segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A VIDA É UM PRESENTE - PRAJNANANANDA



A Vida é um Presente - Paramahamsa Prajnanananda

A vida é um presente. Deixe que ela cresça em amor. Nós devemos viver uma vida de modo a dar tudo o que pudermos. Nós devemos servir. Lembre-se, a vida não é um caminho fácil ou tranqüilo. Nunca é assim; se observarmos as vidas das grandes personalidades, mesmo naquele estado elevado de consciência divina, ainda assim, eles tiveram de passar por muitos problemas e sofrimento. E onde estamos nós, cujas vidas são cheias de erros, de emoções, de ego? Naturalmente, os problemas são muitos. Isso não é motivo para nos preocuparmos. Mas como podemos viver nesse mundo apesar de tantos problemas e dificuldades?
Nós gostamos das pessoas que nos amam, mas é difícil  aceitarmos, orarmos ou amarmos, aqueles que nos traem. Em nossa vida diária vamos encontrar pessoas que são confiáveis, e outras com as quais é doloroso conviver. Então, como lidar com elas? Na literatura espiritual você encontrará os dois tipos de personalidade. Um homem sagrado na Índia disse: “Sou um peregrino sentado à margem da estrada, eu vejo o bem e o mal, mas eu não sou nem bom nem mau”. Esta é uma bela frase se você a compreende. Em nossas vidas, tanto o bem quanto o mal acontece. Pessoas irão nos amar; algumas irão nos elogiar e outras irão nos culpar ou criticar. Outras serão agressivas conosco.

É fácil

É fácil conseguir um lugar na agenda de alguém. Difícil é conseguir um lugar no seu coração...
É fácil julgar os erros dos outros. Difícil é reconhecer os próprios erros...
É fácil falar sem pensar. Difícil é segurar a língua...
É fácil machucar alguém que nos ama. Difícil é curar a ferida...
É fácil perdoar aos outros. Difícil é pedir perdão...
É fácil colocar regras. Difícil é segui-las...
É fácil sonhar toda noite. Difícil é lutar por um sonho...
É fácil mostrar vitória. Difícil é aceitar a derrota com dignidade...
É fácil admirar a lua cheia. Difícil é ver o outro lado...
É fácil tropeçar em uma pedra. Difícil é se levantar...
É fácil desfrutar da vida todos os dias. Difícil é dar a ela o seu devido valor...
É fácil prometer algo a alguém. Difícil é cumprir a promessa...
É fácil dizer que amamos. Difícil é mostrá-lo a cada dia...
É fácil criticar os outros. Difícil é melhorar a si mesmo...
É fácil cometer erros. Difícil é aprender com eles...
É fácil pensar em melhorar. Difícil é parar de pensar e colocar em prática...
É fácil pensar mal dos outros. Difícil é dar-lhes o benefício da dúvida...
É fácil receber. Difícil é dar...
É fácil manter uma amizade com palavras. Difícil é mantê-la com significados...
É fácil ler esse texto. Difícil é segui-lo.


O MEDO DE SER PUNIDO - PRAJNANANANDA

O Medo de Ser Punido - por Paramahamsa Prajnananada

Você já se perguntou quem você realmente é, e por que está aqui? Deus o enviou à Terra, ou esta foi uma escolha sua? Para ajudar a responder a estas perguntas, vamos usar o exemplo de ir a um Retiro espiritual. Talvez você já tenha ido a um Retiro espiritual no passado. Em caso positivo, foi você quem decidiu ir ou o forçaram a ir? Com certeza você dirá que foi por vontade própria. Ao chegar no local do Retiro, alguém o impediu de ir embora? As pessoas vão a retiros sabendo quanto tempo vão ficar. A hora de chegar, e de ir embora, depende exclusivamente delas. Uma criança pode dizer que não tem escolha, porque a sua mãe pode tê-la feito ir. Mas os adultos sabem que tudo o que fazem é uma escolha deles. Da mesma forma, também foi uma escolha nossa vir à Terra e ter o corpo que temos – tudo foi uma escolha nossa. É o nosso próprio karma, as nossas ações, que decidem o que seremos e o que faremos.
Na Índia há um ditado: “As pessoas querem obter resultados, mas esquecem que precisam trabalhar para obter esses resultados. As pessoas não querem que as coisas ruins aconteçam, mas não deixam de fazer coisas ruins.” Aquilo que você é hoje, é o resultado do seu próprio karma e nada mais. Nós viemos para este mundo com o nosso karma, e aquilo que fazemos hoje determina o nosso karma futuro. Se o que você faz é uma escolha sua, quem deve ser culpado quando os problemas aparecem?
O Medo do Karma
As pessoas têm medo do seu karma, dos seus pecados. Você deve ser cuidadoso com o karma que você cria. Em cada respiração, esteja consciente; não se esqueça. Quando você se esquece, algo se perde. Não desperdiçe o seu tempo desnecessariamente, e ao sentir solidão, não tenha medo, porque você nunca está sozinho. Lembre-se, o seu karma estará com você e Deus também. Mesmo que o seu corpo físico morra, o seu corpo astral e causal não morrerão até que você esteja completamente realizado.
Quando você for embora deste mundo, todos os seus bens materiais serão deixados para trás. As suas posses,  carro, casa, tudo o que você tiver permanecerá neste mundo e poderá causar disputas entre os seus filhos. Na hora das discussões, eles se esquecem rapidamente do amor dos seus pais. Até mesmo os discípulos brigam por causa de heranças. Houve um monge que decidiu vender uma estátua de ouro do Senhor Ganesha e dar o dinheiro aos pobres, para que os seus discípulos não brigassem por causa dela após a sua partida do corpo físico.
O Santo Kabir, um grande poeta, santo e místico, foi abandonado quando criança e criado por uma família muçulmana. Ele tinha seguidores muçulmanos e hindus. No dia do seu falecimento, os muçulmanos desejaram enterrá-lo, enquanto os hindus queriam cremá-lo. Enquanto discutiam, o seu corpo desapareceu. É assim que as pessoas dizem amar o Guru mas, na verdade, não compreendem o seu amor, e apenas o seguem cegamente. A devoção cega não pode ser confundida com amor. Abra os seus olhos e veja.
Se você não é capaz de ver com os dois olhos que você tem, como poderá ver com o terceiro olho?
Se você não consegue ver o que está diante de você, não será capaz de ver nada claramente.
Tente ver as coisas sem sentir emoção. Abra os olhos e veja as coisas como elas realmente são, ao invés de vê-las como você pensa que elas são, ou como você gostaria que elas fossem.
Assim, todas as suas coisas materiais serão deixadas para trás quando você partir deste mundo. Nada tangível irá com você, nem uma coisa sequer que você considere como sendo sua. No entanto, há algo que irá com você, mas com certeza não serão riquezas materiais. O que irá com você quando você partir? O seu karma acompanhará você quando você deixar este mundo. Por isso, muitas pessoas têm medo do seu karma. Mark Twain disse certa vez que todos gostam da lua, que mostra o seu lado brilhante para todos e esconde o seu lado escuro. Mesmo que possamos esconder o nosso lado escuro de nós mesmos e dos outros, um dia será levado conosco, na forma do nosso karma. Ao invés de vivermos brilhando por fora e sujos por dentro, enquanto buscadores espirituais, nós devemos olhar para o nosso lado escuro e remover o que estiver sujo, ou seja, os aspectos negativos das nossas vidas. Nós precisamos reconhecer as nossas falhas e trabalhar para erradicá-las, ao invés de tentar mudar as outras pessoas. Não importa o que estamos fazendo ou para onde vamos, o nosso karma estará sempre conosco.
A verdade é que nós temos medo dos nossos erros e da consequente punição. No início, quando cometemos um erro, pode ser que não estejamos conscientes do que estamos fazendo. De fato, nós podemos até pensar que estamos agindo corretamente. No entanto, ao progredirmos espiritualmente, nós passamos a compreender o mal que fizemos e que uma punição espera por nós. Quando dizemos uma mentira, pode ser que ela fique encoberta e que ninguém descubra nada sobre ela. Mas hoje nós compreendemos que não é possível esconder nada. Então, seja cuidadoso com tudo o que você fizer, porque o karma das suas ações irá com você. E, sabendo disso, não deixe que isso o deixe com medo.
Esqueça o Passado: Faça o Bem Agora
Suponha que você tenha feito coisas boas e coisas ruins. Já que não podemos mudar as coisas ruins que fizemos, nós devemos nos esforçar para modificar a nossa conduta e tentar fazer apenas o bem, com sinceridade, de agora em diante. O bom karma dá bons frutos, enquanto o mal karma trará resultados negativos. Mesmo que bom karma seja certamente preferível, estar livre tanto do bom quanto do mau karma é a única liberdade verdadeira.
Esta é a hora de mudar, mudar as nossas vidas completamente. Nós podemos nos libertar do mau karma e estarmos livres dos seus resultados. Se tentarmos com sinceridade a partir de agora, até mesmo o mau karma não dará os seus resultados. Ele será completamente eliminado de nós. Enquanto o karma permanecer na forma de semente, ele poderá dar flôres e frutos; o bom karma dará bons frutos e o mau karma dará maus frutos. Assim, o nosso karma, na forma de sementes, fica guardado em nós. Nós estaremos verdadeiramente libertos, apenas quando estivermos livres tanto do bom quanto do mau karma. Este é sem dúvida o verdadeiro espírito da liberdade.
No texto tântrico Kularnava Tantra, está escrito, papa punyam pashum hatva: “Qualidades negativas, atividades pecaminosas, assim como as virtuosas e meritórias, são todas qualidades animais.” Algumas são perigosas e outras são dóceis. Os animais dentro de nós têm raiva, ego, inveja e amor. Você deve matar os animais bons e os maus. Mas como matá-los? Jnana khadgena yogavit, “sendo o mestre da yoga, o conhecedor da yoga.” (Kularnava Tantra) Mate tanto os animais bons e domesticados, quanto os animais perigosos e selvagens com a espada do conhecimento. Por isso, seja um iogue que carrega em suas mãos a espada do conhecimento – corte ambos, elimine ambos, e assim você estará livre.
Tanto o bom quanto o mau karma aprisionam as nossas vidas. Você pode estar preso por uma corrente de ferro (algemas), ou por uma corrente de ouro (bracelete dourado), mas ainda assim os dois serão correntes. Enquanto a corrente de ouro (boas ações) é maleável e prazerosa, quebrando-se com mais facilidade do que a corrente de ferro (ações negativas), ambas estão efetivamente prendendo você. É por isso que, para estar verdadeiramente livre, você precisa se libertar de ambas as correntes que aprisionam você.
Todas as sementes possuem o potencial de crescer, mas se a semente for queimada, ela não germinará. A semente do karma pode ser queimada através da oração e da meditação, pois isso impedirá que ela cresça. Muitas pessoas me perguntam como podem modificar as suas vidas. Eu digo a elas que é preciso começar mudando a forma como vêem as coisas, o seu comportamento, os seus hábitos e o seu relacionamento com os outros. Além disso, existe também um ingrediente chave que é preciso ter; você deve ser sincero na sua intenção de mudar. Com a ajuda da oração e da meditação, e sendo honesto, se esforçando com determinação, você poderá se libertar. Ninguém pode fazer esse trabalho por você; a mudança que você faz depende inteiramente do seu próprio esforço. Viva atentamente e de forma inteligente, e assim você estará livre de todas as formas de medo, inclusive do medo da morte.

LEMBRANDO NELSON MANDELA - PRAJNANANANDA


Lembrando de Nelson Mandela

Enquanto eu caminhava em direção à minha liberdade, eu sabia que se eu não deixasse minha amargura e raiva para trás, eu ainda estaria na prisão.  – Nelson Mandela


Alma Divina e Amada,

Escrevo a todos vocês lembrando da ocasião da despedida de um humanista do nosso tempo, amado, divino, compassivo e comprometido, que partiu para o plano do paraíso em 5 de Dezembro de 2013, e cujo funeral será no dia 15 de Dezembro.

O mundo inteiro ficou de luto, lembrando de sua contribuição à humanidade. Ele era um verdadeiro amante da humanidade. Todas as discriminações são criadas pelos seres humanos, e a civilização pode florescer com a transformação da mente e do coração.

A África do Sul é o lugar onde Mahatma Gandhi aprendeu a protestar contra a injustiça, o que ele depois implementou na Índia.

Nelson Mandela, amavelmente chamado de Madiba pelo povo de seu país, nasceu em 1918, na África do Sul e se envolveu no movimento antiapartheid desde seus 20 anos de idade.

Ele se filiou ao Congresso Nacional na década de 1940, e por anos dirigiu uma campanha de desafio pacífico e não violento contra o governo Sul-africano e suas políticas racistas.

Ele passou 27 anos na prisão, mas nunca desistiu de lutar pela humanidade. Mandela e o presidente Sul-africano daquela época, receberam o Prêmio Nobel por seus esforços para desmantelar o sistema do Apartheid, na África do Sul.

Em 1994, aos 77 anos, Nelson Mandela se tornou o primeiro presidente eleito democraticamente em uma África do Sul livre. Ele estava determinado a mudar a lei de minorias e o Apartheid para uma lei de maioria negra. Em 1996, ele estabeleceu uma nova Constituição na África do Sul, que garantia um Governo central baseado na lei da maioria, e direitos às minorias, com liberdade de expressão.

Em 2004, ele anunciou sua aposentadoria da vida pública e retornou à vila onde passou sua infância. Ele concentrou esforços em levantar fundos para construir escolas e clínicas em áreas rurais.

Em 2007, ele organizou um grupo de líderes mundiais para encontrar soluções para problemas mundiais, o que incluía promover a paz, igualdade para as mulheres, democracia e iniciativas humanitárias.

Seu aniversário, em 2009, foi declarado como o “Dia de Mandela”, um dia para promover a paz global e celebrar seu legado.

Nelson Mandela dedicou sua vida à luta pelos direitos da humanidade.

Quando fomos à África do Sul em 2009, para o Parlamento das Religiões do Mundo, ouvimos do povo sobre a triste história do Apartheid. Nelson Mandela é uma pessoa inesquecível, e sua vida é um exemplo para todos nós. Ele disse: "Não me julguem por meus sucessos, julguem-me por quantas vezes eu caí e me levantei novamente. Um campeão é um sonhador que nunca desiste".

Vamos orar por sua alma viajante, e tirar inspiração de seus ensinamentos para trabalhar tanto pela humanidade como por toda a criação.

Com amor,

Prajnanananda

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

ACORDAR PARA OUTRA REALIDADE : O MUNDO DOS SONHOS

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"Sonho Causado Pelo Vôo de Uma Abelha em Volta de Uma Romã Um Segundo Antes do Despertar" Salvador Dalí, 1944

Acordar para outra realidade

Desde Platão os pensadores buscam desvendar os mistérios do sonho, artistas exploram a riqueza de seu conteúdo onírico, o cinema sua capacidade de transcender a realidade objetiva. O sonho agora está na pauta da neurociência, e a psicanálise aponta a importância e singularidade das mensagens codificadas no sonho, cuja chave para decifrá-lo pertence a cada sonhador.

O pintor mais famoso do surrealismo, Salvador Dalí, é famoso por pintar as cenas ilógicas dos sonhos. Consta em sua biografia, uma técnica própria do pintor: dormir seu atelier sentado com uma colher na mão. Fazia isto para que, ao adormecer, seus dedos deixassem cair a colher, e com o ruído ele pudesse acordar e pintar imediatamente a imagem gravada em sua mente, evitando se desconcentrar com outras informações e esquecer os detalhes imagéticos de seus sonhos.
Dalí procura Freud para entender o inconsciente e dar substância ao movimento surrealista. Destas conversas resulta-se que Dalí não foi analisado e Freud não entrou para o movimento, mas a psicanálise se converte na principal fonte de inspiração para a produção artística do surrealismo. Sendo um dos livros de cabeceira dos surrealistas, "A interpretação dos sonhos" de Freud.

Ruídos do real

Lacan teve contato com o surrealismo antes mesmo da psicanálise. Em suas construções sobre a realidade psíquica, ele nos coloca um enigma ainda maior; os ruídos nos despertam do sono para a vigília, bem como os sonhos, lapsos e atos falhos, nos despertam para este outro real, o real do inconsciente.
“O despertar, como não ver que ele tem duplo sentido – que o despertar, que nos restitui a uma realidade constituída e representada, tem duplo emprego? O real, é para além do sonho que temos que procurá-lo – no que o sonho revestiu, envelopou, nos escondeu, por trás da falta de representação, da qual lá só existe um lugar tenente. Lá está o real que comanda, mais do que qualquer outra coisa, nossas atividades, e é a psicanálise que o designa para nós.” (Lacan, 1964).

Sonhos na neurociência

Cientistas de diversas partes do mundo fazem do sonho seu objeto de estudo. De acordo com os pesquisadores são diversos os fins nos quais o uso do sonho tem apresentado resultados; reversão de traumas, melhora no desempenho esportivo, e até há casos de alívio de dor crônica. Mas como se dirige um trabalho com sonhos, que até agora concebemos como ocorrência involuntária? O pesquisador Tadas Stumbrys da Universidade de Heidelberg na Alemanha estuda o que denomina de “sonho lúcido”. Assim como Dalí, ele utiliza uma técnica de acordar depois de algum tempo de sonho e registra o que sonhava. Entretanto Stumbrys tem o objetivo de voltar a dormir e afirma poder interferir no conteúdo do sonho.
AKAKA.jpg O filme “A Origem” é inspirado no conceito de sonho lúcido
No Brasil há um estudo no Instituto do cérebro, em Natal, que pesquisa a relação do sonho lúcido com a esquizofrenia, o objetivo é que o paciente fique treinado a saber quando está sonhando e assim também tomaria consciência logo que surgisse uma crise de delírio.
O cientista Martin Dresler, do instituto Max Planck na Alemanha publicou um trabalho no qual descreve um mapa sobre o que ocorre no cérebro durante o sonho. Acredita-se que é possível que os sonhos sirvam como meio útil para reabilitação física após lesões e acidente vascular cerebral, os exames apresentaram que durante os sonhos são ativadas as mesmas regiões cerebrais que durante a vigília.

Freud e os sonhos

A psicanálise não se propõe a manipular o sonho, mas interpretá-lo. Desde suas primeiras elaborações o sonho é apontado como meio de acesso a esta realidade outra, do inconsciente. A forma como o sujeito lembra, conta e interpreta o sonho em análise são indicadores do real inconsciente do sujeito, e através da livre associação os fenômenos psíquicos se tornam conscientes; desejos, medos, preocupações. A ‘cura’ em psicanálise advém deste saber sobre algo do inconsciente, que tem a ver com seu sintoma, com seus desejos e tudo o que afeta a vida do sujeito. É durante o sono, quando está o corpo, em total retirada de investimento da realidade externa que passa a processar todos os recentes estímulos recebidos de fora e os estímulos que retornam de seus recôndito depósito de lembranças, pulsões, sentimentos e o que tudo que há de íntimo no ser. A sensibilidade do corpo fica em evidência, sendo possível pressentir quando algum órgão não está bem, apenas um estômago cheio ou peso no peito bastam para se ter algum sonho bastante angustiante.
As cenas de sonho foram desenhadas por Dali no filme "Quando fala o coração" de Alfred Hitchcock (1945)
O conteúdo onírico possui uma linguagem própria, e apesar de tudo o que se estudou, não é possível apontar uma simbolização universal. Os conteúdos podem se repetir, mas para cada sujeito a construção estará ligada unicamente ao seu universo subjetivo particular, e poderá tratar de tantas coisas quanto possíveis e inimagináveis deste universo. Um desejo atual, um trauma de infância, uma fantasia sexual recalcada, a vingança de uma injúria, e até coisas aparentemente banais e desimportantes. Só o sonhador vai decifrar o conteúdo do sonho, e poder usá-lo a seu favor. Freud, em sua trajetória, dá um lugar especial no sonho para o ‘Wunsh’ cuja tradução seria algo entre vontade, pedido e desejo. Para ele o ‘Wunsh’ sempre vai aparecer no sonho e pode ser um desejo de prazer ou desprazer, mas é nessa indicação de pedido do inconsciente que o sujeito vai se haver com suas questões, calcular o que ele vai suportar satisfazer e o que ele pode ceder desse desejo. E o que é esse cálculo, entre desejar e realizar, senão o fio condutor o nossas vidas?
FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. (1900-1901). In: Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.
LACAN, Jacques (1964). O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
Revista
Época. Agosto/2014

Fonte:
© obvious: http://lounge.obviousmag.org/por_entre_letras/2014/09/acordar-para-outra-realidade.html#ixzz3DimPmUdh
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SER,TER,PARECER OU APARECER - FLAVIO GIKOVATE

Ser, Ter, Parecer, ou Aparecer Eis a questão universe natural

Ser, Ter, Parecer ou Aparecer?

Em 1976, Erich Fromm publicou um livro cujo título, “Ter ou Ser”, indicava que estava em curso uma mudança fundamental. As alterações nos valores culturais acompanham, em geral com certo atraso, as que acontecem no plano dos avanços da tecnologia – especialmente quando eles estão diretamente ligados ao cotidiano da maioria dos cidadãos. Nosso “habitat” vem mudando drasticamente principalmente a partir da II Grande Guerra. Nós, humanos, interferimos continuadamente sobre o ambiente que nos cerca; depois temos que nos adaptar às mudanças que nós mesmos provocamos. Por vezes, levamos um susto com o que nos acontece, como se não fôssemos nós os causadores de tudo!
Até os anos 1960, os valores que as pessoas mais prezavam eram a integridade moral, o conhecimento, as boas e sólidas relações de amizade, a competência para o exercício de uma atividade socialmente útil. Em uma frase, os valores mais relevantes tinham a ver com o conteúdo das pessoas mais do que com a aparência delas. O indivíduo se orgulhava de ser professor, médico, empresário… Era o tempo em que o “ser” valia mais que tudo, mais do que a remuneração que se obtinha em decorrência da atividade que se exercia.
A partir dos anos 1970, os critérios de valor começaram a se alterar e o pêndulo se voltou essencialmente na direção do que se consegue “ter”, ou seja, o que mais se passou a valorizar foi o montante que se ganha e quais os bens que podem ser adquiridos com esse dinheiro. As marcas de grife ganharam fama enorme e se tornaram cada vez mais conhecidas de todos. A maior parte das pessoas passou a desejá-las com vigor: o uso de uma determinada bolsa e de certas marcas de relógio passou a indicar a importância e a posição social de quem os possui. Tornaram-se fonte de respeitabilidade.
A remuneração que se obtém passou a ser mais importante do que as aptidões necessárias para o exercício de uma dada atividade. Ser rico tornou-se muito mais relevante do que ser culto, produtivo ou mesmo honesto. É claro que foram muitos os que conseguiram unir todas as propriedades e enriqueceram em decorrência do exercício de atividades produtivas que exigem sofisticação intelectual e mesmo integridade moral. Porém, passaram a chamar a atenção e atrair a admiração mais pelo que tinham do que por aquilo que eram.
Numa época em que ser o possuidor de um dado modelo de relógio (ou de bolsa, para citar apenas os símbolos mais expressivos das mudanças nos valores que temos acompanhado) significava ter uma determinada posição econômica, os concorrentes menos valorizados começaram a produzir exemplares que imitavam as propriedades do original. Os que não podiam comprar o relógio mais cobiçado não tinham alternativa senão se contentar com as imitações que, à distância, não eram tão facilmente diferenciadas. Assim, entramos numa nova era, na qual o importante é “parecer” que se possui a riqueza necessária para a posse dos bens materiais agora valorizados acima de tudo. Depois dos relógios mais em conta e que imitavam os mais desejados vieram os falsificados, cópias baratas e de má qualidade, mas ainda assim usados por um bom número de pessoas e que foram capazes de enganar a um bom número de pessoas mais desavisadas. De repente, não importa mais nem ser e nem mesmo ter: apenas parecer!
Na última década fomos introduzidos, via internet, às redes sociais, ao universo novo dos contatos virtuais. Se, na fase em que o ter passou a prevalecer sobre o ser, pudemos observar um enorme crescimento do exibicionismo físico (na “era” do ser também havia certo exibicionismo intelectual, porém mais sutil e discreto), agora as pessoas passaram a querer mais que tudo “aparecer”. Elas postam fotos suas nas mais diversas situações, todas elas encantadoras e dignas de provocar a inveja de seus “amigos”, que “curtem” o que veem com toda a hipocrisia própria dos que se empenham em disfarçar seus reais sentimentos.
Temos caminhado cada vez mais na direção da superficialidade, saindo do “miolo” para a “casca”. Agora a ocupação principal de muita gente é a de exibir uma imagem encantadora de si mesma, sendo que a veracidade daquilo que se exibe interessa cada vez menos. O importante é provocar suspiros de admiração nos interlocutores cada vez mais distantes e menos relevantes.
Flavio Gikovate

Ser, Ter, Parecer, ou Aparecer Eis a questão universe natural

DA CABEÇA AO CORAÇÃO - OSHO



Da cabeça ao coração


O primeiro objetivo: experimente ser acéfalo. Visualize a si mesmo como acéfalo; aja como se fosse. Essa sugestão parece ridícula, ilógica, mas é um dos exercícios mais importantes. Experimente e entenderá. Caminhe sentindo-se como se não tivesse cabeça. No princípio será apenas “como se”. Quando começar a sentir que não tem cabeça, achará esquisito e estranho. Mas em pouco tempo você estará se acomodando no coração.

Existe uma lei. Você talvez tenha notado que uma pessoa que é cega tem uma audição mais sensível, um ouvido mais musical. As pessoas cegas possuem uma sensibilidade para a música mais profunda. Por quê? A energia que normalmente circula pelos olhos, no caso, não pode passar por eles, então escolhe um caminho diferente que passa pelas orelhas.

Os cegos têm maior sensibilidade no tato. Se um cego lhe tocar, você sentirá a diferença, porque normalmente exercemos grande parte do nosso tato usando os olhos: costumamos nos tocar uns aos outros por meio dos olhos. Um cego não tem como exercer o tato com os olhos, assim a energia corre pelas mãos dele. Um cego é mais sensível que qualquer outra pessoa cujos olhos sejam sadios. Há exceções, mas geralmente é assim. A energia começa a circular a partir de outro centro se determinado centro não estiver atuante.

Assim sendo, experimente este exercício de que estou falando -o exercício de acefalia - e sentirá uma coisa estranha: será como se, pela primeira vez, você estivesse no coração. Caminhe sem cabeça. Sente-se para meditar, feche os olhos e sinta que não há uma cabeça. Sinta: “A minha cabeça desapareceu.” No princípio será apenas “como se”, mas em pouco tempo você sentirá que a sua cabeça realmente desapareceu. Quando sentir que a sua cabeça desapareceu, o seu centro recairá sobre o coração, imediatamente! Você estará olhando para o mundo com o coração e não com a cabeça.

Quando os ocidentais chegaram pela primeira vez ao Japão, eles não conseguiam acreditar que, durante séculos, os japoneses tradicionalmente acreditavam que pensavam com a barriga. Se perguntarmos a uma criança japonesa que não tenha sido educada segundo o estilo ocidental: “Onde fica o seu pensamento?”, ela apontará para a barriga.

Séculos e séculos se passaram e o Japão tem vivido sem a cabeça. Isso é apenas um conceito. Se eu lhe perguntar: “Por onde você pensa?”, você apontará para a cabeça, mas um japonês apontará para a barriga. Esse é um dos motivos pelos quais a mente japonesa é mais calma, quieta e tranquila.

Atualmente já não é mais assim, porque o Ocidente se espalhou por toda parte. Hoje não existe mais Oriente, que permanece apenas em alguns indivíduos que são como ilhas, aqui e ali. Geograficamente, o Oriente desapareceu e o mundo inteiro é ocidental.

Pratique a acefalia. Medite em pé diante do espelho do banheiro. Olhe profundamente nos seus olhos e sinta que você está olhando com o coração. Em pouco tempo o centro do coração começará a funcionar. E quando o coração funciona, ele muda totalmente a sua personalidade, todo o seu organismo, todo o seu modo de ser, porque o coração tem um estilo próprio.

Primeiro pratique a acefalia. Em seguida, seja uma pessoa mais carinhosa, porque o amor não funciona através da cabeça. É por isso que, quando uma pessoa está apaixonada, dizemos que “perdeu a cabeça”: é como se tivesse ficado louca. Se não estiver apaixonado e maluco, você não está realmente apaixonado. E preciso perder a cabeça. Se ela não for afetada, se estiver funcionando normalmente, não é possível amar, porque para amar é preciso que o coração funcione e a cabeça não. Essa é uma função do coração.

É difícil descer do pedestal. Torna-se uma postura rígida. Se você é um empresário, continua sendo até na cama. É difícil acomodar duas pessoas internamente e não é fácil mudar o seu modo de ser radicalmente, imediatamente, no momento em que você decidir. Sei que é difícil, mas, se estiver apaixonado, terá de descer do alto de sua cabeça.

Para essa meditação, experimente ser uma pessoa mais carinhosa. Quando digo isso, estou lhe dizendo para mudar o caráter de seus relacionamentos: faça com que sejam baseados no amor. Torne-se mais carinhoso não só com seu parceiro, seus filhos ou seus amigos, mas em relação à vida como um todo. É por isso que Mahavir e Buda falavam sobre a não-violência: para criar uma atitude de carinho em relação à vida.

Quando Mahavir anda ou faz qualquer movimento, ele permanece atento para não matar nem mesmo uma formiga. Por quê? A formiga não é a questão. Mahavir sai da cabeça e vai para o coração, criando uma atitude de carinho em relação à vida como um todo.

Quanto mais os seus relacionamentos se basearem no amor, mais o seu centro do coração irá funcionar. E quando esse centro funcionar, você verá o mundo com outros olhos, porque o coração tem a sua própria maneira de ver o mundo. A mente não consegue ver dessa maneira, ela só consegue analisar! O coração sintetiza, enquanto a mente disseca e divide. Só o coração produz a unidade.

Quando for capaz de ver com o coração, o universo inteiro parecerá um todo único, uma unidade. Quando você observa com a mente, o mundo inteiro se torna atômico. Não existe unidade: só átomos e átomos e átomos. O coração proporciona a sensação da unidade. Ele reúne e a síntese final é Deus. Se for capaz de ver com o coração, o universo inteiro será um e essa unidade será Deus.

É por isso que a ciência nunca consegue encontrar Deus. É impossível, porque o método aplicado nunca consegue alcançar a suprema unidade. O método característico da ciência é a razão, a análise, a divisão. Desse modo, a ciência chega a moléculas, átomos, elétrons, e eles continuam a ser divididos. Eles não podem nunca chegar à unidade orgânica do todo. É impossível ver o todo com a cabeça.
Osho, em "Meditação: A Primeira e Última Liberdade"
Imagem por Mike Shaheen


Fonte: http://www.palavrasdeosho.com/2014/06/

QUERIA VOLTAR A SER CRIANÇA...- CLARICE LISPECTOR