'GUARDIÕES PLANETÁRIOS' MANDAM RECADO PARA DAVOS: SAIDA DOS COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS É QUESTÃO ECONÔMICA, NÃO IDEOLÓGICA
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_7d5b9b5029304d27b7ef8a7f28b4d70f/internal_photos/bs/2026/Y/b/kU4KoRR3Sra2LkR89P2w/gettyimages-2257413141.jpg)
'Guardiões Planetários' mandam recado para Davos: saída dos combustíveis fósseis é questão econômica, não ideológica
Hindou Oumarou Ibrahim, líder indígena do Chade, e Paul Polman, ex-CEO da Unilever, afirmam que abandono dos combustíveis fósseis é questão chave para estabilidade global, e cobram liderança na transição energética
Por Redação, do Um Só Planeta
22/01/2026 07h01 Atualizado há um dia
Com o Fórum Econômico Mundial em andamento nos Alpes suíços, um alerta às lideranças políticas e financeiras reunidas em Davos ganhou destaque na revista Time. O artigo é assinado por Hindou Oumarou Ibrahim e Paul Polman, integrantes do grupo Guardiões Planetários, coletivo global de empresários, ativistas, líderes indígenas e cientistas, incluindo o renomado climatologista brasileiro Carlos Nobre e Johan Rockström, conhecido pelo conceito dos limites planetários, com objetivo de proteger os sistemas naturais que sustentam a vida no planeta.
No artigo, Ibrahim, que é ativista climática do povo Mbororo, do Chade — e Polman — ex-CEO da Unilever e referência global em finanças sustentáveis — defendem que a continuidade da expansão do carvão, do petróleo e do gás já não é compatível com a estabilidade econômica nem com a segurança global e que as escolhas feitas agora vão definir quem lidera, e quem fica para trás, na próxima fase da economia global.
Segundo os autores, os riscos associados aos combustíveis fósseis já não não mais projeções futuras. Eventos climáticos extremos, como secas, enchentes e incêndios florestais elevam custos de seguros, tornam regiões inteiras inabitáveis do ponto de vista financeiro e influenciam avaliações de risco soberano, além de balanços corporativos. O impacto não para aí, se estendendo à saúde pública, aos sistemas alimentares e à segurança da infraestrutura das cidades.
Ao mesmo tempo, destacam que a transição energética entrou em uma fase decisiva. Em 2024, mais de 90% da nova capacidade global de geração de energia veio de fontes renováveis. Em muitos países, investir em novas infraestruturas fósseis deixou de ser economicamente racional e passou a representar risco de ativos encalhados.
O texto também destaca o impacto no mercado de trabalho, com as energias renováveis criando empregos em ritmo mais acelerado do que os combustíveis fósseis. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os setores de energia limpa geraram cerca de 1,5 milhão de novos postos de trabalho em 2023, enquanto a indústria fóssil adicionou aproximadamente 940 mil vagas, indicando para onde caminha o futuro do trabalho no setor energético.
Apesar disso, os autores apontam que a influência política e financeira do setor fóssil segue desproporcional nas decisões mais vitais. Eles citam a COP30, realizada em Belém, onde novamente não houve um compromisso vinculante para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis e onde representantes desse setor tiveram forte presença nas negociações.
“A distância entre o que a ciência exige e o que a política entrega continua perigosamente ampla”, escrevem, ao apontar que interesses dos combustíveis fósseis seguem exercendo influência excessiva nos fóruns climáticos internacionais.
Ainda assim, o artigo identifica sinais de avanço.
A Declaração de Belém sobre a Transição para Além dos Combustíveis Fósseis e iniciativas lideradas por países como Colômbia e Holanda, que junto com mais de 80 países, anunciaram na COP30 uma Conferência Internacional sobre Energias Fósseis na Colômbia para abril de 2026, indicam que, mesmo diante de impasses diplomáticos, coalizões dispostas a agir podem impulsionar mudanças.
“A questão já não é se a era dos combustíveis fósseis vai acabar, mas como — e quem vai liderar esse processo”, escrevem.
Um abandono planejado dos combustíveis fósseis, justo e baseado na ciência, argumentam, não é apenas uma exigência ética, mas uma oportunidade econômica. Para isso, defendem o fim de subsídios aos combustíveis fósseis, o redirecionamento do capital para energias renováveis e armazenamento, e investimentos em soluções baseadas na natureza, como a preservação de florestas tropicais. Segundo os autores, manter subsídios a combustíveis fósseis enquanto se subfinancia energia limpa e florestas vivas é economicamente irracional.
A decisão recente dos Estados Unidos de se afastar da cooperação climática internacional também é citada e vista como um risco sistêmico, com efeitos que vão além do clima e atingem desenvolvimento, segurança e confiança global, incluindo a retração da cooperação internacional. Mas mesmo em um contexto de retração do multilateralismo, os autores evitam o fatalismo e lembram do poder da cooperação.
“O mundo já mostrou que é capaz de cooperar em escala”, dizem, citando o combate ao buraco na camada de ozônio e o fim do apartheid. “As ferramentas existem. A ciência é clara. Falta apenas a coragem de liderar.”
Ranking de risco do Fórum Econômico Mundial
O alerta dos dois Guardiões Planetários contrasta com um movimento preocupante revelado pelo próprio Fórum Econômico Mundial. No Relatório de Riscos Globais 2026, divulgado às vésperas de Davos, eventos climáticos extremos, colapso da biodiversidade e mudanças críticas nos sistemas da Terra perderam prioridade na percepção de risco de curto prazo entre especialistas e líderes globais. A queda ocorre justamente no momento em que os impactos físicos da crise climática se intensificam, evidenciando uma defasagem entre percepção política e realidade ambiental.
Segundo o relatório, disputas geoeconômicas, polarização social e desinformação passaram a dominar o ranking de riscos imediatos, enquanto ameaças ambientais, embora ainda presentes no top 10, recuaram posições. A leitura muda quando o horizonte se amplia: no prazo de dez anos, os riscos ambientais voltam ao topo da lista, ocupando cinco das dez primeiras posições. Eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas formam o pódio das maiores ameaças globais, enquanto confrontos geoeconômicos, hoje vistos como prioritários, despencam no ranking.
Essa desconexão é preocupante pois nem de longe reflete uma melhora no cenário climático, mas uma dificuldade sistêmica de reconhecer que clima e natureza já atuam como vetores centrais de instabilidade econômica, social e geopolítica.
Dados recentes do serviço climático europeu Copernicus confirmam que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado, consolidando três anos consecutivos com o aquecimento global acima de 1,5°C. Ao subestimar esses riscos no curto prazo, líderes globais reforçam exatamente o hiato que o artigo na Time denuncia, onde decisões econômicas e políticas seguem desalinhadas dos limites físicos do planeta e das condições que sustentam a própria estabilidade da vida na Terra.
Fonte:https://umsoplaneta.globo.com/clima/noticia/2026/01/22/guardioes-planetarios-mandam-recado-para-davos-saida-dos-combustiveis-fosseis-e-questao-economica-nao-ideologica.ghtml
Comentários
Postar um comentário