sexta-feira, 4 de novembro de 2016

COMO NÃO IDEALIZAR O AMOR? - REGINA NAVARRO LINS


Muitas vezes, até em relações duradouras, ouvimos a descrição do parceiro amoroso de alguém como sendo uma pessoa maravilhosa, bonita, inteligente, carinhosa e nos sentimos constrangidos quando somos apresentados a ela. É comum não possuir absolutamente nenhuma das características atribuídas pelo outro.
O amor romântico é construído em torno da projeção e da idealização sobre a imagem em vez da realidade. A pessoa amada não é percebida com clareza, mas através de uma névoa que distorce o real. Os amigos dizem: “O que ela viu nele?” ou “O que ele viu nela?” Porque eles veem a pessoa, enquanto você vê a imagem idealizada do outro.
Entretanto, para se manter envolto na névoa que cobre o amor romântico depois de algum tempo de relação, é necessário que o outro corresponda, evitando qualquer intimidade real, se calando sobre os pensamentos e sentimentos mais íntimos, bem como mantendo um certo afastamento físico.
As pessoas sempre souberam disso. Até alguns anos atrás, o argumento que as mães usavam para controlar o namoro de suas filhas era de que qualquer intimidade física antes do casamento faria o rapaz perder o interesse pela moça. Parece que não havia preocupação quanto ao depois. Aí já estariam casados e tudo tinha que ser suportado. Ainda hoje encontramos defensores da falta de intimidade física para adiar o desencanto.

O autor americano Robert Johnson, em seu trabalho sobre o amor romântico, faz uma análise de como esse sentimento tão valorizado entre os ocidentais afeta a vida das pessoas. O amor romântico não resiste à intimidade porque a relação não é com a pessoa real, do jeito que ela é. O “apaixonado” centraliza o seu ser na ilusão do romance, acreditando que vai encontrar a si mesmo e a vida em toda a sua plenitude. Mas, como a magia nunca dura e a idealização do outro acaba, surge o desencanto. Nessa quebra de encanto, começamos a perceber que a pessoa amada e as projeções colocadas nela são realidades distintas.
A convivência torna evidentes as diversas características de personalidade da outra pessoa. Seu jeito de ser e de pensar, como também sua generosidade ou seu egoísmo, sua coragem ou suas inseguranças, por exemplo. Alguns aspectos nos causam admiração, outros repúdio, mas de qualquer forma não conseguimos mais perceber o outro tão maravilhoso e idealizado como no início da relação. As nossas projeções sofrem a interferência da realidade.
Qualquer transgressão à ordem social estabelecida é imediatamente perdoada se for em nome do amor. Todos torcem para que o amor supere tudo e sempre vença. Ao mesmo tempo, estão todos dispostos a reconhecer que a paixão é uma forma de intoxicação, uma doença da alma como pensavam os antigos. Na era de Hollywood ninguém quer acreditar nisso. Estamos todos mais ou menos envenenados.
Inegavelmente, o amor romântico tem seu próprio tipo de excitação, temporária por natureza. Enquanto estamos apaixonados por alguém, o mundo se reveste de tamanho significado que a cada encontro somos transportados para fora da realidade e cria-se um estado de exaltação. É como se uma parte que nos faltasse nos tivesse sido devolvida, sentimo-nos enaltecidos, como se de repente tivéssemos nos elevado acima do mundo comum.
Existe uma expectativa no homem e na mulher de que o amor revele algo sobre eles mesmos ou sobre a vida em geral. A paixão é sempre uma aventura. Transforma a vida de cada pessoa, enriquecendo-a de novidades, riscos e prazeres.
As características do amor romântico são inconfundíveis. O êxtase e a agonia que nos causam tornam a vida emocionante, nos dando essa sensação de transcendência. Para se manter nesse estado de plenitude, homens e mulheres exigem coisas impossíveis de seus relacionamentos: nós realmente acreditamos inconscientemente que o outro tem a obrigação de nos manter sempre felizes, de tornar nossa vida significativa, vibrante, plena de encanto.
Mas, quando nos desapaixonamos, o mundo instantaneamente parece desolado e vazio apesar de, em alguns casos, continuarmos ao lado da mesma pessoa que antes nos propiciava tanta felicidade.
Em nossa cultura, o romance está em toda parte. A literatura, os filmes e músicas o expressam em abundância. Ficamos dramaticamente encantados quando o romance está no pleno vigor e desesperados quando ele acaba. Todo um conjunto de verdades sobre o romance nos é oferecido. Inconsciente e automaticamente, nós o aceitamos sem discutir e ficamos profundamente irritados quando alguém o faz.
http://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2014/03/29/e-facil-inventar-o-amor/