REDES SOCIAIS: UMA VERSÃO FICTÍCIA DE NÓS MESMOS OU CARÊNCIA AFETIVA E NECESSIDADE DE AUTO-AFIRMAÇÃO

Resultado de imagem para Redes sociais: uma versão fictícia de nós mesmos

Redes sociais: uma versão fictícia de nós mesmos


Imagine se, para ter acesso a saúde, educação, emprego e diversos acontecimentos sociais você dependesse da aprovação virtual do outro. Aterrorizante, né? Esse é o mote do episódio “Queda Livre”, do seriado “Black Mirror”. Nele, a protagonista busca melhorar a sua pontuação numa rede social. Inicialmente, para ter desconto no aluguel. Ela contrata um consultor de imagem, melhora sua performance, prova do poder da aceitação e fica obsessiva em viver bem classificada. Para isso, sujeita sua existência às demandas da persona da internet. E provoca um interessante desenrolar de contratempos. Ficção inspirada nos desafios dessas novas formas de sentir mediadas pelas máquinas. E que nos leva a inevitável pergunta acerca de uma realidade que temos na palma da mão. O que se dá em uma sociedade que qualifica as pessoas segundo as fotos e postagens de perfis pessoais?
Antes de teorias, proponho um desafio de autoanálise. Revise as suas postagens em todas as redes sociais como se fossem de um anônimo. Responda as cinco seguintes perguntas usando apenas as informações disponíveis nesses meios. Cite pelo menos três problemas desse indivíduo. Que desafios profissionais ele ainda não venceu? Atualmente, essa pessoa tem medo de? O pior defeito dela é? Algum trauma a trava? Se conseguiu, parabéns! Caso contrário, continue respondendo as seguintes cinco próximas questões. Cite algum fato curioso ou conquista pessoal. Que lugares frequenta? Quais comidas prefere? Como se veste? Qual classe social faz parte? Conseguiu as respostas? Passe para terceira etapa! Cruze os resultados das fases 1 e 2 para definir estado de ânimo geral do suposto desconhecido. Se o resultado for: curtindo a vida, sem problemas graves ou fracassos, sempre capaz de resolver todos os problemas do mundo, então, você é como a maioria dos mais de 93 milhões de brasileiros nas redes sociais. Agora, fale a verdade. O seu perfil digital está de acordo com o real?
O Brasil é o primeiro país em acessos a essas páginas na América Latina, de acordo com dados da última pesquisa da agência eMarketer. Isso fala muito sobre nós. Selfies e fotos artísticas, frases feitas e autorais, opiniões bem argumentadas ou embasadas pelo vento. Registrar tudo que acontece. Antes de provar. Até mesmo sem estar. É assim que se vive hoje. Documenta-se a experiência com o objetivo de construir um eu que mora na nuvem. Que assume comportamentos específicos para a internet. Seja mostrando o que se come ou arrecadando fundos para causas sociais. Enquadrando seus pés ou fomentando lutas por mais direitos. Abrindo janelas para lugares maravilhosos que nunca visitaremos. Mobilizando protestos. Milhões de publicações, segundo a segundo, verdadeiras e mentirosas. Úteis e desnecessárias. Assuntos em massa, do ínfimo ao global, em formatos democráticos e ditatoriais. Conceitos que vão estabelecendo mais normas de conduta. Desde beicinhos horríveis para fotos que, confesso, nunca entendi a origem ou motivo daquilo. Até a angustiante obrigação de ser feliz sempre.
Como mãe de um bebê de 11 meses que persegue celulares desabafo minha preocupação. Muitos adolescentes e jovens nascidos com a vida na ponta dos dedos só conhecem o reconhecimento por meio de likes, compartilhamentos e curtidas. E ficam reféns do retorno das redes sociais para exercerem o pertencimento. É notável a frequência nos jornais dos casos de autoextermínio motivados pelo julgamento virtual. Um estudo realizado na França, mostra que o Brasil é o segundo país em casos de Cyberbulying dentre os 28 avaliados. Já a pesquisa da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais mostra que a quantidade de suicídios entre brasileiros na faixa dos 10 a 14 anos aumentou 65% e, 45%, entre 15 e 19 anos, no período de 2000 a 2015. A investigação não contempla as causas para o aumento das mortes. Especialistas que a avaliaram considerem o bullying nas redes sociais como uma das principais possibilidades. Portanto, minha gente, precisamos falar sobre isso. Por mais incômodo que seja.
Para Bauman, o uso de uma personalidade digital ilusória denuncia as deformidades comportamentais da realidade contemporânea: “A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo”.
E dialogar não é falar para quem pensa igual. Muito menos acusar, acuar e açoitar. A natureza da ação é argumentativa. Não julgadora. E o diverso enriquece a discussão. Ainda segundo o sociólogo, nas redes sociais fica mais fácil evitar a controvérsia favorecendo que o indivíduo permaneça em uma zona de conforto. Apenas berrar os próprios conceitos, verdadeiros ou inventados, impede de ouvir novas vozes e o único que se vê é o reflexo de sua face. O indivíduo desobrigado de pensar diferente está menos apto a enfrentar a frustação. Tem menos habilidade para firmar-se em si sem afirmar-se narcisicamente. Trocando em miúdos: se você construiu uma personalidade virtual para esconder-se ao mesmo tempo que perpetua seus achismos de vida em larga escala, escolheu, invariavelmente, viver em uma bolha.
Muitos vão defender que a internet abriu as portas para a democratização da informação ao permitir que todos opinem. Concordo. Em parte. Sim, ótimo cair em rede assuntos antes pouco conversados. Legal ter uma enxurrada de pensamentos contrários circulando. O que não vejo acontecer, em grande parte das vezes, é o verdadeiro debate. Argumentado e provocativo. Respeitoso. Sabe aquelas discussões que te obrigam a sair do lugar? Nem que seja só para degustar desse novo ponto de vista? Disso estou falando. Mas o que percebo é bem mais parecido com uma defesa de tese. Em um movimento de forçar a ideia descer goela abaixo. Como estudiosa da comunicação, enxergo em muitos dos diálogos — virtuais ou reais já que a intolerância não é exclusividade de rede social — a energia focada no embate mais que na troca. E me dá a maior repulsa quando tentam me converter. Adoro discutir. Estou aberta a mudar. Aprendo a cada dia a escutar mais e falar menos. Só que eu batalho desde muito jovem para caber em mim, sabe? Por isso, não permito que ninguém me diga como devo ser. É assim que me preservo sã.
Entendo que muitas foram as transformações nos modos de expressão e de afeição derradeiros do desenvolvimento tecnológico. Estamos aprendendo esse novo jeito de experienciar. Tal qual no seriado, o risco reside no narcisismo como resposta a uma suposta inadequação social. Se “Narciso acha feio o que não é espelho” como canta Caetano Veloso, interpretar personagens no habitat de rede pode ser perverso e antidemocrático. Quando um grande grupo escolhe a mesma máscara para atuar termina por reforçar padrões comportamentais onde o diferente é acusado, julgado, condenado e banido. Simplesmente por não se encaixar em modelos. Isso empobrece o viver.
Reconheço as inúmeras vantagens dos relacionamentos virtuais. Por isso mesmo, defendo que refletir é levantar a bandeira de que ninguém tem a obrigação de ser #feliz@politicamentecorreto ou agressivo.com.  Isso violenta a identidade de forma irreversível. Causa danos pessoais e sociais perigosíssimos como esclarece Bauman em sua célebre frase: “As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha”.  Nesse último pensamento, tomo a liberdade de trocar o “são” por “podem ser”. Não é a rede social a vilã. O estrago vem de como se usa a ferramenta.

Fonte:https://www.revistabula.com/16969-redes-sociais-uma-versao-ficticia-de-nos-mesmos/

Como as redes sociais revelam nossa necessidade de auto-afirmação


464

Enviado por jns
Do Obvious
 
Soraya Rodrigues de Aragão
 
Com a democratização do acesso à internet e redes sociais, foram internalizados novos aspectos comportamentais e agregados novos valores sociais. Através destes contextos, criamos muitas vezes uma realidade pré-fabricada a partir das nossas carências afetivas e emocionais, sendo as redes sociais o grande termômetro da insatisfação e insegurança das pessoas consigo mesmas.
 
Mas... até que ponto podemos nos satisfazer nos reinventando muitas vezes na irrealidade?
 
Vivemos em uma época em que a maioria dos internautas se classificam nas gerações y e z. São jovens adultos e adolescentes que nos trouxeram mudanças comportamentais a partir de novos paradigmas tecnológicos relacionais, e que as gerações anteriores de certa forma foram compelidas a se atualizar.
 
Com a democratização do acesso a internet e redes sociais, foram internalizados novos aspectos comportamentais e agregados novos valores sociais. Presenciamos as transformações sociais reconfigurando o processo de subjetivação das novas maneiras de se relacionar com o mundo e com o outro.
 
No entanto, junto às conexões, fotos, selfies e check-ins, podemos concluir que as redes sociais foi o propulsor importante para denunciar a nossa fragilidade egoica. Necessitamos incessantemente da aprovação do outro através dos likes e comentários que elevam a nossa auto-estima. Necessitamos da validação, da aprovação do outro, em busca de convencermo-nos daquilo que não temos certeza em nós mesmos.
 
Esse olhar perscrutador, avaliador e validativo do outro acerca dos nossos estados emocionais, do nosso sucesso e bem estar nos leva à conclusão de que nós não estamos convencidos internamente daquilo que somos e do que sentimos. Existe uma fragilidade em tudo isto e não foi a internet que desenvolveu. Na realidade estas questões já existiam; a internet foi apenas a ferramenta eliciadora para a eclosão dos conteúdos que presenciamos dia a dia nas redes sociais.
 
Somos seres gregários e nos realizamos nos relacionamentos interpessoais que nos validam através do olhar do outro e isto além de legitimo, é necessário. No entanto, o que percebo nas redes sociais é uma necessidade premente e constante de autoafirmação, onde percebe-se o movimento de convencer o outro do que ainda não estamos convencidos em nós mesmos. Em outras palavras, as redes sociais é o grande termômetro da insatisfação e insegurança das pessoas consigo mesmas.
 
Isto é comprovado pelo simples raciocínio de que se não conseguimos nos satisfazer em um nível mais profundo, necessariamente precisamos buscar isto fora.
 
E' fato que não somos e nunca fomos e nem seremos autossuficientes, portanto, não podemos satisfazer sozinhos as nossas próprias necessidades e carências. Precisamos do outro, é do humano. Mas na internet existe uma caricaturização, uma exacerbação do nosso narcisismo.
 
Sendo assim, as redes sociais "cairam como uma luva" para a insatisfação humana e pra necessidade fundamental do olhar de aprovação do outro enquanto sujeito que necessita ser valorado e reconhecido, causando um aprisionamento desta necessidade constante de criar muitas vezes uma personalidade fictícia, uma realidade muitas vezes mascarada para satisfazermos as nossas fantasias e necessidades profundas.
 
Até que ponto acreditamos nesta realidade da felicidade constante, dos amores de contos de fadas, em uma vida sem problemas?
 
Nos afugentamos nas redes sociais para criarmos esta possibilidade. Criamos muitas vezes uma realidade pré-fabricada a partir das nossas carências afetivas e emocionais. Vivemos o que gostaríamos de viver na realidade e isto agora foi possibilitado pela socialização da internet.
 
...Mas... até que ponto podemos nos satisfazer nos reinventando muitas vezes na irrealidade?

Fonte:https://jornalggn.com.br/noticia/como-as-redes-sociais-revelam-nossa-necessidade-de-auto-afirmacao

Perfis, dentro e fora das redes sociais

Professor e escritor. Pesquisador do Laboratório de Neurociências Clínicas da Unifesp. 
Diretor da NeuroVox.
“Crie um perfil no LinkedIn”, disseram-me alguns amigos.
Relutei. Gerenciar o canal no YouTube, que já possui mais de 100 mil inscritos, é suficientemente desafiador. “Mais uma rede social?”, pensei. “Para quê? Por quê? Para quem?”
Como sou C.d.F. (o termo pós-moderno é nerd), resolvi estudar um pouco sobre o LinkedIn. Logo percebi que, de fato, pode ser um canal interessante para dividir ideias com as pessoas que acompanham meu trabalho em palestras Brasil afora e nas demais redes sociais.
Enquanto preenchia os dados do meu perfil, parei para refletir justamente sobre o significado da palavra “perfil” nos dias atuais. É sobre isso que escreverei aqui.
A palavra perfil já contém, nela mesma, sua principal implicação. Afinal, ao olhar um perfil – o perfil de um rosto, por exemplo – nós automaticamente sabemos que existe um outro lado, escondido do nosso olhar.
Nas redes sociais isso é igualmente verdadeiro. Aquilo que vemos nos perfis não é a realidade. Muito pelo contrário. É uma vitrine cirurgicamente construída para nos oferecer uma certa perspectiva da realidade. Isso faz com que a construção de um perfil em redes sociais seja, se não uma ciência, pelo menos uma arte. E como toda arte, certas obras agradarão multidões, enquanto outras serão ignoradas.
O leitor pode pensar que isso é algo novo, fruto dos adventos tecnológicos modernos, principalmente a internet. De fato, é inegável que as tecnologias atuais potencializem esse fenômeno. No entanto, a construção de perfis (essas vitrines de nós mesmos para o mundo) não é nada nova. Trata-se de algo que está intimamente inscrito na natureza da espécie humana.
Já é bem sabido que nós, humanos, somos o animal mais social do planeta. Nossos cérebros possuem circuitos destinados exclusivamente a produzir pensamentos e emoções a respeito de outros seres humanos. A grande prioridade do cérebro humano é essa: pensar sobre outras pessoas. Pare um segundo para refletir sobre os seus próprios pensamentos. Considerando o número total dos seus pensamentos, todos os dias, quantos deles envolvem direta ou indiretamente outras pessoas? A resposta é óbvia: a maioria.
Quando digo que isso está inscrito em nossa natureza, não estou sendo leviano no uso do termo. Um estudo científico recente verificou que chimpanzés se comportam de maneira significativamente diferente quando sabem que estão sendo observados por seres humanos.
Em outro estudo, macacos (todos machos) foram colocados em gaiolas onde poderiam escolher entre olhar para uma tela (na qual passavam imagens) ou tomar suco em um canudo. Uma coisa ou outra. Como macacos adoram suco – acredite em mim, macaco é louco por suco –, o objetivo dos pesquisadores foi verificar quais imagens chamariam atenção ao ponto do macaco escolher deixar de tomar suco para olhar em direção à tela. Isso permitiu verificar quais imagens são realmente interessantes para os macacos.
Somente duas categorias de imagem foram capazes de fazer o macaco parar de tomar suco: fotos da genitália de fêmeas (uma espécie de revista Playboy macáquica) e fotos do rosto dos machos e das fêmeas alfa do grupo – ou seja, os macacos de maior statusno grupo (quase como uma revista Caras da macacada).
Veja, então, que o interesse por conectar-se com pessoas de elevado status está presente, inclusive, em outras espécies de primatas. Além disso, também outros primatas mudam de comportamento quando sabem que estão sendo observados.
Lembremos agora que os seres humanos são primatas. A semelhança entre tudo isso e as redes sociais não é mera coincidência. A preocupação com o olhar alheio – especialmente o olhar dos indivíduos que ocupam elevada posição na hierarquia social – é uma inclinação natural de primatas sociais.
Acontece que, na espécie humana, essa arquitetura do tecido social é ainda mais complexa. Décadas de pesquisa em psicologia social demonstram que somos pessoas diferentes dependendo do ambiente social no qual estamos inseridos. Em outras palavras, nossos comportamentos, pensamentos, emoções e até mesmo opiniões mudam de acordo com o contexto social. Grosso modo, esse contexto nada mais é do que o conjunto de pessoas que nós imaginamos que estão nos observando e/ou esperando algo de nós. Isso faz com que a plena autenticidade e honestidade sejam fenômenos raros – e potencialmente problemáticos.
Não sei se vocês, leitores, já tentaram ser plenamente honestos com alguém. A palavra-chave aqui é plenamente. Imaginemos uma leitora cujo marido acabou de cortar o cabelo. Quando vê o resultado, ela pensa: “Meu Deus, que coisa ridícula!”. No entanto, guarda esse pensamento consigo mesma.
O maridão pergunta: “Amor, o que você achou?”. Ela responde, sorrindo: “Gostei, mas prefiro como estava antes!”. Ou seja, ela mente. Claro que é uma pequena omissão. Nada grandioso. Mas ainda assim ela deliberadamente ocultou uma informação e, portanto, mentiu. Em psicologia, o grande Paul Ekman – que inspirou o seriado Lie to Me – chama esse tipo de conduta de lie of omission (mentira por omissão).
Todos nós cometemos essas pequenas edições da realidade em nossas interações sociais. Isso ocorre o tempo inteiro, de forma não muito diferente do modo que um designer edita uma imagem no Photoshop, ou de como eu editei este texto para facilitar sua leitura – cautelosamente escolhendo certas palavras enquanto deleto outras.
“Quase ninguém é honesto. As pessoas fazem aquilo que imaginam que é esperado delas no contexto específico em que estão inseridas.”
Podemos, também, lembrar da clássica pergunta em entrevistas de emprego: “fale-me sobre três defeitos seus”. Veja que, obviamente, ninguém é plenamente honesto neste momento. Imagine só se o sujeito responde: “Sou preguiçoso, egoísta e às vezes venho trabalhar de ressaca, ainda bêbado da noitada anterior”. É comum recrutadores ouvirem o óbvio, algo como: “Sou ansioso por resultados, perfeccionista e workaholic”. As respostas a essa pergunta demonstram o quanto as pessoas têm medo de revelar seus verdadeiros defeitos – e o quanto aquilo que revelam é cuidadosamente calculado para agradar o olhar de quem ouve.
É justamente esse o ponto que estou levantando. Quase ninguém é honesto. As pessoas fazem aquilo que imaginam que é esperado delas no contexto específico em que estão inseridas. Isso é válido para as relações amorosas, para entrevistas de emprego e, sem dúvida, para todos os meandros da vida profissional. No escritório, tal como em casa, nas ruas ou nas redes sociais, somos vitrines de nós mesmos. Somos perfis construídos de acordo com o que imaginamos que é esperado de nós em cada um dos contextos que compõem nossas vidas.
A pessoa que é realmente autêntica e 100% honesta, que não liga para ninguém, que não se preocupa nem um pouco com o olhar dos outros – ora, é muito provável que ela seja diagnosticada com algum tipo de transtorno psiquiátrico. Ou, no mínimo, que seja uma pessoa sozinha, sem muitos amigos ou pessoas próximas.
Pois bem, se a todo momento somos vitrines destinadas ao olhar alheio, quem de fato somos nós? Quem é você de verdade? Essa é, talvez, a principal pergunta do século 21. Vivemos no século do autoconhecimento. Em busca de nós mesmos. As possíveis respostas são múltiplas. Esse questionamento é objeto de intensa investigação filosófica e científica nos dias atuais.
Apesar disso, independentemente de quem sejamos, nós não somos sozinhos, nosso selfnão se forma em isolamento. “Nenhum homem é uma ilha”, disse o poeta John Donne. Somos o animal mais social do planeta. Existimos sempre em relação. Nossas conexões sociais são parte imprescindível da nossa personalidade. Devido a isso, perfis não são triviais. Ao contrário, são muito relevantes. São o retrato da identidade que desejamos construir perante as pessoas que nos são importantes. Revelam muito sobre quem somos e quem desejamos ser.
“Essa é uma reclamação que ouço, reiteradamente, de gestores de recursos humanos: 'Os jovens chegam com uma expectativa irreal do que é trabalhar dentro de uma empresa'.”
Acontece que perfis podem, também, ser castradores. Vitrines podem inspirar pessoas a buscar modelos falsos ou impossíveis de se viver. Há pessoas que sofrem por não conseguir viver como as celebridades do Instagram. Já existe um termo científico chamado Facebook depression – o uso excessivo de redes sociais associado a transtornos psiquiátricos como a depressão. Muitos idealizam vidas artificiais e, com isso, criam terreno fértil para as próprias frustrações.
Não percebem que essas vidas são perfis, editados e meticulosamente construídos para exalar perfeição. São dezenas de fotos – até que uma, sob a luz e ângulo certos, é publicada. Nunca devemos esquecer que a celebridade do Instagram, às vezes, tem diarreia ou acorda com olheiras, assim como todos nós. Ao idealizar uma perfeição inatingível sempre sacrificamos parte da verdadeira vida – a vida de carne e osso; de sangue, suor e fracassos.
Outro exemplo: é cada vez mais comum homens jovens apresentarem disfunções sexuais. Homens com menos de 40 anos de idade, e até mesmo jovens adultos com menos de 30 anos, têm se queixado cada vez mais de impotência sexual. Ao que tudo indica, isso está associado ao consumo de pornografia. Novamente: constrói-se um padrão e expectativa absolutamente fantasiosos do que é a vida (neste caso, a relação sexual). Quando se encontra o mundo real (a relação sexual real), esse mundo não se compara às expectativas previamente construídas. Resultado: frustração.
Algo semelhante pode ser dito a respeito de grandes profissionais que estampam capas de revistas de negócios, vídeos motivacionais e biografias mundo afora. Há uma glamourização da vida profissional que se assemelha ao artificial odor de celebridades do Instagram. Perfis igualmente editados, a fim de transparecer uma estética que simplesmente não corresponde à realidade do dia-a-dia dentro das empresas.
Ao espelhar-se nesses modelos de sucesso, construímos padrões totalmente fictícios e quase delirantes do que devemos – ou não – perseguir em nossas vidas profissionais. Esta é uma reclamação que ouço, reiteradamente, de gestores de recursos humanos: “Os jovens chegam com uma expectativa irreal do que é trabalhar dentro de uma empresa”. Infelizmente o foco de muita gente é perseguir ideais fantasiosos. Ideais espelhados em perfis glamourizados e superficialmente cosméticos de celebridades e popstarsempresariais. Ideais, em essência, fictícios.
“Sucesso, afinal, nada mais é do que comprometimento com quem somos, a fim de nos tornarmos, amanhã, uma melhor versão de nós mesmos.”
Foco, palavra comum nos dias de hoje, é um nome rebuscado para um processo neurocognitivo chamado “atenção”. Atenção é o processo de dedicar de energia a um estímulo. Grande parte do que somos é resultado daquilo a que prestamos atenção, e isso inclui nossos ideais e aspirações. Não é necessário ser cientista para saber que energia é um recurso limitado. A energia que desperdiçamos ao perseguir ideais de perfeição inatingíveis é a mesma energia que deixamos de investir em objetivos racionais, alinhados aos recursos que de fato estão ao nosso alcance.
Isso não significa ser conformista, passivo ou contentar-se com pouco. Ousar é fundamental para o crescimento pessoal e profissional. Mas ousar sem conhecimento é idiotice. Perseguir ideais fantasiosos é um perfeito exemplo de ousadia desprovida de conhecimento. Isso é verdade nas relações, na vida pessoal e profissional, ou em qualquer outra dimensão da existência humana. É fundamental não nos relegarmos à passividade. No entanto, é igualmente fundamental evitar a distorção da realidade nessa busca por atender expectativas absurdas. Essa é, como vimos, uma ótima receita para a frustração.
Meu desejo é que você, leitor, encontre em seus perfis, nas redes sociais e fora delas, uma identidade fiel ao conhecimento que você tem de si mesmo. Desejo, também, que esse conhecimento seja mais claro, maior e mais completo a cada dia. Sucesso, afinal, nada mais é do que comprometimento com quem somos, a fim de nos tornarmos, amanhã, uma melhor versão de nós mesmos.
Este, então, é meu perfil no LinkedIn. Onde dividirei com vocês ideias sobre as relações entre mente, cérebro e comportamento. Onde escrevo com o desejo de estabelecer conexões com pessoas em uma mútua relação de enriquecimento intelectual. Talvez seja uma expectativa otimista. Mas, como disse Bernanos, se o otimista é um imbecil feliz, então o pessimista nada mais é do que um imbecil infeliz.
Fonte:https://pt.linkedin.com/pulse/perfis-dentro-e-fora-das-redes-sociais-pedro-calabrez