HISTÓRICO NOS ÚLTIMOS ANOS DE SECA E CALOR FORTE,CAUSAM EPIDEMIA DE SUICÍDIOS DE FAZENDEIROS NA ÍNDIA

Shima Pandit Agee, mulher do fazendeiro Srikrishna Pandit Agee, que cometeu suicídio no início deste mês - Manish Swarup / AP

Seca e calor forte causam epidemia de suicídios de fazendeiros na Índia

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São mais de 3 mil casos desde ano passado; temperatura bateu recorde nesta quinta

O segundo ano seguido com uma intensa onda de calor, agravado por uma seca prolongada devido a duas estações das famosas monções mais fracas que o normal, está fazendo da Índia um inferno neste 2016. Enquanto as temperaturas recordes levam centenas de pessoas, em especial idosos e crianças, à morte por insolação, o país também assiste a uma epidemia de suicídios entre pequenos e médios fazendeiros endividados.
Anteontem, os termômetros na cidade de Phalodi, no estado do Rajastão, junto à fronteira com o Paquistão, alcançaram insuportáveis 51 graus Celsius, a mais alta temperatura já registrada na Índia em tempos modernos. Já no estado de Maharashtra, no centro-oeste, multiplicam-se casos como o de Srikrishna Pandit Agee, 41 anos, encontrado morto enforcado em uma árvore nas suas terras este mês.

Enredo de um drama que se espalha pelo país
Há dois anos, Srikrishna pegou emprestadas centenas de milhares de rúpias (o equivalente a algumas dezenas de milhares de reais) para construir em encanamento ligando uma represa local aos campos de algodão e cana-de-açúcar de sua fazenda na região de Marathwada. As esperadas chuvas, porém, não vieram, e a plantação minguou. Sua dívida, no entanto, continuou a crescer, levando-o ao desespero.


— Com o constante fracasso das colheitas e a pequena produtividade, ele não pôde recuperar o investimento e pagar os empréstimos ao banco. Foi por isso que ele se matou — conta, desolado, o irmão de Srikrishna, Umesh Pandit Agee.
De acordo com as autoridades indianas, cerca de 400 fazendeiros se mataram este ano apenas em Marathwada, lar para aproximadamente 19 milhões de habitantes, a grande maioria dedicada à agricultura. A região, no entanto, não enfrenta sozinha o drama, que se desenrola num cenário marcado por poços secos, animais de criação mortos e plantações murchas que se espalha por pelo menos 12 estados indianos, afetando centenas de milhões de pessoas. No ano passado, foram registrados quase três mil casos do tipo em toda Índia, uma forte alta frente ao já elevado número de 2.115 suicídios observado em 2014.


Uma indiana caminha sobre o que, antes, era o leito do Lago Chandola - SAM PANTHAKY / AFP


O enredo do drama nos campos da Índia, por sua vez, é conduzido por uma conjunção de diversos fatores. No lado climático, o aquecimento global, reforçado por um dos mais intensos episódios do fenômeno El Niño já registrado, que atingiu seu pico em novembro do ano passado, fez com que as chuvas renovadoras das monções, que acontecem entre junho e setembro, ficassem entre as mais fracas já vistas tanto em 2014 quanto em 2015.
Já do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, o problema está sendo agravado pelo uso excessivo e indiscriminado das reservas subterrâneas de água do país, que apresenta o mais rápido declínio no nível dos aquíferos no mundo. Só na vila de Masurdi, ainda na região de Marathwada, existem cerca de 70 poços com profundidade de 18 a 25 metros, mas estão todos secos.
— Mesmo os poços perfurados a até 500 metros de profundidade estão todos secos — lamenta Nana Berde, líder da vila. — O nível dos reservatórios subterrâneos baixou tanto que não há mais água nenhuma.
Por fim, há também um forte viés econômico no drama agrícola indiano. Nos últimos anos, muitos fazendeiros na Índia trocaram as tradicionais culturas de milhete, sorgo e outros cereais pela cana-de-açúcar, mais lucrativa, mas que também consome muito mais água para crescer. Otimistas com a perspectiva de ganharem mais dinheiro, eles tomaram empréstimos frequentemente com juros exorbitantes, de até 10% ao mês, para comprarem as sementes e o maquinário necessário para tocar o novo tipo de plantação, que acabou duramente atingida pela longa estiagem.


aindo do campo para as cidades, principalmente as grandes megalópoles indianas como a próspera Mumbai, ainda no estado de Maharashtra, as ondas de calor também estão deixando um rastro de vítimas. Ainda de acordo com estatísticas das autoridades do país, publicadas pelo jornal “Times of India”, o número de mortes por força destes extremos climáticos vem crescendo constantemente desde o ano 2000, partindo de 2.566 no quadriênio 2000-2003 para 3.517 entre 2004 e 2007, 3.754 de 2008 a 2011 até chegar a 6.562 no período 2012-2015.
O rápido enfraquecimento do El Niño observado nos últimos meses, no entanto, traz renovadas esperanças para os fazendeiros indianos de que ao menos este ano as monções voltem ao normal. Mas ainda assim eles correm o risco de saírem da panela para o fogo, ou, no caso, a água. Isso porque, em relatório recente, a Administração Nacional para Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA, na sigla em inglês) informou que há 75% de chances do atual El Niño ser sucedido já no segundo semestre de 2016 por um fenômeno oposto que também provoca alterações e extremos climáticos no planeta, conhecido como La Niña. Nele, as mesmas regiões indianas que hoje sofrem com a seca podem ser atingidas por chuvas torrenciais e consequentes inundações que também podem arrasar com suas plantações.


Fonte: https://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/seca-calor-forte-causam-epidemia-de-suicidios-de-fazendeiros-na-india-19342430#ixzz5G5U5MUUU 

Índia. Número de suicídios de agricultores aumenta com as alterações climáticas

O número de casos de suicídio de agricultores indianos aumenta com as crescentes alterações climáticas. A conclusão é de um estudo da Universidade da Califórnia, que analisou ligação.
O estudo procurou também procurar soluções
HENRIQUE CASINHAS/OBSERVADOR
Um estudo da Universidade de Califórnia, nos Estados Unidos, concluiu que as alterações climáticas têm levado ao aumento dos suicídios de agricultores na Índia. São cerca de 59 mil os agricultores que nos últimos 30 anos cometeram suicídio por causa da destruição do setor agrícola, de acordo com a análise.
estudo publicado na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), pela investigadora Tamma A. Carleton, mostra que um dos fatores que contribui para esse aumento é a crescente destruição das culturas agrícolas, principalmente porque a agricultura é o principal meio de subsistência de muitos pequenos agricultores. De acordo com o relatório, por cada grau que aumenta a temperatura acima dos 20 graus durante a época fértil, acontecem mais 67 suicídios.
Esta análise da Índia, que tem um quinto de todos os suicídios do mundo, mostra que o clima, e especialmente a temperatura, tem uma forte influência no número de suicídios”, lê-se no relatório.
O estudo procurou também soluções e considera importante haver ajuda psicológica e económica a estes agricultores. A investigadora sugere ainda uma adaptação deste setor ao aumento das temperaturas.
Os dados foram retirados de um arquivo com informações entre 1967 e 2013. No entanto, não devem ser considerados conclusivos, isto porque só desde 1995 é que se começaram a ser estabelecidas as causas de suicídio – antes dessa data não é possível distinguir quem tinha cometido suicídio.

As alterações climáticas têm causado tempestades, ondas de calor e de seca por todo o país. Segundo dados de 2013, 52% das famílias indianas que sobrevivem da agricultura têm dívidas e cerca de 60% do total de terrenos cultivados dependem exclusivamente da chuva. A agricultura já chegou a representar um terço do PIB da Índia. Atualmente, este setor contribui com apenas 15% para esse valor.
Fonte:https://observador.pt/2017/08/04/india-numero-de-suicidios-de-agricultores-aumenta-com-as-alteracoes-climaticas/

Histórico na Índia: seca se expande e afeta agricultura e reservas de água em quase metade do país

Fenômeno climático El Niño e aquecimento global trazem temporada de chuvas irregular que provoca pragas e atinge produção agrícola em 45% do território

sse ano na Índia a chuva parece uma piada ruim: chega fora de temporada ou aparece quando não se espera, como aconteceu há algumas semanas na cidade Chennai, no sul da Índia, inundando a área urbana. Ou como no Estado de Punjab, onde chegou fora da hora esse ano, provocando um aumento da mosca branca, a maior praga do algodão. Os efeitos dessa chuva imprevisível, como em outros anos, são perdas milionárias de colheitas e suicídios de camponeses arruinados. Mas isso não é tudo.
Em um país com quase 1,7 bilhão de habitantes, 60% da força de trabalho é rural e pobre (ganhando menos de 300 reais por mês em lares com cinco membros em média). Isto é, ainda que a Índia seja considerada uma potência no desenvolvimento de tecnologias digitais e da informação, sua economia é fundamentalmente rural e depende, em grande medida, de um prodigioso sistema sazonal de correntes de ar e de chuvas: as monções.
De fato, existe uma cultura associada à escassez que a falta de chuvas produz. Cultivos que requerem pouca água são comuns na dieta nacional, como as lentilhas e outros grãos. Assim os indianos puderam superar as fomes de 1876 e 1944. No entanto, a combinação de fatores negativos parece complicar mais as coisas nesse inverno.
CIAT / Flickr CC

Agricultores recolhem arroz em Sangrur, na cidade no Estado de Punjab
Nem água, nem comida
Em Punjab, o desastre começou antes, quando o governo nacional convenceu, no começo dos anos 90, os camponeses a semear arroz e algodão mais que grãos e hortaliças típicos de zonas áridas. O arroz é um cultivo que utiliza muita água para seu desenvolvimento e antes do boom comercial do fim do século representava apenas 10% da área cultivada no Estado; hoje, representa 62%.
O nível baixo de chuvas durante a temporada de monções em 2015 não somente fez com que metade dos pequenos agricultores em Punjab perdesse tudo, mas também impediu a reposição das fontes de água da superfície e dos poços. Além disso, as chuvas imprevisíveis que provocaram a praga do algodão atrasaram o ciclo agrícola de inverno: as colheitas do começo do ano serão escassas, em particular a de trigo.
Situações parecidas acontecem no centro do país. Na região de Palnadu, no Estado de Andhra Pradesh, os poços que apoiam a produção agrícola estão secando; dos 22 mil poços em funcionamento esse ano, cerca de 12 mil estão definitivamente secos. Como em Maharashtra: na região de Rampur, conhecida como centro arrozeiro, a água da superfície diminuiu 80%.
De fato, segundo o último relatório mensal da Comissão Central da Água, os reservatórios nacionais de água estão com 53% da sua capacidade média, menos que no ano passado (68%). Em lugares como a cidade de Varanasi, no Estado de Bihar, a falta de água já gerou protestos; ali, organização sociais exigem o fechamento de uma fábrica engarrafadora da Coca-Cola por abusar das reservas locais de água sem ter permissão para isso.
Nesse cenário, os preços dos grãos para consumo interno – alimentos básicos na dieta popular – aumentaram em até 120% desde agosto. A especulação fez com que o governo central fizesse confiscos em armazéns e distribuidoras de grãos para deter a alta dos preços.
Diganta Talukdar / Flickr CC

Agricultoras indianas: arroz é um cultivo que utiliza muita água para seu desenvolvimento 
A fome que virá
É pior em Uttar Pradesh, um Estado que também possui áreas onde a seca acontece, como a região de Bundelkhand, onde o movimento camponês Swaraj Abhiyan realizou uma pesquisa há um mês em 108 comunidades. Mais da metade das pessoas nesse distrito sofre de desnutrição e com a falta de água. inclusive para consumo.
Aproximadamente 61% dos lares em Bundelkhand perderam toda a sua colheita, de acordo com uma pesquisa dirigida por Yogendra Yadav, dirigente do Swaraj Abhiyan, e o economista Jean Dreze. Quase todos sofrem o desastre na terceira colheita consecutiva: entre o inverno passado e o ciclo de primavera-verão desse ano.

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Em 38% das comunidades de Bundelkhan, morreu de fome pelo menos uma pessoa. Isto significa, explica Yadav, que poderia estar começando uma epidemia de fome. Yadav afirmou no último dia 26 de novembro em uma coletiva de imprensa que “79% dos entrevistados afirma não ter comido uma refeição completa nos últimos dois meses.”
O governo de Uttar Pradesh já declarou seca em 50 de seus 75 distritos no começo de novembro, solicitando, assim, a ajuda econômica do governo central. Mas para Swaraj Abhiyan são necessárias medidas de emergência que impeçam mais mortes e ajudem a diminuir as dívidas que assolam 71% dos camponeses em Bundelkhan.
A chuva que não chegou
Somente este ano, nove estados declararam seca. As solicitações de ajuda somam algo mais de 11,6 bilhões de reais. Dois anos seguidos de seca estão quebrando as economias rurais que, nas últimas décadas, além do arroz, privilegiaram cultivos comerciais com alto grau de irrigação, como o algodão e a cana de açúcar.
Com a água superficial a níveis mínimos, os poços não são uma solução. Nos últimos 55 anos, por exemplo, os camponeses de Punjab passaram de cavar 1,5 metro para literalmente afundar na terra cavando poços de até 91 metros, segundo uma investigação feita pelo governo estatal.
As chuvas das monções em 2015 são o principal elemento do problema. O déficit pluvial desse ano é de apenas 14% – houve regiões com níveis de chuva aceitáveis que excederam o esperado. Mas, no fim de outubro passado, a falta de chuvas tinha afetado severamente pelo menos 45% do território nacional. Outros 15% tiveram pouca chuva.
Agência Efe

Chuvas torrenciais inundaram a cidade de Chennai nas últimas semanas
Mudar os cultivos e se sustentar com o magro apoio oficial não é uma decisão simples para os camponeses da Índia. Quando questionado sobre as razões para seguir semeando arroz, Baby Ram Saini, da comunidade Jiwai Jadid, na região de Rampur, disse há alguns dias à Reuters: “Cultivamos arroz porque é o que vende. A produtividade das lentilhas é tão baixa que não poderíamos nos sustentar sem o apoio massivo do governo.”
No fim de novembro, o governo de Narendra Modi não tinha anunciado nada em particular sobre a seca, salvo a liberação de fundos de apoio aos governos estatais. E, claro, as compensações por suicídio para as viúvas dos camponeses que tiram a própria a vida ao não poder pagar as dívidas. Enquanto isso, a seca se expande e não há solução nem mudança de clima previsíveis.

"Algodão da morte": suicídios de camponeses escandalizam novamente a Índia

Alguns camponeses que abandonaram o cultivo agora trabalham em fábricas fazendo tecidos para grandes marcas internacionais

Em 2013, segundo estimativas das Nações Unidas, a Índia foi o segundo produtor mais importante de algodão do planeta, com 18% da produção total. A área de cultivo utilizada, 12,2 milhões de hectares, equivale a um quarto do espaço semeado em todo o planeta para sua produção. Mas a produtividade das colheitas hindus é uma das mais baixas hoje. E tem sido assim por pelo menos 20 anos.
Rodrigo Hernández/Opera Mundi

Na região de Yavmatal, conhecida como o “cinturão da morte”, ocorreram pelo menos 3 mil suicídios documentados

Talvez por isso, em algum momento dos anos 90 -- e sobretudo a partir de 2003 --, os camponeses de Maharashtra, onde tradicionalmente é produzido o algodão mais suave do mundo, começaram a se suicidar. Oprimidos pelas mudanças climáticas, as secas e escassez de água, atacados pelas pragas e cheios de dívidas, milhares de camponeses optaram por se enforcar em frente às suas casas ou beber pesticida.
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Este fenômeno escandalizou o país por um tempo. O governo estabeleceu esquemas de apoio e financiamento, comissões de investigação e até leis a favor dos pequenos produtores de algodão durante a primeira década do século. De acordo com os relatórios do jornalista P. Sainath (reconhecido por suas investigações na área rural), cerca de 54 mil camponeses algodoeiros se suicidaram desde 1997 na Índia — a cifra total de suicídios de camponeses hindus chega a quase 200 mil desde então.

Endividados e sem água

A morte não para. Há algumas semanas um homem decidiu tirar a própria vida na região de Yavmatal, no nordeste de Maharashtra, ao não poder continuar cultivando e vendendo seu algodão. Nesse pequeno distrito, conhecido como o “cinturão da morte”, ocorreram pelo menos 3 mil suicídios documentados, explica Madhav Sarkunde.
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De acordo com Sarkunde, professor universitário e ativista social, “o solo de nossa terra já não é negro, não é fértil. A taxa de irrigação é muito baixa. E os bancos emprestam dinheiro aos camponeses para a colheita que, por sua vez, não podem pagá-los com a produção de seus campos”, explica a Opera Mundi. Segundo seus cálculos, entre 15 e 20 camponeses se suicidaram porque as fortes chuvas de julho passado inundaram seus cultivos.
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Além disso, durante os últimos 11 anos, a região sofreu uma mudança que afetou para sempre a produção quase artesanal da fibra. A Monsanto chegou à Índia e, desde o começo dos anos 90, ofereceu uma semente de alta produtividade da série Bt (plantas resistentes a insetos e que possuem a inserção de genes isolados a partir da bactéria). Os bancos e as agências estatais apoiaram desde o começo sua semeadura com títulos e empréstimos. Mas alguém esqueceu de mencionar aos camponeses de Maharashtra que é uma semente de irrigação intensiva que precisa, além disso, de pesticidas de fórmula especial (comprados da Monsanto).
Rodrigo Hernández/Opera Mundi

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Cada vez que as chuvas são escassas, como em 2012, aumenta primeiro o número de pequenos empréstimos e, depois, sem dúvida, os suicídios. Cada vez que a temporada de colheita tem maus resultados, como em 2013, acontece o mesmo. Talvez por isso os camponeses de Maharashtra voltaram a ser notícia.

A culpa é da Monsanto?


Um estudo solicitado pela Corte Superior de Mumbai (capital do Estado) concluiu, em 2005, que as dívidas e a falta de informação sobre sementes e fertilizantes deram origem à crise humanitária. Outro, realizado pelo governo nacional, recomendou melhoras na semente e nos programas de assistência, mas nenhum mencionou diretamente a Monsanto e seu produto.

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“Não para por aí. Nossa dependência dos OGM [organismos geneticamente modificados] é hoje enorme. Inclusive para semear os vegetais mais comuns, como o quiabo, temos de usar as sementes vendidas e os agentes químicos”, explica Madhay Sarkunde. O papel da Monsanto nesse drama é, segundo ele, desonesto; seu monopólio de venda de sementes cresceu geometricamente em dez anos.
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Mas a Monsanto nega a relação direta entre o algodão e a tecnologia “terminator ” e os suicídios, destacando, por outro lado, que os níveis de produtividade subiram desde que o algodão Bt começou a ser utilizado. É verdade. Mas a corporação e alguns comunicadores que a defendem “esquecem” de mencionar que os preços das sementes aumentaram em quase 1000% desde então, e o aumento por área cultivada tem sido também imenso. Além disso, as áreas de cultivo cresceram para o norte e para o sul.

P. Sainath notou que, ao menos oito milhões de pessoas (camponeses, suas esposas e seus filhos, basicamente) deixaram de cultivar algodão nesse século. Alguns encontraram trabalho como jornaleiros, uma grande maioria migrou para as cidades do centro e do sul da Índia, onde muitos se empregam como operários mal pagos, em fábricas têxteis que transformam o algodão em roupas para diversas companhias internacionais como a Zara.
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Os camponeses que ficam também começaram a encontrar formas para seguir sobrevivendo. Alguns mudam de cultivos ou os diversificam. Outros conseguem produzir e colher algodão com sementes nativas, e assim viajam à noite com suas cargas ao estado de Andhra Pradesh (onde os preços de compra são mais altos). Outros não conseguem sustentar o equilíbrio e seguem morrendo.

É verdade que esses suicídios não acontecem somente com o algodão -- a queda do preço da cana anuncia também sua quota de mortes para 2014. Mas, também, é real que nada foi feito para deter esse mortal fenômeno que está encurtando a vida de milhares de famílias.

“Precisamos de água suficiente ou de melhores preços”, conclui Sarkunde. “Também de políticas antimonopólio para o cultivo de algodão ou de soja, assim como programas de atenção social ao fenômeno”. As eleições gerais do próximo ano não prometem nada. “Mas temos de fazer algo por esses homens emocionalmente quebrados que decidem acabar com suas vidas quando já não podem trabalhar para se sustentar”.
Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/