DESMONTE REGULATÓRIO, ATAQUE À CIÊNCIA E INCENTIVO AOS FÓSSEIS: UM ANO DE GOVERNO TRUMP E OS EFEITOS DESASTROSOS PARA OS EUA E A TERRA
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Desmonte regulatório, ataque à Ciência e icentivo
aos fósseis: um ano de governo Trump e os efeitos desastrosos para os EUA e a
Terra
Recuo dos EUA na agenda climática desmonta políticas internas e
fragiliza o esforço internacional contra o aquecimento global
Por Vanessa Oliveira, do Um Só Planeta
20/01/2026 15h11 Atualizado há 2 dias
Um ano após o início do segundo mandato de Donald Trump, os Estados Unidos protagonizam o maior retrocesso ambiental e climático desde a criação da Convenção do Clima da ONU, em 1992. O diagnóstico é compartilhado por cientistas, organizações internacionais e pela rede brasileira Observatório do Clima (OC), que avalia que o retorno do negacionismo climático à Casa Branca não apenas desmontou a governança ambiental interna, como comprometeu de forma direta os esforços globais para limitar o aquecimento da Terra.
Segundo análises independentes, o conjunto de medidas adotadas pelo governo Trump tende a reduzir drasticamente o ritmo de corte de emissões dos EUA, inviabilizando a meta do Acordo de Paris de conter o aquecimento em 1,5°C e adicionando pressão extra sobre países que ainda tentam avançar na transição energética.
Desmonte da política climática federal
Desde seu primeiro dia de mandato, Trump promoveu um ataque sistemático à política climática federal. Decretos revogaram iniciativas das administrações anteriores, desmontaram a diplomacia climática e retiraram os Estados Unidos, mais uma vez, do Acordo de Paris. O Departamento de Estado teve sua área de clima praticamente extinta, encerrando a atuação estadunidense em negociações internacionais.
O movimento mais profundo veio com a tentativa de derrubar o Endangerment Finding, decisão de 2009 que reconhece os gases de efeito estufa como ameaça à saúde pública e sustenta toda a regulação climática federal. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) propôs rescindir formalmente o entendimento, apoiada por um relatório do Departamento de Energia assinado por autores conhecidos por negar o consenso científico sobre a mudança do clima.
Para o Observatório do Clima, essa iniciativa equivale a “eliminar a base legal da ação climática nos Estados Unidos”, com efeitos duradouros mesmo além do atual mandato.
Expansão deliberada de petróleo, gás e carvão
A política energética do segundo mandato foi marcada pela aceleração explícita da produção de combustíveis fósseis. Sob o lema “drill, baby, drill”, o governo facilitou licenças para exploração de petróleo e gás, abriu milhões de hectares de terras federais para perfuração e reverteu restrições ambientais históricas.
Entre as decisões mais simbólicas está a autorização para exploração de petróleo no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico, no Alasca, uma das últimas grandes áreas intocadas do país. Usinas a carvão que estavam em processo de fechamento foram obrigadas a continuar operando, e recursos públicos passaram a financiar a modernização de plantas antigas.
No plano legislativo, uma nova lei orçamentária eliminou incentivos importantes à energia limpa e aos veículos elétricos, ao mesmo tempo em que garantiu dezenas de bilhões de dólares em subsídios e benefícios fiscais à indústria fóssil até a próxima década.
Bloqueio à transição energética
Enquanto petróleo, gás e carvão avançam, projetos de energia renovável enfrentam paralisações e entraves administrativos. O governo trumpista suspendeu novos arrendamentos para eólicas offshore, tentou rever contratos em vigor e desacelerou licenças para grandes empreendimentos solares e eólicos.
Programas sociais de energia limpa também foram afetados. Iniciativas voltadas à instalação de painéis solares em residências de baixa renda perderam financiamento, e projetos estratégicos foram cancelados ou adiados, comprometendo a expansão da geração renovável e a criação de empregos no setor.
Durante paralisações do governo, autorizações para perfuração de petróleo continuaram a ser concedidas, enquanto licenças para projetos renováveis ficaram represadas, uma assimetria que especialistas classificam como política deliberada.
Ataque à Ciência, aos dados e à transparência
O governo Trump também promoveu um desmonte sem precedentes da infraestrutura científica do clima. Centenas de funcionários foram demitidos de agências como NOAA, NASA, EPA e FEMA. Cientistas federais foram proibidos de participar de atividades do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), e a produção da Avaliação Nacional do Clima dos EUA foi interrompida com a demissão em massa de seus autores.
Bases de dados foram retiradas do ar, relatórios apagados de sites oficiais e programas de monitoramento encerrados. A NOAA deixou de rastrear desastres climáticos bilionários, informação crucial para políticas públicas, seguros e defesa civil. O governo também tentou enfraquecer ou eliminar programas obrigatórios de reporte de emissões de gases de efeito estufa.
Para o Observatório do Clima, trata-se de um ataque direto ao direito à informação, já que sem dados, não há política pública nem responsabilização.
Isolamento internacional e impacto global
No cenário internacional, além da saída do Acordo de Paris, o governo dos EUA anunciou a retirada da Convenção do Clima da ONU e do próprio IPCC, um movimento considerado mais grave e duradouro, por envolver tratados internacionais vinculantes.
Washington abandonou fundos multilaterais de financiamento climático, deixou parcerias de transição energética com países em desenvolvimento e não enviou delegação federal à COP30, em Belém, que falhou nas negociações sobre financiamento e na proposta de exclusão de qualquer menção direta aos combustíveis fósseis nas decisões finais.
Ao mesmo tempo, o governo passou a usar instrumentos comerciais para pressionar outros países a ampliar o consumo de petróleo e gás estadunidenses, enfraquecendo regulações ambientais externas, como as regras europeias sobre emissões de metano.
Um retrocesso com efeitos duradouros
Estimativas indicam que, com as mudanças adotadas, os Estados Unidos devem chegar a 2030 com uma redução mínima de emissões, muito distante dos compromissos assumidos anteriormente. O impacto, porém, não se limita ao território do país.
Para o Observatório do Clima, o primeiro ano do segundo mandato de Trump representa “o maior retrocesso já imposto ao esforço global contra a mudança do clima”, ao desmontar regras, sabotar a ciência e incentivar outros países a relaxarem suas próprias ambições.
2026
O segundo ano de seu novo mandato mal começou e Donald Trump desmontou mais avanços climáticos relevantes, ao anunciar em janeiro a saída de um tratado climático fundamental, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que busca estabilizar as emissões de gases de efeito estufa, e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal autoridade mundial em ciência do clima.
A olhos vistos, o governo dos Estados Unidos vem, pouco a pouco, se afastando do reconhecimento de seu envolvimento na crise climática ou da necessidade de enfrentá-la, apesar de o país ser o segundo maior emissor anual de gases de efeito estufa do mundo e, historicamente, o maior responsável pelo aquecimento global.
No Memorando Presidencial assinado em 7 de janeiro, Trump argumentou que é “contrário aos interesses dos Estados Unidos” permanecer membro, participar ou fornecer apoio a mais de 60 organizações internacionais, tratados e convenções, as de foro ambiental entre elas.
A agenda fóssil do segundo mandato também extrapola as fronteiras dos Estados Unidos. Em janeiro deste ano, o governo Trump promoveu uma ação militar contra a Venezuela, sequestrou Nicolás Maduro e passou a intervir diretamente na indústria petrolífera do país, que detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.
Após admitir que o objetivo central da operação era garantir controle sobre esses ativos, a Casa Branca anunciou que os EUA manteriam influência direta sobre a produção e o destino do petróleo venezuelano. Para analistas, o episódio escancara a disposição do governo de Trump de usar poder militar e pressão política para ampliar o acesso a combustíveis fósseis, mesmo à custa da estabilidade regional e do agravamento da crise climática global.
Fonte:https://umsoplaneta.globo.com/clima/noticia/2026/01/20/desmonte-regulatorio-ataque-a-ciencia-e-icentivo-aos-fosseis-um-ano-de-governo-trump-e-os-efeitos-desastrosos-para-os-eua-e-a-terra.ghtml
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