SEU CÉREBRO OUVE EMOÇÕES

Pesquisadores americanos identificaram as marcas cerebrais do reconhecimento de emoções veiculadas por sons, instrumentos musicais ou a voz humana. As imagens do cérebro mostram as regiões especificamente ativadas por emoções musicais. Ilustração livre sobre neuroimagem dos pesquisadores americanos. Foto: Arte

Pesquisadores americanos identificaram as marcas cerebrais do reconhecimento de emoções veiculadas por sons, instrumentos musicais ou a voz humana. As imagens do cérebro mostram as regiões especificamente ativadas por emoções musicais. Ilustração livre sobre neuroimagem dos pesquisadores americanos. Foto: Arte

Seu cérebro ouve emoções


A percepção dos sentimentos básicos veiculados pelos sons tem relevância biológica
Por que será que a música tem o dom de evocar diferentes emoções? Podemos sentir felicidade, tristeza ou mesmo medo, independente da fonte: instrumentos musicais ou mesmo a voz humana. O cinema faz uso dessa propriedade com grande eficiência. Os filmes de terror têm trilhas musicais arrepiantes, os filmes de amor potencializam essa emoção com músicas suaves e quentes. O tom de voz dos atores é enfatizado para transmitir melhor a emoção do momento.
A percepção das emoções básicas veiculadas pelos sons tem relevância biológica para os animais, e adquire uma dimensão psicológica e social para os seres humanos. É muito intrigante que a música transmita emoções tão facilmente, sendo um produto da cultura e, portanto, de aquisição relativamente recente na história da humanidade.
Como será então que o cérebro é capaz de processar essa habilidade? De que modo consegue essa proeza? Será possível identificar as redes neurais específicas para o reconhecimento das emoções musicais? E será que conseguiríamos identificar o tipo de emoção vivenciada por alguém, simplesmente analisando o padrão de atividade do seu cérebro?
Essas perguntas foram respondidas por um grupo de pesquisadores do Instituto Cérebro e Criatividade, na Califórnia. O estudo envolveu cerca de 40 adultos jovens de ambos os sexos, submetidos à aquisição de neuroimagens por ressonância magnética funcional durante a audição de trechos curtos de áudio produzidos por violino, clarinete, ou uma voz humana, criados para veicular cada uma de três emoções básicas que somos capazes de sentir: felicidade, tristeza e medo. Depois da aquisição das imagens, os pesquisadores usaram técnicas de aprendizagem de máquina (machine-learning) para diferenciar os padrões de atividade neural produzida por cada uma daquelas fontes sonoras em cada situação emocional.
Os trechos sonoros utilizados foram classificados subjetivamente quanto às emoções evocadas, para ter certeza de sua natureza qualitativa: felicidade, tristeza ou medo. E os participantes foram solicitados a avaliá-los também, para checar se ambas as avaliações eram consistentes.
A grande surpresa foi que a região mais ativa na identificação das emoções sonoras foi o córtex auditivo, ao qual até então se atribuía apenas propriedades de análise cognitiva dos sons, tipo assim: estou ouvindo uma música ou um discurso falado? qual o timbre da fonte sonora? onde se localiza, no canto da sala ou em frente ao sofá?
Além disso, uma região cortical mais acima do córtex auditivo, responsável por interpretar estímulos táteis da face, era também ativada. E por fim, uma região vizinha chamada ínsula posterior, relacionada à identificação de estados difusos de bem-estar ou mal-estar.
Os pesquisadores conseguiram identificar a atividade específica e única para cada uma das três emoções testadas. Desse modo, concluíram que a análise do mapa da atividade cerebral tem valor preditor sobre a emoção veiculada por estímulos sonoros.
As conclusões geram intrigantes perguntas de forte impacto ético e até jurídico. Será possível avaliar o impacto afetivo de uma trilha musical publicitária pela sua configuração cerebral? Será possível aferir a repercussão emocional do som da voz de alguém acusado de um crime, por parte da vítima?
* Professor titular da UFRJ e Pesquisador do Instituto D’Or

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