ENTENDA O PAPEL DO PASSADO E DO FUTURO DE CUBA NO ATAQUE DOS EUA À VENEZUELA E O AUMENTO DE PRESSÃO SOBRE CUBA APÓS A OPERAÇÃO CONTRA MADURO
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Entenda o papel
do passado e o do futuro de Cuba no ataque dos EUA à Venezuela
Para Washington, xadrez geopolítico do
Caribe pós-Nicolás Maduro inclui vantagens econômicas, demonstração de força
para eleitores americanos e enfraquecimento de Havana
Por
— São Paulo
04/01/2026 00h00 Atualizado há um dia
Em 29 de dezembro de 1962, uma multidão de 40 mil pessoas, em sua maioria de origem cubana, reuniu-se no Orange Bowl, o antigo estádio localizado no coração de Little Havana. O silêncio se fez uma única vez, para ouvir o presidente dos Estados Unidos. Vinte meses antes fracassara a tentativa de Washington de derrubar Fidel Castro, com um desembarque armado de exilados cubanos, treinados e apoiados pela CIA, no episódio que passaria para a História como a invasão da Baía dos Porcos.
O evento em Miami celebrava o retorno dos detidos em Cuba, trocados pelo envio de US$ 53 milhões em produtos farmacêuticos e alimentos para bebês, uma tacada certeira da diplomacia revolucionária. Nas arquibancadas, flâmulas dos dois países foram erguidas em conjunto, e a bandeira da Brigada 2506, a unidade militar anticastrista, foi entregue ao mandatário americano.
John F. Kennedy aceitou o agrado repleto de simbolismo. E se dirigiu ao público:
— Posso assegurar-lhes que esta bandeira será devolvida a esta brigada em uma Havana livre. Sua conduta e bravura são a prova de que, embora Fidel Castro e seus colegas ditadores possam governar nações, não governam pessoas; que eles podem aprisionar corpos, mas não espíritos; que podem destruir o exercício da liberdade, mas não eliminar a determinação de ser livre.
Sua fala foi feita apenas três anos após a derrubada, pelos revolucionários cubanos, da ditadura de Fulgencio Batista, apoiada por Washington. A comunidade cubano-americana recebeu Kennedy como o profeta que as guiaria de volta para a terra prometida, detalha o jornalista Manuel Roig-Franzi em “A ascensão de Marco Rubio”, alentada biografia do secretário de Estado de Donald Trump.
Com o passar dos anos, no entanto, a verve de um dos mais celebrados oradores da história do Partido Democrata se traduziria para os locais “em um atestado de traição, repetido pela sucessão de líderes dos EUA que descumpriram a promessa de ajudá-los a derrubar Castro”, escreve o repórter do Washington Post.
Críticas ao regime cubano
Senador pelo estado sulista por 14 anos, descendente de imigrantes da ilha e criado na mesma Little Havana em Miami, Marco Rubio foi o quadro mais importante do Trump 2.0 a defender a derrubada do ditador venezuelano Nicolás Maduro, principal aliado de Havana no Caribe.
Apontado pelo próprio presidente como um de seus possíveis sucessores em 2028, ele sabe de cor que lá se vão 63 anos, cinco outros presidentes democratas além de JFK (Lyndon B. Johnson, Jimmy Carter, Bill Clinton, Barack Obama e Joe Biden), cinco republicanos (Richard Nixon, Gerald Ford, os dois George Bush, pai e filho, e Trump) e três ditadores (Fidel, seu irmão Raúl Castro e o atual presidente Miguel Díaz-Canel) sem que a bandeira da Brigada 2506 tenha retornado a Havana. Fazê-lo seria o tento de sua vida. E o político enxerga no fim do chavismo, apontou Roig-Franzi em entrevista ao GLOBO, o preâmbulo de uma transição democrática, ainda que não em curto prazo, em Cuba.
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Algo que ficou explícito na entrevista coletiva de sábado do presidente dos EUA após a captura de Nicolás Maduro. Trump citou Rubio ao deixar claro que a derrubada do venezuelano contém um recado para Havana.
— Cuba é um caso interessante, não está indo muito bem agora. Esse sistema não tem sido muito bom para Cuba. O povo lá tem sofrido por muitos, muitos anos. Cuba é uma nação falida, e queremos ajudar o povo (cubano) — afirmou o republicano. — (A ação de ontem) é muito semelhante no sentido de que queremos ajudar o povo em Cuba, mas também queremos ajudar as pessoas que foram forçadas a sair de Cuba e vivem aqui (nos EUA).
Convocado por Trump, Rubio seguiu seu raciocínio:
— Cuba é um desastre. É administrada por homens incompetentes e senis e, em alguns casos, não senis, porém, incompetentes. No entanto, não há economia. É um colapso total — afirmou.
Principal opositor das tratativas diplomáticas do enviado especial de Donald Trump a Caracas, Richard Grenell, Rubio foi decisivo para o estabelecimento, pelo governo americano, da conexão de Caracas com o tráfico de drogas. A ligação foi a base para que os EUA classificassem, na segunda quinzena de dezembro, o país caribenho como “ente terrorista”. No sábado, elas foram direcionadas ao próprio Maduro, como justificativa legal para sua captura sem ferir, na argumentação da Casa Branca, o direito internacional e a necessidade de permissão do ataque pelo Congresso. Na prática, o governo americano se deu, sem provas cabais, liberdade para os ataques, para além dos bombardeios, iniciados em setembro, a embarcações que alegadamente transportariam drogas no Caribe, e da retenção de petroleiros, com o objetivo de asfixiar Caracas economicamente.
O anúncio de que o primeiro petroleiro oriundo da Venezuela confiscado pelas Forças Armadas americanas no Caribe, com imagens imediatamente divulgadas por Washington, dirigia-se a Cuba impulsionou a narrativa de Rubio. Sua expectativa é a de que, com o bloqueio militar e uma eventual troca de governo em Caracas, o descontentamento popular em Havana aumente, inclusive com mais e maiores manifestações contra as deficiências energéticas na ilha. Mas, pontua Feeley, o peso da parceria econômica com a Venezuela é muito menor hoje para Cuba.
Catedrático da Universidade de Michigan-Dearborn, Michael Montgomery, funcionário do Departamento de Estado no governo Reagan, lembra que, para Trump, são muito mais centrais no conflito com a Venezuela os componentes econômicos, notadamente o acesso às maiores reservas de petróleo do planeta, e, aí sim como Cuba, os de política doméstica. Neste último caso, com a demonstração de força através do poderio militar americano, sublinhada na entrevista coletiva de Trump, de olho nas eleições de meio de mandato que decidirão o comando do Congresso em novembro.
Sem ‘Castelo de cartas’
Mas mesmo a musculatura ianque, frisa o acadêmico, precisa ser calibrada. O asfixiamento econômico do chavismo intensificava a aposta preferencial do presidente, de forçar a retirada de Maduro, pressionado por forças do próprio governo em Caracas, sem o risco de uma invasão por terra, com perdas americanas, que ainda podem se reverter em possível custo eleitoral e fraturas na base trumpista, especialmente no movimento Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês).
Além disso, pontua Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group, a ação militar americana contra Maduro não significa um castelo de cartas em que os outros dois principais antípodas de Washington nas Américas, Cuba e Nicarágua, cairiam necessariamente em seguida.
— O regime cubano é muito mais institucionalizado do que o venezuelano. Hoje, o chavismo tem apoio popular escasso após uma eleição roubada, além de enfrentar a acusação de conexão com o tráfico. Em Havana, o apoio popular é mais amplo e seria ainda mais complicado, inclusive por razões históricas, os EUA arriscarem uma ação militar para a queda do regime. Evidentemente a saída de Maduro enfraquece Cuba, com o fim do petróleo subvencionado e das parcerias estratégicas, mas as próximas ações militares americanas na região devem ser em outros países, e relacionadas ao narcotráfico, no México e, possivelmente, na Colômbia — afirmou Christopher Garman ao GLOBO.
Fonte:https://oglobo.globo.com/blogs/trump-20/coluna/2026/01/entenda-o-papel-do-passado-e-o-do-futuro-de-cuba-no-ataque-dos-eua-a-venezuela.ghtml
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Governo Trump
sugere ampliar pressão sobre Cuba após operação contra Maduro: 'Se morasse em
Havana, estaria preocupado'
Declarações de Trump e Rubio indicam
que Havana pode entrar no foco da política externa dos EUA em meio à crise
regional: 'se eu morasse em Havana, estaria preocupado'
Por
O
GLOBO
03/01/2026 15h05 Atualizado há 2 dias
Ao responder a uma pergunta de um repórter que se identificou como cubano, Trump afirmou que o país caribenho deverá entrar na pauta de Washington em breve.
— Cuba é algo sobre o qual acabaremos falando. Queremos ajudar o povo de Cuba e também ajudar as pessoas que foram forçadas a sair de Cuba — disse o presidente. Segundo ele, o objetivo dos Estados Unidos seria apoiar a população da ilha e também os cubanos que deixaram o país.
Na mesma coletiva, Rubio classificou Cuba como um “desastre”, governado por líderes que descreveu como “senis e incompetentes”, e afirmou que o país sofre influência direta do presidente venezuelano Nicolás Maduro. O secretário de Estado também destacou que muitos dos seguranças responsáveis pela proteção de Maduro seriam cubanos.
— Quando o presidente fala, é preciso levá-lo a sério. Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, eu estaria pelo menos preocupado — afirmou.
As falas ocorrem em um momento de maior pressão dos Estados Unidos sobre a Venezuela e sinalizam que Washington pode ampliar sua atuação diplomática e política na região, incluindo Cuba, em um contexto de crescente instabilidade regional.
Entenda o ataque
Bases militares em Caracas e ao menos outros três estados foram bombardeadas durante a madrugada, enquanto a divisão de elite realizava a infiltração para captura de Maduro. Líderes chavistas afirmaram que houve baixas civis, mas não se referiram a nenhum número em particular. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram helicópteros das Forças de Operações Especiais dos EUA sobrevoando Caracas durante a madrugada de sábado, enquanto múltiplas explosões iluminam o céu da capital venezuelana. Segundo relatos não confirmados, as aeronaves seriam helicópteros CH-47G Chinook, projetados para operações secretas, e teriam atuado durante os ataques.
Ao menos sete explosões e ruídos semelhantes ao sobrevoo de aviões foram relatados por volta das 02h (03h em Brasília), em Caracas. De acordo com fontes locais ouvidas pelo GLOBO, alguns dos alvos seriam a base militar de La Carlota, da Força Aérea venezuelana, e o Forte Tiuna, maior complexo militar do país. Outro alvo do ataque foi o Quartel da Montanha, mausoléu onde está enterrado o ex-presidente Hugo Chávez.
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O secretário de Estado americano, Marco Rubio — apontado como o principal defensor da atuação americana na América Latina —, limitou-se a republicar uma mensagem escrita nas redes sociais em julho do ano passado, em que afirmava que Maduro não era o presidente legítimo da da Venezuela e que seu governo também não era legítimo. A sinalização foi apontada por observadores como um possível sinal para dirimir futuros questionamentos quanto a legalidade do ataque.
O senador republicano Mike Lee, de Utah, disse à rede americana CNN ter conversado com Rubio após o ataque. O secretário teria garantido ao parlamentar que o objetivo da missão era a captura de Maduro, que a ação cinética — bombardeio e emprego de meios militares — teria sido empregada para defender os agentes que realizavam a captura e que não estariam previstas novas ações militares contra Caracas.
— Essa ação provavelmente se enquadra na autoridade inerente do presidente, conforme o Artigo II da Constituição, para proteger o pessoal dos EUA de um ataque real ou iminente — afirmou Lee.
Pedidos de calma e de mobilização
Em Caracas, as autoridades alternaram mensagens de condenação aos EUA, pedidos de calma e convocações à mobilização popular. Delcy, que classificou a ação americana como um "ataque brutal" e uma "agressão imperial", anunciou a ativação dos planos integrais de defesa, que segundo ela teriam sido ordenados por Maduro.
— Povo na rua, ativação da milícia [Nacional Bolivariana] e de todos os planos de defesa integral da nação — disse a vice-presidente.
Em declarações televisionadas, o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, considerado um dos principais aliados de Maduro, pediu calma e instou o povo a confiar na liderança chavista.
— Que ninguém se desespere. Que ninguém facilite as coisas para o inimigo invasor — disse Cabello, acrescentando, sem apresentar provas, que bombas atingiram prédios civis.
O procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, também falou ao vivo na televisão, condenando os ataques dos EUA.
— Vítimas inocentes foram gravemente feridas e outras mortas por este ataque terrorista criminoso — disse ele, repetindo os pedidos de prova de vida e para que as pessoas fossem às ruas "com calma e vigilância".
Fonte:https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/01/03/governo-trump-sugere-ampliar-pressao-sobre-cuba-durante-operacao-contra-maduro.ghtml
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