SOMOS TODOS CUIDADORES - CRISTIANE T. POMERANZ

Somos todos cuidadores



Elza sempre foi cuidadora e hoje precisa de cuidados. Hoje ela recebe o que ontem entregava, e desta maneira a vida segue entre cuidados e cuidadores, tempestade e escuridão, calmaria e novos horizontes como possibilidades.*
Faz noventa anos que Elza nasceu e nos braços da sua mãe recebeu os primeiros cuidados que garantiram a ela o direito de viver. Nossa sobrevivência neste mundo, só é possível se formos cuidados por alguém e mesmo assim, curiosamente, há quem pense que somos suficientes quando sós. Grande ilusão. Faz noventa anos que Elza recebeu, através da atenção de sua mãe, toda condição que precisava para crescer e se desenvolver. Seu choro era forte, o que lhe garantia uma imediata dedicação, que neste caso, era repleta de um carinho refletido, futuramente, durante todo seu percurso desses noventa anos de idade.
Elza, com o amor que aprendeu com os pais, constituiu sua família demonstrando ao longo de sua vida, uma paixão imensurável por seu marido. Deste casamento vieram dois filhos e ela se dedicou inteiramente a cuidar da casa e da prole.
E a vida segue como um rio cujo percurso sinuoso nos faz refletir sobre este vem e vai de cuidados que permeia a nossa existência.
Thomas Cole (1801–1848) foi um importante pintor inglês radicado nos Estados Unidos que fez parte da Escola do Rio Hudson, um movimento artístico que floresceu em meados do século XIX caracterizado pelo realismo e pelas pinturas de paisagens.
Em sua obra de 1836, conhecida como “O cotovelo do rio” o pintor nos entrega de presente, uma poética analogia a esta vida repleta de cuidados.
Basta pensar que o viver segue o fluxo das águas dando voltas e misturando-se com o cuidado que recebemos e que doamos ao longo da vida.
Um cuidar que é visto como um realce da nossa existência quando promove um caminho para a independência, como as cores usadas na parte direita da pintura cuja luminosidade faz nossos olhos perceber o horizonte. Este cuidar que faz naturalmente parte de nossas vidas e que nos ensina, um dia, a cuidarmos de nós mesmos, parece estar representado na pintura de Cole na área de tons opostos, claros e escuros para levar o nosso olhar a percorrer todas as plantações até o monte mais além. Este lado direito da obra nos faz cogitar um horizonte límpido para os tempos futuros conferindo que a dedicação ao outro pode ser um acalanto. Por vezes o cuidar se sucede a um viver tempestuoso como o lado esquerdo da pintura do artista. O céu violento e as nuvens escuras dominam a área selvagem da paisagem e mergulham nossos olhos num viver denso e tumultuado como o que vivemos quando o cuidar parece exigir muito mais do que nossas forças permitem.
Como estar na tempestade e ser capaz de vislumbrar o horizonte ao lado representado por Cole que nos mostra que, no vale, a tempestade por ali já passou?
Viver as dificuldades das paisagens da vida sem perder de vista a possibilidade de um viver límpido deveria ser prioridade na vida dos inúmeros cuidadores que dedicam seus dias, seus afetos e seu trabalho a um cuidar exaustivo. Em meio às paisagens selvagens é preciso achar atalhos que nos levem a campos banhados por uma luz suave, como na pintura de Thomas Cole. A Arte é o caminho, mas poucos sabem disso.
Ao envolver aqueles que precisam de cuidados com a Arte, novos caminhos poderão ser descobertos. O fazer artístico é capaz de diluir o estresse causado pelas paisagens selvagens enquanto o contato visual com a Arte é capaz de despertar sensações sufocadas por um viver pesado.
Cuidar e ser cuidados. A vida é como um rio cujas águas se misturam na busca do encontro com o mar.
Elza segue o fluxo da vida e atualmente recebe o doce cuidado de Lizete que parece compreender o ato de cuidar como um ato de amor. Pelas mãos de sua cuidadora ela recebe de volta todo afeto que semeou ao longo da vida e em meio ao esquecimento que toma conta de sua velhice, ela relembra o carinho que dedicou quando os cuidados de sua casa e família estavam em suas mãos.
Elza vive o cuidar com maestria e no atelier de Arteterapia que frequenta produz estímulo e sensações que modificam sua rotina. Entre uma pincelada e outra, que a vida possa seguir seu curso com nosso olhar focado, sempre em novos horizontes. Cultivaremos a área selvagem ou nossos desejos por uma terra cultivada pelas águas límpidas e dias claros falará mais alto?
Elza sempre foi cuidadora e hoje precisa de cuidados. Não lembra de fatos e coisas mas não esquece a sua dedicação ao outro durante toda sua existência. Hoje ela recebe o que ontem entregava, e desta maneira a vida segue entre tempestade e escuridão, calmaria e novos horizontes como possibilidades. Há noventa anos sua vida permeia o cuidado. A vida segue neste vai e vem de Elzas e Lizetes.
Ali na frente a tempestade já passou.
*Texto escrito inicialmente para o site Plug and Care.

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.
Fonte:https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/somos-todos-cuidadores-2/