A TRAGÉDIA DO SUICÍDIO ENTRE JOVENS: TAXAS NUNCA FORAM TÃO ALTAS NO MUNDO - O QUE OS JOVENS TEM A DIZER SOBRE AS ALTAS TAXAS DE MORTALIDADE NA ADOLESCÊNCIA ? OS RISCOS DO BULLYING


VIDA BREVE - A fama e suas consequências estavam na lista de angústias do DJ sueco Avicii (acima), que se matou em um hotel aos 28 anos. Abaixo (da esq. para a dir.), o escritor Heringer, morto aos 29, o ator Salling, aos 35, e os garotos Higor, 15, e Gabriel, 13, adolescentes atraídos pelo apelo do suicídio disseminado em redes sociais (Dimitrios Kambouris/Getty Images - Renato Parada - Ichard Shotwell/Invision/AP)

A tragédia do suicídio entre jovens: taxas nunca foram tão altas


Por Fernando Molica e Luisa Bustamante
16 jun 2018, 06h00




No Brasil e nos EUA, a faixa etária da população que registra significativo aumento nesse tipo de ocorrência é a daqueles que mal começaram a vida

Em questão de poucos dias neste mês, dois americanos mundialmente conhecidos se suicidaram, ambos por enforcamento. A estilista Kate Spade, de 55 anos, se matou em seu apartamento em Nova York. O chef Anthony Bourdain, de 61, num quarto de hotel na França. Com isso, o assunto, em geral murmurado, causou alarido no noticiário, nas conversas e nas redes sociais. No mundo todo, 800 000 pessoas se suicidam por ano, uma a cada quarenta segundos. É uma tragédia, mas tem um aspecto ainda mais dramático: as taxas de suicídio entre os jovens são mais altas do que nunca.

Nos Estados Unidos, a taxa de mortalidade por suicídio aumentou mais entre os 15 e os 24 anos do que em qualquer outra faixa etária: 20% entre 2011 e 2016 — o suicídio é agora a terceira maior causa de óbito nesse segmento. No Brasil, dados do Ministério da Saúde revelam que, entre jovens de 15 a 19 anos, o suicídio teve um aumento igual, de 20%, e no mesmo período. Aqui, a decisão de tirar a própria vida já é a quarta causa mais frequente de morte entre jovens. Em um terço dos países do mundo, entre eles Japão e Coreia do Sul, suicidar-se é a causa mortis mais comum entre meninos e meninas.

Fonte:https://veja.abril.com.br/saude/a-tragedia-do-suicidio-entre-jovens-taxas-nunca-foram-tao-altas/

A tragédia do suicídio juvenil

20/04/17 - 19h00

O desejo de tirar a própria vida encontra na era digital uma nova forma de se propagar. Jogo da Baleia Azul, série “13 Reasons Why” e casal encontrado morto em São Paulo mostram por que é preciso quebrar o silêncio em torno do problema

A tragédia do suicídio juvenil
Silenciosa e repentina. Assim foi a morte da adolescente Maria de Fátima da Silva Oliveira, de 16 anos, na cidade de Vila Rica, a 800 quilômetros de Cuiabá, Mato Grosso. Eram 3h30 da terça-feira 11 quando a jovem começou a caminhar pelas ruas do bairro Inconfidentes. Ao notarem o sumiço da garota, os pais mobilizaram vizinhos e a polícia local para encontrá-la. Mas a principal informação para localizar a menina viria do namorado. Na delegacia, ele revelou que ela gostaria de morrer afogada. As equipes de buscas foram, então, enviadas para uma lagoa na região central da cidade. Às 14 horas, os policiais retiraram o corpo de Maria de Fátima do fundo da represa. “O mundo desabou sobre nós”, disse à ISTOÉ Raimundo Oliveira, pai da jovem. O caso, que está sob investigação, é um dos que se espalharam pelo País, motivado pela participação de jovens no jogo de automutilação Baleia Azul. O drama do suicídio de crianças e jovens no Brasil também veio à tona com a morte de um casal no hotel de luxo Maksoud Plaza, em São Paulo. A estudante Kaena Novaes Maciel, de 18 anos, encontrada morta no domingo 16 com o namorado Luis Fernando Hauy Kafrune, de 19 anos, teria assistido à série 13 Reasons Why, lançada há menos de um mês na Netflix, – que tem como tema a trama de uma garota de 17 anos que se mata após ser vítima de bullying, assédio e estupro na escola. Apesar disso, o problema continua negligenciado para boa parte da população. “Trata-se de uma questão de saúde que precisa ser trabalhada: a sociedade precisa produzir uma narrativa de valorização da vida e não apenas espalhar o pânico”, afirma Thiago Tavares, presidente da ONG Safer Net.

INDÍCIOS A jovem Maria de Fátima, 16 anos, apresentou irritabilidade antes de cometer suicídio na lagoa de Vila Rica (MT). No detalhe, desenhos de baleia feitos à faca marcam corpos dos participantes do jogo
INDÍCIOS A jovem Maria de Fátima, 16 anos, apresentou irritabilidade antes de cometer suicídio na lagoa de Vila Rica (MT). No detalhe, desenhos de baleia feitos à faca marcam corpos dos participantes do jogo


“Muitas vezes, a principal motivação de um suicídio não é acabar com a vida, mas dar valor à existência, buscar vingança, ser valorizado por um desafeto ou enviar uma mensagem a alguém”Neury José Botega, especialista da Unicamp e assessor da OMS











Nos últimos dias, uma sequência de suicídios vem ocorrendo em diferentes cidades do País. Além do Mato Grosso, foram registrados casos semelhantes no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Paraíba e Paraná. Segundo o secretário de saúde de Curitiba, João Carlos Baracho, ocorreram oito tentativas na cidade, todas com sinais de automutilação e cinco com ingestão de medicamentos. “Foram quatro ocorrências na mesma noite, fugiu completamente do padrão”, diz. Em todos os estados, as mortes estão associadas ao jogo da Baleia Azul, que consiste em 50 desafios diários enviados pelas redes sociais por um curador. As tarefas vão desde atividades simples, como desenhar uma baleia em um papel ou assistir sozinho a um filme de terror, até coisas mais agressivas, como cortar os lábios e perfurar a palma da mão. Quando deixa de cumprir as ordens, o participante é ameaçado pelo administrador. Na etapa final, o jogador deve se matar. No Mato Grosso, o delegado André Rigonato afirma que Maria de Fátima deixou cartas com uma lista do que deveria fazer, atividades como se despedir de amigos e apagar mensagens no celular. “Ela tinha cortes pelo corpo e vinha agindo de forma diferente”, diz. Até agora, as autoridades não apontaram responsáveis pelos crimes

Causas do problema
Na medida em que eclode o assunto do suicídio, do qual pouco se fala, seja pela dificuldade em lidar com o tema, seja pelo medo de que possa desencadear novos casos, surge a dúvida: por que um jovem tiraria a própria vida? Fala-se sobre a crise da adolescência ou sobre uma possível tentativa de chamar a atenção. As causas, porém, são mais complexas do que julgamentos levianos. Podem ter relação com possíveis quadros psiquiátricos, como depressão e bipolaridade. “Cerca de 97% das pessoas que se suicidam têm alg
um transtorno mental”, afirma o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, superintendente técnico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Estão, ainda, ligadas ao grau de desenvolvimento referente a essa etapa da vida. “Não há maturidade emocional e neurofisiológica nem bagagem para lidar com algumas experiências ”, diz Neury José Botega, especialista em prevenção ao suicídio, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e assessor da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo a psicóloga e suicidologista Karen Scavacini, o cérebro só termina de se desenvolver aos 21 anos. Isso faz com que haja dificuldade em distinguir e encarar as emoções. “Há um comportamento mais impulsivo e agressivo e a busca por satisfação a curto prazo.”

DRAMA Jovens de São Paulo se matam em hotel de luxo e polícia investiga pacto de morte. Luís Fernando teria atirado na namorada Kaena e se suicidado em seguida
DRAMA Jovens de São Paulo se matam em hotel de luxo e polícia investiga pacto de morte. Luís Fernando teria atirado na namorada Kaena e se suicidado em seguida

“O jogo começou como uma notícia falsa que ganhou força na Rússia e nos EUA e se propagou pelo mundo, baseado 
na exploração de quem possui vulnerabilidade emocional”
 Thiago Tavares, presidente da Safer Net Brasil
Desde que encontrou nas plataformas digitais meios para a rápida propagação, o suicídio adquiriu novas proporções. No jogo Baleia Azul, por exemplo, capturam-se facilmente pessoas com certa vulnerabilidade emocional em fóruns e grupos de internet. “Há jovens com depressão, passando por dificuldades, até curiosos que entram e podem ou não dar conta do que acontecerá”, afirma Karen. Os jogos têm um grande poder de envolvimento, sobretudo, para aqueles que sentem não pertencer a nenhum lugar. Nesse caso, caracteriza-se como crime de indução ao suicídio. A morte do casal no hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, também ganhou repercussão por revelar um possível pacto de morte. Segundo o delegado Gilmar Pasquini Contrera, titular do 5º Distrito Policial, Luis Fernando teria atirado em Kaena, com a arma que pertencia ao padrasto dela, e em seguida se suicidado. Foram apreendidos celulares, diários, agendas e papéis dos estudantes com menções ao suicídio.
A polêmica série da netflix
Por que o seriado “13 Reasons Why” pode contribuir, segundo psiquiatras, com o aumento dos casos de suicídio entre jovens
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Nas últimas semanas, a série “13 Reasons Why”, que tem como história central a vida de Hannah Baker, uma garota de 17 anos que decide se matar após ser vítima de bullying, isolamento, assédio sexual e estupro na escola em que estuda, vem gerando preocupação e crítica de especialistas. “Pessoas em situação de risco deveriam ser desencorajadas a assistir a série”, afirmou Luís Fernando Tófoli, psiquiatra da Unicamp. “Há um consenso de que o fenômeno sofre contágio pela mídia e de que há maneiras pelas quais ele não deva ser retratado.” Isso porque, no seriado, é revelada a forma como a jovem tira a própria vida e, além disso, ela grava 13 fitas explicando as razões e apontando as pessoas que a levaram a praticar o ato.
Ameaça e prevenção
A segurança A. P., 39 anos, de Lages (SC), vivenciou a experiência de ter o filho de 15 ameaçado. O rapaz entrou em uma página de Facebook sobre o jogo e, depois, migrou para um grupo de Whatsapp. Logo que começou a receber as ordens, passou a apresentar mudanças de comportamento. Quando soube do envolvimento do menino com o Baleia Azul, ouviu dele que, se não se matasse, algo de ruim iria acontecer com ela. Internado depois de duas tentativas de suicídio por intoxicação, o jovem se recupera acompanhado da mãe, ainda preocupada com o futuro. “Minhas mãos estão geladas, tenho medo do que possa acontecer.” Para ela, o ponto principal da discussão não é o jogo, mas a necessidade de os pais prestarem atenção na vida das crianças. “Outros jogos virão. O que devemos é cuidar dos nossos filhos, levar a um psiquiatra, se for preciso. Só isso conseguirá evitar novas mortes.” O conselho da coordenadora do colégio Mater Dei, em São Paulo, Erica Mantonvani, aos pais que a procuram para pedir orientação sobre a disseminação do jogo Baleia Azul é “deixem a porta aberta.” Ela se refere a um canal de diálogo com os filhos sobre o tema, sem fugir de assuntos, por mais espinhosos que sejam. “O que afasta nossos adolescentes das coisas perigosas é a informação. Temos a falsa ideia de que, se falarmos muito, podemos aguçar a curiosidade. Pelo contrário, vamos protegê-los.”
Drama silencioso
O tabu em torno do suicídio esconde um alto crescimento de casos entre jovens de 10 a 19 anos
40% Foi a taxa de crescimento de casos de suicídio no Brasil em 10 anos na faixa de 10 a 14 anos
33,5% Foi o aumento do índice entre adolescentes de 15 a 19 anos
434 Tentativas de suicídio, em média, acontecem por dia no Brasil
Jovens brasileiros até 18 anos tiram a vida, em média, por dia no mundo o que dizem as pesquisas
7,3% De todas as mortes de jovens são decorrentes de suicídio, atrás somente de acidentes de trânsito e à frente do número de mortes por Aids
90%  Das pessoas de 15 a 24 anos que se matam têm algum problema mental ou de comportamento, como depressão ou ansiedade
Em cada 5 jovens que tentam se suicidar dão sinais claros do que pretendem fazer
Perceba os sinais
Crianças e adolescentes podem dar indícios de que precisam de ajuda. Não significa necessariamente que eles vão cometer suicídio, mas mostra a necessidade de se abrir um canal de diálogo. Pais, professores e amigos devem ficar atentos se o jovem
  • Apresentar mudanças em sua personalidade
  • Agir de maneira muito ansiosa e agitada ou se mostrar deprimido
  • Tiver uma queda no desempenho escolar
  • Perder interesse em atividades que sempre gostou de realizar
  • Se isolar, se afastar da família e dos amigos
  • Fazer comentários autodepreciativos frequentemente
  • Se mostrar desesperançoso sobre o futuro, falar da vida de maneira sempre negativa
  • Falar sobre a morte, sobre pessoas que morreram, mostrar interesse no assunto
  • Falar de maneira clara ou implícita que tem vontade de morrer

Como ajudar
  • Chame o jovem para um lugar tranquilo e calmo e pergunte o que ele está sentindo
  • Tente não fazer julgamentos e cobranças ou dar conselhos que se baseiem na sua própria experiência. Não diminua o problema dele
  • Se a conversa se desenrolar, é importante perguntar se ele já pensou em suicídio
  • Conduza a pessoa na busca por ajuda profissional. Ela pode não conseguir tomar essa iniciativa sozinha, então é importante marcar uma consulta e se oferecer para acompanhá-la

Para ajuda imediata
CVV – Centro de Valorização da Vida
A organização trabalha com a prevenção do suicídio e oferece atendimento 24 horas pela internet, no sitewww.cvv.com.br, e pelo telefone 141 (custo de uma ligação local. No Rio Grande do Sul a ligação é gratuita para o número 188)
Fonte:ttps://istoe.com.br/tragedia-suicidio-juvenil/


09.09 dadossuicidio9 de setembro de 2016 - O dia 10 de setembro é marcado pelo Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, grave problema de saúde pública responsável por uma morte a cada 40 segundos. A Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) reconhece o suicídio e as tentativas de suicídio como uma prioridade na agenda global de saúde e incentiva os países a desenvolverem e reforçarem suas estratégias de prevenção com uma abordagem multisetorial, quebrando os estigmas e tabus que existem sobre o assunto. Confira mais informações sobre o tema.
Principais fatos
• Mais de 800.000 pessoas morrem por suicídio todos os anos.
• Para cada suicídio, há muito mais pessoas que tentam o suicídio a cada ano. A tentativa prévia é o fator de risco mais importante para o suicídio na população em geral.
• O suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos.
• 75% dos suicídios no mundo ocorrem em países de baixa e média renda.
• Ingestão de pesticida, enforcamento e armas de fogo estão entre os métodos mais comuns de suicídio em nível global.
Introdução
A cada ano, mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida e um número ainda maior de indivíduos tenta suicídio. Cada suicídio é uma tragédia que afeta famílias, comunidades e países inteiros e tem efeitos duradouros sobre as pessoas deixadas para trás. O suicídio ocorre durante todo o curso de vida e foi a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo no ano de 2012.
O suicídio não ocorre apenas em países de alta renda, sendo um fenômeno em todas as regiões do mundo. De fato, 75% dos suicídios ocorreram em países de baixa e média renda em 2012. Trata-se de um grave problema de saúde pública; no entanto, os suicídios podem ser evitados em tempo oportuno, com base em evidências e com intervenções de baixo custo. Para uma efetiva prevenção, as respostas nacionais necessitam de uma ampla estratégia multisetorial.
Quem está em risco?
Embora a relação entre distúrbios suicidas e mentais (em particular, depressão e abuso de álcool) esteja bem estabelecida em países de alta renda, vários suicídios ocorrem de forma impulsiva em momento de crise, com um colapso na capacidade de lidar com os estresses da vida – tais como problemas financeiros, términos de relacionamento ou dores crônicas e doenças.
Além disso, o enfrentamento de conflitos, desastres, violência, abusos ou perdas e um senso de isolamento estão fortemente associados com o comportamento suicida. As taxas de suicídio também são elevadas em grupos vulneráveis que sofrem discriminação, como refugiados e migrantes; indígenas; lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais (LGBTI); e pessoas privadas de liberdade. De longe, o fator de risco mais relevante para o suicídio é a tentativa anterior.
Métodos de suicídio
Estima-se que cerca de 30% dos suicídios globais acontecem por auto-envenenamento com pesticidas, dos quais a maioria ocorre em zonas rurais de países com baixa e média renda. Outros métodos recorrentes são enforcamento e uso de armas de fogo.
O conhecimento dos métodos de suicídio mais utilizados é importante para a elaboração de estratégias de prevenção que têm se mostrado eficazes, como a restrição de acesso aos meios de suicídio.
Prevenção e controle
Suicídios são evitáveis. Há uma série de medidas que podem ser tomadas junto à população, subpopulação e em níveis individuais para prevenir o suicídio e suas tentativas, incluindo:
• Redução de acesso aos meios utilizados (por exemplo, pesticidas, armas de fogo e certas medicações);
• Cobertura responsável pelos meios de comunicação;
• Introdução de políticas para reduzir o uso nocivo do álcool;
• Identificação precoce, tratamento e cuidados de pessoas com transtornos mentais ou por uso de substâncias, dores crônicas e estresse emocional agudo;
• Formação de trabalhadores não especializados em avaliação e gerenciamento de comportamentos suicidas;
• Acompanhamento de pessoas que tentaram suicídio e prestação de apoio comunitário.
O suicídio é uma questão complexa e, por isso, os esforços de prevenção necessitam de coordenação e colaboração entre os múltiplos setores da sociedade, incluindo saúde, educação, trabalho, agricultura, negócios, justiça, lei, defesa, política e mídia. Esses esforços devem ser abrangentes e integrados, pois apenas uma abordagem não pode impactar em um tema tão complexo quanto o suicídio.
Desafios e obstáculos
Estigma e tabu
O estigma, particularmente em torno de transtornos mentais e suicídio, faz com que muitas pessoas que estão pensando em tirar suas próprias vidas ou que já tentaram suicídio não procurem ajuda e, por isso, não recebam o auxílio que necessitam. A prevenção não tem sido tratada de forma adequada devido à falta de consciência do suicídio como um grave problema de saúde pública. Em diversas sociedades, o tema é um tabu e, por isso, não é discutido abertamente. Até o momento, apenas alguns países incluíram a prevenção ao suicídio entre suas prioridades de saúde e só 28 países relatam possuir uma estratégia nacional para isso.
Sensibilizar a comunidade e quebrar o tabu são ações importantes aos países para alcançar progressos na prevenção do suicídio.
Qualidade dos dados
Em todo o mundo, a disponibilidade e a qualidade dos dados sobre suicídio e tentativas de suicídio são baixas. Apenas 60 Estados-Membros possuem registros vitais de boa qualidade que podem ser usados diretamente para estimar taxas de suicídio. Esse problema de dados sobre mortalidade de baixa qualidade não é exclusivo ao suicídio, mas dada a sensibilidade do assunto – e a ilegalidade do comportamento sucedida em alguns países – é provável que a subnotificação e a má classificação sejam maiores problemas para o suicídio do que para a maioria das outras causas de morte.
A melhoria na vigilância e monitoramento do suicídio e das tentativas de suicídio é necessária para efetivas estratégias de prevenção. Diferenças entre os países nos padrões de suicídio e as mudanças nas taxas, características e métodos destacam a necessidade de cada país melhorar a abrangência, a qualidade e a resposta precoce de suas taxas relacionadas ao suicídio. Isso inclui o registro vital do suicídio, registros hospitalares de tentativas de suicídio e inquéritos nacionalmente representativos que coletem informações das tentativas de suicídio auto relatadas.
Resposta da OMS
A OMS reconhece o suicídio como uma prioridade de saúde pública. O primeiro relatório sobre suicídio no mundo da OMS Prevenção do suicídio: um imperativo global, publicado em 2014, tem como objetivo conscientizar sobre a importância do suicídio e das tentativas de suicídio para a saúde pública e fazer da prevenção uma alta prioridade na agenda global de saúde pública. O documento também incentiva e apoia os países a desenvolverem ou reforçarem estratégias de prevenção ao suicídio em uma abordagem de saúde pública multisetorial.
O suicídio é uma das condições prioritárias do “Mental Health Gap Action Programme (mhGAP)” (programa de saúde mental da OMS), que fornece aos países orientação técnica baseada em evidências para ampliar a prestação de serviços e cuidados para transtornos mentais e de uso de substâncias. No Plano de Ação de Saúde Mental 2013-2020, os Estados-Membros da OMS se comprometeram a trabalhar o objetivo global de reduzir as taxas de suicídios dos países em 10% até 2020.
Fonte:https://www.paho.org/bra.../index.php?option=com_content&view=article&id=5221:grave-problema-de-saude-publica-suicidio-e-responsavel-por-uma-morte-a-cada-40-segundos-no-mundo&Itemid=839

Fonte:https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2013/06/1292216-para-cineasta-que-fez-filme-sobre-suicidio-da-irma-desinformacao-leva-a-tragedia.shtml



Saiba o que fazer se alguém falar sobre cometer suicídio


Confira orientações do Manual para Profissionais da Saúde em Atenção Primária, da Organização Mundial de Saúde

O que fazer se alguém falar sobre cometer suicídio
- Ouvir atentamente, ficar calmo.
- Entender os sentimentos da pessoa (empatia).
- Dar mensagens não verbais de aceitação e respeito.
- Expressar respeito pelas opiniões e valores da pessoa.
- Conversar honestamente e com autenticidade.
- Mostrar sua preocupação, cuidado e afeição.
- Focalizar nos sentimentos da pessoa.
O que não fazer se alguém falar sobre cometer suicídio
- Interromper muito frequentemente.
- Ficar chocado ou muito emocionado.
- Dizer que você está ocupado.
- Tratar o paciente de maneira que o coloca numa posição de inferioridade.
- Fazer comentários invasivos e pouco claros.
- Fazer perguntas indiscretas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo, e pelo menos 800 mil tiram a própria vida a cada ano. Ou seja, uma a cada 40 segundos.

Confira os principais indícios da depressão em crianças, adolescentes e adultos:
Crianças
- Choro fácil.
- Pensamento negativo.
- Lapsos de memória.
- Pensamentos catastróficos.
- Baixa autoestima.
- Disfunção alimentar. 
- Desregulação do sono.
- Dificuldades de interação.
Adolescentes
- Mentiras e infrações compensatórias.
- Ausência nas aulas.
- Provocação aos professores e outras figuras de autoridades.
- Baixo limiar/frustração.
- Dificuldades para ouvir não.
- Automutilação.
- Colocar-se em situações de risco.
- Isolamento.
- Mudança abrupta de comportamento.
Adultos 
- Sentir-se triste, durante a maior parte do dia, quase todos os dias.
- Perder o prazer ou o interesse em atividades rotineiras.
- Irritabilidade. 
- Desesperança.
- Queda da libido.
- Disfunção alimentar e do sono (perda ou aumento de peso).
- Sensação de cansaço e fraqueza o tempo todo.
- Baixa autoestima.
- Ansiedade excessiva.
- Dificuldade de concentração, de tomar decisões e de memória.
- Pensamentos frequentes de morte e suicídio.
Fonte:http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/geral/joinville/noticia/2017/06/saiba-o-que-fazer-se-alguem-falar-sobre-cometer-suicidio-9807106.html

Suicídio é segunda causa de morte em jovens adultos


De acordo com a Organização Mundial de Saúde mais de 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos. E para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas. Para assinalar a data, instituída em 2003, que alerta para aquele que é já considerado um importante problema de Saúde Pública, a psiquiatra Ana Peixinho descreve os fatores de risco e destaca alguns sinais de alarme.
Todos os anos mais de 800 mil pessoas põem termo à vida e um número muito superior faz tentativas de suicídio.
Cada suicídio é uma tragédia que afeta a família e a comunidade com efeitos a longo prazo em quem vive de perto com esta realidade. O suicídio surge em qualquer faixa etária sendo a segunda causa de morte na faixa etária dos 15 aos 29 anos (2012), só ultrapassada pelos acidentes rodoviários. A partir dos 70 anos, verifica-se um aumento significativo na taxa de suicídio, que triplica o seu valor.
O suicídio não ocorre exclusivamente em países desenvolvidos, mas é um fenómeno global que ocorre em todas as regiões do mundo. De facto, 75% dos suicídios ocorre em países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento (2012).
Em Portugal, a taxa de mortalidade por suicídio em 2014 foi de 11,7 por 100 mil habitantes, enquanto em 2012 e 2013 foi de 10,1, por 100 mil habitantes.
Os homens apresentam uma taxa de suicídio três vezes superior.
Existe ainda uma distribuição geográfica marcada no suicídio, que é tradicionalmente menor no Norte e maior na região Sul, embora esta variação tenha vindo a atenuar-se.
Por tudo isto, o suicídio é considerado um importante problema de Saúde Pública, que pode ser prevenido com intervenções multidisciplinares adequadas, baseadas na evidência e, habitualmente, pouco dispendiosas.
Quem está em risco?
O risco entre suicídio e doença mental (particularmente Síndrome Depressivo e Perturbação do Uso de Álcool) está bem estabelecido nos países desenvolvidos. No entanto, muitos suicídios decorrem de situações de impulsividade em momentos de crise com dificuldade em lidar com fatores stressantes externos, como dificuldades financeiras, roturas conjugais ou dor e doença crónicas.
Por outro lado, situações de conflito, catástrofes, violência, abuso ou luto e o próprio isolamento social estão fortemente associados a comportamentos suicidários.
As taxas de suicídio são superiores em grupos vulneráveis, como refugiados e populações migrantes, indigentes, homossexuais, bissexuais, transsexuais e presos.
No entanto o maior fator de risco para suicídio é uma tentativa prévia.
Métodos de suicídio
Calcula-se que cerca de 30% dos suicídios se devem a auto-envenenamento com pesticidas, a maioria dos quais ocorre em zonas rurais de países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Outros métodos frequentes são o enforcamento e a utilização de armas de fogo.
É importante reconhecer os métodos mais utilizados para definir estratégias de prevenção eficazes ao seu acesso.
Prevenção e controlo
A prevenção do suicídio engloba medidas a nível comunitário e individual que incluem:
- Redução do acesso aos meios de suicídio (pesticidas, armas de fogo e algumas medicações)
- Introdução de políticas de consumo de álcool que reduzam o seu consumo lesivo
- Identificação precoce, tratamento e prestação de cuidados aos indivíduos com Doença Mental e Perturbação do Uso de Álcool, dor crónica e episódios de stress emocional agudo
- Follow up dos indivíduos que fizeram tentativas de suicídio prévias e disponibilização de apoio comunitário
O suicídio é um tema complexo e as medidas para a sua prevenção requerem coordenação e colaboração entre vários sectores sociais incluindo saúde, educação, agricultura, finanças, justiça e defesa.
Estigma e tabu
O estigma, particularmente em redor da Doença Mental e do Suicídio, faz com que muitas pessoas que pensam pôr termo à vida ou que já o tentaram não procurem ajuda especializada.
A prevenção do suicídio não tem sido adequadamente conduzida devido à falta de consciência do suicídio como um grave problema de saúde pública e do tabu em várias sociedades para o discutirem. Até à data só alguns países incluíram a prevenção do suicídio nas suas prioridades de políticas de saúde.
Aumentar a consciência da comunidade e acabar com o tabu é fundamental para progredir na prevenção do Suicídio.
Fatores de Risco: Características que predispõem um individuo a considerar, tentar ou cometer suicídio
-  Tentativas de Suicídio prévias
-  História de Suicídio na família
-  Abuso de Substâncias
-  Perturbações de Humor (Síndrome Depressivo, Doença Bipolar)
-   Acesso facilitado a métodos letais
-   Fatores Stressantes Externos (dificuldades financeiras, roturas conjugais, catástrofes, violência, luto…)
-  História de trauma ou abuso
-  Doença crónica, incluindo dor crónica
-  Exposição ao comportamento suicidário de terceiros
Fatores protetores: Características que diminuem a probabilidade de um individuo considerar, tentar ou consumar o suicídio
- Acompanhamento em Saúde Mental, fácil acesso a diferentes intervenções clínicas
- Relações estruturadas de amizade, familiares e comunitárias
- Capacidade de resolução de problemas e conflitos
- Fácil acesso aos cuidadores (ex: chamada telefónica de follow up do profissional de saúde)
Sinais de alarme: indicam risco imediato de cometer suicídio.
- Falar ou escrever frequentemente sobre morte, morrer ou suicídio
- Fazer comentários de desesperança e culpabilidade
- Utilização de expressões que evidenciam falta de motivação para viver (ex: “era melhor se não estivesse aqui”, “quero acabar com isto”…)
- Aumento do consumo de álcool ou drogas
- Isolamento social
- Comportamentos imprudentes ou de risco
- Alterações bruscas de humor
- Falar em se sentir aprisionado ou em ser um peso para os outros
Se alguém dá indícios de quer cometer suicídio, oiça e tenha em conta as suas preocupações. Não tenha receio em fazer perguntas sobre os seus planos. Mostre-lhe que se preocupa e que essa pessoa não está sozinha. Encoraje-a  a procurar ajuda profissional imediatamente. Não a deixe sozinha.

Ana Peixinho - Psiquiatra - Coordenadora da Unidade de Psiquiatria e Psicologia - Hospital Lusíadas Lisboa

Fonte:http://www.atlasdasaude.pt/publico/content/suicidio-e-segunda-causa-de-morte-em-jovens-adultos

Cena do documentário 'Elena', de Petra Costa (foto); diretora refaz trajetória da irmã, que se matou em 1990, aos 20 anos

O que os jovens têm a dizer sobre as altas taxas de mortalidade na adolescência?

What do teenagers have to say about the high rates of mortality in adolescence?

Imaginario v.11 n.11 São Paulo dez. 2005



Cláudia Fernanda Rodriguez*; Maria Julia Kovács**
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo



RESUMO
Este trabalho buscou compreender como os adolescentes percebem e relacionam-se com o tema da morte e também verificar como explicam as altas taxas de mortalidade na sua faixa etária. Essa reflexão é relevante e fundamental, uma vez que as estatísticas mostram dados alarmantes sobre o aumento da mortalidade entre adolescentes, principalmente as mortes relacionadas com acidentes e as violentas. Participaram dessa pesquisa adolescentes do Ensino Fundamental e Médio de duas escolas da cidade de São Paulo. Foi exibido o vídeo “Falando de morte com o adolescente” (do Laboratório de Estudos sobre a Morte do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo), e foram propostas discussões com eles. De modo geral, os jovens não percebem a morte como possibilidade pessoal, expressando sentimentos de imortalidade e onipotência. Algumas das hipóteses sobre os altos índices de mortalidade na adolescência foram: uso de drogas; violência; banalização da morte; situações sociais desfavoráveis; AIDS; falta de emprego e falta de perspectivas para o futuro; suicídios; dificuldade na comunicação com profissionais, amigos e familiares; dificuldades para expressar seus sentimentos e pedidos de ajuda; acidentes; falta de limites e a postura para desafiar o mundo; más influências e não-imposição de responsabilidade pela sociedade.
Palavras chave: Adolescência, Taxa de mortalidade, Educação em relação à morte.

ABSTRACT
This work has investigated how adolescents perceive and deal with death, and also it has verified how they can explain the high mortality rates in their age group. This is a relevant and fundamental reflection, because statistics indicates an astonishing data about the increase of mortality among adolescents, mainly deaths related to accidents and violent ones. Teenagers (14 – 17 years old) from two schools in the city of São Paulo had participated in this study. The video “Talking about death to the adolescent” (Laboratory of Death Studies of the Institute of Psychology of University of São Paulo) was shown and discussed with the adolescents. As a general rule, teenagers consider that death is something impossible for happening to them, expressing, in this way, feelings of immortality and omnipotence. Some of the hypothesis about the high mortality rates in adolescence were: the use of drugs; violence; the banalization of death; unfavourable social situations; AIDS; unemployment and lack of perspectives of the future; suicide; difficulty in communicating with professionals, friends and family; difficulty in expressing feelings and help requests; accidents; lack of limits, and the attitude of challenging the world; bad influences and the non-imposition of responsibility by society.
Keywords: Adolescence, Mortality rate, Death education.



Introdução
Atualmente, com a expectativa de vida elevada e com o avanço das técnicas médicas, as mortes de jovens devem ser consideradas “perdas injustificadas”. Porém, as estatísticas mostram dados alarmantes sobre o aumento da mortalidade entre adolescentes, principalmente as mortes relacionadas com acidentes e as violentas. Cabe aqui uma reflexão: qual a opinião dos próprios adolescentes sobre essas taxas?
Segundo o IBGE, que divulgou recentemente a Síntese dos Indicadores Sociais 2000, um levantamento revela as mudanças que ocorreram no país na década de 90: a violência urbana é responsável por 68% das mortes de jovens. A proporção de mortes por causas violentas (homicídios, suicídios e acidentes de trânsito) entre os adolescentes do sexo masculino vem aumentando na faixa etária entre 15 e 19 anos que corresponde a 75% dos óbitos decorrentes de causas violentas. Carvalho (2002) aponta que esses homicídios estão, na maioria das vezes, relacionados com o uso de drogas e com a luta entre gangues.
Barros; Lima & Ximenes (2001) analisaram o grupo de crianças e adolescentes (de 0 a 19 anos) residente no Recife, no período de 1979 a 1995, e os coeficientes de mortalidade por causas externas mostraram crescimento principalmente por homicídios entre os adolescentes. Em 1995, mais de 90% foram por armas de fogo, reconhecendo-se a magnitude da violência na população infanto-juvenil como um grave problema de saúde pública dentro da realidade brasileira atual. Nesse estudo, assim como na maioria, houve o predomínio do sexo masculino na mortalidade por causas externas. Esse aumento é justificado por uma maior exposição desse grupo a fatores de risco individuais como consumo de álcool, fumo e/ou outras drogas, uso de arma de fogo etc.
Goldberg, Iyda & Lyra (1996) observaram altos índices de mortalidade no grupo masculino entre 15 e 19 anos, predominando as causas externas de mortalidade, principalmente acidentes de trânsito, asfixia por afogamento e ferimentos por arma de fogo. Os afogamentos equiparam-se aos acidentes de trânsito. A explicação levantada foi a de que os adolescentes normalmente se consideram invulneráveis e onipotentes.
Cardia (2003) aponta que o homicídio de jovens relaciona-se com a escassez de fatores de proteção e com áreas onde há grande concentração de pessoas nessa faixa etária. Assim, os homicídios de adolescentes têm relação com a superposição de carências e a ampliação da desigualdade de direitos referentes à educação, à saúde, à moradia e ao trabalho. Observa-se, nessas áreas, baixa escolaridade, bem como escolas que não estimulam os jovens ao conhecimento, baixa renda, baixos índices de emprego, casas precárias, habitações com vários núcleos familiares gerando tensão, pouco acesso a rede de esgotos e a leitos hospitalares, ruas sem asfalto e iluminação, poucas áreas de lazer etc. Além disso, a referida autora aponta que a alta competição entre os moradores dessas áreas pelos recursos escassos impedem a integração social entre os indivíduos. Uma alternativa apontada seria o investimento em atividades de lazer, cultura e esporte que poderia influenciar no desenvolvimento físico e emocional dos adolescentes e até numa melhora do desempenho escolar. Essa ocupação do tempo dos jovens, ao oferecer novos interesses e desenvolver novas habilidades coletivamente construídas, pode influenciar no afastamento deles do consumo de drogas e do mundo do crime.
Cardia & Santos (2002) também relacionam as alterações atuais no mercado de trabalho com a ocorrência da violência. A reestruturação industrial eliminou ocupações pouco especializadas, e isso interferiu na entrada dos jovens no mercado de trabalho. Além do mais, adultos que estão desempregados há um tempo prolongado podem perder a legitimidade perante os jovens, não constituindo modelos nem do presente, nem do futuro para os adolescentes. Esse “efeito socializador negativo” do desemprego pode levar os jovens a não se submeterem às regras ou às normas sociais, pois com isso não ganhariam nada e, dessa forma, pode-se acarretar situações de violência.
Dados da UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) mostram que, entre 1991 e 2000, a taxa de homicídios na população em geral cresceu 29%, e entre jovens (de 15 a 24 anos), 48%.
Em 07 de junho de 2004, a UNESCO divulgou os dados da pesquisa “Mapa da Violência 4”1, em que se constatou que o Brasil tem a quinta maior taxa de homicídio de jovens, entre os 67 países analisados. Nesse “ranking” de violência, o Brasil só tem números menores que a Colômbia, as Ilhas Virgens, El Salvador e a Venezuela. Entre os estados brasileiros, os mais violentos são: Rio de Janeiro, em primeiro lugar, seguido por Espírito Santo, Pernambuco, Amapá e São Paulo. Os menores índices estão em Santa Catarina, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte. Além disso, a pesquisa mostra que há um número crescente de casos relacionados à violência fora das capitais e regiões metropolitanas. As hipóteses levantadas foram: expansão da economia em municípios externos às regiões metropolitanas e concentração de investimentos relacionados à segurança nas capitais.
Segundo os resultados, os homicídios e os acidentes de transportes causaram mais da metade (55,5%) das mortes de jovens brasileiros entre 15 e 24 anos, em 2002, último ano em que os dados estão disponíveis. Nessa faixa etária, 39,9% das mortes ocorridas deveram-se a homicídios, dos quais 93,8% eram homens, e 15,6%, (83,5% homens), a acidentes de trânsito, aéreo e em água. Ao avaliar os dados dos últimos dez anos, o estudo aponta um crescimento de 88,6% no número de mortes por homicídios envolvendo jovens, índice bem maior do que os 62,3% da população total.
O sociólogo da UNESCO Júlio Jacobo Waiselfisz, responsável pela pesquisa, destacou que as causas externas (que envolvem homicídios e acidentes) assumiram um registro na mortalidade juvenil que antes era ocupada por epidemias e doenças infecciosas. As armas de fogo têm uma presença forte nesses índices (31,2% das mortes juvenis, em 2002, foram causadas por armas de fogo). As mulheres normalmente são vítimas de violência doméstica, enquanto os homens sofrem violência fora de casa.
Segundo Mizne2, diretor executivo em São Paulo do Instituto “Sou da Paz”, as campanhas de desarmamento existem, mas é preciso “desarmar o espírito”, ou seja, buscar novas formas de educação na família, na escola e na sociedade.
Outro resultado importante da pesquisa da UNESCO foi o de que a taxa de mortalidade entre os jovens passou de 128 em cada grupo de 100 mil habitantes, em 1980, para 137, mesmo com a queda no registro global de mortalidade no Brasil, que passou de 633 em 100 mil habitantes, em 1980, para 573, em 2002. As taxas de homicídios entre os jovens saltaram de 30 para 54,5 em cada grupo de 100 mil no mesmo período. O crescimento do número de mortes por acidentes de transporte entre 1993 e 2002 foi de 19,5%. No entanto, entre a população jovem, esse aumento chegou a 30,5% no mesmo período.
Segundo Balthazar (2000), que analisou a mortalidade de adolescentes no Estado de São Paulo, no período de 1979 a 1995, as causas externas foram as principais causas de óbitos em todas as idades e em ambos os sexos. Os aumentos mais significantes ocorreram entre os homens de 15 a 19 anos e 20 a 24 anos. Para estes, as taxas cresceram, aproximadamente, 200% por homicídios, 400% por armas de fogo e 30% por suicídios. Para as mulheres, nessas idades, as taxas aumentaram, mais ou menos, 100% por homicídios e 200% por armas de fogo.
Segundo as estatísticas do Registro Civil de 2002, divulgadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística3), a violência é a maior causa de morte na população jovem masculina do país na faixa de 15 a 24 anos. Os dados revelam que a tendência de crescimento desse fenômeno continua. Em 2002, 70,67% das mortes da parcela masculina, nessa faixa etária, foram causadas pela violência, ou seja, ocorreram em razão das causas externas (como homicídios, acidentes de trânsito, afogamentos e suicídios), a maior taxa já apurada. Em 1990, era de 60,25%. Na população feminina, o percentual chegou a 34,14% em 2002. Em 1990, a participação das causas violentas em relação às mortes correspondeu a 28,25%.
Todas as regiões do país registraram alta de mortes causadas por violência na população masculina, exceto o Centro-Oeste, onde a incidência permaneceu elevada no período analisado (1990-2002), em torno de 20%. O pior quadro ocorre na região Sudeste, onde a violência chega a ser a causa de 79,64% das mortes dos rapazes de 15 a 24 anos. No caso das jovens, a morte por causa violenta corresponde a 39,23% do total. O Rio de Janeiro registrou o quadro mais grave, com a maior taxa de mortalidade por causa violenta, entre a população masculina de 15 a 24 anos: a cada 100 mil desse grupo, 270 morreram de causa violenta. A seguir, está o Amapá: foram contabilizados 244 óbitos por 100 mil habitantes nesse grupo. São Paulo aparece em terceiro lugar: 234 mortes violentas por 100 mil habitantes. Segundo o demógrafo da Coordenação de Indicadores Sociais do IBGE, Celso Simões, o aumento está relacionado à criminalidade associada à estagnação econômica e ao desemprego nos grandes centros urbanos e aos conflitos por terra nas áreas rurais.
Jorge Werthein, representante da UNESCO4, aponta que os jovens são a parcela da população mais vulnerável à violência em todo o mundo, mas considera como “absolutamente inaceitáveis” esses índices. Para ele, os jovens estão morrendo porque são excluídos da sociedade. Também defende a necessidade urgente de políticas públicas que integrem as atividades já existentes de inclusão e previnam a violência. Ele cita o exemplo bem-sucedido de programas que incentivam a abertura de escolas nos fins de semana para atividades esportivas, de recreação e culturais, como o Segundo Tempo do governo federal, o Escola da Família do governo estadual, entre outros. Esses programas mostram-se ainda mais importantes quando se constata a elevação dos índices de violência e acidentes nos fins de semana, principalmente em decorrência da falta de ocupação para os jovens. Essas atividades, segundo Werthein, deveriam ser associadas a uma política de emprego, com a contratação de jovens monitores nos programas culturais e esportivos dentro do projeto Primeiro Emprego. Ele ainda acrescenta que as medidas preventivas custam mais barato do que as repressivas, como a internação de jovens na Febem.
A violência, que antes era explicada pela busca por ganho material (como comida, dinheiro, carro, jóias etc.) ou entendida como instrumento de oposição ao sistema político vigente, hoje está banalizada e funciona como meio de expressão, principalmente de jovens. Segundo Levisky5, vice-presidente do Instituto São Paulo contra a Violência, esses aspectos estão relacionados à fragilidade e à transitoriedade de valores sólidos, na família ou no contexto escolar que fortaleçam a identidade dos adolescentes. É preciso incentivar a preservação de vínculos afetivos e a transmissão de valores éticos. Destaca-se a participação e o envolvimento dos pais e dos profissionais de educação. Levisky (2004) afirma que jovens, como os das gangues dos surfistas de trem, se unem pela manifestação da violência como forma de expressarem suas tensões, angústias e dizer que eles existem. Além disso, existe a banalização da violência física como forma de solução de conflitos e do jovem que precisa se auto-afirmar perante os outros.
Os pais e os educadores devem estabelecer os limites dos jovens; além disso, devem agir como mediadores a respeito de informações que os adolescentes recebem, por exemplo, pela mídia, mostrando quais são suas opiniões e seus valores em relação a determinados assuntos.
Há um grande risco de incentivar nos jovens, cada vez mais, essas tendências agressivas e criar uma insensibilidade à violência que é absorvida passivamente, em vez de despertar sentimentos de indignação. Essa indiferença está relacionada à sensação atual de que os bens de consumo e até os meios de sobrevivência financeira são descartáveis, ou seja, há uma carência de políticas públicas que incentivem projetos de vida sólidos. Com isso, gera-se uma insegurança generalizada.
Com base nesses dados, acredita-se que os óbitos por causas não naturais são, em grande parte, passíveis de prevenção. São necessários reflexão, compreensão e investimento de adultos, pais, responsáveis, profissionais de saúde e educação em relação aos adolescentes, para que se possa lidar com as peculiaridades da vida, da saúde, do adoecer e do morrer.
Além disso, esses dados mostram a importância de uma análise atenta da questão do gênero sobre os índices de mortalidade descritos. Essa vertente não foi enfatizada nessa pesquisa, mas, em trabalhos posteriores consideramos importante a exploração desse aspecto nos adolescentes.
Esses dados provocam reflexões e questionamentos investigados mais amplamente. E também nos parece muito importante saber o que jovens pensam ao se deparar com os índices de mortalidade apresentados: o que os adolescentes pensam sobre o aumento da mortalidade em sua faixa etária? Qual a razão que eles vêem para essa realidade? Como isso poderia mudar? Será que acreditam que perguntar/discutir/refletir sobre esse tema poderia diminuir os altos índices de mortalidade entre eles?
Essa pesquisa é de grande relevância para a sociedade, uma vez que se pôde ouvir a voz de jovens que compõem esse segmento da sociedade. Embora nem todos os jovens pesquisados façam parte do grupo de risco, considerando-se questões como pobreza, moradia em zona perigosa, uso de drogas, entre outros, eles foram ouvidos sobre as suas hipóteses para esses fatos. Além disso, os dados apresentados podem ter um caráter de denúncia do agravamento da situação atual de mortalidade dos jovens, e que talvez não eja vista e veiculada pelos meios de comunicação. Os jovens puderam falar sobre o alto risco envolvido em muitos dos seus comportamentos e sobre a ocorrência de mortes na adolescência, mesmo que não estivessem envolvidos nessas situações ou próximos do perfil das vítimas. Apesar disso, puderam compartilhar suas experiências e falar de suas angústias, seus temores e suas necessidades.
Com isso, buscamos possibilitar um espaço de comunicação sobre o tema da morte, podendo ampliá-lo dentro da própria rede social do adolescente, com sua família, amigos e professores, a fim de enfatizar a troca de sentimentos, experiências e informações.

Objetivos
(a) Compreender como os adolescentes do Ensino Fundamental e Médio de duas escolas da cidade de São Paulo percebem, refletem e relacionam-se com o tema da morte. (b) Verificar como esses jovens explicam as altas taxas de mortalidade na sua faixa etária.

Método
Participantes e local da pesquisa
Participaram, dessa pesquisa, adolescentes do Ensino Fundamental e Médio de duas escolas da cidade de São Paulo, das quais uma é pública e a outra, é privada. Não foi objetivo desse trabalho a caracterização sócioeconômica e geográfica da população. Acredita-se que os vários segmentos estejam representados na amostra. A relação entre o público pesquisado e os jovens vítimas de violência fatal foi estabelecida mediante discussão sobre esses dados. Ao ler e reler os encontros realizados nas duas escolas, não percebemos diferenças significativas entre as séries e entre as duas escolas. Além disso, o objetivo dessa pesquisa foi compreender como os adolescentes refletem e relacionam-se com o tema da morte e, não, apontar diferenças individuais ou descrever o contexto escolar.

Da coleta de dados
(a) Material
O material utilizado foi o vídeo “Falando de morte com o adolescente” (duração 15 minutos, versão: 2003), que faz parte do Projeto “Falando de morte” (Kovács, Esslinger, Vaiciunas, Bromberg & Marques, 1997/2004) do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM) do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Esse projeto tem como objetivo propiciar um espaço de comunicação entre crianças, adolescentes, adultos, idosos, famílias e profissionais de saúde e educação sobre o tema da morte. A comunicação e a possibilidade de troca são vistas como importantes no alívio do sofrimento.
Kovács (2003) aponta que o vídeo “Falando de morte com o adolescente” procura se adequar à linguagem do jovem, focando, principalmente, os comportamentos autodestrutivos. Um dos aspectos principais, apontado pelo material, é que o limite entre o prazer e a autodestruição é uma linha frágil que se rompe diante do exagero e da irresponsabilidade, podendo se transformar em morte. O vídeo inclui cenas de esportes radicais, perda de amigos e irmãos também adolescentes, violência, sexo, uso de drogas, transtornos alimentares, acidentes após dirigir alcoolizado, tentativas de suicídio, entre outras. Estas buscam trazer uma visão realista da situação, focalizando que o adolescente pode estar, às vezes, vulnerável, bem como o quanto a vida destes pode ser frágil. Esse material foi escolhido por ser um recurso facilitador da discussão do tema da morte e dos comportamentos autodestrutivos entre os jovens.
(b) Grupo focal com os adolescentes
Para promovermos a discussão com os adolescentes sobre o tema da morte, inspiramo-nos na modalidade denominada grupos focais. O que propusemos foi uma variante dessa estratégia. Destacamos a proposta de sua utilização em trabalhos futuros com adolescentes, pois percebemos que essa estratégia permite a eles que se percebam com seus pares, assim como possibilita uma riqueza maior de material em relação às entrevistas individuais, favorecendo a troca de experiências, de opiniões, de reflexões, de dificuldades, de dúvidas e de questionamentos entre eles.
Como forma de conhecimento sobre o que a literatura traz sobre os grupos focais, destacamos alguns autores: Silva (2003) aponta que a estratégia do grupo focal possibilita a observação de atitudes e idéias distintas em convivência, sem que se exclua nenhuma. Essa técnica de pesquisa qualitativa “pode ser utilizada no entendimento de como se formam as diferentes percepções e atitudes acerca de um fato, prática, produto ou serviço”. (Carlini-Cotrim, 1996: 286)
Essa técnica teve origem nos anos de 1930 com o desenvolvimento de intervenções não diretivas. A partir da década de 50, foi descrita como uma técnica de pesquisa utilizada por profissionais da área de marketing que visavam à criação de novos produtos para o mercado, sua avaliação e aceitação, bem como ao desenvolvimento de campanhas publicitárias. Essa modalidade de grupo passou a ser usada nas pesquisas em ciências humanas na década de 80 (Flores & Alonso, 1995).
Procedimentos
Foi estabelecido o contato com profissionais de educação das duas escolas participantes. Explicamos os temas principais da pesquisa e quais eram os nossos objetivos no contato com os adolescentes. Foi explicado aos jovens que esse estudo envolvia o tema da morte e a adolescência, tendo sido enfatizado que a participação deles era optativa. Foi feita, então, a seleção dos adolescentes que se dispuseram a participar das atividades e foram distribuídas as autorizações. Os alunos foram convidados a assistir ao vídeo “Falando de morte com o adolescente” como forma de introduzir o tema da morte para eles. Após a exibição do filme, foi aberto um espaço para as reflexões dos jovens, assim como para suas vivências e experiências atuais com o tema da morte. Os grupos foram gravados sempre que possível (com autorização dos adolescentes e responsáveis) e descritos de forma detalhada. Houve a garantia de sigilo, e os relatos não foram vinculados aos nomes reais dos alunos.

Da compreensão dos dados
O caminho possível para a compreensão dos relatos foi baseado e inspirado em algumas das propostas da análise de conteúdo, e buscou compreender criticamente o sentido das comunicações, como abordado por Bardin (1977). Essa autora propõe uma técnica que procura reduzir o amplo número de informações compreendidas numa comunicação a algumas características particulares, eixos ou categorias conceituais que permitam passar dos elementos descritivos à intensa observação e interpretação desses dados. Durante a coleta de dados, ocorreu uma construção compreensiva com os jovens sobre questões relacionadas à morte, o que permitiu uma construção de significados e sentidos (Spink, 2003).

Apresentação e compreensão dos dados
Refletindo sobre o tema da morte, o mais difícil, segundo os adolescentes, é pensar na possibilidade da perda de pessoas queridas e na impossibilidade de elaboração dessas perdas (“penso na morte das outras pessoas”“deve ser muito ruim perder os pais”“dá medo perder as pessoas que a gente gosta”). O medo de perder pessoas queridas é mais intenso do que o próprio medo de morrer. Kovács (1992) aponta que, para muitos, é pior o luto de pessoas queridas do que a própria possibilidade de morte. Podemos perceber que esse aspecto também é referido pelos jovens.
Surgiu também o medo de ser dependente de outras pessoas, por exemplo, em decorrência de acidentes. Parece que, para o jovem, esse medo é maior do que o de morrer (“Eu não tenho medo de morrer... tenho medo de ficar paraplégico, de ficar parado, eu não tenho medo de morrer, morreu, morreu, você não sofre...”). E o valor da própria vida? E o sofrimento dos amigos e familiares?
Também disseram que é triste a percepção de que jovens (não eles próprios) podem morrer sem ter vivido muitos anos que ainda tinham pela frente (“... a pessoa poderia ter feito muitas coisas”). A maioria disse que não tem medo de morrer. De forma geral, os adolescentes não percebem a morte como possibilidade pessoal. Mesmo reconhecendo que deveriam ter essa percepção, sempre acham que esta não poderia acontecer com eles (“Eu não penso na possibilidade de a morte acontecer comigo”; “A gente deveria pensar, mas eu não penso não”; “... parece que eu nunca vou morrer... eu não consigo nem imaginar”; “...isso nunca vai acontecer comigo. Aconteceu com ele? Mas isso não vai acontecer comigo”; “Tem tanta gente para isso acontecer primeiro”; “Por que justo comigo que isso iria acontecer?”). Os sentimentos de imortalidade e onipotência são expressos claramente, assim como já citado por Kovács (1992). De modo geral, a própria morte não é motivo de preocupação. Este é um aspecto sério e recorrente nos discursos dos jovens.
Foi apontada a influência direta dos meios de comunicação na vida dos jovens, principalmente da TV e dos jornais, que mostram para eles a existência de tragédias e mortes inesperadas (“... quando eu vejo na TV, nos jornais, esse monte de tragédia aí, às vezes, eu penso... eu posso estar jogando bola, vir uma bala perdida e me atingir”). Esses veículos exibem “mortes escancaradas”, violência, assassinatos, lembrando que as mortes acontecem a todo momento. Foi destacado por um aluno que as pessoas estão “se acostumando” a ver pessoas morrendo e considerando esses acontecimentos como “naturais”; só dão valor para as mortes que acontecem com os mais próximos, ou seja, com quem se tem vínculo (“... as pessoas estão ficando acostumadas com isso. Só vai ser ruim se acontecer com um familiar ou alguém próximo. Para a morte dos outros não se dá muito valor”). Novaes (2002) descreve a cultura do medo como uma naturalização desse sentimento, integrando-a às reações cotidianas mais corriqueiras. Por exemplo, como vivemos sob a cultura do medo, um barulho que ouvimos dentro do ônibus logo é associado com tiros, quando na realidade é apenas um problema no escapamento. Dessa forma, hoje, o medo da morte e da violência é um sentimento partilhado por todos. Percebe-se a vulnerabilidade e a imprevisibilidade, e todos estamos em situação de risco.
Kovács (2003) fala sobre a “morte escancarada” como uma representação de morte do fim do século XX e início do século XXI. Esse retrato aponta a morte como invasiva e repentina, pois esta passa a fazer parte da vida das pessoas sem que estas possam se proteger da sua presença e de suas conseqüências. São exemplos de morte escancarada os acidentes e os homicídios (morte violenta), bem como as exibidas pelos meios de comunicação, principalmente pela TV. Qual será o papel dos pais e dos educadores em relação a essas questões? É importante uma reflexão sobre as melhores formas de lidar com essas situações e de poder ajudar os jovens nessa tarefa, promovendo discussões sobre o que é exibido com a intermediação do adulto.
Debortolli (2002) conclui que as tensões e a violência, as contradições, as desigualdades e a indiferença, que fazem parte atualmente do contexto social, passam a fazer parte, também, da vida dos adolescentes. Porém, a banalização da violência ou o desrespeito à vida alheia não são sinônimos ou características somente dessa fase do desenvolvimento. Costuma-se criar representações sociais que desvalorizam o jovem; portanto, se temos o desejo de auxiliá-los, é fundamental, primeiramente, repensar as opiniões e os preconceitos em relação aos adolescentes.
O aumento da ocorrência de mortes na adolescência é o tema principal dessa pesquisa. Destaco o aspecto de que morrer, nessa faixa etária, não é e não deve ser considerado, de forma alguma, algo esperado, embora esteja ocorrendo numa freqüência assustadora. Essas mortes envolvem comportamentos autodestrutivos, acidentes, mortes violentas. Dessa forma, não podemos considerar esses índices de mortes apenas como se fossem escolhas principais e únicas dos jovens. Muitas vezes, os adolescentes são vítimas do contexto social e econômico ao qual pertencem e não são os únicos autores da violência.
Esta pesquisa buscou refletir sobre o que os jovens pensam sobre esses aspectos e quais as possibilidades de transformação que eles percebem como importantes. Analisar cuidadosamente o que os jovens manifestam é um instrumento importante para o enfrentamento dessas “mortes precoces”.
Nas discussões, os jovens apontaram algumas hipóteses para os altos índices de morte na adolescência, a saber: (a) Uso de drogas (foi citado como razão central), muito dinheiro, problemas sociais e o envolvimento com drogas. Foram emitidas opiniões contra a legalização da maconha. Alguns jovens disseram que mais conscientização e debates sobre as drogas poderiam ajudar. Outros reiteraram que cada pessoa tem o poder de escolha, de se envolver ou não com as drogas; de ser ou não responsável. Carlini-Cotrim (2002) aponta que os profissionais que trabalham com o tema não devem relacionar o proibido e o permitido com a possibilidade de desenvolver dependência ou com a razão de as pessoas terem buscado a droga. É falso o raciocínio de que o permitido não é danoso (por exemplo, o álcool e o tabaco). Os jovens devem estar atentos ao aspecto de que, mesmo não desenvolvendo dependência, o uso de tais substâncias não é inofensivo, uma vez que há o risco de envolvimento com acidentes ou violência. Por essa razão que se busca chamar a atenção para o fato de a linha entre o prazer e a autodestruição ser tão tênue, e de os jovens, na maioria das vezes, não terem a percepção dessa fragilidade.
Carlini-Cotrim (2002) acrescenta que as notícias que envolvem mortes em decorrência do álcool devem causar estranheza e impacto emocional pelos meios de comunicação, não somente as que exibem mortes causadas pelo consumo de outras drogas consideradas “mais danosas”. Assim, a morte por álcool deve ser noticiada com o mesmo impacto daquelas causadas por drogas ilícitas.
(b) Armas, crime organizado, favelas, violência, banalização da morte, inveja por bens materiais e situações sociais desfavoráveis (“o mundo que eles estão vivendo, está tudo muito difícil... e os jovens estão convivendo com isso”). As mortes de jovens revelam algo sobre a sociedade na qual eles estão inseridos e sobre a sua constituição na condição de sujeitos nela inseridos. Bock & Martins (2002) dizem que o próprio conceito de juventude muda, constantemente, engendrando também novos modelos familiares, sociais e culturais. Há pouco tempo, o fim da adolescência e o início da vida adulta eram definidos quando o indivíduo se tornava independente financeiramente e constituía família. Essa definição está se modificando nas condições históricas e sociais atuais.
(c) Falta de emprego e de perspectivas para o futuro. É importante perceber que os jovens referem como aspectos das altas taxas de mortalidade na adolescência, a inserção do jovem na sociedade. Na opinião deles, essa inserção envolve oportunidades maiores de emprego e o senso de responsabilidade que os jovens podem adquirir. Além disso, o ideal seria que o trabalho não impedisse as possibilidades de ascensão social dos jovens, não os impedindo de freqüentar a escola e a universidade. Bock & Martins (2002) discutem que na adolescência pode haver sentimentos de frustração, insegurança e impotência em relação às questões que envolvem a inserção dos jovens no mercado de trabalho. Pode ser freqüente o pensamento de que os empregos não existem mais ou estes são apenas para os indivíduos empreendedores, competentes e qualificados, sendo a única saída possível os trabalhos autônomos e o investimento na educação. Há exigências de escolaridade, conhecimentos de informática, língua estrangeira e, sobretudo, experiência e requisitos, muitas vezes, difíceis de serem cumpridos pelos adolescentes que buscam seu primeiro emprego. Além disso, os meios de comunicação denunciam o aumento das taxas de desemprego no mundo inteiro. Há incertezas em relação à estabilidade e à sobrevivência, bem como dificuldades na construção da identidade por meio do trabalho. Muitas vezes, os fatores “dignidade”, “honestidade” e “merecedores de respeito” estão diretamente relacionados ao trabalho. Além do mais, na nossa cultura, a ocupação é uma importante expressão de status do indivíduo inserido na sociedade. O adolescente, apesar de suas preocupações com as mudanças corporais, sua nova identidade, seus conflitos familiares, entre outros, normalmente demonstra que a escolha da profissão é um aspecto prioritário e fundamental para ele (Becker, 2003).
(d) Suicídios de jovens em razão de problemas/dificuldades e na relação e comunicação com os pais e/ou namorado(a) ou de muitos problemas e a impossibilidade de lidar com eles. Foi lembrado, por outro lado, que muitos jovens têm problemas e poucos chegam a se matar. A diferença, segundo eles, encontra-se na coragem para resolver e lidar com os problemas.
(e) Dificuldade na comunicação e no contato com profissionais, amigos e familiares, assim como entraves para os jovens expressarem seus sentimentos e pedir ajuda para essas pessoas, principalmente para a família (“Existe uma falha de comunicação com profissionais, amigos e, até mesmo, com a mãe”; “tem a ver com o modo de educar... alguns pais tentam conversar, outros preferem não falar nada, deixam o filho fazer o que quiser...”). Foi apontado pelos jovens que esses índices podem estar relacionados a problemas na educação que receberam dos pais, como vivência de situações de violência intrafamiliar; ausência de diálogos e pouca convivência; falta de limites familiares; excesso de dinheiro e falta de atenção etc.
(f) Alto índice de acidentes (“Eu acho que precisa coragem para lidar com os próprios problemas e resolvê-los. Mas tem pessoas que se matam, usam drogas ou saem correndo a 500km/h na rodovia e morrem.”).
(g) Falta de limites, bem como o desejo e a postura dos adolescentes de desafiar o mundo de forma, muitas vezes, irresponsável. Essa realidade poderia se transformar caso os jovens tivessem mais limites externos.
(h) As más influências dos jovens, assim como a não-cobrança e à imposição de responsabilidade pela sociedade, como acontecia na época dos pais deles. A educação recebida pelos jovens é vista como “menos rígida”, mais liberdade.
(i) Depressão na adolescência: os jovens dizem que essa depressão poderia estar relacionada ao uso de drogas ou à perda de alguém querido, podendo levar ao suicídio ou à violência. Quando perguntou-se aos jovens como esses índices de mortalidade na adolescência poderiam mudar, emitiram as seguintes opiniões:
_ Os adolescentes devem ter mais coragem de pedir ajuda e expor seus sentimentos. “Se algum dia um amigo me falasse que ia se matar por causa dos pais ou da namorada, eu falaria para ele tentar conversar com os pais”; “um amigo pode zelar pela vida do outro, se ele se sentir amparado, talvez mude de idéia”; “há uma dificuldade de lidar com os próprios problemas... não há coragem de pedir ajuda para alguém e dizer ‘eu estou precisando, me ajuda’, não tem coragem de falar o que está sentindo”). Foi apontado que a família, muitas vezes, não se dispõe a ajudar os adolescentes, ou seja, não está atenta a eles ou nega os problemas já existentes. Outra possível reflexão seria que os pais tentam falar com os filhos, mas não conseguem.
_ Os jovens devem ter mais limites impostos pelos pais e pela sociedade, o que geraria mais maturidade aos adolescentes, protegendo-os de perigos que podem levar à morte. Parece que os jovens estão, também, pedindo modelos de identificação, um sentido maior para suas vidas e espaços sociais mais delimitados. Adorno (2002) diz que a questão da autoridade é um problema complexo, principalmente a internalização da autoridade e seus efeitos. Afirma que essas crises de autoridade, por exemplo em relação à família, apresentam um lado positivo de procura de novas soluções diante das transformações da sociedade, novos valores, comportamentos etc. Pensamos que o caminho não é culpar os pais pelos conflitos e problemas dos adolescentes, dizendo que eles não educaram bem seus filhos, mas sim tentar refletir sobre os significados das relações, buscando entender como se processa a comunicação entre pais e filhos, sua convivência, a transmissão das vivências e conhecimentos e, assim, intervir nesse processo de maneira criativa e enriquecedora. Devemos refletir sobre o porquê de os jovens pedirem mais limites: seria uma sensação de insegurança diante das condições sociais e dos perigos atuais? Para mais segurança, estariam os jovens necessitando de mais referências, apoio familiar, respaldo social? O fato é que, para os jovens poderem encontrar seus próprios caminhos, precisam se apoiar em valores oferecidos pela família, pelos educadores e pela sociedade em geral.
_ Outra ajuda possível seria a sociedade e a família procurarem ocupar o tempo dos adolescentes e, desde cedo, orientá-los para os “caminhos corretos” ou outras perspectivas, além da violência e do perigo (“... tirar os jovens da rua e complementar o tempo deles com alguma coisa... isso vai ajudá-los futuramente. Eu vejo muitos jovens fazendo aula de dança, expondo sua criatividade, e isso acaba resolvendo mesmo muitos dos seus problemas. Outra coisa que eu acho é o emprego mesmo. É uma coisa básica que ajudaria muita gente”; “deveria ter mais estes centros para os jovens irem brincar porque, às vezes, eles não têm muito o que fazer e acabam se enfiando nos lugares errados, entrando nas drogas”; “isso vem muito da educação dos pais”; “Se os pais não estão nem aí, o filho também não vai se tocar, não nasce sabendo as coisas”). Deveria ter, também, na opinião deles, mais incentivo aos jovens e mais discussões sobre perspectivas. Propuseram a existência de mais programas sociais que os tirassem da rua e ocupassem o tempo ocioso, com atividades como dança ou esportes. Outra proposta seria diminuir as taxas de desemprego na adolescência. Os pais são apontados como fundamentais nesse processo, devendo ficar atentos ao perigo do tempo ocioso e incentivando-os a ocupar esse período com atividades. Bologna (2002) relata como atividades fundamentais para o desenvolvimento e o preenchimento do tempo desses jovens a arte e as atividades esportivas. Estas são vistas como boas alternativas à questão do consumo de drogas. Deve-se estar atento à alegação perigosa de falta de recursos externos, pois poucas condições oferecidas pelo meio não significam condições nulas e sim, a necessidade de aprimorá-las.
As atividades ligadas às artes, como teatro, construção de textos, redações, pequenas obras como revistas, jornais, desenhos, quadros etc., e aos esportes podem dar um sentido melhor à vida dos jovens e oferecer uma percepção maior da realidade em que vivem. Essas atividades podem fazer com que se sintam pertencentes ao mundo, exercendo funções e fazendo diferença. Com isso, os jovens talvez não tenham a necessidade de fugir dessa realidade, já que fazem parte dela, e, conseqüentemente, não tenham a necessidade de usar drogas. Se não é uma certeza, é pelo menos uma alternativa. Portanto, é fundamental oferecer aos jovens novas opções e espaços alternativos para que eles possam expressar sua curiosidade, viver o prazer e sentir-se pertencente a um grupo (Carlini-Cotrim: 2002).
_ O “problema” atual, segundo vários jovens, são as drogas. Na opinião de alguns, deveriam ser realizados mais debates, nos quais os jovens pudessem expor seus pensamentos e sentimentos, e, com isso, levar a uma conscientização maior da sociedade.
O desenvolvimento de ações educativas e de prevenção contra as drogas, segundo Carlini-Cotrim (2002), deve ser um desafio de trabalho nas escolas e nas comunidades. Inicialmente, é necessária uma apropriação do discurso dos jovens que expressam curiosidade pelas transgressões e a necessidade de pertencer a grupos. Deve-se estimular uma participação ativa dos jovens na construção de ações alternativas às drogas. Assim, o fundamental é que o adolescente se perceba como sujeito de sua própria ação e, com isso, da prevenção de comportamentos autodestrutivos.
Bologna (2002) diz que um trabalho de prevenção contra as drogas não deve ser feito no sentido da censura e de discursos lógicos, com a opressão dos jovens. A transformação pode ocorrer se eles forem ouvidos na discussão sobre referências, valores e sentimentos pessoais. Deve haver, também, a busca por construção de ambientes nos quais o diálogo com o jovem pode acontecer, principalmente dentro da família. É importante a expressão dos pensamentos, dos medos, dos receios etc. Além disso, é fundamental o acolhimento de dúvidas e o fornecimento de informações precisas.
Nessa pesquisa, buscou-se a reflexão sobre o poder de escolha, que é individual, mesmo quando o adolescente está em grupo. Assim, uma importante liberdade conquistada pelos jovens, que deve ser discutida e valorizada, é a capacidade e o direito de fazer escolhas, de optar entre diferentes alternativas. Alguns puderam refletir sobre a responsabilidade pelos seus atos, principalmente diante dos perigosos. Esse recurso é fundamental no afastamento de situações de risco. Bologna (2002) afirma que o problema central é a preservação da liberdade do adolescente ao dizer “não quero” perante a pressão do grupo. Essa decisão pode ficar abalada com o aumento do uso habitual das drogas e de sua banalização. Outro aspecto relevante é a pressão econômica que leva a cultivar a droga como hábito social e como grande ganho financeiro.
_ Os adolescentes deveriam também, na opinião de alguns, saber escolher melhor os seus amigos. Erikson (1968/1987) aponta que a crise da adolescência (até mesmo a necessidade de construção e aquisição de nova identidade) muito tem a ver com o aspecto da expressão de idéias num grupo social. Dessa forma, uma escolha adequada de amigos poderia ser bastante positiva, uma vez que esse grupo poderia reconhecer o adolescente como parte integrante da sociedade. Isso poderia ajudá-lo na resolução de alguns conflitos, como sua confusão sobre valores, podendo-lhe fornecer acesso à vida social. Deve-se, por outro lado, estar atento quando esses grupos sociais são totalitários, rígidos ou controladores, pois suas idéias podem ser muito convincentes e de fácil assimilação. O perigo está em tirar do adolescente a liberdade de escolha e a possibilidade de refletir sobre as conseqüências de seus atos.
A comunicação e a possibilidade de troca de sentimentos e experiências entre amigos, profissionais e família sobre o tema da morte e dos comportamentos autodestrutivos são apontadas como caminhos para a transformação dessa realidade da mortalidade juvenil (“às vezes discutindo, o jovem pode se conscientizar”). Alguns adolescentes afirmaram que a discussão sobre o tema da morte pode representar uma ajuda, pois, assim cria-se um espaço para a expressão de sentimentos e a percepção de que outros adolescentes podem estar passando pelas mesmas dificuldades, um podendo ajudar o outro (“... às vezes, a pessoa pode estar quieta num canto e ver que o mesmo está acontecendo com outra pessoa, e isso pode ajudar”). Dessa forma, os conflitos da adolescência podem ser avaliados como potencial de crescimento, transformação e reflexões. Devemos estar atentos também ao que a sociedade tenta rotular como manifestações da “crise normal da adolescência”, vendo causas absolutas e intrínsecas ao jovem, visto que os adolescentes têm liberdade para fazer opções, bem como reformular conceitos e atitudes.
Refletir sobre o tema da morte seria um caminho possível na transformação desses índices se, na opinião dos jovens, o adolescente com quem se estiver conversando tiver a disponibilidade para isso. Então, o poder de escolha e decisão é mais uma vez colocado nas mãos dos jovens, estes têm a responsabilidade pelos seus atos. Becker (2003) aponta que na adolescência aprende-se que se pode escolher livremente. O jovem, diante das primeiras e das muitas escolhas, pode se sentir confuso e angustiado. Porém, ele deve perceber que poder escolher é um privilégio, e as alternativas existem em grande número. Julgamos que o mais importante é o adolescente ter a percepção de que ele faz parte do processo, ou seja, pode e deve participar das próprias escolhas.
Além disso, vários jovens disseram que é fundamental, nestes espaços de discussão, eles não se sintirem julgados. Eles precisam se sentir acolhidos e compreendidos.

Considerações finais
Kübler-Ross (1996) aponta que as epidemias dizimaram inúmeras vidas no passado, e até as mortes de crianças eram comuns nas famílias da época. Hoje, ainda podemos constatar inúmeras vidas de jovens sendo interrompidas, com a enorme diferença de que a realidade atual envolve um progresso imenso das técnicas médicas. Não vemos mais tantos jovens morrendo de doenças e, sim, de suicídios, acidentes, uso de drogas, homicídios etc. Dessa forma, faz-se urgente e necessária a reflexão sobre essa mudança de causas, envolvendo a mortalidade de adolescentes. Julgo fundamental nessa tarefa, estar disponível para ouvir e tentar compreender os pensamentos, as opiniões e os sentimentos deles.
Ao dar voz aos jovens, essa pesquisa pôde propiciar a possibilidade de caminhos de construção de novos olhares sobre a adolescência e como eles podem se relacionar de formas produtivas com a sociedade (família, amigos, educadores etc.). Permitir que os jovens expressem suas opiniões e reflexões sobre o tema da morte pôde-lhes propiciar esclarecimentos que os aproximaram de questões ligadas à busca de vida. É importante que familiares, amigos e profissionais mostrem-se curiosos e atentos aos dilemas dos jovens, bem como estejam dispostos a ouvi-los e a dialogar com eles, esclarecendo possíveis dúvidas, tentando acolher medos, receios etc. Principalmente nas grandes cidades, parte-se do pressuposto de que os jovens já têm informações sobre vários assuntos, e que isso já é suficiente para afastá-los dos perigos presentes. Penso que, nessa afirmação, há duas suposições equivocadas: os adolescentes não dispõem de todas informações e, mesmo assim, não se pode achar que com isso sejam anuladas a curiosidade e o prazer pelo desconhecido e por novas experiências.
O paradoxo vida e morte na adolescência mostra-se presente. Há uma busca intensa pela vida, com sentimentos de onipotência e idéias de imortalidade, o que acaba levando a uma aproximação dos perigos e à possibilidade de morte. Há uma diversidade de opiniões entre os jovens, o que dificulta encontrar maneiras de atingi-los. Porém, pude perceber o quanto os jovens podem estar abertos ao diálogo, à troca de vivências e sentimentos, assim como o quanto pode ser prazerosa essa experiência. Considerando as escolas públicas e privadas, bem como suas diferenças socioeconômicas e geográficas, percebe-se que a discussão sobre o tema da morte é importante nos vários níveis sociais. Essa relação construída com os jovens pode ser vista como uma busca de desenvolvimento pessoal deles. Agradecimentos Os autores gostariam de agradecer à CAPES pelo financiamento da pesquisa e aos adolescentes e profissionais de educação que colaboraram com este trabalho.
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Psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo)
** Professora Livre Docente e Coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte – Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo 
1 Dados divulgados na Folha de São Paulo em 08.06.04, no Caderno Cotidiano
2
 Reportagem “Para seguir um estilo de vida com menos violência” - Caderno Folha Equilíbrio de 04.03.04: 6-8
3 
Dados divulgados por Ana Paula Grabois da Folha Online, no Rio de Janeiro em 17.12.03
4 Idem 2
5 
Idem 2

Universidade de São Paulo
Instituto de Psicologia
Laboratório de Estudos do Imaginário
Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, trav. 4, Bloco 17, sala 18
05508-900 São Paulo - SP - Brasil
Tel.: +55-11 3091-4386 ramal 22
Fax.: +55-11 3091-4475




Fonte:http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-666X2005000200006


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Conseqüências e Implicações do Bullying nos Envolvidos e no Ambiente Escolar.

Kris Kristoferson Pereira


Faculdade Novos Horizontes
Curso de Direito
Projetos Interdisciplinares
Violências : Conseqüências e Implicações do Bullying nos Envolvidos e no Ambiente Escolar.
Kris Kristoferson Pereira Belo Horizonte2012
As Violências:Conseqüências e Implicações do Bullying nos Envolvidos e no Ambiente Escolar.
Relatório de pesquisa apresentado à Coordenação do terceiro semestre do Curso de Direito da Faculdade Novos Horizontes, como comprovação do Projeto Interdisciplinar.
Orientador: Professor Thiago Penido Martins
Belo Horizonte 2012


     Resumo

   Agressões sejam elas físicas ou psicológicas sempre aconteceram no ambiente escolar, mas apenas nos últimos anos, com a vasta divulgação da palavra bullying, é que se passou a dar certa importância ao assunto e, não apenas tratá-lo como uma forma de “brincadeira”. A finalidade desse trabalho é analisar as conseqüências desastrosas causadas nos alunos vítimas do bullying, bem como trazer informações necessárias a sociedade, mais especificamente aos pais, professores e alunos, numa tentativa de propor soluções para que aja o respeito mútuo entre os alunos e se combata essa prática tão maléfica a sociedade.
Palavras-chave : Agressões – vítimas – pais – sociedade - Escola1 -

“Aprendi que posso ficar furioso, tenho direito de me irritar, mas não tenho o direito de ser cruel. Que jamais posso dizer a uma criança que seus sonhos são impossíveis, pois seria uma tragédia para o mundo se eu conseguisse convencê-la disso.” (Charles Chaplin)
Introdução    
O perigo nas escolas chamado: Bullying.   
Os protagonistas desta triste realidade   
As conseqüências do bullying   
A responsabilidade jurídica no fenômeno bullying    
Caso Concreto    
Conclusão   
Referências Bibliográficas    


      Introdução

   O ambiente escolar, onde acontecem às primeiras interações sociais entre as crianças e jovens, sempre foi palco de situações conflituosas e violentas entre os alunos.O problema com a violência no ambiente escolar passou a ser estudado, recentemente no Brasil, segundo Sposito (2001), somente em meados de 1980, o compromisso e a preocupação contra a violência escolar aconteceu, iniciou-se com uma análise das depredações e danos aos prédios escolares, e nos anos 2000 é que se passou a promover estudos sobre as relações interpessoais agressivas, envolvendo alunos e a comunidade escolar.
   Fante (2005) define violência como ”todo ato, praticado de forma consciente ou inconsciente, que fere, magoa, constrange ou causa dano a qualquer membro da espécie humana” (pág.157)Dentre as inúmeras violências praticadas no ambiente escolar, existe uma que acontece geralmente entre os próprios alunos, que recebeu a definição de Bullying.Recorrendo ao dicionário, encontraremos a seguinte definição para a palavra bully: individuo valentão, tirano, mandão, brigão.
   A expressão bullying, corresponde a um conjunto de atitudes de violência física e/ou psicológica, de caráter intencional e repetitivo, praticado por um bully, que é o agressor, contra uma ou mais vitimas que se encontram impossibilitadas de se defender.Existe a dificuldade em se traduzir, para a língua portuguesa, a palavra bullying, devido a sua complexidade. De acordo com Neto (2005):       “A adoção universal do termo bullying foi decorrente da dificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante a realização da Conferência Internacional Online School Bullying and Violence, de maio a junho de 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado à palavra bullying dificulta a identificação de um termo nativo correspondente em países como Alemanha, França, Espanha, Portugal e Brasil, entre outros.
   (Neto 2005, p. 165)”Esse tipo de violência é conceituado como um conjunto de comportamentos agressivos, físicos ou psicológicos, como chutar, empurrar, apelidar, discriminar e excluir, que ocorrem entre colegas sem motivação evidente, e repetidas vezes, sendo que um grupo de alunos ou um aluno com mais força, vitimiza outro que não consegue encontrar um modo eficiente para se defender (Lopes Neto, 2005).
   A maioria dos alvos de bullying são aqueles alunos considerados diferentes dos demais, como exemplo citamos: ser um ótimo aluno, ser muito pequeno, usar óculos, possuir atitudes afeminadas para os homens ou masculinizadas para as mulheres, entre outros. As agressões se dão gratuitamente, pois a pessoa vitima do bullying, normalmente, não cometeu nenhum ato que motivasse as agressões.
   Costantini (2004) explica que a prática do bullying não são conflitos normais ou brigas que ocorrem entre estudantes, mas verdadeiros atos de intimidação preconcebidos, ameaças, que, sistematicamente, com violência física e psicológica, são repetidamente impostos a indivíduos particularmente mais vulneráveis e incapazes de se defenderem, o que leva no mais das vezes a uma condição de sujeição, sofrimento psicológico, isolamento e marginalização (p.69).Os traumas causados pelo bullying nos alunos vitimados podem ter conseqüências terríveis em toda sua vida. Conta nos Fante (2005), a ação maléfica do bullying ”traumatiza o psiquismo de suas vitimas, provocando um conjunto de sinais e sintomas muito específicos, caracterizando uma nova síndrome”, denominada de Síndrome de Maus Tratos repetitivos, onde a criança estará predisposta a reproduzir a agressividade sofrida ou a reprimi La, comprometendo, assim, o seu processo de socialização. (p.62)
   Nesse trabalho, usaremos pesquisas bibliográficas em livros, artigos, jurisprudências, jornais, entre outros, para auxiliar nos no desenvolvimento e conclusão do tema proposto.
   O perigo nas escolas chamado: Bullying.Conforme destaca Fante (2005), o bullying é um fenômeno tão antigo quanto à própria escola. Porém, o assunto só passou a ser objeto de estudo por volta da década de 1970, na Suécia.E em pouco tempo, o tema contagiou todos os demais países escandinavos, no final de 1982, na Noruega, três crianças, com idade entre 10 e 14 anos, suicidaram, e as investigações do caso, apontaram, como principal motivação da tragédia, os maus tratos a que essas crianças sofreram por parte de seus colegas de escola. Dan Olweus, pesquisador da Universidade de Berger, Noruega, iniciou então nessa época um estudo com milhares de estudantes, quase quatrocentos professores e cerca de mil pais de alunos. O que Olweus queria, era avaliar as taxas de ocorrência e as formas pelas quais o bullying atingia a vida escolar das crianças e dos adolescentes da Noruega.Os resultados da pesquisa de Olweus evidenciaram que um em cada sete estudantes estava envolvido em caso de bullying. Em 1993, Olweus publicou o livro Bullying at School, que apresenta e discute o problema, os resultados de sua pesquisa, projetos de intervenção e uma relação de sinais e sintomas que ajudam a identificar, não só as vitimas, mas também os agressores.O resultado das pesquisas de Olweus repercutiu em vários países, que a partir daí, atentaram para esse fenômeno, que toma cada vez mais aspectos preocupantes quanto ao seu crescimento.Pesquisas relatam, que de 5% a 35% das crianças em idade escolar estejam envolvidas em condutas agressivas no ambiente escolar.
   Para Fante (2005), o bullying ocorre em todas as escolas do mundo, com maior ou menor incidência e independentemente das características culturais, econômicas e sociais do aluno, por isso a grande preocupação dos pesquisadores em buscar soluções para o problema, que existe em escala mundial.Dan Olweus, ao analisar o tema polêmico chamado bullying, orienta que pais e professores devem estar atentos ao comportamento das crianças e dos adolescentes, considerando os possíveis papeis que cada um pode desempenhar em uma situação de bullying.Identificando os alunos que são vítimas, agressores ou espectadores, é que a escola e as famílias dos envolvidos podem elaborar estratégias e traçar ações efetivas contra essa prática.
    Os protagonistas desta triste realidadeAs vítimas na maioria das vezes preferem guardar segredo, ate que se sintam seguras, pois temem que o agressor fique sabendo da denuncia e se vingue. Lopes Neto (2005) confirma assim:“(...) o silêncio só é rompido quando os alvos sentem que serão ouvidos, respeitados e valorizados”.As pesquisas nos mostram uma subdivisão da categoria de vítimas, em: Vitimas típicas, vítimas provocadoras e vítimas agressoras, as quais descreveremos a seguir. As vítimas típicas são alunos tímidos ou reservados, elas não reagem às provocações, normalmente são mais frágeis fisicamente, são gordinhos ou magros demais, altas ou baixas demais, usam óculos, enfim, os motivos são os mais banais possíveis e ainda dizendo, injustificáveis.Segundo Fante(2005), a vitima típica possui:(...) extrema sensibilidade, timidez, passividade, submissão, insegurança, baixa estima, alguma deficiência de aprendizado, ansiedade e aspectos depressivos. (...) As vítimas provocadoras são aquelas capazes de insuflar em seus colegas reações agressivas contra si mesmas, tenta brigar ou responder quando é atacada ou insultada, geralmente de maneira ineficaz. Geralmente são imaturas, de costumes irritantes e causadores de tensão no ambiente em que se encontram. Pode ser uma criança hiperativa, inquieta e dispersiva.A vítima agressora é aquela que diante dos maus tratos recebidos reage igualmente com agressividade. Ela reproduz os maus tratos como uma forma de compensação, ou seja, ela procura outra vítima, ainda mais frágil e vulnerável, e comete contra essa as mesmas agressões sofridas.Os agressores podem ser de ambos os sexos. Tem em sua personalidade traços de maldade e desrespeito, e muitas vezes, essas características negativas, estão associadas a um perigoso poder de liderança, obtido através da força física ou de assedio psicológico. Os agressores apresentam desde muito cedo aversão a normas, não aceitam ser contrariados e não sentem culpa ou remorso pelos atos cometidos.Os espectadores são aqueles alunos que presenciam as agressões, mas não tomam nenhuma atitude em relação a isso, não defendem as vítimas, nem se juntam aos agressores. Para Silva (2010) Os espectadores se dividem em quatro grupos, e são eles:Espectadores passivos, são aqueles que se afastam da vitima e fingem nada ver, apesar de não concordarem com as agressões, não denunciam os agressores por medo de serem as próximas vítimas. Espectadores ativos são aqueles alunos que não participam ativamente dos ataques contra as vítimas, mas incitam os agressores, incentivando o ataque. Espectadores neutros, percebemos nesses, que por uma questão sociocultural, não demonstram sensibilidade pelos ataques que presenciam, em função talvez do próprio contexto social que estão inseridos. Espectadores defensores, são aqueles que tentam ajudar a vítima, seja protegendo-a ou chamando um adulto para interromper.
    As conseqüências do bullyingPara Fante (2005), as conseqüências para as vítimas do bullying são graves e abrangentes, causando a falta de interesse pela escola, onde o aluno encontra dificuldades de aprendizagem, rendimento escolar abaixo da média, e até mesmo a evasão escolar.  Emocionalmente, este aluno vitima do bullying apresenta ainda baixa resistência imunológica, baixa auto-estima, os sintomas psicossomáticos, transtornos psicológicos, a depressão e até mesmo o suicídio.A não superação dos traumas, de acordo com Fante (2005, pg. 79)Gera sentimentos negativos e pensamentos de vingança, baixa autoestima, dificuldades de aprendizagem, queda do rendimento escolar (...), (...) pode se transformar em um adulto com dificuldade de relacionamentos e com outros graves problemas. A conseqüência nos agressores se dá pelo o distanciamento e a falta de interesse ao conteúdo ensinado, projetando na violência uma forma de popularidade e demonstração de poder, em alguns casos essa violência habilita o agressor para futuras condutas violentas na vida adulta. Para os espectadores, que são a maioria dos alunos, estes podem sentir insegurança, ansiedade, medo e estresse, comprometendo o seu processo socioeducacional.As conseqüências ocasionadas pelo bullying nos envolvidos, segundo Melo (2010) e que:Algumas experiências são menos traumatizantes, outras deixam estigmas para o resto da vida, sobretudo nas vítimas. Nos agressores as conseqüências podem vitimizá-las no futuro, de acordo com o rumo que sua vida tomar. Alguns agressores adotam a violência como estilo de vida, chegando à marginalização. Muitos espectadores não superam os temores de envolvimento, a angústia de não poder ajudar e se tornam pessoas inseguras e de baixa autoestima. (MELO, 2010, p. 42)
    A responsabilidade jurídica no fenômeno bullyingA nossa sociedade tem cada vez mais se deparado com o aumento no número da violência e em suas várias espécies, e como não poderia ser diferente, essa realidade passou a existir também no ambiente escolar, sendo protagonistas de tais barbáries crianças e adolescentes.O fenômeno mundialmente conhecido como bullying, tem sido objeto de estudo e gerado ampla discussão entre profissionais da educação, psicólogos, operadores do direito, dentre outros profissionais.Para a formação de um ser humano, se faz necessário que desde a infância, ele seja norteado por princípios que carreguem valores éticos, morais, religiosos e cívicos, para que se torne um cidadão digno e respeitador, onde possa contribuir para uma convivência harmoniosa em sociedade.A base fundamental para a implantação e preservação de tais princípios advém num primeiro momento da família e na seqüência da escola.Em uma decisão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, os desembargadores foram unanimes, em condenar uma escola, a indenizar uma criança pelos abalos psicológicos sofridos, em decorrência da violência escolar praticada por seus colegas, alegando a ofensa ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana.Segue um trecho da ementa dessa decisão: Abalos pscológicos decorrentes de violência escolar - Bullying - Ofensa ao princípios da dignidade da pessoa. (...) Nesse ponto, vale registrar que o ingresso no mundo adulto requer a apropriação de conhecimentos socialmente produzidos. A interiorização de tais conhecimentos e experiências vividas se processa primeiro, no interior da família e do grupo em que este indivíduo se insere, e, depois, em instituições como a escola. No dizer de Helder Baruffi, “Neste processo de socialização ou de inserção do indivíduo na sociedade, a educação tem papel estratégico, principalmente na construção da cidadania.” (TJ-DFT - Ap. Civ. 2006.03.1.008331-2 - Rel. Des. Waldir Leôncio Júnior - Julg. em 7-8-2008) À luz do artigo 205 da Constituição Federal de 1988, temos:"A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho".Para o convívio harmonioso em sociedade, sabe – se que a natureza humana, por si só não conseguiria êxito, são os pais os responsáveis por interiorizar em seus filhos, princípios que devem ser rotineiramente exercitados para que no processo de socialização, se construa a cidadania.O Código Civil em seu artigo 932, inciso I, destaca a responsabilidade dos pais em face de atos ilícitos cometidos por seus filhos. E o artigo 933 complementa: “As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelo terceiro ali referido”.Definindo ato ilicito, estabelece o artigo 186 do Código Civil: “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.”Não obstante, analisando o artigo 927 do mesmo Código, teremos: Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.Isso enseja em dizer que em determinados casos, a legislação civil, estabelece, mesmo que excepcionalmente, que é de competência dos pais a responsabilidade por atitudes violentas e abusivas, que seus filhos venham a  cometer.A questão da responsabilidade civil, quando o assunto é o bullying, também se estende as instituições de ensino, pois é dever da escola preservar a integridade física e moral de seus alunos, coibindo todo e qualquer ato de violência que possa ocorrer no ambiente escolar.Nesse sentido Chalita, sustenta que “A escola deve ser um espaço acolhedor em que as relações de amizade estejam construídas como um exercício para a vida. A Ética, o respeito, o cuidado com o outro, plantados na escola terão o poder de fazer florescer a cidadania em outros jardins. (Chalita, 2008)   Nesse sentido, cabe a instituição escolar, a responsabilidade na prevenção e vigilância constante de seus alunos para que o bullying não ocorra. Identificar o problema e adotar medidas pedagógicas em relação aos alunos agressores e participantes desse ato, para coibir tal prática. Caso contrário, a instituição de ensino deverá ser responsável juntamente com os pais, pela reparação dos danos sofridos pelas vítimas, de acordo com os preceitos normativos contidos no parágrafo terceiro, inciso segundo, do artigo 14, do Código de Defesa do Consumidor.
    Caso Concreto No dia 7 de Abril de 2011, ocorreu um assassinato em massa na escola pública Tasso da Silveira, localizada na cidade do Rio de Janeiro. O autor da tragédia foi Wellington Menezes de Oliveira, um jovem de 23 anos e ex-aluno da escola. O ato custou à vida de 12 adolescentes com faixa etária entre 12 e 14 anos de idade. A tragédia foi ainda maior, pois depois de realizar o massacre, ao ser cercado por policiais, Wellington cometeu suicídio.A motivação do ato é incerta, embora vídeos postados na internet pelo autor dessem indícios, que sua intenção era matar os alunos e o depoimento de um colega próximo a Wellington, apontou que o atirador sofria várias humilhações na escola, devido ao seu jeito de ser, que descreveu como alguém calado, introspectivo, muito tímido. Talvez por ser mais reservado que os demais companheiros de estudo, é que sofria o bullying.  Segundo relatos, Wellington pesquisava muito sobre atentados terroristas, e no momento da ação, como indicam alguns especialistas, estava acometido por um surto psicótico. O crime chocou o Brasil, e teve repercussão internacional.Aqui um trecho da carta escrita por Wellington, encontrada em sua posse após ser morto: "Muitas vezes aconteceu comigo de ser agredido por um grupo, e todos os que estavam por perto debochavam, se divertiam com as humilhações que eu sofria, sem se importar com meus sentimentos". E, conforme o depoimento de um ex-colega: "Certa vez no colégio pegaram Wellington de cabeça para baixo, botaram dentro da privada e deram descarga. Algumas pessoas instigavam as meninas: 'vai lá, mexe com ele'. Ou até incentivo delas mesmo: 'Vamos brincar com ele, vamos sacanear'. As meninas passavam a mão nele (...).``Presume-se que ele tenha planejado a ação com intuito de se vingar dos maus tratos ocorridos. De acordo com testemunhas, antes de atirar, ele se referia as vitimas meninas como seres impuros, e planejava matar somente elas.

     Conclusão

   (...)bullying, apesar de ser um problema atual, e causa de constrangimento pode ser evitado. Através de várias estratégias como: conversar periodicamente com os alunos, criar regimes de disciplina dentro da escola, interferir diretamente quando se perceber que a situação ou o aluno gerou o bullying, entre outras...   A escola não deve punir o indivíduo agressor, com medidas que não estejam relacionadas ao caso concreto, como por exemplo, proibir o aluno de freqüentar o intervalo. Deve-se procurar em contra partida, fortalecer a auto estima do aluno vítima. Outra maneira de se prevenir o bullying, cabe aos professores, trazendo para a sala de aula atividades socializadoras. Quanto mais unida e social for a turma, maiores são as chances do aluno considerado de alguma forma ``diferente ser inserido no grupo.A responsabilidade pelos danos causados pela prática do ato é sem dúvida nos pais dos alunos incapazes. Em contrapartida, há uma responsabilidade da própria escola, e dos professores. A escola, no momento de prestação de serviços educacionais. Observando desta óptica, cabe a instituição, se responsabilizar pelo que ocorre em seu interior, sendo ela a prestadora de um serviço educacional. De maneira ampla, cabe ao professor reconhecer a situação e enfrenta-la, não ridicularizando o aluno agressor. Mas mostrando que esta é uma atitude errada perante toda a turma. Os pais do aluno agressor devem também ser responsabilizados pelo danos do agredido. Pois os pais tem o dever garantidos pala nossa constituição de educar os filhos.O objetivo do presente trabalho foi expor a problemática atual, apresentando possíveis soluções, e apontando a responsabilidade dos envolvidos na violência, apresentando a legislação do tema e os diversos co-responsáveis pela prática.  Buscamos com isso a proteção a integridade de nossas crianças. Protegendo-as contra o bullying capazes de atingir a integridade física, pisicológica e moral dos diversos envolvidos. Cabe a instituição adotar medidas pedagógicas e envolvimento de todos  para evitar possíveis atos e minimizar os danos que já foram causados.Cabe também ao direito, como bem é meio de controle social oferecer respostas e soluções para o probelema. Zelando com isso, pelo bem estar de nossas crianças que serão os adultos de amanha. Zelando desta forma para um futuro o mais igual e solidário possível.


     Referências Bibliográficas


   COSTANTINI, Alessandro. Bullying, como combatê-lo? : prevenir e enfrentar a violência entre jovens. Tradução Eugenio Vinci de Morais. São Paulo:Itália Nova Editora, 2004.FANTE, Cléo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2.ed. rev. ampl. Campinas, São Paulo: Verus Editora, 2005.LOPES NETO, Aramis A. Bullying – comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de Pediatria, vol.81, nº5. Porto Alegre, Nov.2005,p.S164-S172. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/jped/v81n5s0/v81n5Sa06.pdf. Acesso em 31 de março de 2012.MELO, Josevaldo Araújo de. Bullying na escola: como identificá-lo, comoprevini-lo, como combatê-lo; Recife: EDUPE, 2010. 128p.SPOSITO, Marilia Pontes. Um breve balanço da pesquisa sobre violência escolar no Brasil. Educ Pesq [online]. 2001, vol.27, n.1, pp. 87-103. ISSN 1517-9702. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022001000100007. Acesso em 31 de março de 2012.http://dialogospoliticos.wordpress.com/2011/04/07/wellington-menezes-de-oliveira-ex-aluno-invade-escola-mata-12-pessoas-e-depois-comete-suicidio/
Fonte:http://www.arcos.org.br/artigos/consequencias-e-implicacoes-do-bullying-nos-envolvidos-e-no-ambiente-escolar/