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A ORDEM TEMPLÁRIA E A ROSA MÍSTICA JUDAICA

Monja templária em documento inglês da Ordem (fins do século XIII)

A Ordem dos Templários e a Mística Judaica – Por Vitor Manuel Adrião

 Terça-feira, May 3 2016 

Geograficamente, o centro axial da espiritualidade ocidental e médio oriental foi, incontestavelmente, Jerusalém. Para ela concorreram, e ainda concorrem, as três principais religiões do Livro: a judaica, a cristã e a islâmica, consignando-a Cidade Santa como modelo do Centro Primordial do Mundo, Salém, a “Cidade da Paz”, equivalendo à hindu-tibetana Shamballah e até mesmo à escandinava Walhallah, “Vale de Allah” ou “Morada de Deus”.
Jerusalém como Centro do Mundo. Gravura de Heinrich Buting´s em "Travels according to the Scriptures" (1581).
Jerusalém como Centro do Mundo. Gravura de Heinrich Buting´s em “Travels according to the Scriptures” (1581)
Com efeito, desde a origem que o carácter teóforo de Jerusalém é evidenciado pelo nome divino Salém ou Shalem, mencionado em Génesis, 14:18, a propósito da história de Abraão e Melkitsedek. A equivalência de Salém com Jerusalém-Sião é visivelmente admitida na literatura bíblica, da mesma forma que faz fé na utilização indistinta de Salém e de Sião como sinónimos no Salmo 72:2: “Salém é a tenda e a morada está em Sião”. Aliás, na etimologia popular esse elemento teóforo que se descobre tanto em Salém como em Jerusalém, a saber, o nome da divindade Shalem, está identificado praticamente com o nome hebreu Shalom, a Paz, de onde vem o nome de Schlomoh, Salomão, dado ao donatário do Templo.
Assim, dentro da perspectiva primeiro só judaica e depois judaico-cristã, concebe-se a elevação de Jerusalém ao título de “Cidade da Paz” por expressar directamente a esse Centro Primordial onde reina a Pax perene, a Pax Mundi segundo a concepção teológica medieval perfilhada pelos místicos e cruzios europeus demandante dessa Terra Santa plantada próxima de onde fora o Jardim do Génesis onde apareceu a primeira parelha humana – Adam e Heve.
Tal concepção encontra, sem dúvida, a sua expressão mais marcante no Salmo 122, composto após o exílio, onde “a Paz sobre Jerusalém” é a palavra-chave. Mais expressamente ainda, Shalem e Shalom estão identificadas em Hebreus 7:1-2, com a paráfrase do episódio já citado do encontro de Abraão (Ab-Ram) com Melkitsedek: “Com efeito, esse Melkitsedek, Rei de Salém, Sacerdote do Deus Altíssimo, que foi ao encontro de Abraão que voltava do massacre dos reis, e o abençoou, a quem Abraão ainda atribuiu o dízimo de tudo”, desde já de quem interpretamos o nome como Rei de Justiça (Adonai-Tsedek) e que também é Rei de Salém (Koro-Tsedek), que quer dizer “Rei de Paz”. Passando a peregrinação do deserto, o profeta percebe o Monte de Sião onde o Eterno encontrará “o lugar de seu repouso”. O objectivo final da saído do Egipto não é estabelecer em Eretz um foco nacional mas uma Morada de Deus, “a residência da tua santidade” (Nevé quedoskha), é o que ele diz no versículo 13 de Êxodo.
Por que ele chama-a de “monte da herança”? A noção de herança, no sentido amplo, implica uma tripla relação entre YHWH, Israel e a Terra, pois todos os três são objectos de herança. Israel é a herança do Senhor (Êxodo, 34: 9), como o Senhor é, Ele próprio, herança de Israel (Salmos, 16: 5), e a Terra é prometida a Abraão a título de património hereditário (Génesis 15:18). Eis, pois, que se é levado à marcha de Abraão para a Terra Santa.
“A essa Terra Abraão deu o nome de YHWH yirê: “o Eterno verá”; de alguma maneira como dizemos hoje em dia: “Sobre a montanha o Eterno será visto” (Génesis, 22:14).”
O caminhar de Abraão, “pai” da Raça Hebraica, é uma dupla marcha: “marchai na minha presença e sede perfeito” (Génesis, 17:1), indica bem o título desse seu caminhar: Lekhlekha (Ide!); ele marcha em direcção a uma terra a princípio desconhecida, depois marcha sobre o país de Moriah, onde deverá sacrificar o seu filho Isaac. O nome de Moriah acerca-se do de Yaréah, significando “temor”. Assim, os cabalistas judaico-cristãos vêem no Monte Moriah (Har-Habayit) “a montanha do temor de Deus”. Após ter marchado três dias na obscuridade da Fé, “Abraão levantou os olhos e viu o lugar (makom) de longe” (Génesis, 22: 4). Ele o viu na bruma: “O lugar é uma predestinação” (Sanh., 14b).
De facto, a Cidade-Templo (Shalem ou Shalmon-Shulmanu) pré-israelita, governada pelo Rei Melkitsedek que oficiava no Santuário de “El Elion” (o Deus Altíssimo), foi hebraizada porque aí ficava o Hieros Logos do sacrifício de Isaac por seu pai Abraão (Génesis, 22) sobre o Monte Moriah, que desde esse tempo imemorial está associado à fundação de Jerusalém.
Esse monte será tardiamente considerado por II Crónicas, 3:1, como sendo o próprio Monte Sião. Aí, na área de Arauna, o Anjo do Senhor parou de atormentar o povo (II Samuel, 24: 16). Aí David ergueu o Altar e Salomão edificou o Templo. É, portanto, o lugar “que o Eterno vosso Deus” escolheu, diz a Bíblia, e a visão de Abraão vai a partir de então concretizar-se com a fixação ou sedentarização das doze tribos, a partir da conquista da Terra Santa por Moisés e Josué. A visão concretizada revela-se na edificação do Templo consagrado ao Deus de Israel (Ish-Ra-Elli), segundo a tradição conservada por Crónicas, 15:16-22.
De Abraão chega-se agora a David, que vai fazer de Jerusalém (Milich-Ha-Shadai) a pedra angular de Israel.
É verdade que a Paz não nasce da divisão, ainda que a pronúncia futura entre os hebreus de Yeroushalaïm seja dual, embora a ortografia seja a do singular. Se Élie Benamozeg vê nessa dualidade a união de Israel e da Humanidade, resta que a união supõe a dualidade e não a unidade. Mas a Yeroushalaïm do “Volume da Santa Lei” é de facto um singular e representa a Unidade, onde reina o Único.
“Escuta, Israel, o Eterno teu Deus, o Eterno é o Único”, frase do Shema que será definida por Cristo (Mateus, 22, 36-40) como o primeiro mandamento pelo Amor que dele decorre: “E tu amarás o Senhor teu Deus, etc.”[1]
É dentro desse contexto de Unidade, e de Unicidade do Universo manifestado, que a Shalem dos primórdios anuncia a Shalem dos tempos futuros que serão “Plenitude e Paz”: “A Justiça produzirá a Paz” (Isaías, 31:17)[2].
A abraamização do lugar de Moriah ou Sião fará dele posteriormente o centrum in trígono centri do monoteísmo mediterrâneo e, portanto, o sinal de uma Tradição Única. Tudo isso começa na visão do pai dos crentes, visão cujas consequências inscrevem-se no património espiritual confiado a Jerusalém mencionado pelo profeta Isaías, 2: 8: “De Sião sairá a Torah”. Visão que igualmente prefigura o objectivo do êxodo de Moisés e do povo de Israel na saída do Egipto; visão, em Moisés também, do “Monte da Herança”, segundo a fórmula de Êxodo, 15:16-17:
“Que passe, esse povo que Tu escolheste.
Tu o farás vir e Tu o fixarás sobre a montanha da Tua herança;
Morada para Tua residência que tu fizeste, Senhor,
Santuário, ó Senhor, edificado por Tuas mãos.”
Com efeito, Moisés acabara de atravessar o mar de caniços, pantanoso e barrento (donde o apodo vermelho), com o povo escolhido de Israel. Ele se manifesta em acções de graças pela intervenção de Deus e canta o seu cântico da Libertação. Jerusalém aparece então numa luz pascal. Moisés celebra apenas as maravilhas passadas, mas o Espírito lhe revela ainda as maravilhas futuras. Vê o povo em marcha para o Sinai onde ele receberá a Torah, depois para a Terra Prometida onde entrará para Sião, onde o Templo será construído, enfim, não por Israel mas pelas mãos do próprio Deus. Pelas “suas duas mãos”, sublinha Rashi, embora o Mundo tenha sido criado com uma só mão, conforme Isaías, 48: 13. Isso para significar, é claro, que a construção do Templo é uma obra maior que a criação do Mundo.
De maneira que o duplo binómio Melkitsedek – Abraão e Salém – Jerusalém, assim se dispõe:
MELKITSEDEK, SENHOR DE SALÉM
(Cidade Santa Primordial encoberta)
recebeu o tributo da dízima de
ABRAÃO, “PAI DE ISRAEL”
(Doze Tribos)
e concedeu-lhe MORIAH, centro de JERUSALÉM
(Cidade Santa Primordial descoberta)
Melkitsedek legou a Abraão a tríplice herança em graças da dízima recebida:
A Israel como herança do Eterno;
O Eterno como herança de Israel;
A Terra Prometida como herança da prole de Abraão.
Por isso é que as escrituras sagradas consideraram Jerusalém o centro espiritual de Israel, logo, toda ela assumida Terra Santa pelo Povo do Livro descendente dos filhos de Abraão, Isaac (judeus) e Ismael (árabes).
Nos inconciliáveis históricos desde há 5000 anos opondo judeus e árabes, ainda assim houve um período de conciliações, apesar de frequentemente interrompidas por motivações mais geopolíticas que religiosas, que correspondeu à fase de implantação da Ordem do Templo na Terra Santa, talvez graças ao espírito ecuménico exercido por ela que, é notório, recebeu forte influência do Judaísmo, mormente na parte gnóstica ou velada do seu doutrinal, e com essa mesma religião, afinal de contas, sempre andou de relações estreitas, mormente em Portugal, onde exerceu um papel de «policiamento» junto do saber sinagogal.
Melkitsedek com o Santo Graal abençoa o Mestre Gualdim Pais, fazendo as vezes de Abraão, “pai” da raça Judaica, mas aqui incarnando a Perfeição da Alma Templária Lusitana. – Pintura de Gregório Lopes, da Escola Portuguesa da primeira metade do século XVI, exposta na igreja de São João Baptista, em Tomar.
Melkitsedek com o Santo Graal abençoa o Mestre Gualdim Pais, fazendo as vezes de Abraão, “pai” da raça Judaica, mas aqui incarnando a Perfeição da Alma Templária Lusitana. – Pintura de Gregório Lopes, da Escola Portuguesa da primeira metade do século XVI, exposta na igreja de São João Baptista em Tomar
A posse efectiva da Terra Santa implicava possuir a sua Tradição Primordial e ser parte integrante dela. Estará nisso a causa suprema de quantas Cruzadas e Crescentadas houveram de parte a parte.
Reduzidas a gueto (aljama ou alfama) dentro do seu próprio centro espiritual de Jerusalém pelos muçulmanos desde o ano 634-644 d. C., muitas famílias judaicas optaram pelo êxodo e encetaram diáspora na direcção do Ocidente rumo à Europa, principalmente as descendentes da linhagem de Benjamim em cujas veias corria o sangue de vários dos primeiros reis de Israel, nomeadamente de Saúl, inconformadas com tão humilhante quão castrante opressão do árabe intolerável.
Surge assim em vagas sucessivas, com intensidade crescente, ao longo da orla costeira mediterrânea indo até ao extremo ocidental da Europa, o estabelecimento de comunidades judaicas. que a partir do século XI ganharam notoriedade devido a boa adaptação social, política, cultural e religiosa com os povos europeus. Contudo, não se ignora haver registo da presença judaica na Europa já antes da era cristã, e que essa população judaica europeia cresceu substancialmente após a conquista romana da Judeia e da Palestina pouco antes do século I d. C.[3]
Face à impossibilidade de recuperarem militarmente a Terra Santa, no século XII os judeus da diáspora decerto viram os propósitos de conquista ultramarina pela Ordem do Templo servirem perfeitamente aos seus propósitos. Isso tanto no aspecto militar, como no político e no religioso. Daí financiarem largamente as Cruzadas; daí iniciarem propositadamente vários e distintos cavaleiros templários nos segredos mais selectos do Judaísmo, ou seja, na Kaballah, a “Tradição Velada do Livro”.
Nesse sentido, pode-se aventar não ter sido escolhida ao acaso a cidade de Troyes para a realização em 1128 do concílio solicitado por São Bernardo a pedido de Hugues de Payens e seus oito companheiros, a fim de ser aprovada oficialmente a nova Milícia do Templo. A maioria deles tinha laços familiares à Casa de Borgonha a qual, significativamente, esteve na fundação de Portugal. Ora, nessa cidade francesa, domínio do conde Hugues de Champagne, residia o próprio cavaleiro Hugues de Payens, parente do conde seu feudatário, ambos íntimos do pensamento heterodoxo do rabino Rashi da Escola de Estudos Rabínicos de Troyes, onde o estudo da Kaballah ocupava lugar destacado, a qual prosperava desde 1070, época de Godofredo de Bouillon[4]. Além disso, o próprio São Bernardo possuía proximidade familiar aos cavaleiros requerentes da nova Ordem, sendo sobrinho do cavaleiro André de Montbard por sua mãe, Alette, ter casado com Técelin de Montbard, senhor do feudo de Fontaine, todos com grande proximidade ao esoterismo sinagogal[5]. Será ainda na cidade de Troyes que nascerá um trovador célebre, Chrétien de Troyes, que cerca de 1160 iniciará o ciclo literário do maior dos mitos medievais: o do Santo Graal, que um trovador templário posterior, Wolfram Von Eschenbach, irá atribuir a sua posse efectiva à Cavalaria da Ordem do Templo.
Rashi de Troyes (1040-1105)
Salomon Rashi de Troyes (1040-1105)
Já antes de 1128, em 1125, o cavaleiro português Arnaldo da Rocha e o francês Hugues de Payens firmaram juntos um documento onde assinaram respectivamente “o Grão-Prior e o Grão-Mestre”, o qual confirma a existência de um plano secreto de consolidação do Templo que o posterior concílio apenas viria oficializar[6]. Inclusive há quem chegue a afirmar que já em 1114 a Ordem era conhecida do Papado, talvez por ter recorrido a arquivos e a documentos hoje irremediavelmente perdidos, como foi o caso de Pedro de Mariz que escreveu em 1672: “Porque no tempo do Pontífice Pascoal II, no ano do Senhor de 1114, teve princípio a Ordem dos Cavaleiros Templários em Jerusalém, fonte, e origem, de todas as mais Ordens de Milícia, que houve na Europa”[7].
Conscientes da impossibilidade de restaurar o Templo de Salomão assim como a linhagem divina dos reis de Israel, interrompida definitivamente, os judeus benjamitas da diáspora desviam os olhares do Médio Oriente e fixam as atenções no mais Ocidente da Europa, na Terra de Sefarad ou dos sefarditas que aqui eram, neste mesmo País então em formação destinado a abrir um novo ciclo de Humanidade. Servindo-se do pretexto da política militar de reconquista da Península Ibérica ao Islão, impelem os Barões de França, liderados por D. Henrique de Borgonha, à consagração do novo Condado Portucalense como Terra Santa, sentido místico que cedo incutiram neste finis Terris in Occidis, por certo prevendo que cedo o Condado se tornaria País independente, o primeiro da Europa feudal, e teria todas as condições para nele se fundar a nova Israel. Posteriormente, os cavaleiros templários trariam para esta outra Terra Santa, o “Porto do Graal” (como está no sinal rodado nas cartas de doação de Tomar e Sintra por D. Afonso Henriques a Gualdim Pais, Mestre Provincial do Templo), essa mesma Arca da Aliança, as Tábuas de Moisés, o Cálice de Salomão, enfim, expressões diversas para uma única Sabedoria Iniciática alegorizada no Saint Vaisel, que como objecto cerrado vem a simbolizar o saber velado, trazido para aqui possivelmente pela mão de Arnaldo da Rocha, em segredo, encarregando-se o Mestre Gualdim Pais de soerguer um novo e terceiro Templo de Salomão digno de albergar a Santa Relíquia vinda do Oriente. Ideia escondida mas que deu concepção e nascimento à Charola ou Rotunda octogonal em torno da qual se formaria o Convento de Cristo em Tomar, a região mais ao centro de Portugal, construída como réplica exacta da Cúpula do Rochedo em Jerusalém que assenta sobre as antigas ruínas do Templo de Salomão.
Exterior da Charola Templária de Tomar
Exterior da Charola Templária de Tomar
Estavam lançadas as base do novis Templis Salomonici, em Tomar e ao centro do Reino, como se fosse o centro do Mundo para que concorreriam as mais diversas correntes de pensamento numa nova demanda espiritual da novis Civitas Hierosilimita ad Occidis Mundi. Padrão sinalético da transferência dos valores espirituais do Oriente ao Ocidente, eis aqui a Charola tomarense soerguida cerca de 1170, cujo formato octogonal revela o valor solar 8 do número cabalístico do Cristo, 608, assim  reunindo a potência da Idade do Pai (Ciclo de Jerusalém) e a essência da Idade do Espírito Santo (Ciclo da Lusitânia), ficando a do Filho (Ciclo de Roma) assegurada pela própria Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo. Esta construção em octógono, consagrada à Ressurreição de Cristo, só pode revelar ter sido construída com intenção mística, posto que em arquitectura militar o octógono tem interesse nulo, pelo que o seu valor para a Ordem pertenceria ao exclusivo plano do transcendente, ademais sendo a figura geométrica determinada pela sua Cruz pátea, insígnia da Cristandade.
Com efeito, a Charola, Rotunda ou Oratório dos Templários foi mandada edificar por D. Gualdim Pais possivelmente aos Monges-Construtores da Ordem de Cister, resultando uma réplica exacta da mesquita de Omar e da igreja do Santo Sepulcro, ambos edifícios de planta circular, em Jerusalém, ocupando o espaço do antigo Templo de Salomão. Como disse, considera-se que a construção da Charola de Tomar teria o objectivo de representar um novo Templo Jerusalemita no extremo ocidental da Península Ibérica, indo adaptar-se ao Ocidente o espírito tradicional do Oriente capaz de reunir num só Templo de Deus Único e Verdadeiro as três religiões do Livro (judaica, cristã e islâmica). Trata-se, pois, do translatio imperii, a “trasladação do império”, tema de ciclicidade subjacente ao intento velado da construção da Charola.
Também como disse, ela era o Oratório dos Templários, baseada no tipo clássico das mesquitas sírias, e originalmente deveria ser muito simples. Mas quando, em 1356, Tomar passou a ser a Sede da Ordem de Cristo, abolida a dos Templários, a Charola recebeu muitos enriquecimentos e foi adaptada às funções do novo Convento da nova Ordem de Cristo pelo Infante D. Henrique, que a tornaria capela-mor da igreja. São do século XVI a maioria das pinturas e frescos (quase só cenas bíblicas) e a estatuária dourada sob a sua cúpula bizantina. A planta da Charola é octogonal pelo interior (o tambor central possui oito faces), pelo que as suas paredes exteriores possuem – ou possuíram – dezasseis panos reforçados por sólidos e altos contrafortes (dois destes panos de parede foram eliminados nas obras de engrandecimento manuelinas, no século XVI).
Interior da Charola Templária em Tomar
Interior da Charola Templária de Tomar
Por esse esquisso da Charola – palavra que revela a forma circular do edifício, associada ao termo francês carole, uma dança encadeada, “em roda” – tem-se presente o octógono e o respectivo número oito das suas faces. O simbolismo medieval de ambos ajusta-se inteiramente às primitivas funções de oratório e altar-mor da Charola como lugar de passagem da mortalidade à imortalidade, logo, com a função psicopompa ou medianeira entre os mundos visível e invisível, assim representando a Arca da Aliança de Deus com a Humanidade.
O octógono representou na Idade Média a figura de passagem entre o quadrado – a Terra – e o círculo – o Céu – pelo que assumia o simbolismo espiritual do trânsito, ou seja, da Ressurreição de Cristo e o começo da Perfeição Humana. É assim que o octógono expressa o Poder Divino na Mundo Humano, o que veio a ser representado como a descida da Jerusalém Celeste na Terra, ideia programática assinalada pela Charola.
O significado cabalístico do número oito reforça o sentido do simbolismo octogonal. Número figurativo do duplo quadrado da Terra e do Homem em equilíbrio, a tradição cristã considera o valor oito como o da Redenção e Prosperidade. Oito é sete mais um, o transbordar da Plenitude. A Plenitude judaica (o sete) foi ultrapassada por Cristo em sua Ressurreição na manhã do oitavo dia. O oitavo dia passou assim a ser o primeiro dia (o dia do Senhor, Domenica dies), domingo, em oposição ao sábado (Shabath, descanso, sétimo dia em que o Senhor descansou da Obra da Criação). Por isso as grandes festas cristãs (Natal, Páscoa) têm uma oitava, isto é, celebram-se durante oito dias, sendo o domingo dessa oitava o prolongamento da grande festa celebrada. Sendo o oitavo dia o Dia da Ressurreição em que os cristãos são associados, pelo baptismo, ao Mistério Pascal de Jesus Cristo, é também comum encontrar, na arquitectura, a forma octogonal como planta muito frequente dos baptistérios. Também as estrelas de oito pontas (dois quadrados sobrepostos e rodados que simbolizam a transformação espiritual) da arte românica e as rosáceas com oito pétalas têm o mesmo significado.
A Charola lusitana, novel Tabernáculo de Ouro salomónico, é toda ela uma construção cifrada, um enigma de pedra que lembra o estipulado no artigo 8 dos pressupostos Estatutos Secretos do Templo: “Lá onde construirdes grandes edifícios fazei os sinais de reconhecimento”.
Planta do Convento de Cristo em Tomar
Planta do Convento de Cristo em Tomar
Em volta da Charola está o Castelo desta maneira assumido Reduto ou Râbita como “Templo-Fortaleza”, construção iniciada antes daquela, ou seja, em 1 de Março de 1160 por ordem de Gualdim Pais, no topo do monte que as sortes deitadas por três vezes pelo Mestre por três vezes lhe apontaram esse lugar, como diz a lenda, e após isso o Mestre Gualdim encetou montada a um porco montês indo tomá-lo já morto no topo do mesmo cabeço. Diz o vozerio popular que desse episódio adveio o nome Tomar[8]. Mas como as montadas e especialmente os “jogos de sorte e azar” eram expressamente proibidos aos templários, então ter-se-á de perceber um outro sentido nesse episódio lendário, ou seja, o da demanda do centro axial aliado à prática geomântica, onde os “dados lançados” serão referência à escolha do terreno e ao lançamento da pedra fundamental do edifício da Nova Casa de David cujo filho, Salomão, aí tomaria forma na própria Milícia do Templo, ao mostrar-se reformadora e parúsica, sustentáculo ecuménico de uma Nova Igreja, não de Roma mas do Amor: consoladora da Humanidade afligida; compadecente da Humanidade desejosa de ciência.
Michelet afirmaria a esse propósito[9]: “(…) o ideal do Templo, mais elevado e geral do que o da Igreja, planava, de certo modo, acima da religião. A Igreja tinha idade, o Templo não a possuía. Contemporâneo de todas as eras, constituía como que o símbolo de perpetuidade religiosa. (…) A Igreja é a Casa de Deus, o Templo a do Espírito Santo”.
Segundo Manuel Joaquim Gandra[10], no que parece estar muito bem, a Ordem do Templo visava o aperfeiçoamento intelectual e moral da Humanidade, motivo porque não dissociava (como se vê nos escultóricos exteriores no Convento de Cristo, em Tomar) o Querubim (Anjo da Sabedoria) do Serafim (Anjo do Amor): sabia que só no Amor existe Sabedoria.
O Querubim (Sabedoria) e o Serafim (Amor) no Convento de Cristo, Tomar
O Querubim (Sabedoria) e o Serafim (Amor) no Convento de Cristo, Tomar
De maneira que, inspirado pelo saber judaico e idealizado pelo messianismo templário, é levantado o Novo Templo de Salomão, não no Oriente mas nos confins do Ocidente, na região mais ao centro de Portugal, sobre a sua “coluna espinhal” que sobe de Sagres a Santiago (de Compostela), assim feita simbólica e geosófica Árvore de Jessé de cujo tronco, segundo as profecias, há-de advir o Paracleto, o Imperador do Espírito Santo, Julgador e Consolador das Nações, identificado à Parúsia Universal como o Cristo em seu segundo Advento.
Assim, bem parece que se firmou na velha Sellium, Nabância ou Tomar a mítica Dinastia do Santo Graal, onde os descendentes de Isaac e de Ismael vão se encontrar e até irmanar na Paz (Shalom) em Terra de Luz (Shalem), o que remete para a Concórdia Universal ou Sinarquia que a Cristandade Templária bem tentou perpetuar. O facto parece estar assinalado no resto de um tímpano medieval encrostado na parede frontal exterior da igreja de S. João Baptista desta cidade (possivelmente provindo do templo primitivo antes dos restauros que recebeu no século XVII). Nele observa-se à direita o leão (de Judá) e à esquerda o cão ou, mais certo, atendendo ao nome do Orago S. João Baptista e os seus símbolos iconográficos, cordeiro (de Cristo), tendo permeio um caule longo em formato de taça donde sobressai a flor-de-lis (de Ismael), designativa tanto da Realeza Divina quanto daquele que a assumia em seu tempo: o “Ancião da Montanha Primordial” ou Alborj, o mesmo Al-Bordi, como seja o mesmo Monarca Universal para os Assacis ismaelitas, também aqui plantado graças à visão ecuménica do Templo, quiçá numa antevisão de que com a perda da Terra Santa do Oriente o Rei do Mundo haveria de deslocar o foco da sua actividade, em um outro movimento axial, para esta outra Terra Santa do Ocidente.
Alegoria corânica semelhante à do frontal exterior da igreja de S. João Baptista, em Tomar.
Alegoria corânica semelhante à do frontal exterior da igreja de S. João Baptista, em Tomar
Curiosamente, relacionada com a simbologia dessa pedra esculpida encontra-se no Beatus Facundus, manuscrito com iluminuras moçárabes de cerca de 1047 ilustrando os comentários sobre a Revelação de S. João pelo Beato de Liebana no século VIII, o mesmo tema servindo de comentário a uma passagem do Apocalipse (V, 5:10). Diz:
“(…) Eis aqui o Leão de Judá, a raiz de David, que pela sua vitória alcançou o poder de abrir o Livro e de desatar os seus sete selos.
“E olhei e vi no meio do Trono e dos quatro Animais e no meio dos Anciãos um Cordeiro como morto que estava em pé, o qual tinha sete cornos e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus, mandados por toda a Terra.
“E veio e tomou o Livro da mão direita do que estava sentado no Trono.
“E tendo aberto o Livro, os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos se prostraram diante do Cordeiro tendo cada um a sua cítara e a sua redoma cheia de perfume, que são as orações dos Santos.
“E cantavam um cântico novo, dizendo: Digno és, Senhor, de tomar o Livro e de desatar os seus selos, porque tu foste morto e nos remiste para Deus pelo teu sangue, de toda a Tribo e de toda a Língua e de todo o Povo e de toda a Nação.
“E nos tens feito para o nosso Deus, Reis e Sacerdotes: e reinaremos sobre a Terra.”
Iluminura moçárabe do "Beatus Facundus"
Iluminura moçárabe do “Beatus Facundus”
Esse tímpano teve uma leitura arqueoastronómica por parte de Maurice Guinguand e Beatrice Lanne (in ob. cit.), que assim dizem: “Em frente do miradouro [do Castelo de Tomar] foi construída uma igreja a que foi dada o nome tradicional de São João Baptista – posição do Sol no solstício –, que fica também defronte do campanário octogonal. Na fachada foi esculpido um baixo-relevo.
“Dois animais de tamanhos diferentes, colocados de cada lado do motivo central, estão virados um para o outro. O maior representa um cão, indicando a constelação do Cão Maior, cuja estrela principal é Sírio ou Sothis. O outro, um leão, está relacionado com a constelação do mesmo nome e com a sua estrela Régulo.
“Quanto à figura central, trata-se de uma taça estilizada, relacionada com a constelação da Taça. O ângulo que parte do centro é de trinta e quatro graus, idêntico ao ângulo formado por esta constelação. Perto do baixo-relevo, para a direita, encontra-se uma pedra bastante pesada com uma cabeça de esfinge, formando um relevo bastante pronunciado, que nos recorda que é conveniente consultá-la para podermos compreender o significado da placa.
“Nela encontramos, evidentemente, todas as indicações necessárias e até outras. A constelação do Leão forma com a da Taça e a estrela Sírio, do Cão Maior, um ângulo de trinta e quatro graus à meia-noite real do dia 20 de Janeiro. Esta data coincide com a festa de São Sebastião, um dos santos padroeiros dos Templários.”
A verdade é que os atributos de São Sebastião indiciam-no Hommo Teluricus, e toda a sua hagiografia e posterior iconografia inserem-no, postam-no como axis do ideal aghartino, ctónico, diáblico e assim mesmo soberano, de maneira que se o vai encontrar idealmente identificado tanto a esse outro São Jorge (patente no tímpano desta igreja, recuando o seu culto aqui a D. João I e sua esposa, D. Filipa de Lencastre, e igualmente no claustro do Convento de Cristo próximo) quanto à enigmática e caprina figura do Baphometh, igualmente exposto em fecho de abóbada no claustro de Santa Bárbara no mesmo convento.
Tímpano medieval no exterior da igreja de S. João Baptista, Tomar.
Tímpano medieval no exterior da igreja de S. João Baptista, Tomar
Tudo aponta o Mestre Gualdim Pais (n. Amares, Braga, 1118 – m. Tomar, 13.10.1195) como o principal consolidador da Milícia de Agnus Castus (Sacerdotes), simultaneamente Domine Canes (Guerreiros), “Cães do Senhor”, ou seja, Guardiões da Fé, que foram os templários em Portugal (e igualmente nas outras Províncias). Em volta do Ideal Templário agregou as três correntes tradicionais do Livro e deu-lhes como que feição dinástica reunidas no culto ao mais santo dos objectos medievais: o Santo Graal, expressivo do Saint Grial ou Sangue Real que, afinal de contas, tanto poderá ser o de Cristo como o de todos os Fundadores da Fé.
Até esse Mestre (nado próximo de Braga, Primaz da Hispânia, e nesta vivido possivelmente em casa localizada na actual Rua de D. Gualdim), a Casa-Mãe da Ordem em Portugal era em Ceras (1159-1160), e antes em Santarém (1147-1159), Soure (1128-1147) e Fonte Arcada (1125-1128). Foi ele que a transferiu ad perpetum para Tomar que, assim, para sempre ficaria ligada ao seu nome.
Gualdim Pais foi eleito Mestre da Província de Portugal no início de 1159, quer pelo Capítulo reunido, quer pela vontade real, sucedendo no Mestrado a D. Fr. Pedro Arnaldo. Isto após ter feito a Guerra Santa no Oriente onde esteve presente no cerco de Ascalon, como testemunha uma lápide com caracteres latinos maiúsculos entrelaçados trazida do Castelo de Almourol e mandada colocar à entrada da capela-mor, por sobre a porta da sacristia velha do Convento de Tomar, pelo Infante D. Henrique quando era administrador da Ordem de Cristo:
“Era de 1209[11]. O Mestre Gualdim certamente de nobre geração natural de Braga, existiu no tempo de Afonso, ilustríssimo Rei de Portugal. Abandonando a milícia secular em breve se elevou como um Astro, porquanto, soldado do Templo, dirigiu-se a Jerusalém onde durante cinco anos levou vida trabalhosa. Com seu Mestre e seus Irmãos, entrou em muitas batalhas, movendo-se contra o rei do Egipto e da Síria como fosse tomada Ascalona, partindo, logo para Antioquia pelejou muitas vezes pela rendição de Sidon. Cinco anos passados, voltou, então, para o Rei que o criara e o fizera. Feito Procurador da Casa do Templo em Portugal, fundou, neste, o castelo de Pombal, Tomar, Zêzere e este que é chamado Almourol, e Idanha e Monsanto.”
Gualdim Pais trouxe consigo do Oriente as ideias religiosas de Bizâncio, inculcadas em muita da monumentalidade que mandou construir e decorar em Portugal, assim como também trouxe a relíquia sacra da mão direita de São Gregório Nanziazeno – que juntamente com São João Evangelista provaram a divindade de Cristo – “que em Tomar se guarda incorrupta, assim como o resto do corpo se guarda em Roma, com igual incorrupção”, segundo Viterbo no seu Elucidário, vol. II, pág. 580. A relíquia já não está na capela de São Gregório que em Tomar se construiu no século XVI, apesar da evocação do santo aqui recuar ao período de Gualdim Pais. De planta octogonal, esse pequeno templo sugere todo ele uma imitação ou réplica da Rotunda dos Templários, inclusive não lhe faltando o busto pequeno do “Ancião dos Dias” ou Adam-Kadmon, o Logos Planetário como Deus da Terra marcando os seus Ciclos ou Dias e do qual Melkitsedek é o mais próximo, algo assim como a Alma para o Espírito. Quanto à capela, apresenta um altar de talha popular ao fundo e azulejos de dois painéis de Setecentos vindos das Trinas de Lisboa; três portas – alusivas às 3 Pessoas da Santíssima Trindade aonde se recolhem as almas dos crentes, e durante largo tempo aqui funcionou como capela mortuária – dão-lhe entrada, com a do meio, rectangular, apresentando um curioso desenho formado por troncos e folhagens que se encontram na verga atados por nós em pedra esculpida, tendo ao centro a pequena e inesperada cabeça de homem barbado, o mesmo Adam-Kadmon como se vê na iconologia cabalística do Judaísmo. A sua cobertura é de abóbada. Um alpendre de oito colunas ligadas duas a duas, deixando três entradas livres, tem quatro águas irregulares, tudo numa feição rústica que vai resistindo ao tempo[12].
Entrada central da capela de S. Gregório, Tomar
Entrada central da capela de S. Gregório, Tomar
A função mortuária da capela de São Gregório (o “gargarejo”, gregório e gregorina como garganta emissora da voz orante cantada) assume assim carácter psicopompo ligado à Mãe das Almas, Nossa Senhora da Piedade, que do seu Monte próximo cola a este sítio por ladeira de degraus empedrados que os romeiros sobem e descem por altura da festa religiosa à Virgem, indo reflectir a subida das almas à Salvação e após encaminhando-se para o lugar do Trono do Padre Eterno, representado pela própria Charola. Com efeito, Manuel Gandra ao inscrever no plano da cidade uma circunferência configura nesta alguns triângulos isósceles, um deles formado nos ângulos por São Gregório, a Sinagoga e a Charola[13]. Isso é muito significativo e não deixa de corroborar o que acabei de dizer da condução das almas por intercessão de São Gregório junto da Senhora da Piedade, que as levará ao Céu do Eterno. A presença da Sinagoga impõe o seu padroeiro, São Miguel, também de carácter psicopompo antecedendo o santo bizantino.
Tendo sucedido ao Mestre D. Pedro Arnaldo que governara até então a Ordem através de um Colégio Magisterial ou Mestral, o novo Mestre D. Gualdim Pais, junto com a edificação da do Castelo de Tomar e da Charola mandou (re)construir a igreja de Santa Maria do Olival, na margem do Rio Nabão oposta ao castelo, obra iniciada em 1160 e terminada em 1175. A Casa Capitular da Ordem teve assento aqui, sendo cenóbio dos monges cavaleiros antes de puderem habitar dentro da cerca fortificada. Entretanto, juntara-se população e Santa Maria do Olival (sendo Orago a Senhora do Leite, a mesma do milagre da lactação de São Bernardo), que certamente se completou com a fachada terminada já em estilo evoluído na segunda metade do século XIII, foi bailio da Ordem e nela se instalou o panteão dos Mestres, cujos túmulos hoje não se vêm todos por causa de destruição perpetrada pelas más obras de «restauro» que lhe infligiu D. João III e o seu prior capataz, Fr. António de Lisboa[14].
De facto, até ao reinado de D. João I a igreja de Santa Maria do Olival foi “corporal” ou panteão dos Mestres do Templo em Portugal, desde D. Gualdim Pais até D. Lourenço Martins. Depois serviu igualmente de “corporal” aos Mestres da Ordem de Cristo, desde D. Gil Martins até D. Lopo Dias de Sousa.
Por causa das obras de demolição havidas no reinado de D. João III, hoje só sobra nesta igreja para memória daqueles Mestres Templários dois epitáfios tumulares, o de D. Gualdim e o de D. Lourenço. A daquele, colocada na capela lateral do lado direito da assembleia, escrita em latim assim se poderá traduzir:
“Morreu Frei Gualdim, Mestre dos Cavaleiros do Templo em Portugal, na era de 1233[15], terceiro dos idos[16] de Outubro. Este castelo de Tomar, como muitos outros, povoou. Descanse em paz. Ámen.”
Inscrição tumular de Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, Tomar
Inscrição tumular de Gualdim Pais na igreja de Santa Maria do Olival, Tomar
A cruz inicial da legenda, a sua grafia, o seu pautado e o seu latim bárbaro dos princípios da Nacionalidade, são provas sobejas dela ser coeva da morte do Mestre, acontecida em 13.10.1195 da era cristã. Na do segundo, lê-se: “Aqui jaz D. Lourenço Martins que foi Mestre do Templo em Portugal. Passou em dia um de Maio da era de 1346 [1308]”[17].
Sobre esse último Mestre, escreveu José Manuel Capêlo[18]: “Renuncia ao Mestrado [em 1293], desgostoso, porventura, por notícias que lhe chegavam da situação por que passava a Ordem no Ultramar, depois da morte do Mestre da Palestina, Guillaume de Beaujeu – aquando da rendição de São João de Acre e da retirada para a ilha de Chipre do que restava da Milícia. Disse a lenda [ou a palavra posterior e demasiado fácil] que teria previsto, depois de tudo isto, a queda da Ordem. Assim, para não passar por vexames, devia evitar estar no seu governo quando tal acontecesse. Passou a simples cavaleiro, mas requereu a Comenda de Santarém”.
As prerrogativas, regalias e usos da igreja da Senhora do Olival, conservadas intactas até D. João II, são referidas por José António dos Santos que dá notícia da grande importância do lugar[19]:
“A egreja de Santa Maria do Olival foi bailia e matriz de todas as egrejas que a ordem de Christo possuia no reino, nas ilhas, em Africa, nas Indias e no Brazil. Gozava das honras de cathedral, e tinha ao seu serviço, como se vê em todas as sés, um masseiro com o bastão ou sceptro, e outros com massas de prata. Era isempta da jurisdicção dos bispos, não reconhecendo superioridade senão ao papa. O seu prelado tinha honras de bispo, celebrava pontifical e gosava de poderes quasi episcopaes na extensa prelazia de Thomar. Era n’esta egreja que as duas ordens do Templo e de Christo celebravam as suas solemnidades, apesar de ficar distante cerca de um kilometro do castello, onde tinham a sua residencia principal e templo com capacidade sufficiente para os mesmos actos.
“Havia n’esta egreja um livro similhante ao de Nôa do convento de Santa Cruz de Coimbra, no qual se iam registando todos os acontecimentos notaveis nao só da ordem e do paiz mas tambem da christandade e do mundo, os obitos dos mestres da ordem e dos soberanos do reino, as victorias alcançadas contra os infieis, o martyrio e canonisação de santos, terramotos, calamidades geraes, etc., constituindo assim interessantissimos annaes. Este livro, que denominam Bezerro, perdeu-se, infelizmente. Talvez que alguem o achasse.”
Se a igreja de Santa Maria do Olival destinava-se originalmente ao culto divino pelos tempreiros (como os consigna Viterbo no seu Elucidário), convém não ignorar que dentro do recinto do castelo, ao sul da alcáçova e não muito distante dela, havia um outro templo da invocação de Santa Catarina, anteriormente de Santa Maria do Castelo, que era destinado aos ofícios das tempreiras. Arruinado desde há longo tempo foi demolido no século XIX o que restava de pé, por ameaçar desabar. Respeitou-se apenas o campanário que, apesar de meio tapado, ainda se eleva acima da muralha.
Campanário da desaparecida igreja de Santa Catarina das templárias do castelo de Tomar
Campanário da desaparecida igreja de Santa Catarina das templárias do castelo de Tomar
É tradição, confirmada por um documento pertencente ao cartório do Convento de Cristo, que houve freiras templárias e tinham o seu convento dentro do Castelo de Tomar anexo à citada igreja de Santa Catarina, tendo uma fidalga de nome Justa, em 1271, lhes doado todas as casas que possuía intramuralhas para as usufruírem para todo o sempre, segundo notícia dada por Frei Bernardo da Costa[20]. Quanto ao documento comprovativo é uma escritura feita a 17 de Maio de 1290, na ocasião em que se celebrava o Capítulo Geral da Ordem do Templo presidido pelo Grão-Mestre D. Afonso Gomes, mandada lavrar por D. Maria (ou Mécia) Peres, senhora ilustríssima que foi mulher de D. Estevão Pires Espinal. Estes cônjuges já nesse tempo estavam separados: ele era freire templário e comendador de Santarém, e ela era freira templária tendo professado a Regra até ao fim dos seus dias.
Sobre o assunto e com muita acuidade, diz José Manuel Capêlo[21]:
“Tem-se, como em tudo o que à Milícia do Templo diz respeito, especulado com a existência de freiras templárias.
“Por vezes nos mesmos recintos, mas em casas separadas, onde viviam os monges-guerreiros, existiram conventos de templárias. Estas que nada tinham de guerreiras [que se saiba], apenas se confinavam à sua condição de monjas. Recebiam, para a Ordem, em seu nome, doações [a mais das vezes daquelas que nela queriam ingressar], bem como senhoras oriundas da alta e média nobreza, que, pelas mais variadas razões, procuravam professar. Ou porque tivessem enviuvado ou porque os respectivos maridos teriam professado no Templo como monges, chegando nalguns casos, como vimos a comendadores.
“A grande maioria, como se deixou dito, eram viúvas e, muito poucas, separadas. Raramente as solteiras pretendiam professar nesta Ordem essencialmente masculina. O rigor eclesiástico e a existência presbiteriana eram ainda maiores que as exercidas em outras congregações de religiosas. Também era raríssimo alguma abandonar, depois de ter, em consciência, professado.
“Em Portugal, os casos mais conhecidos destas figuras históricas, depois da rainha D. Teresa se ter tornado a primeira confrade da Ordem, em 1126, são:
“D. Maria Mendes, no Mestrado de D. Fr. Fernão Dias. Foi mulher de Aires Dias, que igualmente foi recebido como familiar;
“D. Maria Vasques, no Mestrado de D. Fr. Martim Sanches. Não se tem absoluta certeza de que se tenha tornado templária. Foi mulher de Pedro Ferreiro. Ambos requererão, através de doações feitas em nome da Ordem, a protecção desta, não só para si mesmos como para os seus descendentes;
“D. Fruíla Ermiges, no Mestrado de D. Fr. Guilherme Fulcon. Foi mulher de D. Afonso Ermiges, que professara e veio a ser comendador de Castelo Branco;
“D. Sancha Martins, no Mestrado de D. Fr. Martim Martins;
“D. Maria Pires, no Mestrado de D. Fr. Gonçalo Martins;
“D. Mécia [ou Maria] Peres, no Mestrado de D. fr. Afonso Gomes. Quando professou encontrava-se separada de seu marido, D. Estevão Pires Espinal, igualmente templário e comendador de Santarém.
“De que se tenha conhecimento, só em Tomar, no interior do castelo, parece ter existido um mosteiro para freiras templárias. Ao contrário de seus irmãos templários, aquando da extinção da Ordem, as religiosas filiadas no Templo, que viviam em Tomar, não ingressaram na nova Ordem e tiveram que mudar de hábito.”
Apesar de não se terem descoberto provas concretas da existência de mosteiros de templárias fora de Tomar, ainda assim mantém-se a suspeita, isto tanto para os seus territórios de Castelo Branco, como para Monsanto e Idanha-a-Velha e mesmo para Sintra, dentre outros lugares.
Essas monjas realizavam quase sempre trabalhos de hospital, mas algumas vezes dedicavam-se a confeccionar os uniformes dos cavaleiros: mantas, mantos, dalmáticas, etc. (o que era considerado trabalho de pano), e também se dedicavam às actividades de semeadura e colheita nos campos e ao cuidado do gado. Cabia-lhes armazenar todas as colheitas e os produtos lácteos que fabricavam (queijos, etc.) para os enviar aos cavaleiros na Terra Santa. Também lhes cabia a recepção das doações à Ordem, principalmente da parte de outras donatárias ilustres e abastadas, muitas das quais vieram a ingressar na Ordem.
Com efeito, houveram muitos mosteiros de monjas templárias espalhados pela Europa, como aquele que existiu em Combe-aux-Nonnains, na Borgonha, que dependia da Comenda de Épailly. Ainda em França, cito igualmente a filiação de madre Inês, abadessa de Camaldules de Saint-Michael de Ermo, e de toda a sua comunidade, à Ordem dos Templários. De igual modo casos similares em Lyon, Arville, Thor, Metz, etc.
O mesmo ocorreu com Azalais, mulher nobre de Roselon em 1133, que se entregou de corpo e alma a Deus e à Santa Cavalaria de Jerusalém, a do Templo, “para servir a Deus e viver sem bens sob a autoridade do Mestre”. Para isso entregou como esmola o seu feudo de Vilamolaque, com o consentimento dos seus dois filhos: “E que Deus me conduza até à verdadeira penitência e ao seu Santo Paraíso”[22].
Outro caso é o de D. Joana de Chaldefelde, esposa de Ricardo de Chaldefelde de Inglaterra, que entre 1189 e 1193 contraiu votos como irmã do Templo ante Azo, bispo de Wilshire. Este enviou-a com um certificado à Casa do Templo, “tendo em conta que havia superado a idade em que podia levantar suspeitas”. O curioso neste episódio de D. Joana é que ele proporciona um exemplo claro de uma postulante que observa as formalidades da Regra Latina e contrai votos ante o bispo da Diocese, que a envia ao Mestre provida de um certificado[23].
Monja templária em documento inglês da Ordem (fins do século XIII)
Monja templária em documento inglês da Ordem (fins do século XIII)
Volvendo ainda à igreja de Santa Maria do Olival, ou dos Olivais, defronte a ela eleva-se uma torre quadrada sua coeva medieval, depois mandada restaurar por D. João III. Entra-se nela por uma estreita porta ogival onde uma escadaria leva ao topo. A sua finalidade tem sido objecto de controvérsia por parte dos investigadores: para uns, destinava-se a proteger os Templários das razias agarenas, que assim resistiam até vir ajuda do castelo; para outros, seria uma espécie de zigurate caldaico ou observatório astronómico igualmente destinado, em épocas pré-fixadas, à celebração de certos ritos marginais à religião oficial (facto indesmentível é que no seu topo erguem-se dois vasos alquímicos). Poderá ser, tanto que não há memória nem registo de qualquer ataque agareno a Santa Maria do Olival, apesar de estar fora da protecção das muralhas.
Tanto mais que a caneça ou gueto dos cristãos moçárabes aí estaria, fora de portas (sinal de marginalização ante a sociedade religiosa e civil dominante, no caso, a árabe), e há memória de terem havia outras igrejas em volta desta: a de S. Pedro Fins, que se julga ter pertencido ao mosteiro de beneditinos ali existente in illo tempore; a capela de S. Miguel, situada defronte desta igreja; a capela de St.ª Maria Madalena, que se erguia junto à fachada setentrional da igreja de St.ª Maria do Olival. Foram todas destruídas num período prolongando-se desde o reinado de D. Maria I até à reforma de 1840, sendo os seus materiais aplicados na construção dos muros da vedação do cemitério próximo.
Terá sido estreita a relação entre a caneça eclesial e a alfama sinagogal tomarenses, aquela fornecendo a esta os óleos necessários para alimentar as lamparinas da sinagoga, por ser donatária do vasto olival arredor, e esta dando àquela os livros necessários ao entendimento da Fé.
Tem-se assim Luz e Fé, onde o Mikael sinagogal aparelha com a Myriam eclesial nas expressões de igreja celebrante e torre estrelada reflectindo, neste contexto, a Merkabah e a Shekinah, o “Carro da Luz” e a “Torre da Fé”, conceitos judaico-cristãos utilizados para expressar a Divindade no Céu e no Seio da Terra e que, como Homem Cósmico ou Adam-Kadmon, vem a ser assinalada na Estrela de Salomão, ou seja o pentagrama, afinal de contas, decorando a cimalha exterior da cabeceira e da entrada desta igreja “corporal” dos Mestres do Templo. Pentagrama ou pentalfa esse – igualmente esconjurativo das trevas vindo a expressar ao próprio Cristo, adoptado como signa dos primitivos monges-construtores – que viria a servir de logotipo às quinas das Armas de Portugal, aqui mesmo, nesta que foi a matriz ou sede prelatícia de todos os santuários marianos de Portugal Continental e Ultramarino.
Igreja de Santa Maria do Olival e Torre anexa, Tomar
Igreja de Santa Maria do Olival e Torre anexa, Tomar
Tão boa e próxima terá sido a relação entre judeus e cristãos que a mulher de Afonso Lopes Sapaio (ou Sampaio), trovador de origem judaica residente em Tomar, está sepultada nesta igreja de Santa Maria.
A Judiaria de Tomar (que ocupava inteiramente o espaço da Rua Nova, actualmente Joaquim Jacinto) é no mínimo anterior aos primeiros anos do século XIV (como prova a inscrição na lápide funerária do rabi Ioseph de Tomar, falecido em Faro no ano de 1315), e a sua sinagoga, alma do complexo alfamita, deu-lhe real importância no século XV, altura em que foi construída, entre 1430 e 1460, segundo Santos Simões[24], sendo indesmentível o contributo judaico fundamental para o crescimento de Tomar entre os séculos XV e XVI.
Na arquitectura desta Sinagoga de Tomar que conseguiu resistir às vicissitudes do tempo, ainda se vêem nas paredes as doze mísulas que simbolizam as doze tribos de Israel. As quatro colunas representam as quatro matriarcas: Sara, Rebeca, Lea e Raquel, estas duas últimas as gémeas filhas de Labão. É por isso que os capitéis decorados com motivos vegetais são em duas colunas e diferentes nas restantes.
Nada desdiz que moçárabes e judeus fossem coevos e que ambas as comunidades não tenham sido «enquadradas» posteriormente pela Ordem do Templo, simultaneamente «policiando-as» servindo de garante à transmissão do conhecimento de que eram depositárias. A própria disposição geográfica e toponímica do Castelo dos Templários, no cabeço do monte da Mata dos Sete Montes, enquadra-se nessa intenção esotérica: segundo a geografia do Centro Espiritual Supremo, tem sete faces o Monte Meru, a Montanha Primordial (Har-Qadim ou Arcádia), morada da Shekinah, Casa de Deus e Tabernáculo dos seus Anjos[25].
A própria disposição geométrica da sinagoga reflecte a disposição canónica da Casa de Deus, morada dos Justos e Perfeitos. A própria casa árabe, assim como a judaica (as quais a casa saloia da Estremadura tomou como modelo), fora este ou aquele excesso destoante, assentou originalmente sobre a raiz quadrada de dois (√2), portanto, sobre uma planta quadrada, tendo a habitação judaica no seu centro a casa de fora, ou de entrada, por onde se acedia às restantes divisões, enquanto a habitação árabe fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no seu centro um jardim ou fonte, ou ambos: trata-se de um universo fechado em quatro dimensões (centro, altura, comprimento, largura), cujo jardim central é evocação do Éden, do Paraíso Terreal (presente em todos os espaços ajardinados monásticos com cerca em volta), aberto exclusivamente à influência celeste[26].
Para Abu Ya’qûb, o quaternário era o valor perfeito: o da Inteligência e o do Nome Divino, ALLH. Não há, pois, diferenças marcantes entre o significado atribuído às construções de planta quadrada, no Ocidente e no mundo judaico-islâmico[27].
Imitando o modelo judaico, observa-se que na cidade islâmica o elemento base é a casa, não a rua. A casa, como a mesquita e a madrasa, é um lugar sagrado, como diz acertadamente Hélder Manuel Ribeiro Coutinho[28]. Afirma o Al-Corão, cap. XLIX: “O interior da tua casa é um santuário: os que o violam chamando-te, quando estás nela, faltam ao respeito que devem ao intérprete do céu. Devem esperar que saias de lá: a decência o exige”.
Sendo a casa a imagem do homem, do seu morador e dono, vê-se na Idade Média a combinação das proporções, a unidade da medida ser determinada a partir das dimensões da figura humana, geometricamente representada pelo quadrado, aplicando-se frequentemente na arquitectura do Renascimento, ainda que durante o Gótico já fosse comum para o traçado das catedrais, o uso do sistema de proporções inteiramente derivado do quadrado (ad quadratum). Esta concepção foi traduzida no célebre desenho, o vitruvium de Leonardo da Vinci, onde o Homem, como Microcosmos, aparece inscrito no círculo e no quadrado. A largura dos seus braços estendidos é igual à altura do tronco e pernas unidas, portanto, formando uma cruz (o quaternário) correspondendo à medida do lado do quadrado. Sendo o Homem considerado o centro do Universo, segundo Pico della Mirandola, e elo de ligação entre Deus (o círculo celeste) e o Mundo (o quadrado dos quatro elementos da Natureza), a sua individualidade está impressa na robustez, humilde ou rica, da sua casa, por ela concretizando a quadratura do círculo, problema geométrico «insolúvel» que servia para assinalar a ascese mística como era corrente entre os neoplatónicos, ou seja, aquela permissora da elevação do homem racional à esfera divina.
Sinagoga de Tomar e a sua planta quadrada
Sinagoga de Tomar e a sua planta quadrada
A planta quadrada sinagogal vê-se ainda, de maneira estupenda, na tampa de sepultura de um rabi coevo do Infante Henrique de Sagres, tendo sobre ela o báculo ou ábaco do seu ministério. Essa peça funerária está depositada no pequeno museu de arte sacra de Vila do Bispo, Algarve, tendo sido achada nas suas cercanias, o que comprova ter havido aí presença judaica e possível influência cabalística junto do Ínclito Infante dos Mares.
Para diferenciar a sinagoga da igreja, deu-se vazão no século XIII à tradição do cruzeiro adiante da segunda, mas nem por isso deixando de ser herança judaica da disposição do primitivo Tabernáculo do Deserto e do Templo de Salomão, pois onde ele está estariam idealmente o Altar das Oferendas no centro do adro defronte ao Tabernáculo, e o Mar de Bronze dos Sacrifícios no Templo salomónico.
Isso porque as medidas geométricas do Templo cristão são as mesmas canónicas herdadas por via bíblica do antigo Templo judaico. Ademais, em matéria de Tradição Espiritual nada é feito ao acaso: o Conhecimento é transferido dos Anciãos (Profetas) aos Novos (Apóstolos) por herança regular, sem desvios de espécie alguma, e só os transvios poderão ocorrer após a transmissão, mas desta nunca há desvio.
Não devo terminar sem referir a maior herança etnográfica judaico-cristã sobrevivendo até hoje e exclusiva de Tomar: a Festa da Romaria dos Tabuleiros.
Sendo festejo consagrado ao Divino Espírito Santo mas em versão diferente da tradicional de Alenquer e Sintra, terá sido na Idade Média que os templários cristianizaram esta celebração popular genuinamente judaica da Festa dos Tabernáculos, sobrepondo-lhe o ideal messiânico (Joaquimita) da Igreja do Amor, pelo que se vê no topo de cada tabuleiro a coroa do Espírito Santo encimada pelo ícone da pomba, ou então a Cruz Salvífica de Cristo, sendo aí mesmo lugar o lugar cimeiro ou majestático da Shekinah, a “Presença Real de Deus”. Os pães de 400 gramas cada, tipo “tabuleiros”, alongados e roliços com cintura, são enfiados em grupos de seis em cinco canas ou varas, ao todo 30, cujos cestos só podem ser transportados à cabeça por mulheres, apoiadas pelos seus pares masculinos, tal qual os de Proposição que as mulheres de Israel acompanhadas dos maridos levavam ao Templo de Jerusalém, pela Festa do Tabernáculo na Primavera, e as flores que os decoram serão as da germinação de um novo ciclo de prosperidade o qual, para o conceito de Parúsia dos templários, certamente seria sinal mais amplo da futura Idade do Espírito Santo.
Bandeira do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar
Bandeira do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar
O grande cortejo dos Tabuleiros (festa que se realiza a 4 de Julho em cada 4 anos) onde fiadas de casais desfilam pelas ruas de Tomar, é seguido dos carros triunfais com a carne, o pão e o vinho (que no dia seguinte são distribuídos pelos necessitados do concelho, acto semelhante ao bodo mas aqui chamado pêza), os quais são puxados por bois de cornos dourados e fitas pendentes – os bois do Espírito Santo.
De maneira que sendo o pão e o vinho generosamente distribuídos na eucaristia dos pobres, tal acto recorda-me aquelas outras palavras de São Clemente de Alexandria: “Bem-aventurados aqueles que alimentam os que têm fome de justiça pela distribuição do Pão”. Ora os Pães de Proposição dos hebreus também não tinham significado diferente desse. E o pão ázimo – de que hoje se compõe a hóstia – “representa ao mesmo tempo a aflição da privação, a preparação para a purificação e a memória das origens”, diz São Martinho.
É tradição que Beith-El, a “Casa de Deus”, que é Lusa, a “pedra de cabeceira” erguida por Jacob, se tenha transformado em Beth-Lhem, a “Casa do Pão”. A pedra se transforma em pão, ou seja, a presença simbólica de Deus se converte em presença substancial, em alimento espiritual impondo-se ao inteiramente corporal. O pão, ainda, nas vivências eucarísticas relaciona-se tradicionalmente com a vida activa, claustral, e o vinho com a vida contemplativa, clausural; o pão com os Pequenos Mistérios, e o vinho com os Grandes Mistérios, a catequese e a teologia. Isso  aproxima-se do que dizem os Evangelhos acerca do milagre dos pães (a sua multiplicação), sendo esse de ordem quantitativa, e do milagre do vinho (nas bodas de Caná), que é de ordem qualitativa.
O simbolismo do fermento exprime-se, nos textos evangélicos, sob dois aspectos: de um lado, ele é o princípio activo da panificação – símbolo de transformação espiritual; a sua ausência comporta, por outro lado, e aqui volta-se ao significado do pão ázimo, a noção de pureza e sacrifício.
Também se distribui a carne, e nisto entra o simbolismo do boi, ou melhor, do touro de chifes dourados e enfeitado por fitas coloridas. Símbolo da Força Criadora da Mãe-Terra, o touro representou o Deus El da Israel do Deserto, sob a forma de uma estatueta destinada a ser presa à extremidade de um bastão ou de uma haste: uma insígnia portátil, semelhante à do Bezerro de Ouro. O culto de El, praticado pelos patriarcas hebreus, foi proscrito por Moisés, ainda que tenha subsistido até ao reinado de David. Já no Templo de Salomão (I Reis, 7: 25), doze touros carregavam o Mar de Bronze destinado a conter a água lustral: “Este repousava sobre doze bois, dos quais três olhavam para o norte, três para o oeste, três para o sul e três para o leste; o Mar se elevava sobre eles e a parte posterior dos seus corpos estava voltada para o interior”.
De modo que se está perante um festejo de raízes judaicas mas já aqui cristianizadas, e ao mesmo tempo, por via do seu carácter agrário ou campesino, com sabor céltico, o que vai bem com a herança sociológica medieval da cultura rural pelos templários. Nisto, o touro El hebreu seria o cornúpeto Lug céltico, logo aproveitado para montada «bafomética» do Espírito Santo na forma de Shekinah encoberta no Centro da Terra, ou seja, em seu Sanctum Sanctorum.
Touros do Divino Espírito Santo, na Festa dos Tabuleiros de Tomar
Touros do Divino Espírito Santo na Festa dos Tabuleiros de Tomar
Por isso, ainda hoje a Romaria dos Tabuleiros faz-se na parte baixa da cidade, desde a igreja de São João Baptista e indo atravessar a ponte sobre o Nabão em direcção a Santa Maria do Olival, cujo Leite dá a beber, idealmente, aos filhos da Sua devoção. Filhos esses que são conduzidos a Ela pelos próprios templários, os cavaleiros de manto branco sobreposto pela cruz vermelha, afinal as cores daqueles devotos carregando hoje os tabuleiros quais assacis modernos: nelas a faixa vermelha perpendicularmente sobre longo vestido branco, e neles a gravata vermelha sobre camisa branca e calças pretas.
O Tabernáculo era a parte mais reservada e sagrada do Templo de Salomão (algo semelhante à Custódia no altar-mor da igreja), por nele se conter a Arca da Aliança. Representava o macrocosmo universal sintetizado, contido no microcosmo humano: era a “Morada de Deus” (Êxodo, 26:11), pelo que “o mundo inteiro está descrito no sinal sagrado do Tabernáculo”, segundo São Jerónimo, Epístola 64 para Fabíola. No Altar de Proposição ou de Oferendas do Templo de Salomão haviam doze pães (representativos das doze tribos de Israel, auspiciadas pelos doze signos do Zodíaco) que, como alimento místico, assinalavam a Sabedoria a qual, a par do néctar ou seiva vital da Mãe da Criação, associa-se ao Amor, logo, Panis Vitae alimentando as mentes e os corações dos justos e perfeitos, cada par carregando o seu tabuleiro florido como se fosse uma coluna de luz da Jerusalém Celeste que, nesta Festa tomarense, por momentos é testemunhada na Terra.
Romaria da Festa dos Tabuleiros, Tomar
Romaria da Festa dos Tabuleiros, Tomar
Assim cada romeiro(a) transforma-se tanto em arauto como em pontífice ou medianeiro do Céu com a Terra, carregando o pão espiritual alimento de toda a Humanidade para que, enfim, possa se consumar a suprema Eucaristia Mental e Coracional de Deus com o Homem e a Nova Idade de Promissão floresça finalmente em todo o Orbe, que não é tão-só a Lusitânia mas toda a Terra em Luz.
Essa é a maior mensagem da Festa dos Tabuleiros. Realizá-la, depende de um e de todos.
NOTAS
[1] Os Dez Mandamentos cristãos provêm do Kodesh hebraico. O “primeiro mandamento” é o do Deuteronómio, 6: 4-5 (cf. também Marcos, 12: 29-32), e o “segundo mandamento”, igual ao primeiro, decorre do Levítico, 19:18: “Tu amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Eterno”.
[2] Jean Tourniac, Melquisedeque ou a Tradição Primordial. Madras Editora Ltda., São Paulo, 2006.
[3] John R. Hinells, Dicionário das Religiões. Editora Cultrix, São Paulo, 1995.
[4] Rafael Alarcón, La otra España del Temple. Ediciones Martínez Roca, Barcelona, 1988.
[5] Maurice Guinguand e Beatrice Lanne, O Ouro dos Templários (Gisors ou Tomar?). Livraria Bertrand, Lisboa, 1978.
[6] R. Röhricht, Regesta Regni Hierosolymitani. Innsbrück, 1839, p. 19 doc. n.º 83, e p. 25 doc. n.º 105.
[7] Pedro de Mariz, Diálogos de Vária História dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderam achar. Lisboa, por António Craesbeek de Mello, impressor da Casa Real, ano 1672.
[8] Vieira Guimarães, Thomar, Santa Iria. Lisboa, 1927. E ainda, segundo Manuel Gandra, Pedro Álvares, Escrituras da Ordem de Cristo, in Arquivo Nacional da Torre do Tombo, gaveta 15, maço 3, n.º 15; Mestrados, fl. 93v.
[9] J. Michelet, Procès des Templiers (Collection des Documents inédits sur l´Histoire de France). Paris, 1841-1851.
[10] Manuel J. Gandra, Martinets de Pasquallys e a Tradição Quinto-Imperial. Lisboa, 1979.
[11] Ano 1171, da era de Cristo.
[12] José-Augusto França, Tomar. Editorial Presença, Lisboa, 1994.
[13] Manuel J. Gandra, O Projecto Templário e o Evangelho Português. Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., Lisboa, Março 2006.
[14] Monumentos de Portugal, Thomar. Litografia Nacional, Porto, 1929.
[15] 1195 d. C.
[16] Terceiro dos idos, o mesmo que treze.
[17] Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, A Igreja de Santa Maria dos Olivais, n.º 27, Março de 1942.
[18] José Manuel Câpelo, Portugal Templário. Relação e sucessão dos seus Mestres [1124-1314]. Aríon Publicações, Lda., Lisboa, 2003.
[19] José António dos Santos, Monumentos das Ordens Militares do Templo e de Christo em Thomar. Typografia da Bibliotheca Universal, Lisboa, 1879.
[20] Frei Bernardo da Costa, História da Militar Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo. Officina de Pedro Ginioux, Coimbra, 1771.
[21] José Manuel Capêlo, ob. cit., pp. 205-206.
[22] Gigues Alexis Marie Joseph André, Marquis d´Albon (1866-1912), Cartulário geral da Ordem do Templo, 1119? – 1193, carta n.º LXVIII – 1150. Deste Cartulário do Marquês foi feita depois a recolha e inventariado das suas cartas por Emmanuel de Grasset, tendo cabido o reportório dos registos e dos papéis a Joseph Billioud, investigadores ao serviço do Arquivo Departamental da Câmara Municipal de Marselha, 1966.
[23] Beatrice A. Lees, Records of the Templars in England in de twelfth century: the inquest of 1185. Munchen, Kraus Reprint, 1981.
[24] J. M. Santos Simões, Tomar e a sua Judiaria. Edição do Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto, Tomar, 1943.
[25] Manuel J. Gandra, Portugal: Terra Lúcida, Porto do Graal. Lisboa, 1986.
[26] Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos. Paris, 1906.
[27] Jaime Manuel Sousa, Arquitectura Alentejana: o Quadrado. In “O Estudo da História”, Boletim dos Sócios da Associação de Professores de História, n.º 5-6 (II Série), 1988.
[28] Hélder Manuel Ribeiro Coutinho, Al-Usbuna – a Lisboa Muçulmana. In revista “História”, n.º 96, Outubro de 1986.

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