Profissionais de saúde alertam para o aumento de transtornos de autoimagem motivados pela pressão por cirurgias que copiam tendências inalcançáveis da internetFoto: Reprodução/Redes Sociais
De Anitta a
Kim Kardashian, como o algoritmo pode moldar rostos e padronizar estética nas
redes
Pacientes chegam aos consultórios com
fotos de celebridades e exigem transformações baseadas em imagens alteradas por
filtros
23 de abril de 2026
| 11:20
Lábios volumosos, pele
sem textura, contornos corporais definidos e mandíbulas desenhadas. Essa
descrição bate com as características de diversas personalidades da mídia que
têm dominado as redes sociais. Porém, esse padrão estético acompanha movimentos
que são impulsionados por algoritmos da beleza que favorecem para que estas
imagens se repitam continuamente no Instagram e no TikTok. O fenômeno,
impulsionado intensamente por celebridades como Kim Kardashian e Anitta, eleva
a busca por intervenções cirúrgicas copiadas de referenciais da internet. A
repetição constante de uma mesma anatomia pode criar um ideal inalcançável e
desafia o trabalho de profissionais de saúde.
A padronização ocorre
porque as plataformas digitais amplificam e distribuem massivamente os
conteúdos que geram mais tempo de retenção. Assim, os indivíduos procuram as
clínicas médicas exigindo a reprodução exata de fotos, muitas vezes irreais.
"Hoje o paciente chega com um feed de inspiração, o que acaba padronizando
desejos. O problema é que o algoritmo não considera individualidade biológica.
Ele entrega tendência, não adequação", explica o médico Leandro Faustino,
CEO da Revion International Clinic.
O especialista alerta ainda que essas referências
costumam ser recortes filtrados e insustentáveis. A superexposição a esse
padrão tem provocado um impacto direto na saúde mental da população. O Brasil é
o terceiro país que mais consome redes sociais no mundo todo. Os dados
apresentados pelo We Are Social e Meltwater mostram que o Brasil tem 187,9
milhões de internautas em 2024. Isso corresponde a 86,6% da população total do
país. O percentual é mais alto que a média sul-americana, de 82,5%. Atualmente,
os brasileiros conectados passam 9 horas e 13 minutos por dia na internet, em
média. A maior parte desse tempo (57,6%) é gasto em smartphones.
Ameaça de distorção da imagem
corporal
A busca por pequenos ajustes faciais baseados em
referenciais quase que inalcançáveis representa um risco grave para a saúde
mental e física. Segundo a médica Thamy Motoki, o ponto de partida distorcido
frequentemente resulta na super indicação de procedimentos invasivos e
desnecessários. Para ela, o atual cenário tecnológico favorece o surgimento do
chamado transtorno dismórfico corporal. “Hoje em dia é muito mais evidente os
transtornos de autoimagem, de autoestima e aumento de quadros como transtorno
dismórfico corporal estimulados por padrões de beleza que eu chamo “beleza de
filtro”. É preciso alinhar expectativas com a realidade dos pacientes no
momento da consulta para que os melhores resultados possam ser atingidos e
assim evitar frustrações”, alerta.
Os especialistas de saúde relatam que a consulta
médica deixou de ser exploratória e passou a ser um processo estritamente
comparativo. Quando o cidadão ignora a sua própria estrutura óssea e biotipo, a
frustração com o pós-operatório torna-se quase iminente. "A medicina não
pode ser só executora de desejo, precisa ser filtro. Nem tudo que é tendência é
indicação", reforça Faustino.
No pior cenário, quem trabalha na área entende que
esse movimento pode acabar com a diversidade estética da sociedade. Por isso,
para Motoki, o que tem sido valorizado verdadeiramente, é quem respeita as
próprias feições. “Entendo que a pressão estética ainda pode comprometer a
diversidade, gerando uma homogeneização. Mas há uma transição em curso. A
diversidade não só está mais visível — ela também está sendo ativamente
construída e disputada dentro das próprias redes. Se de um lado algoritmos
reforçam o “padrão dominante”, do outro nichos e comunidades promovem
pluralidade e questionamento desses padrões com movimentos body positive, por
exemplo”, conclui a especialista.
Espelhamento estatístico e quebra de
bolhas
Do ponto de vista puramente digital, as redes não
criam os padrões do zero, mas funcionam como um grande espelhamento do
comportamento social. A estrategista em marketing digital e professora da
Estácio, Ciane Lopes, esclarece que as ferramentas de busca e exibição
priorizam a previsibilidade humana. Quanto mais uma estética europeia gera
cliques, mais ela domina a internet. “Os algoritmos não criam padrões do zero e
também não são neutros na distribuição. O que eles fazem é ampliar o que já
performa melhor dentro de um determinado contexto. Então ele é, na verdade, um
espelhamento estatístico do comportamento humano. Então quando determinado tipo
de estética gera mais retenção, mais tempo de tela, mais clique, mais
compartilhamento, ele entende que esse conteúdo tem mais interesse e esse
conteúdo passa a ser priorizado e é melhor distribuído, é distribuído com mais
intensidade e retroalimenta todo o sistema”, argumenta a especialista.
Para
ganhar tração na rede, conteúdos fora do padrão necessitam de um forte timing
cultural e engajamento genuíno. “Então, a diversidade quebra essa
previsibilidade, e consegue performar. Porém, normalmente eles precisam de
outros fatores, como uma narrativa muito forte, uma identificação com nichos
específicos, uma consistência na produção, um timing cultural, então quando
determinados temas ganham relevância social, como agora, por exemplo, o caso da
misoginia, dos red pills, a gente começa a ver assuntos que são muito fechados,
ganhando uma maior proporção, uma maior discussão na realidade”, conclui a
professora.
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