O CARMA DAS NAÇÕES

Migrantes chegam à Hungria em 2015, rumo à Alemanha: em vários lugares da Europa, o conceito em vigor é o de que, para sobreviver, é necessário não ajudar o outro (Foto: iStockphoto)

O carma das nações

Em tempos de governos populistas, racistas, autoritários ou simplesmente corruptos espalhados pelo mundo, como entender a jornada que tem levado esses líderes ao poder e os resultados que deixam na história de seus países? O texto a seguir, do ex-presidente da Mongólia Nambaryn Enkhbayar, analisa a questão pela ótica budista
O budismo explica que tudo foi criado por uma causa ou é o resultado da causalidade. Em outras palavras, existia e/ou ainda existe uma causa por trás de tudo e de cada fenômeno testemunhado no mundo. De forma muito geral, pode-se dizer que, em sua busca pela compreensão da natureza de cada fenômeno ou complexo de fenômenos, a filosofia budista procura a causa ou um complexo de causas por trás de um fenômeno ou um complexo de fenômenos. Podemos traçar aqui um paralelo entre essa filosofia e a economia no qual esta última deveria ser, em linhas gerais, uma ciência para descobrir a razão ou um complexo de causas por trás de cada fenômeno econômico e social.
A compreensão da teoria da causalidade que regula a própria existência e a atividade de tudo no mundo nos leva à categoria seguinte de acordo com a filosofia budista: o conceito de carma. Carma é um tipo de poder ou fraqueza potencial acumulado adquirido como resultado de cada ação realizada no passado. Assim, cada ser humano é único, e todos os seres humanos – e comunidades e nações – são diferentes uns dos outros por causa de suas ações. O desenvolvimento econômico de cada nação é único no sentido de que é um acúmulo de ações, boas e más, que a liderança de um determinado país realizou depois de ter recebido o poder de governá-lo.
A responsabilidade de cada indivíduo e cada nação é estar ciente dos resultados de suas respectivas ações e inações, porque, com o tempo, elas se acumulam e formam a condição atual. Em suma, um indivíduo é responsável por seu status atual, seja ele bom ou mau, e cada nação é responsável pela condição em que está. O carma indiretamente significa responsabilidade. Cada pessoa, cada governo e cada nação devem ser responsáveis por suas ações.
Não há indivíduo sem seu carma; da mesma forma, não há nação ou governo sem responsabilidade. Entender os princípios do carma também proporciona uma apreciação mais profunda quanto ao lugar ou à localização legítima de um indivíduo no mundo e o momento apropriado para realizar uma atividade. Além disso, o carma significa que se deve estar ciente da necessidade de permanecer dentro dos limites do tempo e do espaço históricos para que as atividades de alguém acumulem boas ações.

Aprender a partilhar

Nas sociedades orientais, sobretudo naquelas em que uma cultura nômade ainda está viva e enriquecida pela cultura budista, como na Mongólia, pode-se encontrar um sentimento muito forte de comunidade e coesão. Os nômades só podem sobreviver reunindo-se e ajudando-se mutuamente. Viver em uma comunidade costumava significar simplesmente sobreviver. Membros de sociedades nômades sobrevivem não à custa de outros “fracos”, mas formando uma comunidade na qual distinguir o “forte” do “fraco” é irrelevante e onde ajudar os outros a sobreviver realmente resulta em ajudar a si mesmo a sobreviver.
Médico atende criança africana: partilhando a situação do outro (Foto: iStockphoto)
Viver em comunidade significa aprender a partilhar – partilhar não só o bem, mas também, por exemplo, o sofrimento, a felicidade e a dor dos outros. Isso pode ser comparado com a compreensão moderna do desenvolvimento econômico e social. No modelo budista, o desenvolvimento pode ser atingido não à custa ou pela exclusão de qualquer pessoa ou nação, mas sim com a comunidade coletiva maior, incluindo todas as pessoas e nações no processo de desenvolvimento. Partindo-se da vida em uma comunidade cujos princípios se baseiam em aprender a compartilhar a dor dos outros, é fácil chegar a um dos ideais mais importantes da maior tradição do budismo, a mahayana – o ideal do bodhisattva.
Segundo a tradição, um bodhisattva é aquele que já percebeu o sentido da vida e está pronto para atingir um nível mais elevado, se não o mais alto, de existência e não existência. Mas ele escolhe permanecer no seu atual nível de existência por uma grande compaixão e misericórdia com outros seres humanos – por causa de sua grande empatia por sentir a dor dos outros. O significado mais profundo do ideal do bodhisattva em termos do carma das nações é o seguinte: Se algumas pessoas ou nações atingiram um nível relativamente melhor de existência – em nosso sentido, desenvolvimento – do que outras pessoas ou nações, isso é imoral; e por causa dessa imoralidade, será impossível se desenvolver ainda mais sem “sentir a dor do subdesenvolvimento de outros” (tanto seres humanos como nações).

Evoluir é ajudar

O significado do ideal do bodhisattva pode ser explicado assim em termos econômicos modernos: “Quanto mais você ajuda os outros, melhor, mais rápida e qualitativamente você se desenvolve”. Em outras palavras, o desenvolvimento na filosofia budista significa ajudar os outros. A principal diferença entre o desenvolvimento quantitativo e o qualitativo é que este último significa e inclui moralidade, responsabilidade, prestação de contas, os sentimentos de comunidade e da necessidade de ajudar os outros e a singularidade em cada exemplo de desenvolvimento, enquanto o primeiro não.
Cavaleiros mongóis, cultura onde a ajuda mútua é fundamental (Foto: iStockphoto)
Outra categoria importante a considerar na busca de encontrar ligações entre o budismo e a economia envolve os conceitos de apego e do desapego. De acordo com o budismo, apego ou paixão por alguém ou algo traz sofrimento. Uma vez que uma pessoa ou sociedade, como a sociedade de consumo, é ligada em sentido amplo a tudo que é transitório e sujeito a mudanças, ela começa a se transformar em um corpo absorvido apenas pelo desejo de satisfazer demandas insaciáveis. Tal pessoa ou sociedade começa a perder sua mobilidade, flexibilidade e capacidade de se adaptar a novos desafios.
Em contraste, uma das principais características de uma sociedade nômade em que o budismo é a religião dominante é um estilo de vida relativamente livre de poluição, vivido em uma relação harmo­niosa com o meio ambiente e pronto a desistir das demandas e coisas que se tornam onerosas. Ser desapegado significa não ser ocupado por preconceitos, ser objetivo e manter um equilíbrio harmonioso entre o material e o espiritual e entre causa e efeito e carma.

Criação de equilíbrio

Levando em conta os pontos precedentes, inevitavelmente concluímos que o budismo considera a criação de um bom equilíbrio como a criação de um ambiente saudável onde cada ser é livre para realizar ou melhorar seu potencial. Essa é uma chave para gerar as condições para o desenvolvimento econômico e social qualitativo. Numa simplificação ainda maior, a realização ou melhoria de um potencial ou carma é um desenvolvimento positivo. Ao mesmo tempo, quando o material e o espiritual, bem como a causa e o efeito, são equilibrados, a interdependência, em vez da independência, de cada ser está implícita.
Universitários da Índia: potencial melhorado (Foto: iStockphoto)
O budismo parte do entendimento de que o desenvolvimento real e qualitativo não se baseia na teoria da contração de duas ou múltiplas polaridades ou interesses, mas sim na noção de interdependência de tudo e de todos. A teoria budista do vazio (shunyata) parece ser uma base filosófica para tal compreensão do desenvolvimento socioeconômico. Se alguém é logicamente fiel à implicação geral do conceito de vazio, precisa aceitar que não pode haver indicadores permanentes de desenvolvimento no budismo porque tudo depende da causalidade e está em constante movimento e mudança – tudo é impermanente e relativo.
As ideias delineadas no presente artigo poderiam ser as linhas ao longo­ das quais se procura encontrar indicadores de desenvolvimento através dos olhos do budismo. No entanto, na busca de tais indicadores, deve-se sempre partir da compreensão do principal e último indicador de desenvolvimento – um ser humano. Por fim, lembremos a fábula em que Buda se calou quando lhe perguntaram qual era o significado último da vida.
Ele disse que se uma pessoa estivesse ferida, ele não tentaria descobrir quem atirara a flecha, qual o tamanho dela ou de que ela era feita. Em vez disso, ele deveria tentar remover a flecha o mais rapidamente possível. Talvez valha a pena remover imediatamente as flechas que nos feriram por irresponsabilidade, estreiteza da mente e ignorância do fato de que tudo e todos dependem da causalidade e uns dos outros. Aqui encontramos que o indicador e o objetivo final do desenvolvimento qualitativo são o ser humano.

Entre Oriente e Ocidente

Nambaryn Enkhbayar foi presidente (2005-2009) e primeiro-ministro (2000-2004) da Mongólia. Ele se graduou no Instituto de Literatura de Moscou e estudou literatura e língua inglesa na Universidade de Leeds (Inglaterra). Convertido ao budismo ainda durante o regime comunista em seu país, Enkhbayar traduziu vários textos dessa religião para o mongol, assim como obras da literatura europeia.

* O texto aqui reproduzido foi publicado originariamente na edição nº 2 da revista Elixir, da Ordem Internacional Sufi, na primavera de 2006.
Fonte:http://www.revistaplaneta.com.br/o-carma-das-nacoes/