos sentidos e da mente. Portanto, ofereço-Vos repetidamente minhas reverências. Sois conhecido como Ananta e como Sankarsana devido à Vossa capacidade de destruir toda a criação com o fogo abrasador de Vossa boca.
Meu Senhor, ó Aniruddha, Vós sois a autoridade através da qual se abrem as portas dos sistemas planetários superiores e as portas da liberação. Estais sempre dentro do coração puro da entidade viva. Portanto, presto-Vos minhas reverências. Vós possuís sêmen que é como o ouro, e assim, sob a forma do fogo, auxiliais os sacrifícios védicos, que começam com catur-hotra. Portanto, presto-Vos minhas reverências.
Meu Senhor, Vós sois o provedor dos Pitrlokas, bem como de todos os semideuses. Sois a deidade predominante da Lua e o mestre de todos os três Vedas. Presto-Vos minhas respeitosas reverências, porque sois a fonte original de satisfação para todas as entidades vivas.
Meu querido Senhor, sois a gigantesca forma universal, que contém todos os corpos individuais das entidades vivas. Sois o mantenedor dos três mundos, de modo que mantendes a mente, os sentidos, o corpo e o ar vital dentro deles. Portanto, presto-Vos minhas respeitosas reverências.
Meu querido Senhor, expandindo Vossas vibrações transcendentais, revelais o verdadeiro significado de tudo. Sois o céu onipenetrante, interna e externamente, e sois a meta última das atividades piedosas executadas tanto neste mundo material quanto fora dele. Portanto, presto-Vos repetidamente minhas respeitosas reverências.
Meu querido Senhor, Vós sois a testemunha dos resultados das atividades piedosas. Vós sois a inclinação, a indisposição e suas atividades resultantes. Sois a causa das condições miseráveis da vida, ocasionadas pela irreligião, e por isso sois a morte. Presto-Vos minhas respeitosas reverências.
Meu querido Senhor, Vós sois o maior de todos os outorgadores de bênçãos, o mais velho e o supremo desfrutador entre todos os desfrutadores. Sois o mestre da filosofia metafísica de todos os mundos, pois sois a causa suprema de todas as causas, o Senhor Krsna. Vós sois o maior de todos os princípios religiosos, a mente suprema, e tendes um cérebro que nunca é afetado por nenhuma condição. Portanto, presto-Vos repetidamente minhas reverências.
Meu querido Senhor, Vós sois o controlador supremo do trabalhador, das atividades dos sentidos e dos resultados das atividades dos sentidos [karma]. Portanto, sois o controlador do corpo, da mente e dos sentidos. Também sois o controlador supremo do egotismo, conhecido como Rudra. Sois a fonte do conhecimento e das atividades prescritas nos Vedas.
Meu querido Senhor, desejo ver-Vos exatamente sob a forma que Vossos queridos devotos adoram. Vós tendes muitas outras formas, mas desejo ver Vossa forma que é especialmente apreciada pelos devotos. Por favor, tende misericórdia de mim e mostrai-me esta forma, pois somente esta forma adorada pelos devotos pode satisfazer perfeitamente todas as exigências dos sentidos.
A beleza do Senhor parece com aquela de uma nuvem negra durante a estação das chuvas. Assim como a chuva cintila, Suas feições corpóreas também o fazem. Na verdade, Ele é o somatório de toda a beleza. O Senhor tem quatro braços e um rosto extraordinariamente belo, com olhos semelhantes a pétalas de lótus, um belo nariz arrebitado, um sorriso que atrai todas as mentes, uma bela testa e orelhas igualmente belas e plenamente decoradas.
O Senhor é sumamente belo devido a Seu sorriso aberto e misericordioso e ao olhar oblíquo que lança sobre Seus devotos. Seu cabelo negro é cacheado, e Sua roupa, ondulante ao vento, parece com o pólen cor de açafrão que voa das flores de lótus. Seus brincos cintilantes, elmo reluzente, braceletes, guirlanda, sinos de tornozelo, cinturão e diversos outros adornos corpóreos combinam-se com o búzio, o disco, a maça e a flor de lótus para aumentar a beleza natural da pérola Kaustubha sobre Seu peito.
O Senhor tem ombros iguais aos de um leão. Sobre esses ombros, há guirlandas, colares e galões, e tudo está sempre reluzente. Além disso, há a beleza da pérola Kaustubhamani e, sobre o peito negro do Senhor, há listras chamadas Srivatsa, que são sinais da deusa da fortuna. A cintilação dessas listras excede a beleza das listras de ouro sobre uma pedra de testar ouro. De fato, tal pulcritude supera a beleza da própria pedra de testar ouro.
O abdômen do Senhor é belo devido a três pregas. Sendo bem redondo, Seu abdômen assemelha-se a uma folha de figueira-de-bengala, e, quando Ele expira e inspira, o movimento das pregas parece belíssimo. Tamanha é a profundidade dos anéis dentro do umbigo do Senhor que parece que todo o universo surgiu dele e novamente deseja voltar a ele.
A parte abaixo da cintura do Senhor é negra e está coberta com roupas amarelas e um cinturão enfeitado com bordados dourados. Seus pés de lótus simétricos e as barrigas, coxas e juntas de Suas pernas são extraordinariamente belos. De fato, todo o corpo do Senhor é muito formoso.
Meu querido Senhor, Vossos dois pés de lótus são tão belos que parecem duas pétalas desabrochadas da flor de lótus que cresce durante o outono. Na verdade, as unhas de Vossos pés de lótus emitem uma refulgência tão grande que dissipam de imediato toda a escuridão no coração de uma alma condicionada. Meu querido Senhor, por favor, mostrai-me esta Vossa forma que sempre dissipa toda espécie de escuridão no coração do devoto. Meu querido Senhor, Vós sois o mestre espiritual supremo de todos; portanto, todas as almas condicionadas cobertas pela escuridão da ignorância podem ser iluminadas por Vós sob a forma do mestre espiritual.
Meu querido Senhor, aqueles que desejam purificar sua existência devem ocupar-se sempre em meditar em Vossos pés de lótus, como se descreve acima. Aqueles que levam a sério a execução de seus deveres ocupacionais e que desejam libertar-se do temor devem adotar este processo de bhakti-yoga.
Meu querido Senhor, o rei encarregado do reino celestial também deseja obter a meta última da vida, o serviço devocional. De modo semelhante, Vós sois o destino último daqueles que se identificam conVosco [aham brahmasmi]. Entretanto, para eles, é muito difícil alcançar-Vos, ao passo que o devoto pode alcançar-Vos com muita facilidade.
Meu querido Senhor, mesmo pessoas liberadas têm dificuldade de executar serviço devocional puro, mas só o serviço devocional pode Vos satisfazer. Quem adotará outros processos de autorrealização se for realmente sério quanto à perfeição da vida?
Com o simples franzir de Vossas sobrancelhas, o tempo invencível personificado pode aniquilar imediatamente todo o universo. Contudo, o tempo formidável não se aproxima do devoto que tenha se refugiado plenamente a Vossos pés de lótus.
Se alguém por acaso se associa com um devoto, mesmo que por uma fração de segundo, já não está mais sujeito à atração pelos resultados de karma ou jnana. Que interesse, então, pode ele ter nas bênçãos dos semideuses, que estão sujeitos às leis de nascimento e morte?
Meu querido Senhor, Vossos pés de lótus são a causa de todas as coisas auspiciosas e os destruidores de toda contaminação de pecado. Portanto, imploro-Vos que me abençoeis com a companhia de Vossos devotos, os quais são perfeitamente puros por adorarem Vossos pés de lótus e os quais têm imensa misericórdia das almas caídas. Creio que Vossa verdadeira bênção será permitir-me estar na companhia desses devotos.
O devoto cujo coração foi inteiramente purificado pelo processo de serviço devocional e que é favorecido por Bhaktidevi não se confunde com a energia externa, a qual é como um poço escuro. Estando, dessa maneira, inteiramente limpo de toda a contaminação material, o devoto é capaz de entender com muita alegria Vosso nome, fama, forma, atividades, etc.
Meu querido Senhor, o Brahman impessoal espalha-se por toda a parte, assim como a luz do Sol ou o céu. E este Brahman impessoal, que se espalha por todo o universo e no qual se manifesta todo o universo, sois Vós.
Meu querido Senhor, tendes múltiplas energias, e essas energias manifestam-se sob múltiplas formas. Com essas energias, também criais esta manifestação cósmica, e, embora a mantenhais como se fosse permanente, ela é finalmente aniquilada por Vós. Apesar de nunca serdes perturbado por semelhantes transformações e alterações, as entidades vivas são perturbadas por elas, e por isso julgam a manifestação cósmica diferente ou separada de Vós. Meu Senhor, sois sempre independente, e posso constatar claramente este fato.
Meu querido Senhor, Vossa forma universal consiste em todos os cinco elementos, os sentidos, a mente, a inteligência, o falso ego, que é material, e o Paramatma, Vossa expansão parcial, que é o diretor de tudo. Os yogis que não são devotos – a saber, o karma-yogi e o jnana-yogi – adoram-Vos mediante suas respectivas ações em suas respectivas posições. Afirma-se tanto nos Vedas quanto nos sastras que são corolários dos Vedas – e, na verdade, em toda a parte – que apenas Vós deveis ser adorado. Esta é a versão perita de todos os Vedas.
Meu querido Senhor, Vós sois a única Pessoa Suprema, a causa de todas as causas. Antes da criação deste mundo material, Vossa energia material permanece adormecida. Quando Vossa energia material é agitada, as três qualidades – a saber, bondade, paixão e ignorância – atuam, e consequentemente manifesta-se a totalidade da energia material – ego, éter, ar, fogo, água, terra e todos os diversos semideuses e pessoas santas. Assim é criado o mundo material.
Meu querido Senhor, após criardes tudo mediante Vossas próprias potências, entrais na criação sob quatro espécies de formas. Estando dentro dos corações das entidades vivas, Vós as conheceis e sabeis como elas estão desfrutando de seus sentidos. A dita felicidade desta criação material é exatamente como as abelhas desfrutando do mel depois de ele ter sido armazenado na colmeia.
Meu querido Senhor, Vossa autoridade absoluta não pode ser experimentada diretamente, mas, presenciando as atividades do mundo, pode-se adivinhar que tudo vai sendo destruído com o transcorrer do tempo. A força do tempo é muito poderosa, e tudo está sendo destruído por alguma outra coisa – assim como um animal está sendo comido por outro animal. O tempo espalha tudo, exatamente como o vento espalha as nuvens no céu.
Meu querido Senhor, todas as entidades vivas, neste mundo material, andam loucas a planejar coisas, e vivem atarefadas, com desejo de fazer isto ou aquilo. Isto se deve à cobiça incontrolável. A cobiça por gozo material sempre existe na entidade viva, mas estais sempre alerta e, em tempo oportuno, Vós a golpeais, assim como uma serpente captura um rato e o engole com muita facilidade.
Meu querido Senhor, qualquer pessoa erudita sabe que, a não ser que Vos adore, toda a sua vida será desperdiçada. Sabendo disto, como poderia ela deixar de adorar Vossos pés de lótus? Mesmo nosso pai e mestre espiritual, o senhor Brahma, Vos adorou sem hesitação, e os quatorze Manus seguiram seus passos.
Meu querido Senhor, todas as pessoas realmente eruditas conhecem-Vos como o Brahman Supremo e a Superalma. Embora todo o universo tema o Senhor Rudra, que em última análise aniquila tudo, para os devotos eruditos Vós sois o intrépido destino de todos.
Encerramento
Um devoto do Senhor Krsna cuja mente esteja sempre absorta nEle, que com muita atenção e reverência cante esta oração, alcançará a perfeição máxima da vida, sem demora.
Neste mundo material, existem diferentes espécies de conquistas, mas, entre todas elas, a conquista do conhecimento é considerada a mais elevada porque só é possível atravessar o oceano de ignorância no barco do conhecimento.
Embora seja muito difícil prestar serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus e adorá-lO, se alguém vibrar ou simplesmente ler esta oração composta e cantada por mim, conseguirá muito facilmente invocar a misericórdia da Suprema Personalidade de Deus.
A Suprema Personalidade de Deus é o mais querido objetivo de todas as bênçãos auspiciosas. Um ser humano que entoe esta canção cantada por mim poderá satisfazer a Suprema Personalidade de Deus. Semelhante devoto, estando fixo em serviço devocional ao Senhor, poderá obter tudo o que quiser do Senhor Supremo.

Fonte:http://voltaaosupremo.com/artigos/poemas/alcancando-a-meta-da-vida-a-oracao-de-shiva/

SHIVA E O SACRIFÍCIO DE DAKSHA

21 SI (história - Semideuses e Semideusas) Shiva e Daksha (7000)1

Shiva e o Sacrifício de Daksha

21 SI (história - Semideuses e Semideusas) Shiva e Daksha (7000)Maitreya(Excertos dos capítulos de 2 a 7 do quarto canto do Srimad-Bhagavatam) 

Um sacrifício magnífico e grandioso encontra-se com o fracasso diante da ira de Shiva. 

Outrora, os líderes da criação universal realizaram um grande sacrifício no qual todos os grandes sábios, filósofos, semideuses e deuses do fogo reuniram-se junto com seus seguidores. Quando Daksha, o líder dos prajapatis, os progenitores da população, entrou naquela assembleia, com o brilho de seu corpo refulgente como o Sol, toda a assembleia foi iluminada e todas as personalidades reunidas tornaram-se insignificantes em sua presença. Influenciados pelo brilho de seu corpo, todos os deuses do fogo e outros participantes daquela grande assembleia, com exceção de Brahma e Shiva, deixaram seus próprios assentos e se puseram de pé em respeito a Daksha. Daksha recebeu as adequadas boas-vindas do presidente da grande assembleia, Brahma. Após oferecer respeito a Brahma, Daksha, por ordem de Brahma, tomou seu devido assento.
Antes de sentar-se, contudo, Daksha ficou muito ofendido ao ver Shiva sentado e não lhe mostrando nenhum respeito. Nesse momento, Daksha ficou iradíssimo e, com os olhos a arder, colocou-se a falar muito energicamente contra Shiva:
“Todos os sábios, brahmanas e deuses do fogo presentes, por favor, ouvi-me com atenção, pois falo sobre os modos de pessoas cavalheirescas. Eu não falo por ignorância ou inveja. Shiva arruinou o nome e a fama dos governantes do universo e poluiu o caminho das boas maneiras. Por ser desavergonhado, ele não sabe como agir. Ele já aceitou como sua a condição de meu subordinado ao casar-se com minha filha na presença do fogo e dos brahmanas. Ele desposou minha filha, que é igual ao Gayatri, e finge ser uma pessoa honesta. Ele tem olhos de macaco, apesar do que desposou minha filha, cujos olhos são exatamente como os de um filhote de veado. Mesmo assim, ele não se colocou de pé para receber-me, nem julgou adequado dar-me boas-vindas com palavras doces. Eu não desejava dar minha filha a essa pessoa, que transgrediu todas as regras de civilidade. Foi a pedido de Brahma que dei a mão de minha casta filha a ele”.
Daksha, vendo Shiva sentado como se estivesse contra ele, lavou suas mãos e boca e o amaldiçoou com as seguintes palavras: “Os semideuses são aptos a compartilhar das oblações de sacrifício, mas Shiva, que é o mais baixo de todos os semideuses, não deve ter seu quinhão”.
Apesar dos pedidos de todos os membros da assembleia sacrificatória, Daksha, com grande ira, amaldiçoou Shiva e então deixou a assembleia e voltou para casa. Ao compreender que Shiva fora amaldiçoado, Nandishvara, um dos principais associados de Shiva, ficou iradíssimo. Seus olhos avermelharam-se e ele preparou-se para amaldiçoar Daksha e todos os brahmanas ali presentes que haviam tolerado a maldição de Daksha contra Shiva.
Nandishvara disse: “Qualquer pessoa que tenha aceitado Daksha como a personalidade mais importante e tenha desprezado Shiva, devido à inveja, é menos inteligente e, por ver em dualidade, será desprovida de conhecimento transcendental. A vida familiar pretensamente religiosa, na qual alguém se sente atraído pela felicidade material e, assim, também se sente atraído pela explicação superficial dos Vedas, rouba-lhe toda a inteligência e a prende a atividades fruitivas como se fossem tudo o que existe. Daksha aceita o corpo como se fosse tudo. Portanto, já que se esqueceu dos pés de Vishnu, ou que Vishnu é a meta, e está apegado somente à vida sexual, em pouco tempo terá o focinho de um bode. Aqueles que se tornam tão brutos como a matéria, cultivando inteligência e educação materialistas, envolvem-se tolamente em atividades fruitivas. Homens desse gênero propositadamente insultaram Shiva. Que eles continuem no ciclo de repetidos nascimentos e mortes. Que aqueles que têm inveja de Shiva, sendo atraídos pela linguagem florida das encantadoras promessas védicas, e que deste modo tornam-se estúpidos, permaneçam sempre apegados a atividades fruitivas. Esses brahmanas adotam educação, austeridade e votos somente para o propósito de manter o corpo. Eles serão desprovidos da discriminação entre o que comer e o que não comer. Eles adquirirão dinheiro, esmolando de porta em porta, simplesmente para a satisfação do corpo”.
Quando todos os brahmanas hereditários foram assim amaldiçoados por Nandishvara, o sábio Bhrigu, em reação, condenou os seguidores de Shiva com esta fortíssima maldição bramânica:
“Aquele que aceitar um voto de satisfazer Shiva ou que seguir esses princípios certamente tornar-se-á um ateu e será desviado dos preceitos transcendentais das escrituras. Aqueles que fazem voto de adorar Shiva são tão tolos que o imitam mantendo os cabelos longos sobre suas cabeças. Quando iniciados na adoração a Shiva, eles preferem alimentar-se de vinho, carne e outras coisas desse gênero”.
Bhrigu Muni continuou: “Já que blasfemaste os Vedas e os brahmanas, que são seguidores dos princípios védicos, compreende-se que já te refugiaste na doutrina do ateísmo. Os Vedas dão os princípios reguladores eternos para o avanço auspicioso da civilização humana, os quais foram rigidamente seguidos no passado. A forte evidência desse princípio é a Suprema Personalidade de Deus, que Se chama Janardana, o benquerente de todas as entidades vivas. Blasfemando os princípios dos Vedas, que são o caminho puro e supremo das pessoas santas, certamente vós, seguidores de Bhutapati, Shiva, baixareis ao nível do ateísmo”.
Enquanto essas maldições e contramaldições prosseguiam entre os seguidores de Shiva e os partidários de Daksha e Bhrigu, Shiva ficou muito taciturno. Sem dizer nada, ele deixou a arena do sacrifício, acompanhado por seus discípulos.
Todos os progenitores da população universal executaram desse modo um sacrifício por milhares de anos, pois o sacrifício é a melhor maneira de adorar o Senhor Supremo, Hari, a Personalidade de Deus. Todos os semideuses que executavam o sacrifício tomaram seu banho na confluência do Ganges com o Yamuna após completarem a realização do sacrifício. Após purificarem assim seus corações, eles partiram para suas respectivas moradas.
Conversa entre Shiva e Sati
Dessa maneira, a tensão entre o sogro e o genro, Daksha e Shiva, continuou por um período consideravelmente prolongado.
Quando Brahma nomeou Daksha o líder de todos os prajapatis, Daksha tornou-se muito arrogante. Daksha começou um sacrifício chamado vajapeya, mostrando-se excessivamente confiante do apoio recebido de Brahma. Ele então executou outro grande sacrifício, chamado brihaspati-sava. Enquanto o sacrifício estava sendo executado, muitos brahmarshis, grandes sábios, semideuses ancestrais e outros semideuses, com suas esposas todas muito bem enfeitadas com adornos, vieram de diferentes partes do universo.
A casta senhora Sati, filha de Daksha, ouviu os cidadãos celestiais voando no céu a conversar sobre o grande sacrifício que estava prestes a ser executado pelo pai dela. Ao ver que de todas as direções as belas esposas dos cidadãos celestiais, com os olhos brilhando muito belamente, passavam próximas de sua residência e iam para o sacrifício vestidas de roupas finas e adornadas com brincos e colares com medalhões, ela aproximou-se de seu esposo, o mestre dos bhutas, em grande ansiedade, e falou o seguinte:
“Meu querido Shiva, teu sogro agora executará grandes sacrifícios, e todos os semideuses, tendo sido convidados por ele, estão indo para lá. Se desejares, podemos ir também. Acho que todas as minhas irmãs devem ter ido a essa grande cerimônia de sacrifício juntamente com seus esposos só para ver seus parentes. Eu também desejo enfeitar-me com os adornos que meu pai me deu e ir lá contigo para participar daquela assembleia. Minhas irmãs, as irmãs de minha mãe e seus esposos, e outros parentes afetuosos devem estar reunidos ali. Portanto, se eu for, poderei vê-los, e poderei ver as bandeiras tremulantes enquanto os grandes sábios executarem o sacrifício. Por esses motivos, meu querido esposo, é que estou muito ansiosa para ir. Vê só como suas esquadrilhas de aeroplanos brancos tornaram todo o céu muito belo. Ó melhor dos semideuses, como pode o corpo de uma filha permanecer imperturbado quando ela ouve que algum evento festivo está ocorrendo na casa de seu pai? Mesmo que estejas considerando que eu não fui convidada, não há mal algum se alguém vai à casa de um amigo, esposo, mestre espiritual ou pai sem ser convidado. Tu me aceitaste como metade de teu corpo, portanto, por favor, sê bondoso comigo e aceita meu pedido”.
Shiva, o libertador da colina Kailasa, tendo sido assim interpelado por sua querida esposa, respondeu sorridente, embora ao mesmo tempo se lembrasse das palavras maliciosas e cruéis proferidas por Daksha diante dos mantenedores dos afazeres universais.
“Minha querida e bela esposa, tu disseste que alguém pode ir à casa de um amigo sem ser convidado, o que é verdade, contanto que tal amigo não censure o visitante devido à identificação corpórea e desse modo fique irado com ele. Embora as seis qualidades – educação, austeridade, riqueza, beleza, juventude e hereditariedade – sejam para os altamente elevados, aquele que se orgulha de possuí-las torna-se cego, e assim perde seu bom senso, não podendo apreciar as glórias de grandes personalidades. Não se deve ir à casa de ninguém, mesmo que se trate de um parente ou amigo, quando essa pessoa está com a mente perturbada e olha para o visitante com sobrancelhas franzidas e olhos irados”.
21 SI (história - Semideuses e Semideusas) Shiva e Daksha (7000)1
Shiva aconselha sua esposa a não ir à casa de seu pai.
Shiva continuou: “Se alguém é atingido pelas flechas de um inimigo, não fica tão ferido como quando é cortado pelas palavras ásperas de um parente, pois esse pesar continua a lacerar seu coração dia e noite. Minha querida esposa de tez branca, é claro que dentre as muitas filhas de Daksha és a preferida, todavia não serás honrada na casa dele por seres minha esposa. Ao contrário, ficarás pesarosa de estares ligada a mim. Não deves visitar teu pai, embora ele seja o doador de teu corpo, porque ele e seus seguidores têm inveja de mim. Devido à sua inveja, ó adorabilíssima, ele insultou-me com palavras cruéis embora eu seja inocente. Se apesar desta instrução decidires ir, negligenciando minhas palavras, o futuro não te será bom. Tu és muito respeitável, e, quando fores insultada por teu parente, esse insulto equivalerá imediatamente à morte”.
Sati Abandona o Corpo
Shiva ficou silencioso após falar com Sati, vendo-a entre duas opções. Sati estava muito ansiosa por ver seus parentes na casa de seu pai, porém, ao mesmo tempo, temia a advertência de Shiva. Sua mente inquieta fazia-a entrar e sair do quarto à semelhança de um balanço que se move de um lado a outro. Sati sentiu-se muito pesarosa por ter sido proibida de ir ver seus parentes na casa de seu pai, e, devido à afeição por eles, lágrimas caíram de seus olhos. Tremendo e muito aflita, ela olhava para o seu esposo incomum, Shiva, como se fosse fulminá-lo com sua visão. Em seguida, Sati deixou seu esposo, Shiva, que lhe dera metade de seu corpo devido à afeição. Respirando muito pesadamente devido à ira e ao pesar, ela foi até a casa de seu pai.
Quando viram Sati indo embora sozinha muito rapidamente, milhares de discípulos de Shiva, liderados por Maniman e Mada, seguiram-na depressa com seu touro Nandi à frente e acompanhado pelos yakshas.
Os discípulos de Shiva providenciaram que Sati se sentasse sobre as costas de um touro e deram-lhe seu pássaro de estimação. Eles carregavam uma flor de lótus, um espelho e toda a parafernália para o desfrute dela e a cobriram com um grande dossel. Seguida por um grupo cantante com tambores, búzios e cornetas, toda a procissão era tão pomposa como uma parada real.
Então ela chegou à casa de seu pai, onde o sacrifício estava sendo executado, e entrou na arena onde todos cantavam os hinos védicos. Os grandes sábios, brahmanas e semideuses estavam todos reunidos ali, e havia muitos animais para o sacrifício, bem como potes feitos de argila, pedra, ouro, grama e pele, os quais eram todos requisitos para o sacrifício.
Quando Sati, junto de seus seguidores, chegou à arena, como todas as pessoas reunidas temiam Daksha, nenhuma delas a recebeu bem. Ninguém lhe deu boas-vindas com exceção de sua mãe e suas irmãs, as quais, com lágrimas nos olhos e rostos alegres, deram-lhe boas-vindas e falaram-lhe muito agradavelmente. Apesar de ter sido recebida pelas irmãs e pela mãe, ela não respondeu a suas palavras de recepção, e apesar de lhe terem oferecido um assento e presentes, ela não aceitou nada, pois seu pai nem falara com ela, nem lhe dera boas-vindas perguntando sobre o seu bem-estar.
Presente na arena de sacrifício, Sati viu que não havia oblações para seu esposo, Shiva. Em seguida, ela compreendeu que não apenas seu pai deixara de convidar Shiva, como também, ao ver a elevada esposa de Shiva, Daksha nem mesmo a recebeu. Assim, ela ficou iradíssima, a tal ponto que olhava para seu pai como se fosse fulminá-lo com os olhos. Os seguidores do Senhor Shiva, os fantasmas, estavam prontos a ferir ou matar Daksha, mas Sati os impediu com sua ordem. Ela estava muito irada e pesarosa e, naquele estado, começou a condenar o processo de atividades fruitivas sacrificatórias e as pessoas que têm muito orgulho de tais sacrifícios desnecessários e dificultosos. Ela condenou especialmente seu pai, falando contra ele na presença de todos.
A bendita deusa disse: “Shiνa é a mais amada de todas as entidades vivas. Ele não tem rival. Ninguém lhe é muito querido e ninguém é seu inimigo. Ninguém além de ti poderia invejar esse ser universal, que está além de toda a inimizade. Ó Daksha duas-vezes-nascido, tudo o que um homem como tu pode fazer é criticar as qualidades dos outros. Shiva, entretanto, não só não critica as qualidades alheias, mas, se alguém tem uma pequena boa qualidade, ele a enaltece muitíssimo. Infelizmente, tu encontraste faltas em tão grande alma. Não é de admirar que pessoas que aceitaram o corpo material transitório como o eu ocupem-se sempre em zombar das grandes almas. Tal inveja da parte de pessoas materialistas é muito boa porque é assim que elas caem. Elas são rebaixadas pela poeira dos pés de personalidades elevadas”.
“Se alguém ouve uma pessoa irresponsável blasfemar o mestre e controlador da religião”, Sati disse ainda, “deve tapar os ouvidos e ir-se embora se for incapaz de puni-la. Mas, se for capaz de matar, então deve à força cortar a língua do blasfemador e matar o ofensor e, depois disso, deve abandonar sua própria vida. Portanto, não manterei mais este corpo inútil, o qual recebi de ti, que blasfemaste Shiva. Se alguém comeu alimento venenoso, que coisa melhor pode fazer que vomitar? É melhor executarmos nossos próprios deveres ocupacionais do que criticar os alheios. Transcendentalistas elevados podem às vezes passar sem as regras e regulações dos Vedas, uma vez que não precisam segui-las, assim como os semideuses viajam no espaço enquanto os homens comuns viajam sobre a superfície da Terra. Nos Vedas, há orientações para duas espécies de atividades – atividades para aqueles que estão apegados ao gozo material e atividades para aqueles que são materialmente desapegados. Considerando essas duas espécies de atividades, há duas espécies de pessoas, que têm diferentes sintomas. Se alguém deseja ver duas espécies de atividades numa pessoa, isso é contraditório. Mas ambas as espécies de atividades podem ser negligenciadas por alguém que esteja transcendentalmente situado”.
“Meu querido pai”, disse finalmente, “a opulência que possuímos não pode ser imaginada nem por ti nem por teus aduladores, pois pessoas que se dedicam a atividades fruitivas, executando grandes sacrifícios, estão interessadas em satisfazer as necessidades de seus corpos, comendo alimentos oferecidos em sacrifício. Podemos manifestar nossas opulências simplesmente desejando fazê-lo. Somente grandes personalidades, que são almas renunciadas, autorrealizadas, podem conseguir isto. És um ofensor aos pés de lótus de Shiva, e, infelizmente, meu corpo foi produzido do teu. Envergonho-me muito de nossa relação corpórea e me condeno por meu corpo estar contaminado por uma relação com um ofensor aos pés de lótus da mais elevada personalidade. Devido à nossa relação familiar, quando Shiva me chama de Dakshayani fico imediatamente triste e meu júbilo e meu sorriso desaparecem de vez. Sinto muitíssimo que meu corpo, que é como um saco, tenha sido produzido por ti. Portanto, abandoná-lo-ei”.
Enquanto falava assim com seu pai na arena de sacrifício, Sati sentou-se no chão e voltou-se para o norte. Vestida de roupas açafroadas, ela santificou-se com água e fechou os olhos para absorver-se no processo de yoga místico. Em primeiro lugar, ela sentou-se na postura necessária, e então transportou o ar vital para cima e o colocou na posição de equilíbrio perto do umbigo. Depois, elevou seu ar vital, misturado com a inteligência, até o coração e então, aos poucos, até a passagem pulmonar, e dali até entre as sobrancelhas. Então, a fim de abandonar seu corpo, que se assentara tão respeitosa e afetuosamente no colo de Shiva, o qual é adorado por grandes sábios e santos, Sati, devido à ira contra seu pai, colocou-se a meditar no ar ígneo dentro do corpo. Sati concentrou toda a sua meditação nos santos pés de lótus de seu esposo, Shiva, que é o mestre espiritual supremo de todo o mundo. Assim, ela purificou-se inteiramente de todas as manchas de pecado e abandonou seu corpo sob fogo ardente, através da meditação nos elementos ígneos.
21 SI (história - Semideuses e Semideusas) Shiva e Daksha (7000)2
A autoimolação de Sati.
Quando Sati, irada, aniquilou seu corpo, ouviu-se um rugido tumultuoso em todo o universo. Por que Sati, a esposa de Shiva, o mais respeitável dos semideuses, abandonou seu corpo dessa maneira? Daksha, o qual é tão cruel que não é digno de ser brahmana, obterá má fama duradoura devido a suas ofensas contra sua filha, por não ter impedido a morte dela e pela grande inveja que tem da Suprema Personalidade de Deus.
Enquanto as pessoas conversavam entre si sobre a admirável morte voluntária de Sati, os criados que vieram com ela prepararam-se para matar Daksha com suas armas. Eles avançaram violentamente, mas Bhrigu Muni viu o perigo e, oferecendo oblações no lado meridional do fogo de sacrifício, imediatamente pronunciou hinos mântricos do Yajur Veda através dos quais os destruidores de execuções de sacrifícios podiam ser mortos imediatamente.
Quando Bhrigu Muni ofereceu oblações ao fogo, imediatamente manifestaram-se milhares de semideuses chamados ribhus. Todos eles eram poderosos, tendo obtido força de Soma, a Lua. Quando os semideuses ribhus atacaram os fantasmas, todos aqueles criados de Sati fugiram em diferentes direções e desapareceram. Isso foi possível simplesmente devido a brahmatejas, o poder bramânico
Frustração do Sacrifício de Daksha
Quando Shiva ouviu Narada dizer que Sati, sua esposa, havia morrido por causa do insulto do prajapati Daksha a ela e que seus soldados foram expulsos pelos semideuses ribhus, encolerizou-se. Extremamente irado, Shiva apertou os seus lábios com os dentes e imediatamente arrancou de sua cabeça um fio de cabelo que ardia como eletricidade ou fogo. Ele levantou-se repentinamente, gargalhando como louco, e atirou o cabelo ao solo. Um medonho demônio negro, alto como o céu e brilhante como três sóis combinados, foi então criado – seus dentes eram muito amedrontadores, e os cabelos sobre sua cabeça, semelhantes ao fogo incandescente. Ele tinha milhares de braços, equipados com diversas armas, e estava enguirlandado com cabeças humanas.
Quando o gigantesco demônio, Virabhadra, perguntou de mãos postas: “O que devo fazer, meu senhor?”, Shiva, que é conhecido como Bhutanatha, ordenou diretamente: “Como nasceste de meu corpo, és o principal de todos os meus associados. Portanto, mata Daksha e seus soldados no sacrifício”.
Aquela pessoa negra era a ira personificada da Suprema Personalidade de Deus, e estava disposto a executar as ordens de Shiva. Assim, considerando-se capaz de fazer frente a qualquer força que se lhe opusesse, ele circum-ambulou Shiva. Muitos outros soldados de Shiva acompanharam a feroz personalidade em tumultuoso alvoroço. Ele carregava um grande tridente, medonho o bastante para matar até a morte, e em suas pernas usava argolas que pareciam rugir.
Nessa altura, todas as pessoas reunidas na arena de sacrifício – os sacerdotes, o líder da realização sacrificatória e os brahmanas com suas esposas – puseram-se a se perguntar de onde vinha aquela escuridão. Mais tarde, puderam compreender que se tratava de uma tempestade de poeira, e todos se encheram de ansiedade. Conjeturando sobre a origem da tempestade, eles falaram: “Não há vento soprando, nem vacas passando, tampouco é possível que esta tempestade de poeira pudesse ser levantada por saqueadores, pois ainda vive o forte rei Barhi, que os puniria. De onde está soprando esta tempestade de poeira? Estaria a dissolução do planeta prestes a ocorrer?”.
Prasuti, a esposa de Daksha, juntamente com outras mulheres ali reunidas, ficou muito ansiosa e disse: “Este perigo foi criado por Daksha devido à morte de Sati, a qual, muito embora fosse inteiramente inocente, abandonou seu corpo à vista de suas irmãs”. Enquanto todas as pessoas conversavam entre si, Daksha viu perigosos augúrios.
Todos os seguidores de Shiva, então, cercaram a arena de sacrifício. Eles eram de pequena estatura e estavam equipados com vários tipos de armas; seus corpos pareciam com os de tubarões, enegrecidos e amarelados. Eles corriam em volta de toda a arena de sacrifício e assim começaram a criar distúrbios. Alguns dos soldados derrubaram os pilares que suportavam a tenda do sacrifício, outros entraram nos aposentos femininos, outros se puseram a destruir a arena de sacrifício e outros entraram na cozinha e nas residências. Quebraram todos os potes feitos para se usar no sacrifício, e alguns deles começaram a extinguir o fogo sacrificatório. Outros desfizeram as balizas delimitadoras da arena de sacrifício, e outros urinaram na arena. Alguns bloquearam o caminho dos sábios que fugiam, outros ameaçaram as mulheres ali reunidas e outros prenderam os semideuses que fugiam. Maniman, um dos seguidores de Shiva, prendeu Bhrigu Muni, e Virabhadra, o demônio negro, prendeu Daksha.
Chovia pedra sem parar, e todos os sacerdotes e outros membros reunidos no sacrifício foram postos em imensa miséria. Temendo por suas vidas, eles dispersaram-se em diferentes direções.
Virabhadra cortou o bigode de Bhrigu, que oferecia no fogo as oblações sacrificatórias com suas mãos. Virabhadra imediatamente agarrou Bhaga, que havia movido suas sobrancelhas durante a maldição de Bhrigu contra Shiva, e, com grande ira, atirou-o ao solo e arrancou seus olhos à força. Assim como Baladeva partiu os dentes de Dantavakra, o rei de Kalinga, durante o jogo na cerimônia de casamento de Aniruddha, Virabhadra quebrou os dentes tanto de Daksha, que os havia mostrado enquanto amaldiçoava Shiva, quanto de Pusha, que, sorrindo por simpatia, também mostrara seus dentes.
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Virabhadra prestes a decapitar Daksha.
Em seguida, Virabhadra, a personalidade gigantesca, sentou-se no peito de Daksha e tentou separar sua cabeça do corpo com armas cortantes, mas não teve sucesso em seu intento. Ele tentou cortar a cabeça de Daksha com hinos, bem como com armas, mas, ainda assim, era muito difícil cortar mesmo a superfície da pele da cabeça de Daksha. Desse modo, Virabhadra estava excessivamente confuso. Virabhadra, então, viu o dispositivo de madeira na arena de sacrifício com o qual os animais seriam mortos e aproveitou-se dessa oportunidade para facilmente decepar a cabeça de Daksha.
Ao ver esse ato de Virabhadra, o grupo de Shiva deu-se por satisfeito e exclamou em júbilo, e todos os bhutas, fantasmas e demônios que haviam vindo fizeram um som tumultuoso. Por outro lado, os brahmanas encarregados do sacrifício exclamaram em pesar pela morte de Daksha.
Virabhadra pegou então a cabeça e, com grande fúria, atirou-a no lado sul do fogo de sacrifício, oferecendo-a como oblação. Dessa maneira, os seguidores de Shiva devastaram todos os preparos para o sacrifício. Após atearem fogo a toda a arena, partiram para Kailasa, a morada de seu senhor.
Brahma Satisfaz Shiva
Todos os sacerdotes e outros membros da assembleia sacrificatória e todos os semideuses, tendo sido derrotados pelos soldados de Shiva e feridos por armas como tridentes e espadas, aproximaram-se de Brahma com grande temor. Após oferecerem-lhe reverências, começaram a falar detalhadamente sobre os eventos que haviam ocorrido. Tanto Brahma quanto Vishnu já sabiam que tais eventos ocorreriam na arena de sacrifício de Daksha e, sabendo disso de antemão, não foram ao sacrifício. Após ouvir tudo dos semideuses e dos membros que estiveram presentes no sacrifício, Brahma respondeu:
“Não podeis ser felizes executando um sacrifício se blasfemais uma grande personalidade e desse modo ofendeis seus pés de lótus. Não podeis obter a felicidade dessa maneira. Excluístes Shiva da divisão dos resultados dos sacrifícios, e por isso sois todos ofensivos aos pés de lótus dele. Ainda assim, se fordes sem reservas mentais render-vos a ele e cair a seus pés de lótus, ele ficará muito satisfeito”.
Brahma advertiu-os também que Shiva é tão poderoso que, através de sua ira, todos os planetas e seus principais controladores podem ser imediatamente destruídos. Além disso, ele disse que Shiva estava especialmente pesaroso porque acabara de perder sua querida esposa e também estava muito aflito pelas palavras ásperas de Daksha. Sob tais circunstâncias, sugeriu Brahma, era conveniente que eles fossem o quanto antes pedir-lhe perdão. Brahma disse que ninguém – nem ele próprio, Indra, todos os membros reunidos na arena de sacrifício ou todos os sábios – podia saber quão poderoso é Shiva. Sob tais circunstâncias, quem ousaria cometer uma ofensa a seus pés de lótus?
Após dar essas instruções a todos os semideuses, aos pitas e aos senhores das entidades vivas, Brahma levou-os consigo rumo à morada de Shiva, conhecida como colina Kailasa.
Enquanto viajavam, os semideuses passaram por sobre a floresta conhecida como Saugandhika, que é repleta de variedades de flores, frutas e árvores dos desejos. Depois de passarem por sobre diversos lagos, os semideuses chegaram a um lugar onde havia uma grande figueira-de-bengala, a qual projetava uma sombra agradável que mantinha fresca a temperatura, mas não havia barulho de pássaros. Os semideuses viram Shiva sentado debaixo daquela árvore. Grave como o tempo eterno, ele parecia ter abandonado toda a ira.
Ali estava sentado Shiva, cercado por pessoas santas como Kuvera, o mestre dos guhyakas, e os quatro Kumaras, que já eram almas libertas. Shiva era grave e santo. Os semideuses viram Shiva situado em sua perfeição como o senhor dos sentidos, do conhecimento, das atividades fruitivas e do caminho da conquista da perfeição. Ele era o amigo do mundo inteiro e, em virtude de sua plena afeição por todos, ele era muito auspicioso. Estava sentado sobre uma pele de veado e praticava todas as formas de austeridade. Por ter seu corpo coberto de cinzas, ele parecia uma nuvem vespertina. Em seu cabelo, havia o sinal de uma meia Lua, uma representação simbólica. Ele estava sentado sobre uma esteira de palha e falava a todos os presentes, incluindo o grande sábio Narada, a quem ele especificamente falava sobre a Verdade Absoluta. Sua perna esquerda estava colocada sobre sua coxa direita, e sua mão esquerda repousava sobre sua coxa esquerda. Com sua mão direita ele segurava contas de rudraksha. Sentado na postura virasana, ele mantinha seu dedo em gesto de argumentação.
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Brahma e os demais semideuses encontram Shiva.
Todos os sábios e semideuses, encabeçados por Indra, ofereceram suas respeitosas reverências a Shiva com mãos postas. Shiva estava vestido com roupas açafroadas e absorto em transe, parecendo assim ser o principal de todos os sábios. Os pés de lótus de Shiva eram adorados tanto pelos semideuses quanto pelos demônios, mas, ainda assim, apesar de sua posição elevada, ao ver que Brahma estava entre todos os demais semideuses, ele se levantou imediatamente e ofereceu-lhe respeito, prostrando-se e tocando-lhe os pés de lótus, assim como Vamanadeva ofereceu Suas respeitosas reverências a Kashyapa Muni.
Todos os sábios que se encontravam sentados com Shiva, tais como Narada e outros, também ofereceram suas respeitosas reverências a Brahma. Após ser assim adorado, Brahma, sorrindo, dirigiu a palavra a Shiva.
“Meu querido Shiva, sei que és o controlador de toda a manifestação material, pai e mãe combinados da manifestação cósmica, e também o Brahman Supremo além da manifestação cósmica. Assim te conheço eu. Meu querido senhor, tu crias, manténs e aniquilas esta manifestação cósmica através da expansão de tua personalidade, exatamente como a aranha cria, mantém e destrói sua teia. Meu querido senhor, Vossa Onipotência introduziu o sistema de sacrifícios por intermédio de Daksha, fazendo com que se possa, assim, obter os benefícios das atividades religiosas e do desenvolvimento econômico. Sob teus princípios reguladores, a instituição dos quatro varnas e ashramas é respeitada. Os brahmanas, portanto, fazem votos de seguir esse sistema estritamente. Ó auspiciosíssimo senhor, tu estabeleceste os planetas celestiais, os espirituais planetas Vaikuntha e a impessoal esfera Brahman como os respectivos destinos dos executores de atividades auspiciosas. De modo semelhante, para outros, que são tolos, designaste diferentes espécies de infernos que são horríveis e sórdidos. Não obstante, às vezes observa-se que os destinos deles são justamente opostos. É muito difícil determinar a causa disso”.
Brahma prosseguiu: “Meu querido Senhor, os devotos que dedicaram plenamente suas vidas a teus pés de lótus certamente observam tua presença como Paramatma em todo e cada ser, e, como tal, eles não diferenciam entre um ser vivo e outro. Tais pessoas tratam todas as entidades vivas igualmente. Elas jamais se deixam dominar pela ira como os animais, que nada podem ver sem fazer diferenciação. As pessoas que veem diferenças em tudo, que estão simplesmente apegadas a atividades fruitivas, que têm mentalidade mesquinha, que sempre ficam tristes ao ver a condição próspera dos outros e que assim causam-lhes aflições, proferindo palavras ásperas e cortantes, já foram mortas pela providência. Assim, não há necessidade de que sejam novamente mortas por uma personalidade elevada como tu. Meu querido senhor, se, em alguns lugares, os materialistas, que já estão confusos pela insuperável energia ilusória da Suprema Personalidade de Deus, às vezes cometem ofensas, uma pessoa santa, compadecida, não leva isso a sério. Sabendo que cometem ofensas por estarem dominados pela energia ilusória, a pessoa santa não exibe seus poderes para neutralizá-las. Meu querido senhor, não és jamais confundido pela formidável influência da energia ilusória da Suprema Personalidade de Deus. Portanto, és onisciente e deves ser misericordioso e compassivo para com aqueles que são confundidos pela mesma energia ilusória e são muitíssimo apegados a atividades fruitivas”.
“Meu querido Shiva”, Brahma disse enfim, “és o beneficiário de um quinhão dos sacrifícios e o outorgador dos resultados. Os maus sacerdotes não te deram teu quinhão, e por isso destruíste tudo, e o sacrifício permanece inacabado. Agora podes fazer o necessário e tomar o quinhão a que tens direito. Meu querido senhor, por tua misericórdia, o executor do sacrifício, o rei Daksha, poderá recuperar a vida, Bhaga poderá recuperar os olhos, Bhrigu o bigode e Pusha os dentes. Ó Shiva, que os semideuses e sacerdotes cujos membros foram quebrados por teus soldados recuperem-se das lesões por tua graça. Ó destruidor do sacrifício, por favor, toma tua porção do sacrifício e deixa o sacrifício ser consumado por tua graça”.
O Sacrifício Executado por Daksha
Assim apaziguado pelas palavras de Brahma, Shiva falou o seguinte em resposta ao pedido de Brahma.
“Querido pai, Brahma, não me importo com as ofensas criadas pelos semideuses. Como esses semideuses são infantis e menos inteligentes, não levo a sério suas ofensas, e os puni apenas para corrigi-los. Uma vez que a cabeça de Daksha já se transformou em cinzas, ele terá a cabeça de um bode. O semideus conhecido como Bhaga será capaz de ver seu quinhão do sacrifício através dos olhos de Mitra. O semideus Pusha será capaz de mastigar somente por intermédio dos dentes de seus discípulos, e, se estiver sozinho, terá de contentar-se comendo massa feita de farinha de grão-de-bico. Mas os semideuses que concordaram em dar-me o meu quinhão do sacrifício recuperar-se-ão de todos os ferimentos. Aqueles cujos braços foram cortados terão que trabalhar com os braços de Ashvini-kumara, e aqueles cujas mãos foram cortadas terão que trabalhar com as mãos de Pusha. Os sacerdotes também terão que agir dessa maneira. Quanto a Bhrigu, ele terá a barba da cabeça do bode”.
Todas as personalidades presentes ficaram muito satisfeitas de coração e alma ao ouvirem as palavras de Shiva, que é o melhor entre os abençoantes. Depois disso, Bhrigu, o principal dos grandes sábios, convidou Shiva a ir à arena de sacrifício. Assim, os semideuses, acompanhados pelos sábios, por Shiva e por Brahma, foram todos ao local onde o grande sacrifício estava sendo realizado.
Depois que tudo fora executado exatamente de acordo com as orientações de Shiva, o corpo de Daksha foi unido à cabeça do animal destinado a ser morto no sacrifício. Quando a cabeça do animal foi fixada no corpo do rei Daksha, Daksha imediatamente voltou à consciência, e, como se tivesse acordado do sono, o rei viu Shiva diante dele. Nessa altura, quando Daksha viu Shiva, que monta um touro, seu coração, que estava poluído por inveja de Shiva, purificou-se imediatamente, assim como as chuvas de outono purificam a água num lago. O rei Daksha quis oferecer orações a Shiva, porém, logo que se recordou da malfadada morte de sua filha Sati, seus olhos encheram-se de lágrimas, e, constrangido, sua voz embargou-se a ponto de ele não poder dizer nada. Nesse momento, o rei Daksha, movido de amor e afeição, ficou bem desperto em sua verdadeira razão. Com grande esforço, ele apaziguou sua mente, conteve seus sentimentos e, com consciência pura, colocou-se a oferecer orações a Shiva.
O rei Daksha disse: “Meu querido Shiva, cometi uma grande ofensa contra ti, mas és tão bondoso que, em vez de retirar tua misericórdia, fizeste-me um grande favor punindo-me. Tu e o Senhor Vishnu nunca negligenciais ninguém, nem mesmo brahmanas inúteis e desqualificados. Por que, então, deveríeis negligenciar a mim, que estou ocupado em executar sacrifícios? Meu querido, grande e poderoso Shiva, primeiramente foste criado da boca de Brahma a fim de proteger os brahmanas na aquisição de educação, austeridades, votos e autorrealização”.
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Daksha dirige-se respeitosamente a Shiva.
Daksha continuou: “Como protetor dos brahmanas, proteges sempre os princípios reguladores que eles seguem, assim como um vaqueirinho mantém um bastão em sua mão para proteger as vacas. Não conheço a plenitude de tuas glórias. Por essa razão, disparei flechas de palavras ásperas contra ti em plena assembleia, embora não as levasses em conta. Eu estava descendo ao inferno devido à minha desobediência a ti, que és a personalidade mais respeitável, mas tiveste compaixão de mim e me salvaste punindo-me. Peço-te que te satisfaças com tua própria misericórdia, uma vez que não posso satisfazer-te com minhas palavras”.
Sendo assim perdoado por Shiva, o rei Daksha, com a permissão de Brahma, novamente começou a realização do sacrifício, juntamente com os grandes sábios eruditos, os sacerdotes e outros. Depois disso, a fim de recomeçar as atividades de sacrifício, os brahmanas primeiramente providenciaram a purificação da arena sacrificatória da contaminação causada pelo contato de Virabhadra e dos outros seguidores fantasmagóricos de Shiva. Em seguida, providenciaram a oferenda de oblações conhecidas como purodasha ao fogo.
Logo que o rei Daksha ofereceu a manteiga clarificada com mantras do Yajur Veda em santificada meditação, o Senhor Vishnu apareceu ali sob Sua forma original como Narayana. O Senhor Narayana estava sentado no ombro de Garuda, que tinha grandes asas. Tão logo o Senhor apareceu, todas as direções se iluminaram, diminuindo o brilho de Brahma e dos outros presentes.
Sua tez era negra; Sua roupa, amarela como ouro, e Seu elmo, ofuscante como o Sol. Seu cabelo era azulado, da cor das abelhas negras, e Seu rosto estava decorado com brincos. Suas oito mãos portavam búzio, roda, maça, flor de lótus, flecha, arco, escudo e espada, e estavam decoradas com ornamentos dourados como braceletes e pulseiras. Todo o Seu corpo assemelhava-se a uma árvore florescente belamente decorada com várias espécies de flores. O Senhor Vishnu parecia extraordinariamente belo porque sobre Seu peito estavam situadas a deusa da fortuna e uma guirlanda. Ele tinha o rosto belamente decorado com uma atitude sorridente que pode cativar todo o mundo, especialmente os devotos. Abanos de pelos brancos em ambos os lados do Senhor pareciam cisnes brancos, e o alvo dossel sobre Sua cabeça parecia a Lua.
Assim que o Senhor Vishnu tornou-Se visível, todos os semideuses – Brahma e Shiva, os gandharvas e todos ali presentes – imediatamente ofereceram suas respeitosas reverências prostrando-se bem diante dEle. Na presença da refulgência deslumbrante do brilho corpóreo de Narayana, o brilho de todos os demais esvaiu-se, e todos pararam de falar. Temerosos com respeito e veneração, todos os presentes saudaram-nO, levando suas mãos à cabeça, e se prepararam para oferecer suas orações à Suprema Personalidade de Deus, Adhokshaja.
Embora o poder mental inclusive de semideuses como Brahma não alcançasse compreender as ilimitadas glórias do Senhor Supremo, todos eles puderam perceber a forma transcendental da Suprema Personalidade de Deus por graça dEle. Somente por tal graça puderam eles oferecer suas orações respeitosas de acordo com suas diferentes capacidades.
Quando o Senhor Vishnu aceitou as oblações oferecidas no sacrifício, Daksha, o prajapati, começou com grande prazer a oferecer-Lhe respeitosas orações. A Suprema Personalidade de Deus é, na verdade, o senhor de todos os sacrifícios e o preceptor de todos os prajapatis, e é servido até mesmo por personalidades como Nanda e Sunanda.
Daksha disse à Suprema Personalidade de Deus: “Meu querido Senhor, sois transcendental a todas as posições especulativas. Sois inteiramente espiritual, desprovido de todo o temor, e sempre mantendes a energia material sob controle. Apesar de aparecerdes na energia material, estais situado transcendentalmente. Vós estais sempre livre da contaminação material por serdes inteiramente autossuficiente”.
Os membros da assembleia disseram ao Senhor: “Ó refúgio exclusivo para todos os que estão situados em vida problemática, nesta formidável fortaleza da existência condicionada, o elemento tempo, como uma serpente, está sempre procurando uma oportunidade de atacar. Este mundo é cheio de fossos das ditas aflição e felicidade, e há muitos animais ferozes sempre prontos a atacar. O fogo da lamentação vive em chamas, e a miragem da falsa felicidade vive enfeitiçando, mas não há abrigo contra eles. Assim, as pessoas tolas vivem no ciclo de nascimentos e mortes, sempre acabrunhadas no desempenho de seus ditos deveres, e nós não sabemos quando elas aceitarão o abrigo de Vossos pés de lótus”.
Shiva disse: “Meu querido Senhor, minha mente e minha consciência estão sempre fixas em Vossos pés de lótus, os quais, sendo a fonte de todas as bênçãos e da satisfação de todos os desejos, são adorados por todos os grandes sábios libertos, porque Vossos pés de lótus são dignos de adoração. Com minha mente fixa em Vossos pés de lótus, já não me perturbam mais as pessoas que me blasfemam, alegando que minhas atividades não são puras. Não me importo com suas acusações, e perdoo-as por compaixão, assim como Vós demonstrais compaixão para com todas as entidades vivas”.
Orações similares foram oferecidas por Sri Bhrgu, Brahma, Indra, pelas esposas dos realizadores do sacrifício, os sábios, os siddhas, a esposa de Daksha, os governantes de vários planetas, os grandes místicos, os Vedas personificados, o deus do fogo, os semideuses, os gandharvas e os vidyadharas. Os últimos a dirigirem a palavra a Vishnu foram os brahmanas, que disseram: “Querido Senhor, sois o sacrifício personificado. Sois a oferenda de manteiga clarificada, sois o fogo, sois o canto de hinos védicos pelos quais se conduz o sacrifício, sois o combustível, a chama, a grama kusha e os potes de sacrifício. Vós sois os sacerdotes que executam o sacrifício, sois os semideuses encabeçados por Indra, e sois o animal sacrificatório. Tudo o que é sacrificado sois Vós ou Vossa energia. Querido Senhor, ó conhecimento védico personificado, no milênio passado, muitíssimo tempo atrás, quando aparecestes como a encarnação do grande javali, tirastes o mundo da água, assim como um elefante tira uma flor de lótus de um lago. Quando vibrastes o som transcendental sob aquela gigantesca forma de javali, o som foi aceito como um hino sacrificatório, e grandes sábios como Sanaka meditaram nele e ofereceram orações para Vossa glorificação. Querido Senhor, estávamos esperando Vossa audiência porque não conseguimos executar os sacrifícios de acordo com os rituais védicos. Oramos a Vós, portanto, que fiqueis satisfeito conosco. Simplesmente cantando Vosso santo nome, pode-se superar todos os obstáculos. Oferecemo-Vos nossas respeitosas reverências em Vossa presença”.
Após o Senhor Vishnu ter sido glorificado por todos os presentes, Daksha, com sua consciência purificada, providenciou o reinício do sacrifício que fora devastado pelos seguidores de Shiva.
O Senhor Vishnu é, na verdade, o desfrutador dos resultados de todos os sacrifícios. Todavia, por ser a Superalma de todas as entidades vivas, Ele ficou satisfeito simplesmente com Seu quinhão das oferendas do sacrifício. Portanto, Ele dirigiu-Se a Daksha em atitude amável.
O Senhor Vishnu respondeu: “Brahma, Shiva e Eu somos a causa suprema da manifestação material. Eu sou a Superalma, a testemunha autossuficiente. Do ponto de vista impessoal, porém, não há diferença entre Brahma, Shiva e Eu. Eu sou a original Personalidade de Deus, mas, a fim de criar, manter e aniquilar esta manifestação cósmica, ajo através de Minha energia material, e, de acordo com os diferentes graus de atividades, Minhas representações recebem diferentes nomes”.
O Senhor continuou: “Quem não tem conhecimento adequado pensa que semideuses como Brahma e Shiva são independentes, ou pensa inclusive que as entidades vivas são independentes. Uma pessoa com inteligência normal não pensa que a cabeça e outras partes do corpo são separados. Do mesmo modo, Meu devoto não diferencia Vishnu, a onipenetrante Personalidade de Deus, de alguma coisa ou de alguma entidade viva. Aquele que não considera Brahma, Vishnu, Shiva ou as entidades vivas em geral como separadas do Supremo, e que conhece o Brahman, realmente obtém paz; os outros não”.
Assim, Daksha, o líder de todos os prajapatis, tendo sido muito bem instruído pela Suprema Personalidade de Deus, adorou o Senhor Vishnu. Após adorá-lO, executando as cerimônias sacrificatórias prescritas, Daksha separadamente adorou Brahma e Shiva.
Com todo o respeito, Daksha adorou Shiva com seu quinhão dos restos do sacrifício. Após terminar as atividades ritualísticas sacrificatórias, ele satisfez todos os demais semideuses e as outras pessoas ali reunidas. Depois, encerrados todos esses deveres com os sacerdotes, ele banhou-se e ficou plenamente satisfeito. Adorando assim o Supremo Senhor Vishnu mediante a realização ritualística do sacrifício, Daksha situou-se inteiramente no caminho religioso. Além disso, todos os semideuses que se reuniram para o sacrifício abençoaram-no para que sua piedade aumentasse, e então partiram.
Contaram-me que, após abandonar o corpo que recebera de Daksha, Dakshayani, sua filha, nasceu no reino dos Himalaias. Ela nasceu como filha de Mena. Isto eu ouvi de fontes autorizadas. Ambika [a deusa Durga], que era conhecida como Dakshayani [Sati], novamente aceitou Shiva como seu esposo, assim como diferentes energias da Suprema Personalidade de Deus agem durante o decurso de uma nova criação.
Eu ouvi esta história do sacrifício de Daksha, que foi devastado por Shiva, da parte de Uddhava, um grande devoto e um discípulo de Brihaspati.
Se alguém ouve e novamente narra, com fé e devoção, esta história do sacrifício de Daksha, tal como ele foi conduzido pela Suprema Personalidade de Deus, Vishnu, então certamente se purifica de toda a contaminação da existência material.

Fonte:http://voltaaosupremo.com/artigos/historias/shiva-e-o-sacrificio-de-daksha/

NÃRADA-BHAKTI-SUTRA : OS SEGREDOS DO AMOR TRANCENDENTAL

25 I (obra completa - teologia) Narada-bhakti-sutra (ilustrado, bg) (4101)

Nesta obra rara, deparamo-nos com uma apresentação concisa, porém espiritualmente poderosa, da rendição amorosa ao Senhor Kṛṣṇa. Os aforismos têm grande impacto sobre o leitor e são relevantes para praticantes de bhakti-yoga em todos os estágios da prática.


Nārada-bhakti-sūtra: Os Segredos do Amor Transcendental



Capítulo 1: O Valor da Devoção

VERSO 1
athāto bhaktiṁ vyākhyāsyāmaḥ
atha — agora; ataḥ — portanto; bhaktim — o serviço devocional; vyākhyāsyāmaḥ — tentaremos explicar.
Agora, portanto, tentarei explicar o processo do serviço devocional.
VERSO 2
sā tv asmin parama-prema-rūpā
— ele; tu — e; asmin — por Ele (o Senhor Supremo); parama — o mais elevado; prema — amor puro; rūpā — tem por forma.
O serviço devocional manifesta-se como o mais elevado e puro amor a Deus.
VERSO 3
amṛta-svarūpā ca
amṛta — imortalidade; svarūpā — tendo como sua essência; ca — e.
Esse amor puro por Deus é eterno.
VERSO 4
yal labdhvā pumān siddho bhavaty amṛto bhavati tṛpto bhavati
yat — o que; labdhvā — uma vez alcançado; pumān — a pessoa; siddhaḥ — perfeita; bhavati — torna-se; amṛtaḥ — imortal; bhavati — torna-se; tṛptaḥ — pacífica; bhavati — torna-se.
Uma vez que tenha alcançado esse estágio de serviço devocional transcendental em amor puro por Deus, a pessoa se torna perfeita, imortal e pacífica.
VERSO 5
yat prāpya na kiñcid vāñchati na śocati na dveṣṭi na ramate notsāhī bhavati
yat — o que; prāpya — uma vez obtido; na kiñcit — nada; vāñchati — anseia por; na śocati — nem se lamenta; na dveṣṭi — não odeia; na ramate — não regozija; na — não; utsāhī — materialmente entusiástica; bhavati — torna-se.
Uma pessoa ocupada em semelhante serviço devocional puro não deseja algo para a gratificação sensorial, nem lamenta por alguma perda, nem odeia algo, nem desfruta de algo para si, tampouco encontra entusiasmo em atividades materiais.
VERSO 6
yaj jñātvā matto bhavati stabdho bhavaty ātmārāmo bhavati
yat — o que; jñātvā — uma vez compreendido; mattaḥ — intoxicado; bhavati — torna-se; stabdhaḥ — atordoado (em êxtase); bhavati — torna-se; ātma-ārāmaḥ — autossatisfeito (em decorrência de estar ocupado no serviço ao Senhor); bhavati — torna-se.
Aquele que compreende perfeitamente o processo do serviço devocional em amor ao Supremo se intoxica com sua execução. Algumas vezes, ele fica atordoado em êxtase e, destarte, desfruta de seu próprio eu, estando ocupado a serviço do Eu Supremo.
VERSO 7
sā na kāmayamānā nirodha-rūpatvāt
— esse serviço devocional em amor puro por Deus; na — não; kāmayamānā — como luxúria ordinária; nirodha — renúncia; rūpatvāt — por ter como sua forma.
Não há questão de luxúria na execução do serviço devocional puro, pois, em tal serviço, todas as atividades materiais são renunciadas.
VERSO 8
nirodhas tu loka-veda-vyāpāra-nyāsaḥ
nirodhaḥ — renúncia; tu — ademais; loka — dos costumes sociais; veda — e das escrituras reveladas; vyāpāra — às ocupações; nyāsa — renúncia.
Tal renúncia no serviço devocional significa abandonar toda sorte de costumes sociais e rituais religiosos regidos pela injunção védica.
*Os versos de 1 a 8 são traduções de A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada.
VERSO 9
tasminn ananyatā tad-virodhiṣūdāsīnatā ca
tasmin — a Ele; ananyatā — dedicação exclusiva; tat — a Ele; virodhiṣu — a tudo o que se oponha; udāsīnatā — indiferença; ca — e.
Renúncia também significa dedicar-se exclusivamente ao Senhor e ser indiferente a tudo o que se oponha ao Seu serviço.
VERSO 10
anyāśrayāṇāṁ tyāgo ‘nanyatā
anya — outros; āśrayāṇām — de refúgios; tyāgaḥ — a rejeição; an-anyatā — exclusividade.
Dedicação exclusiva ao Senhor significa rejeitar todos os outros refúgios.
VERSO 11
loka-vedeṣu tad-anukūlācaraṇaṁ tad-virodhiṣūdāsīnatā
loka — na sociedade e nos assuntos políticos; vedeṣu — e nos rituais védicos; tat — disso; anukūla — do que é favorável; ācaraṇam — execução; tat — a isso; virodhiṣu — ao que se opõe; udāsīnatā — indiferença.
Indiferença ao que se oponha ao serviço devocional significa aceitar apenas aquelas atividades dos costumes sociais e das injunções védicas que sejam favoráveis ao serviço devocional.
VERSO 12
bhavatu niścaya-dārḍhyād ūrdhvaṁ śāstra-rakṣaṇam
bhavatu — deve haver; niścaya — na certeza; dārḍhyāt — a firme determinação; ūrdhvam — após; śāstra — das escrituras; rakṣaṇam — o cumprimento.
O indivíduo deve continuar seguindo as injunções escriturais mesmo após ter-se fixado com determinação na certeza de que o serviço devocional é o único caminho para o logramento da perfeição da vida.
VERSO 13
anyathā pātitya-śaṅkayā
anyathā — caso contrário; pātitya — de queda; śaṅkayā — possibilidade.
Caso contrário, existe grande possibilidade de queda.
VERSO 14
loke ‘pi tāvad eva bhojanādi-vyāpāras tv ā-śarīra-dhāraṇāvadhi
loke — em comportamento social; api — também; tāvat — enquanto; eva — com efeito; bhojana — alimentação; ādi — e assim por diante; vyāpāraḥ — a atividade; tu — e; ā-śarīra-dhāraṇā-avadhi — enquanto o corpo durar.
Pois, enquanto o corpo durar, a pessoa certamente precisa ocupar-se o mínimo necessário em atividades sociais e políticas, bem como em necessidades básicas, como a alimentação.

Capítulo 2: Definindo Bhakti

VERSO 15
tal-lakṣaṇāni vācyante nānā-mata-bhedāt
tat — disso (o serviço devocional); lakṣaṇāni — as características; vācyante — serão anunciadas; nānā — várias; mata — teorias; bhedāt — de acordo com diferentes.
Agora, as características do serviço devocional serão descritas de acordo com a opinião de várias autoridades.
VERSO 16
pūjādiṣv anurāga iti pārāśaryaḥ
pūjā-ādiṣu — por adorar e assim por diante; anurāgaḥ — afeição; iti — assim considera; pārāśaryaḥ — o filho de Parāśara (Vyāsadeva).
Śrīla Vyāsadeva, o filho de Parāśara Muni, diz que bhakti é o afeiçoado apego por adorar o Senhor de várias maneiras.
VERSO 17
kathādiṣv iti gargaḥ
kathā-ādiṣu — por narrações e assim por diante; iti — afirma deste modo; garga — Garga Muni.
Garga Muni afirma que bhakti é apreço por narrações acerca do Senhor, pelas palavras proferidas pelo Senhor e assim por diante.
VERSO 18
ātma-raty-avirodheneti śāṇḍilyaḥ
ātma — em relação à Superalma; rati — ao prazer; avirodhena — pela liberdade das obstruções; iti — assim declara; śāṇḍilyaḥ — Śāṇḍilya.
Śāṇḍilya declara que bhakti resulta de o sujeito remover todas as obstruções para obter prazer no Eu Supremo.
VERSO 19
nāradas tu tad-arpitākhilācāratā tad-vismaraṇe parama-vyākulateti
nāradaḥ — Nārada; tu — entretanto; tat — a Ele; arpita — oferecer; akhila — todas; ācāratā — as atividades; tat — dEle; vismaraṇe — esquecer-se; parama — a suprema; vyākulatā — aflição; iti — deste modo.
Nārada, entretanto, afirma que bhakti consiste em oferecer todos os atos ao Senhor Supremo e em considerar o esquecimento do Senhor como a pior aflição.
VERSO 20
asty evam evam
asti — são acertadas; evam evam — todas essas descrições.
Todas essas descrições descrevem corretamente bhakti.
VERSO 21
yathā vraja-gopikānām
yathā — como; vraja — de Vraja; gopikānām — as pastoras de vacas.
As pastoras de vacas de Vraja exemplificam a bhakti pura.
VERSO 22
tatrāpi na māhātmya-jñāna-vismṛty-apavādaḥ
tatra — nesse caso; api — nem mesmo; na — não há; māhātmya — da grandeza; jñāna — da ciência; vismṛti — ao esquecimento; apavādaḥ — crítica.
No caso das gopīs, ninguém pode criticá-las por se esquecerem da grandeza do Senhor.
VERSO 23
tad-vihīnaṁ jārāṇām iva
tat — disso (da consciência da grandeza do Senhor); vihīnam — destituída; jārāṇām — os casos ilícitos entre amantes; iva — como.
Por outro lado, a exibição de devoção sem conhecimento da grandeza de Deus não é melhor do que os casos ilícitos entre amantes.
VERSO 24
nāsty eva tasmiṁs tat-sukha-sukhitvam
na — não há; eva — com efeito; tasmin — nisso; tat — Sua; sukha — na felicidade; sukhitvam — o encontro de felicidade.
Em semelhante devoção falsa, o indivíduo não encontra prazer exclusivamente no prazer do Senhor.
VERSO 25
sā tu karma-jñāna-yogebhyo ‘py adhikatarā
— isso; tu — no entanto; karma — ao trabalho fruitivo; jñāna — ao conhecimento especulativo; yogebhyaḥ — e à meditação mística; api — deveras; adhikatarā — superior.
O serviço devocional puro, no entanto, é deveras superior ao trabalho fruitivo, à especulação filosófica e à meditação mística.
VERSO 26
phala-rūpatvāt
phala — do fruto; rūpatvāt — por ser a forma.
Afinal, bhakti é o fruto de todo empenho.
VERSO 27
īśvarasyāpy abhimāni-dveṣitvād dainya-priyatvāc ca
īśvarasya — do Senhor Supremo; api — também; abhimāni — àqueles que são orgulhosos; dveṣitvāt — por ser avesso; dainya — à humildade; priyatvāt — por ser afeito; ca — e.
Importante adicionar, o Senhor é avesso ao orgulho e Se apraz com a humildade.
VERSO 28
tasyā jñānam eva sādhanam ity eke
tasyāḥ — disso (bhakti); jñānam — conhecimento; eva — apenas; sādhanam — o meio; iti — dizem assim; eke — alguns.
Alguns dizem que o conhecimento é o meio para o desenvolvimento da devoção.
VERSO 29
anyonyāśrayatvam ity eke
anyonya — mútua; āśrayatvam — dependência; iti — consideram assim; eke — outros.
Outros consideram bhakti e conhecimento como sendo interdependentes.
VERSO 30
svayaṁ phala-rūpeti brahma-kumāraḥ
svayam — seu próprio; phala-rūpā — manifesta-se como o fruto; iti — assim diz; brahma-kumāraḥ — o filho de Brahmā (Nārada).
Contudo, Nārada, o filho de Brahmā, diz que bhakti é seu próprio fruto.
VERSO 31-32
rāja-gṛha-bhojanādiṣu tathaiva dṛṣṭatvāt
na tena rāja-paritoṣaḥ kṣuc-chāntir vā
rāja — régia; gṛha — em uma residência; bhojana—em uma refeição; ādiṣu — e assim por diante; tathā eva — como; dṛṣṭatvāt — por ver; na — não; tena — mediante isso; rāja — do rei; paritoṣaḥ — a satisfação; kṣut — da fome; śāntiḥ — a saciação; — ou.
Isto é ilustrado pelos exemplos de um palácio régio, uma refeição e assim por diante. Um rei não fica realmente satisfeito simplesmente por ver um palácio, tampouco alguém pode aplacar sua fome simplesmente olhando para uma refeição.
VERSO 33
asmāt saiva grāhyā mumukṣubhiḥ
asmāt — por conseguinte; — isso; eva — apenas; grāhyā — deve ser aceito; mumukṣubhiḥ — por pessoas que desejam a liberação.
Portanto, aqueles que buscam pela liberação devem adotar exclusivamente o serviço devocional.

Capítulo 3: Os Meios de Obtenção

VERSO 34
tasyāḥ sādhanāni gāyanty ācāryāḥ
tasyāḥ — disso; sādhanāni — os meios para desenvolvimento; gāyanti — descrevem; ācāryāḥ — os grandes instrutores.
As grandes autoridades descrevem os métodos para a obtenção do serviço devocional.
VERSO 35
tat tu viṣaya-tyāgāt saṅga-tyāgāc ca
tat — isso; tu — e; viṣaya — da gratificação dos sentidos; tyāgāt — através da rejeição; saṅga — de companhias mundanas; tyāgāt — através da rejeição; ca — e.
Obtém-se bhakti abandonando a gratificação sensorial e as companhias mundanas.
VERSO 36
avyāvṛtta-bhajanāt
 avyāvṛtta — ininterrupta; bhajanāt — pela adoração.
Obtém-se bhakti adorando o Senhor incessantemente.
VERSO 37
loke ‘pi bhagavad-guṇa-śravaṇa-kīrtanāt
loke — no mundo; api — mesmo; bhagavat — do Senhor Supremo; guṇa — sobre as qualidades; śravaṇa — ouvindo; kīrtanāt — e cantando.
Obtém-se bhakti ouvindo e cantando sobre as qualidades especiais do Senhor Supremo, mesmo enquanto ocupado nas atividades ordinárias deste mundo.
VERSO 38
mukhyatas tu mahat-kṛpayaiva bhagavat-kṛpā-leśād vā
mukhyataḥ — primariamente; tu — todavia; mahat — das grandes almas; kṛpayā — pela misericórdia; eva — com efeito; bhagavat — do Senhor Supremo; kṛpā — da misericórdia; leśāt — por um traço; — ou.
Primariamente, todavia, desenvolve-se bhakti pela misericórdia das grandes almas, ou por uma pequena gota da misericórdia do Senhor.
VERSO 39
mahat-saṅgas tu durlabho ‘gamyo ‘moghaś ca
mahat — das grandes almas; saṅgaḥ — a companhia; tu — porém; durlabhaḥ — difícil de obter; agamyaḥ — difícil de compreender; amoghaḥ — infalível; ca — também.
A companhia de grandes almas é algo raramente obtido, difícil de entender e infalível.
VERSO 40
labhyate ‘pi tat-kṛpayaiva
labhyate — obtém-se; api — contudo; tat — dEle (do Senhor Supremo); kṛpayā — pela misericórdia; eva — unicamente.
A companhia de grandes almas pode ser obtida – mas unicamente pela misericórdia do Senhor.
VERSO 41
tasmiṁs taj-jane bhedābhāvāt
tasmin — entre Ele; tat — a Ele; jane — e aqueles associados; bheda — de diferença; abhāvāt — devido à ausência.
[Pode-se obter bhakti quer pela companhia dos devotos puros do Senhor, quer diretamente pela misericórdia do Senhor porque] o Senhor e Seus devotos puros não são diferentes um do outro.
VERSO 42
tad eva sādhyatāṁ tad eva sādhyatām
tat — por isso; eva — somente; sādhyatām — esforcemo-nos; tat — por isso; eva — somente; sādhyatām — esforcemo-nos.
Esforcemo-nos e esforcemo-nos somente por conseguir a companhia dos devotos puros.
VERSO 43
duḥsaṅgaṁ sarvathaiva tyājyaḥ
duḥsaṅgam — de companhias degradantes; sarvathā — toda sorte; eva — em definitivo; tyājyaḥ — deve-se abandonar.
Em definitivo, deve-se abandonar toda sorte de companhia degradante.
VERSO 44
kāma-krodha-moha-smṛti-bhraṁśa-buddhi-nāśa-sarva-nāśa-kāraṇatvāt
kāma — de luxúria; krodha — de ira; moha — de confusão; smṛti-bhraṁśa — esquecimento; buddhi-nāśa — perda da determinação; sarva-nāśa — e perda de tudo; kāraṇatvāt — porque são a causa.
Companhias mundanas promovem em nós o desejo de autogratificação, ira, confusão quanto ao que deve ser feito e ao que não deve ser feito, esquecimento dos benefícios de seguirmos as instruções escriturais, a perda da determinação em seguir tais instruções e, deste modo, acarretam completa calamidade em nossas vidas.
VERSO 45
taraṅgitā apīme saṅgāt samudrāyanti
taraṅgitāḥ — formando ondas; api — com efeito; ime — esses; saṅgāt — das más companhias; samudrāyanti — criam um oceano.
Surgindo das más companhias como ondas, esses efeitos maléficos se combinam em um grande oceano de miséria.
VERSO 46
kas tarati kas tarati māyāṁ yaḥ saṅgaṁ tyajati yo mahānubhāvaṁ sevate nirmamo bhavati
kaḥ — quem; tarati — transpõe; kaḥ — quem; tarati — transpõe; māyām — toda ilusão; yaḥ — aquele que; saṅgam — más companhias; tyajati — abandona; yaḥ — aquele que; mahā-anubhāvam — os sábios; sevate — serve; nirmamaḥ — livre de egoísmo; bhavati — torna-se.
Quem é capaz de transpor toda ilusão? Quem é semelhante indivíduo? Aquele que abandona as más companhias, serve os sábios e assume uma postura de vida abnegada.
VERSO 47
yo vivikta-sthānaṁ sevate yo loka-bandham unmūlayati nistraiguṇyo bhavati yo yoga-kṣemaṁ tyajati
yaḥ — aquele que; vivikta — recluso; sthānam — fica em um local; sevate — serve; yaḥ — aquele que; loka — à sociedade mundana; bandham — o apego; unmūlayati — desarraiga; nistrai-guṇyaḥ — livre da influência dos três modos da natureza material; bhavati — torna-se; yaḥ — aquele que; yoga — desejo de obter; kṣemam — e segurança; tyajati — renuncia.
Pode superar a ilusão aquele que é reservado, corta pela raiz seu apego pela sociedade mundana, livra-se da influência dos três modos da natureza e renuncia o desejo por ganho material e segurança.
VERSO 48
yaḥ karma-phalaṁ karmāṇi sanyasyati tato nirdvandvo bhavati
yaḥ — aquele que; karma-phalam — os frutos do trabalho material; karmāṇi — suas atividades materiais; sanyasati — renuncia; tataḥ — assim; nirdvandvaḥ — inafetado pelas dualidades; bhavati — torna-se.
Pode superar a ilusão aquele que renuncia os deveres materiais e os resultados decorrentes dos mesmos, transcendendo, deste modo, as dualidades.
VERSO 49
yo vedān api sanyasyati kevalam avicchinnānurāgaṁ labhate
yaḥ — aquele que; vedān — os Vedas; api — até mesmo; sanyasyati — renuncia; kevalam — exclusiva; avicchinna — ininterrupta; anurāgam — atração amorosa; labhate — logra.
Aquela pessoa que renuncia até mesmo os Vedas logra atração exclusiva e ininterrupta por Deus.
VERSO 50
sa tarati sa tarati lokāṁs tārayati
saḥ — semelhante pessoa; tarati — transpõe; saḥ — semelhante pessoa; tarati — transpõe; lokān — as pessoas deste mundo; tārayati — faz com que transponham.
Semelhante pessoa certamente se liberta, e também liberta o restante do mundo.

Capítulo 4: Devoção Pura e Mista

VERSO 51
anirvacanīyaṁ prema-svarūpam
anirvacanīyam — indescritível; prema — do amor por Deus em seu estado maduro; svarūpam — a identidade essencial.
A verdadeira natureza do amor puro por Deus é indescritível.
VERSO 52
mūkāsvādana-vat
mūkā — de um mudo; āsvādana — a descrição do sabor; vat — como.
[Tentar descrever a experiência do amor puro por Deus] é como um mudo esforçar-se na tentativa de descrever o que saboreia.
VERSO 53
prakāśyate kvāpi pātre
prakāśyate — é revelado; kva api — de tempos em tempos; pātre — àqueles que são aptos a receber.
Não obstante, de tempos em tempos, o amor puro por Deus é revelado àqueles que são aptos a receber tal revelação.
VERSO 54
guṇa-rahitaṁ kāmanā-rahitaṁ pratikṣaṇa-vardhamānam avicchinnaṁ sūkṣma-taram anubhava-rūpam
guṇa — de qualidades materiais; rahitam — destituída; kāmanā — de desejos materiais; rahitam — destituída; prati-kṣaṇa — a todo instante; vardhamānam — crescente; avicchinnam — ininterrupto; sūkṣma-taram — mais sutil; anubhava — consciência; rūpam — como sua forma.
O amor puro por Deus se manifesta como a mais sutil consciência, destituída de qualidades materiais e desejos materiais, e tal amor, além de ininterrupto, cresce a todo instante.
VERSO 55
tat prāpya tad evāvalokayati tad eva śṛṇoti tad eva bhāṣayati tad eva cintayati
tat — isso; prāpya — uma vez que tenha auferido; tat — Deus; eva — apenas; avalokayati — vê; tat — Deus; eva — apenas; śṛṇoti — ouve sobre; tat — Deus; eva — apenas; bhāṣayati — fala sobre; tat — Deus; eva — apenas; cintayati — pensa em.
Uma vez que tenha auferido amor puro por Deus, o sujeito vê apenas Deus, ouve apenas sobre Deus, fala apenas sobre Deus e pensa apenas em Deus.
VERSO 56
gauṇī tridhā guṇa-bhedād ārtādi-bhedād vā
gauṇī — secundário; misturado com os modos materiais; tridhā — tríplices; guṇa — dos modos materiais; bhedāt — pela diferenciação; ārta — daquele que está aflito; ādi — e assim por diante; bhedāt — pela diferenciação; — ou.
O serviço devocional secundário é de três espécies, de acordo com qual modo da natureza material predomina, ou de acordo com a motivação material – aflição e assim por diante – que conduziu o indivíduo a buscar por bhakti.
VERSO 57
uttarasmād uttarasmāt pūrva-pūrvo śreyāya bhavati
uttarasmāt uttarasmāt — do que cada seguinte; pūrva-pūrvaḥ — cada anterior; śreyāya bhavati — é considerado melhor.
Cada estágio anterior deve ser considerado melhor do que aquele que o sucede.
VERSO 58
anyasmāt saulabhyaṁ bhaktau
anyasmāt — do que mediante qualquer outro processo; saulabhyam — sucesso de fácil obtenção; bhaktau — mediante o serviço devocional.
É mais fácil alcançar o sucesso mediante o serviço devocional do que mediante qualquer outro processo.
VERSO 59
pramāṇāntarasyānapekṣatvāt svayaṁ pramāṇatvāt
pramāṇa — meios de conhecimento válido; antarasya — de outros; an-apekṣatvāt — por não depender; svayam — por si mesmo; pramāṇatvāt — por ser uma autoridade válida.
A razão para o serviço devocional ser o mais fácil de todos os processos espirituais é o fato de ele não depender de nenhuma outra autoridade para sua validação, porquanto ele é o padrão de autoridade.
VERSO 60
śānti-rūpāt paramānanda-rūpāc ca
śānti — a paz; rūpāt — corporifica; parama-ānanda — o êxtase supremo; rūpāt — corporifica; ca — e.
Além disso, bhakti corporifica a paz e o êxtase supremo.
VERSO 61
loka-hānau cintā na kāryā niveditātma-loka-vedatvāt
loka — do mundo; hānau — em relação a perdas; cintā — preocupar-se; na kāryā — não se deve; nivedita — por ter rendido; ātma — seus; loka — afazeres mundanos; vedatvāt — e deveres védicos.
Após confiar ao Senhor todos os seus deveres mundanos e védicos, não é necessário se preocupar em relação a perdas materiais.
VERSO 62
na tatsiddhau loka-vyāvahāro heyaḥ kintu phala-tyāgas tat-sādhanaṁ ca kāryam eva
na — não; tat — disso (o serviço devocional); siddhau — na adoção; loka — ordinários; vyāvahāraḥ — afazeres; heyaḥ — deve abandonar; kintu — senão; phala — dos resultados; tyāgaḥ — o abandono; tat — disso (o serviço devocional); sādhanaṁ — conforme tenta progredir; ca — e; kāryam — deve ser feito; eva — certamente.
Mesmo após ter adotado o serviço devocional, o indivíduo não deve abandonar suas responsabilidades neste mundo, senão que deve continuar entregando os frutos de seu trabalho ao Senhor. E conforme tenta alcançar o estágio de devoção pura, certamente o indivíduo deve continuar executando os deveres prescritos.
VERSO 63
strī-dhana-nāstika-caritraṁ na śravaṇīyam
strī — referentes a sexo; dhana — referentes a dinheiro; nāstika — sem Deus; caritraṁ — descrições; na — não; śravaṇīyam — se deve ouvir.
Não se deve sentir prazer na audição de assuntos referentes a sexo, dinheiro e ateísmo.
VERSO 64
abhimāna-dambhādikaṁ tyājyam
abhimāna — vaidade; dambha — mentira; ādikam — e assim por diante; tyājyam — devem ser abandonados.
Vaidade, hipocrisia e posturas similares devem ser abandonadas.
VERSO 65
tad arpitākhilācāraḥ san kāma-krodhābhimānādikaṁ tasminn eva karaṇīyam
tat — a Ele; arpita — dedicando; akhila — todas; ācāraḥ — as ações; san — sentindo; kāma — desejos; krodha — raiva; abhimāna — orgulho; ādikam — e assim por diante; tasmin — em relação a Ele; eva — unicamente; karaṇīyam — a pessoa deve sentir.
Dedicando todas as atividades ao Senhor, a pessoa deve sentir desejo, raiva e orgulho unicamente em relação a Ele.
VERSO 66
tri-rūpa-bhaṅga-pūrvakaṁ nitya-dāsya-nitya-kāntā-bhajanātmakaṁ prema kāryaṁ premaiva kāryam
tri-rūpa — dos três modos da natureza material (as qualidades da bondade, da paixão e da ignorância); bhaṅga — rompendo; pūrvakam — já mencionados; nitya — perpétua; dāsya — postura de servo; nitya — perpétua; kāntā — como uma amante; bhajana — serviço; ātmakam — consistindo em; prema — amor puro; kāryam — deve-se manifestar; prema — amor puro; eva — unicamente; kāryam — deve-se manifestar.
Após romper a já mencionada cobertura dos três modos da natureza, deve-se agir somente em amor puro por Deus, permanecendo eternamente na disposição de um servo em relação ao seu mestre ou na disposição de uma amante em relação ao seu amado.
VERSO 67
bhaktā ekāntino mukhyāḥ
bhaktāḥ — devotos; ekāntinaḥ — unicamente; mukhyāḥ — principais.
Entre os devotos do Senhor, os mais grandiosos são aqueles que se dedicam a Ele unicamente como Seus servos íntimos.
VERSO 68
kaṇṭhāvarodha-romāśrubhiḥ parasparaṁ lapamānāḥ pāvayanti kulāni pṛthivīṁ ca
kaṇṭha — com a voz na garganta; avarodha — embargada; roma — com pelos arrepiados; aśrubhiḥ — e com lágrimas; parasparam — entre si; lapamānāḥ — conversando; pāvayanti — purificam; kulāni — suas comunidades; pṛthivīm — a Terra; ca — e.
Conversando entre si com vozes embargadas, pelos arrepiados e lágrimas a cascatearem, os servos íntimos do Senhor purificam seus seguidores e também o mundo inteiro.
VERSO 69
tīrthī-kurvanti tīrthāni su-karmī-kurvanti karmāṇi sac-chāstrī-kurvanti śāstrāṇi
tīrthī — locais sagrados; kurvanti — tornam; tīrthāni — os locais sagrados; su-karmī — atividades auspiciosas; kurvanti — tornam; karmāṇi — a atuação; sat — reais; śāstrī — as escrituras; kurvanti — tornam; śāstrāṇi — as escrituras.
Tais servos tornam sagradas as terras sagradas, tornam atividades auspiciosas as atividades e evidenciam as escrituras.
VERSO 70
tan-mayāḥ
tat — dEle; mayāḥ — são cheios.
Os servos íntimos do Senhor Supremo encontram-se sempre inteiramente absortos em amor por Ele.
VERSO 71 
modante pitaro nṛtyanti devatāḥ sa-nāthā ceyaṁ bhūr bhavati
modante — regozijam-se; pitaraḥ — os antepassados; nṛtyanti — dançam; devatāḥ — os semideuses; sa-nāthā — possuidora de bons mestres; ca — e; iyam — esta; bhūḥ — Terra; bhavati — torna-se.
Assim, os antepassados dos devotos puros se regozijam, os semideuses dançam, e o mundo se sente protegido por bons mestres.
VERSO 72
nāsti teṣu jāti-vidyā-rūpa-kula-dhana-kriyādi-bhedaḥ
na asti — inexistem; teṣu — entre eles; jāti — de classe; vidyā — educação; rūpa — beleza; kula — família; dhana — riqueza; kriyā — ocupação; ādi — e assim por diante; bhedaḥ — diferenças.
Inexistem distinções entre tais devotos puros em termos de classe social, educação, beleza corpórea, status familiar, riqueza, ocupação e assim por diante.
VERSO 73
yatas tadīyāḥ
yataḥ — devido a que; tadīyāḥ — pertencem a Ele.
[Os devotos puros não se diferenciam por questões externas, como as classes sociais,] devido a que pertencem ao Senhor.

Capítulo 5: Atingindo a Perfeição

VERSO 74
vādo nāvalambyaḥ
vādaḥ — a debates; na — não; avalambyaḥ — dar-se.
O indivíduo não deve se dar a debates argumentativos.
VERSO 75
bāhulyāvakāśatvād aniyatatvāc ca
bāhulya — em excesso; avakāśatvāt — por envolver oportunidades; aniyatatvāt — por não ser decisiva; ca — e.
Semelhante discussão conduz a excessivas complicações e nunca é decisiva.
VERSO 76
bhakti-śāstrāṇi mananīyāni tad-bodhaka-karmāṇi karaṇīyāni
bhakti — atinentes ao serviço devocional; śāstrāṇi — as escrituras; mananīyāni — devem ser respeitadas; tat — por elas; bodhaka — trazidas; karmāṇi — as atividades prescritas; karaṇīyāni — devem ser executadas.
A pessoa deve respeitar as escrituras reveladas atinentes ao serviço devocional e deve cumprir os deveres que elas prescrevem.
VERSO 77
sukha-duḥkhecchā-lābhādi-tyakte kāle pratīkṣamāṇe kṣaṇārdham api vyarthaṁ na neyam
sukha — felicidade; duḥkha — infelicidade; icchā — desejo; lābha — exploração; ādi — e assim por diante; tyakte — abandonar; kāle — o momento; pratīkṣamāṇe — aguardando; kṣaṇa — de um momento; ardham — a metade; api — nem mesmo; vyartham — caprichosamente; na neyam — não deve ser desperdiçado.
Pacientemente perseverando até o momento em que possa deixar de lado a felicidade material, a aflição, o desejo e o falso ganho, não se deve desperdiçar sequer uma fração de segundo.
VERSO 78
ahiṁsā-satya-śauca-dayāstikyādi-cāritryāṇi paripālanīyāni
ahiṁsā — de não-violência; satya — veracidade; śauca — limpeza; dayā — compaixão; āstikya — fé; ādi — e assim por diante; cāritryāṇi — as qualidades; paripālanīyāni — devem ser cultivadas.
Boas qualidades como não-violência, veracidade, limpeza, compaixão e fé devem ser cultivadas.
VERSO 79
sarvadā sarva-bhāvena niścintair bhagavān eva bhajanīyaḥ
sarvadā — sempre; sarva-bhāvena — com todos os sentimentos; niścintaiḥ — por aqueles que estão livres de dúvidas; bhagavān — o Senhor Supremo; eva — com efeito; bhajanīyaḥ — deve ser adorado.
Aqueles que se encontram livre de dúvidas devem adorar constantemente o Senhor Supremo de todo o seu coração.
VERSO 80
sa kīrtyamānaḥ śīghram evāvirbhavaty anubhāvayati bhaktān
saḥ — Ele; kīrtyamānaḥ — sendo glorificado; śīghram — rapidamente; eva — com efeito; avirbhavati — aparece; anubhāvayati — permite o conhecimento; bhaktān — aos devotos.
Quando é glorificado, o Senhor rapidamente Se revela aos Seus devotos e permite que estes O conheçam como Ele é.
VERSO 81
tri-satyasya bhaktir eva garīyasī bhaktir eva garīyasī
tri — de três maneiras (através de sua mente, de seu corpo e de suas palavras); satyasya — para quem é honesto; bhaktiḥ — o serviço devocional; eva — somente; garīyasī — mais precioso; bhaktiḥ — o serviço devocional; eva — somente; garīyasī — o mais precioso.
O serviço devocional é a posse mais preciosa de uma pessoa que honestamente utiliza sua mente, seu corpo e suas palavras.
VERSO 82
guṇa-māhātmyāsakti-rūpāsakti-pūjāsakti-smaraṇāsak ti-dāsyāsakti-sakhyāsakti-vātsalyāsakti-kāntāsakty-ā tma-nivedanāsakti-tan-mayāsakti-parama-virahāsakti-rūpai kadhāpy ekādaśadhā bhavati
guṇa — das qualidades (do Senhor); māhātmya — à grandeza; āsakti — apego; rūpa — à Sua beleza; āsakti — apego; pūjā — à adoração; āsakti — apego; smaraṇa — à lembrança; āsakti — apego; dāsya — ao serviço; āsakti — apego; sakhya — à amizade; āsakti — apego; vātsalya — à afinidade parental; āsakti — apego; kāntā — como um amante conjugal; āsakti — apego; ātma — do próprio eu; nivedana — à oferenda; āsakti — apego; tat-maya — a estar absorto em pensar nEle; āsakti — apego; parama — supremo; viraha — à saudade; āsakti — apego; rūpā — tendo como suas formas; ekadhā — em número de um; api — embora; ekādaśakhā — onze; bhavati — se torna.
Embora o serviço devocional seja um, ele se manifesta em onze formas de apego: apego às gloriosas qualidades do Senhor, à Sua beleza, à adoração a Ele, à lembrança dEle, a servi-lO, a ser Seu amigo, a cuidar dEle como cuida um pai ou uma mãe, a lidar com Ele como um amante, a render inteiramente o próprio eu a Ele, a absorver-se em pensar nEle, e a sentir saudades dEle. O último é o apego supremo.
VERSO 83
ity evaṁ vadanti jana-jalpa-nirbhayā eka-matāḥ kumāra-vyāsa-śuka-śāṇḍilya-garga-viṣṇu-kauṇḍilya-śeṣoddhavāruṇi-bali-hanūmad-vibhīṣaṇādayo bhakty-ācāryāḥ
iti — então; evam — desta maneira; vadanti — dizem; jana — das pessoas comuns; jalpa — da conversa mundana; nirbhayāḥ — sem medo; eka — de uma; matāḥ — opinião; kumāra-vyāsa-śuka-śāṇḍilya-garga-viṣṇu-kauṇḍilya-śeṣa-uddhava-aruṇi-bali-hanūmat-vibhīṣaṇa-ādayaḥ — os Kumāras, Vyāsa, Śuka, Śāṇḍilya, Garga, Viṣṇu, Kauṇḍilya, Śeṣa, Uddhava, Aruṇi, Bali, Hanumān, Vibhīṣaṇa e outros; bhakti — do serviço devocional; ācāryāḥ — as autoridades.
Assim dizem as autoridades do serviço devocional – os Kumāras, Vyāsa, Śuka, Śāṇḍilya, Garga, Viṣṇu, Kauṇḍilya, Śeṣa, Uddhava, Aruṇi, Bali, Hanumān, Vibhīṣaṇa e outros –, o que dizem sem medo das conversas mundanas das pessoas ordinárias e compartilhando entre si a mesma opinião.
VERSO 84
ya idaṁ nārada-proktaṁ śivānuśāsanaṁ viśvasiti śraddhate sa bhaktimān bhavati sa preṣṭhaṁ labhate sa preṣṭhaṁ labhata iti
yaḥ — quem; idam — este; nārada-proktam — falado por Nārada; śiva — auspicioso; anuśāsanam — instrução; viśvasiti — confia; śraddhate — é convencido por; saḥ — ele; bhakti-mān — possuidor de devoção; bhavati — torna-se; saḥ — ele; preṣṭham — o mais querido (o Senhor Supremo); labhate — alcança; saḥ — ele; preṣṭham — o mais querido; labhate — alcança; iti — assim.
Qualquer um que confie nestas instruções dadas por Nārada e sinta-se convencido por elas será abençoado com devoção e alcançará o mais querido Senhor. Sim, ele alcançará o mais querido Senhor.
Neste ponto, encerra-se a obra Narada-bhakti-sutra.

Fonte:http://voltaaosupremo.com/artigos/obras-completas/narada-bhakti-sutra-os-segredos-do-amor-transcendental/

25 I (obra completa - teologia) Narada-bhakti-sutra (ilustrado, bg) (4101)