TAO TE CHING - LIVRO DO CAMINHO E DA VIRTUDE

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TAO TE CHING


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LIVRO DO CAMINHO E DA VIRTUDE

Interpretação de Ko Hsüan de Tao Te Ching de LAO TSE


Esta é a tradução/interpretação de Crowley do Tao Te Ching de Lao Tse, que é encontrado em The Equinox (Volume III, No. VIII.)  Ko Hsüan é responsável pela tradução e comentário feitos em sua encarnação como Aleister Crowley durante o Grande Retiro Mágico sobre a Ilha Æsopus. Anno XIV.
Prefixado ao próprio texto existe uma generosa introdução na qual Aleister Crowley explica em detalhes os acontecimentos que lhe permitiram a autoridade de sua interpretação. Aproximando-se do final, ele especifica o método real de sua tradução:
De 1908 a 1918, o Tao Te Ching era o meu estudo contínuo. Eu sempre o recomendei a meus amigos como a obra-prima suprema da sabedoria do iniciado, e eu igualmente ficava sempre desapontado quando eles declaravam que não os impressionara, especialmente porque as minhas descrições preliminares do livro haviam despertado seu maior interesse. Assim eu percebi que a culpa estava na tradução de Legge, e senti-me impelido a empreender a tarefa de apresentar Lao Tze na linguagem informada pela compreensão simpatizante que a iniciação e a experiência espiritual me conferiram. Durante o meu Grande Retiro Mágico na Ilha Esopus no Rio Hudson durante o verão de 1918, me dediquei a esse trabalho, mas eu descobri imediatamente que eu era totalmente incompetente. Portanto apelei a um Adepto chamado Amalantrah, com quem naquele momento eu estava em comunhão quase diária. Ele veio prontamente em meu auxílio e mostrou-me um códice do original, que transmitiu a mim com certeza absoluta o significado exato do texto. Eu fui capaz de adivinhar sem hesitação ou dúvida a forma precisa em que Legge havia sido enganado. Ele traduziu o chinês com fidelidade singular, mas em quase todos os versos a interpretação era totalmente enganadora. Não houve necessidade de se referir ao texto do ponto de vista dos estudiosos. Eu tive apenas de parafrasear sua tradução à luz do conhecimento real do verdadeiro significado dos termos empregados. Quem quiser se dar ao trabalho de comparar as duas versões se surpreenderá ao ver como uma ligeira remodelação de um parágrafo é suficiente para dispersar a obscuridade obstinada do pré-julgamento, e soltar uma fonte e uma inundação de luz viva, para atear em chamas a prosa retorcida da escolaridade fleumática no botão florescente da chama lírica.
TRADUZIDO POR 666 DO CÓDICE MANIFESTADO NO AKASHA POR 729, O MAGO AMALANTRAH.

PARTE I - TAO CHING


I - A Natureza do Tao

1. O Caminho do Tao não é o Todo do Tao. O Nome não é a Coisa nomeada.
2. Não manifestado, é o Pai Secreto do Céu (☰) e da Terra (☷); manifestado, é a Mãe deles.
3. Para entender esse Mistério, é preciso estar cumprindo a sua vontade. Se não estiver assim livre, obterá apenas um conhecimento superficial dele.
4. O Tao é um, e o Te é apenas uma fase dele. O abismo deste Mistério é o Portal da Serpente-Maravilha.

II A Fonte de Energia do Self

1. Todos os homens sabem que a beleza e a feiura são corre-lativos, assim como são a habilidade e a falta de jeito; um implica e sugere o outro.
2. Assim também a existência e a não-existência afirmam um ao outro; assim também é com a facilidade e a dificuldade, comprimento e pequenez; altura e baixeza. A Músicka também existe através da harmonia de opostos; o tempo e o espaço dependem de contraposição.
3. Pelo uso deste método, o sábio pode cumprir a sua vontade sem ação, e proferir sua palavra sem fala.
4. Todas as coisas surgem sem difidência; elas crescem, e ninguém interfere; elas mudam de acordo com sua ordem natural, sem ânsia de resultado. O trabalho é realizado; embora persevere em sua órbita, sem objetivo. Este trabalho é feito inconscientemente; é por isso que sua energia é incansável.

III Aquietando o Povo

1. Recompensar o mérito é provocar a imitação; premiar raridades é incentivar o roubo; mostrar coisas desejáveis é excitar a desordem da cobiça.
2. Portanto, o sábio governa os homens mantendo suas men-tes e seus corpos em repouso, contentando um pelo vazio, o outro pela plenitude. Ele satisfaz seus desejos, cumprindo assim as suas vontades, e tornando-lhes sem atrito; e ele os fortalece em corpo, com um fim semelhante.
3. Ele os livra da inquietação do conhecimento e dos desejos do descontentamento. Assim como para aqueles que já têm conhecimento, ele ensina-lhes o caminho da não-ação. Sendo assegurado isto, não há desordem no mundo.

IV O Poço Sem Fonte

1. O Tao se assemelha ao Vazio do Espaço; para empregá-lo, devemos evitar a criação de gânglios. Ó Tao, quão grande és Tu, o Abismo dos Abismos, tu o Pai Santo e Secreto de todas as Paternidades das Coisas!
2. Tornemos nossa afiadez sem fio; desprendamo-nos de nossos complexos; reduzamos nosso brilho à obscuridade geral. Ó Tao, quão quieto és tu, quão puro, contínuo além do Céu!
3. Este Tao não tem Pai; está além de todas as outras concepções, mais alto do que o altíssimo.

V A Fórmula do Vácuo

1. O céu e a terra prosseguem sem motivo, mas casualmente em sua ordem da natureza, lidando com todas as coisas despreocupadamente, tal como talismãs usados. Assim também os sábios lidam com seu povo, não exercendo a benevolência, mas permi-tindo que a natureza de todos se mova sem atrito.
2. O Espaço entre o céu a terra é o seu aparelho respiratório. A expiração não é a exaustão, mas o complemento da inspiração, e este também daquele. O discurso cansa; guarda-te, portanto, mantendo a perfeita liberdade da tua natureza.

VI O Aperfeiçoamento da Forma

1. O Te é a energia imortal do Tao, seu aspecto feminino. Céu e Terra foram lançados de sua Porta; esta Porta é a raiz de seu Sicômoro do Mundo. Sua operação é de pura Alegria e Amor, e nunca falha.

VII A Ocultação da Luz

1. O Céu e a Terra são poderosos na continuidade, porque seu trabalho é livre de ânsia de resultado.
2. Assim também o sábio, não procurando nenhum objetivo, alcança todas as coisas; ele não interfere nos afazeres de seu corpo, e assim esse corpo age sem atrito. É porque ele não se intromete com objetivos pessoais que estes ocorrem com simplicidade.

VIII A Natureza da Paz

1. Admire tu o Grande Caminho da Água! Não é a Água a alma da vida das coisas, pela qual elas mudam? Ainda assim, busca o seu nível, e habita satisfeita na obscuridade. Assim também se assemelha o Tao, neste Caminho disto!
2. A virtude de uma casa é ser bem localizada; da mente, estar à vontade em silêncio como se fosse do Espaço; das sociedades, estar bem-disposta; dos governos, manter a quietude; do trabalho, ser habilmente executado; de todo movimento, ser feito no momento certo.
3. Também é a virtude de um homem habitar em seu lugar sem descontentamento; assim ele não ofende nenhum homem.

IX O Caminho da Reticência

1. Não encha completamente um vaso, para que não derrame ao carregar. Não interfira com uma ponta afiada apalpando-a constantemente, ou ela logo perderá o fio.
2. Ouro e jade põe em risco a casa de seu possuidor. Riqueza e honrarias levam à arrogância e inveja, e trazem ruína. Teu caminho é famoso e teu nome está se tornado ilustre? Retire-se, uma vez teu trabalho feito, na obscuridade; este é o caminho do Céu.

X Coisas Alcançáveis

1. Quando a alma e o corpo estão no laço do amor, eles podem ser mantidos juntos. Pela concentração na respiração é levado à elasticidade perfeita, e se torna como um bebê. Purificando-se do samādhi um se torna o todo.
2. Em seu trato com as pessoas e com a sociedade, que se mova sem ânsia de resultado. Na gestão de sua respiração, que ele seja como a mãe-pássaro. Que sua inteligência abranja cada quadrante, mas que seu conhecimento cesse.
3. Aqui está o Mistério da Virtude. Criou tudo e sustenta tudo; embora não se adere a eles; opera tudo, mas não sabe nada disso, nem o proclama; dirige tudo, mas sem controle consciente.

XI O Valor do Inexpresso

1. Os trinta raios se juntam em seu cubo da roda, que é uma; contudo o uso da roda depende do lugar vazio para o eixo. A argila é moldada para fazer vasos; mas é o espaço contido que é útil. Portanto a matéria só é de uso para demarcar os limites do espaço que é a coisa de real valor.

XII O Afastamento do Externo

1. As cinco cores cobrem a Visão; os cinco sons tornam a Audição surda; os cinco sabores escondem o Paladar; a ocupação com o movimento e a ação atormentam a Mente; da mesma forma como a estima por coisas raras produz a cobiça e a desordem.
2. Portanto o sábio busca satisfazer as necessidades reais do povo; não excitá-los com a visão de luxúrias. Ele bane estes, e se concentra naqueles.

XIII O Desprezo pela Circunstância

1. Favor e desgraça devem ser evitados igualmente; honra e calamidade devem ser igualmente considerados como aderentes à personalidade.
2. O que é isto que está escrito sobre favor e desgraça? A desgraça é a queda do favor. Então aquele que tem favor tem medo, e sua perda causa um medo ainda maior de uma nova queda. O que é isto que está escrito sobre honra e calamidade? É esse apego ao corpo que torna a calamidade possível; porque uma vez sem corpo, que mal poderia acontecer com ele?
3. Portanto que aquele que se estime justamente também administre um reino; e que ele o governe, ele que o ama como um outro homem amaria a si mesmo.

XIV A Proclamação do Mistério

1. Olhamos para ele, e não o vemos; embora seja Onipresente; e nós o chamamos de Equilíbrio-Raiz.
Prestamos atenção nele, e não ouvimos, embora seja Onisciente; e nós o chamamos de Silêncio.
Sentimos por ele, e não o tocamos, embora seja Onipotente; e nós o chamamos de Oculto.
Estas três Virtudes ele tem, embora não possamos descrevê-lo como se consistisse delas; mas, misturando-as corretamente, apreendemos o Uno.
2. Acima, não brilha; abaixo, não é escuro. Ele move tudo continuamente, sem Expressão, retornando no Nada. É a Forma Daquilo que está além da Forma; é a Imagem do Invisível; é a Mudança, e Ilimitado.
3. Nós o confrontamos, e não vemos seu Rosto; nós o perseguimos, e suas Costas estão escondidas de nós. Ah! mas aplique o Tao como nos Tempos antigos com o trabalho do presente; conheça-o como era conhecido no Princípio; siga fervorosamente o Fio do Tao.

XV O Aparecimento da Verdadeira Natureza

1. Os adeptos das eras passadas eram sutis e entusiasmados em apreender este Mistério, e sua profundidade era obscuridade para os homens. Desde então, eles não eram conhecidos, deixe-me declarar a sua natureza.
2. Para toda a aparência externa, eles eram tão medrosos co-mo os homens que atravessam uma torrente na inundação do inverno; eles eram tão hesitantes como um homem na apreensão dos que o cercam; eles eram tão intimidados como um convidado numa grande casa; eles estavam prontos para desaparecer como o gelo derretendo; eles eram tão despretensiosos como a madeira bruta; eles eram tão vazios como um vale; e opacos como as águas de um pântano.
3. Quem pode limpar a água barrenta? A quietude o fará. Quem pode obter repouso? Que o movimento continue uniformemente e ele próprio será paz.
4. Os adeptos do Tao, conservando seu caminho, não buscam ser ativamente autoconscientes. Por seu vazio de Self eles não têm necessidade de mostrar sua juventude e perfeição; parecer velho e imperfeito é seu privilégio.

XVI O Recuo à Raiz

1. O vazio deve ser perfeito, e o Silêncio tornado absoluto com força incansável. Todas as coisas passam pelo período da ação; então retornam ao repouso. Elas crescem, brotam, florescem e frutificam; então retornam à raiz. Este retorno à raiz é este estado que chamamos de Silêncio; e esse Silêncio é Testemunha de seu Cumprimento.
2. Este ciclo é a lei universal. Conhecê-lo é a parte da inte-ligência; ignorá-lo trás tolice de ação, cujo fim é a loucura. Conhecê-lo trás compreensão e paz; e estes levam à identificação do Self com o Não-Self. Esta identificação faz do homem um rei; e este cresce da realeza à divindade. Essa divindade dá fruto na maestria do Tao. Então o homem, o Tao lhe permeando, perdura; e seus princípios corpóreos estão em harmonia, à prova de deterioração, até a hora da sua Mudança.

XVII A Pureza da Corrente

1. Na Era de Ouro, as pessoas não estavam conscientes de seus governantes; na Era de Prata, os amavam, com canções; na Era de Bronze, os temiam; na Era de Ferro, os desprezavam. Conforme os governantes perdiam a confiança, assim também as pessoas perdiam a confiança neles.
2. Quão hesitantes pareceram, os Senhores da Idade de Ouro, falando com deliberação, conscientes do peso de sua palavra! Assim eles realizaram todas as coisas com sucesso; e o povo considerou o seu bem-estar como sendo o curso natural dos eventos.

XVIII A Deterioração dos Costumes

1. Quando os homens abandonaram o Caminho do Tao, a benevolência e a justiça tornaram-se necessárias. Então também foi preciso de sabedoria e perspicácia, e todos caíram em ilusão. Quando a harmonia deixou de prevalecer nas seis esferas foi necessário governá-los manifestando Filhos.
Quando os reinos e as raças se tornaram confusos, ministros leais tiveram que aparecer.

XIX Retornando à Pureza da Corrente

1. Se esquecêssemos de nossa diplomacia e de nossa sabedoria, seria cem vezes melhor para o povo. Se esquecêssemos de nossa benevolência e de nossa justiça, eles novamente se tornariam como filhos, gente de boa vontade. Se esquecêssemos de nossas máquinas e de nossos negócios, não haveria desonestidade.
2. Estes novos métodos desprezaram o Caminho antigo, inventando nomes bonitos para disfarçar sua venenosidade. Mas a simplicidade no fazer da vontade de cada homem poria fim às ambições e desejos vãos.

XX A Saída do Caminho Comum

1. Esquecer do aprendizado é acabar com os problemas. A menor diferença entre palavras, como “que” e “quê”, pode causar controvérsias sem fim para o estudioso. De fato a morte é temerosa, uma vez que todos os homens a temem; mas o abismo de questionamentos, sem encostas e sem fundo, é pior!
2. Considere o homem profano, como ele se envaidece, como se estivesse banqueteando, ou contemplando a primavera de uma torre! Mas quanto a mim, eu sou como aquele que boceja, sem qualquer traço de desejo. Eu sou como um bebê antes de seu primeiro sorriso. Eu pareço triste e desesperado, como um homem sem-teto. O homem profano tem sua necessidade repleta, sim, e também mais. Para mim, parece que perdi tudo o que eu tinha. Minha mente é como se estivesse estupefata; ela não tem forma definida. O homem profano parece animado e de esperteza afiada; só eu pareço de mente vazia. Eles parecem ansiosamente críticos; eu pareço descuidado e sem percepção. Eu pareço ser como alguém à deriva no mar, sem nenhuma ideia de um porto. Os profanos têm cada um o seu curso definido de ação; só eu pareço inútil e incompreensível, como um homem da fronteira. Sim, assim eu difiro de todos os outros homens: mas a minha joia é a Mãe-de-Tudo!

XXI O Ventre Infinito

1. A única fonte de energia é o Tao. Quem pode declarar a sua natureza? Está além dos Sentidos, embora toda forma está oculta dentro dele. Está além dos Sentidos, embora todos os Perceptíveis estejam escondidos dentro dele. Está além dos Sentidos, embora todo o Ser esteja escondido dentro dele. Este Ser excita a Percepção, e portanto a Palavra. Como era no princípio, é agora, e sempre será, o seu Nome opera continuamente, fazendo com que tudo flua no ciclo da Mudança, que é o Amor e a Beleza. Como sei disso? Pela minha compreensão do Tao.

XXII A Recompensa da Modéstia

1. A parte se torna o todo. A curva se torna reta; o vazio se torna cheio; o velho se torna novo. Aquele que deseja pouco realiza sua Vontade com facilidade; aquele que deseja muitas coisas se distrai.
2. Portanto, o sábio se concentra sobre uma Vontade, e é como uma luz para o mundo inteiro. Escondendo-se, ele brilha; retirando-se, ele atrai atenção; humilhando-se, ele é exaltado; insatisfeito consigo mesmo, ele ganha força para alcançar sua Vontade. Porque ele não batalha, nenhum homem pode lutar contra ele.
3. Isso não é uma visão em vão dos homens de antigamente; “A parte se torna o todo”; é o Cânone da Perfeição.

XXIII O Vazio do Nada

1. Manter o silêncio é a marca de alguém que está agindo em plena conformidade com a sua Vontade. Um vento feroz logo diminui; uma chuva de tempestade não dura o dia todo. No entanto, o Céu e a Terra causam este; e se eles não conseguem tornar a violência contínua, quanto menos o homem pode permanecer no espasmo da paixão!
2. Com aquele que se devota ao Tao, os devotos do Tao estão de acordo; assim também estão os devotos do Te; sim, até mesmo aqueles que falham na busca desses também estão de acordo.
3. Então seus irmãos no Tao são alegres, alcançando-o; e seus irmãos no Te são alegres, alcançando-o; e os que falham em buscar estes são alegres, partilhando disso. Mas se ele mesmo não perceber o Tao com calma de confiança, então eles também parecem ter falta de confiança.

XXIV Costumes Malignos

1. Aquele que fica de pé na ponta dos dedos não se detém firme; aquele que endurece as pernas anda mal. Aquele que se orgulha não brilha; aquele que fala explicitamente é vulgar; aquele que se gaba não é aceito; aquele que é sábio em sua própria arrogância é tido como inferior. Tais atitudes, para aquele que tem a visão dada pelo entendimento do Tao, parecem como lixo ou como o câncer, abomináveis para tudo. Então aqueles que seguem o Caminho não as admitem.

XXV Imagens do Mistério

1. Ilimitado e Perfeito, há um Tornar-se, além do Céu e da Terra. Ele não tem movimento e nem Forma; ele está sozinho, ele não muda; ele estende todos os caminhos; ele não tem Adversário. É como a Mãe-de-Tudo.
2. Eu não sei seu Nome, mas eu o chamo de Tao. Além disso, eu me esforço, e o chamo de Vastidão.
3. Vastidão, o Tornar-se! Tornando-se, voa longe. Longe, se aproxima. Vasto é esse Tao. O Céu é vasto. A Terra é vasta. O Rei Santo é vasto também. No Universo há Quatro Vastidões, e destes é o Rei Santo.
4. O Homem segue a fórmula da Terra; a Terra segue a do Céu, e o Céu a do Tao. A fórmula do Tao é a sua própria Natureza.

XXVI A Natureza da Massa

1. A massa é o sustentáculo da mobilidade; a quietude é o pai do movimento.
2. Portanto, o Rei sábio, apesar de viajar para longe, permanece perto de seus suprimentos. Embora a oportunidade o tente, ele permanece em silêncio na disposição adequada, indiferente. O mestre de uma hoste de carruagens deveria portar-se levianamente? Se ele atacar sem apoio, ele perde sua base; se ele se tornar um atacante, ele perde seu trono.

XXVII Habilidade no Método

1. O viajante experiente encobre seus rastros; o orador inteligente não dá nenhuma chance para o crítico; o hábil matemático não usa ábaco, o engenhoso guarda frustra o ladrão sem o uso de flechas, e o esperto amarra sem cordas e nem nós. Assim também o sábio, hábil na arte-de-emancipar-homens, usa todos os homens; entendendo o valor de tudo, ele rejeita nada. Isso é chamado de Regime Oculto.
2. Então o adepto é mestre para o zelator, e o zelator auxilia e honra o adepto. No entanto, a menos que essas relações estejam manifestas, até mesmo o observador mais inteligente poderia ficar perplexo quanto a qual é qual. Isso é chamado de Coroa do Mistério.

XXVIII O Retorno à Simplicidade

1. Equilibre a tua força masculina com a tua fraqueza feminina e tu atrairás todas as coisas, tal qual o oceano absorve todos os rios; porque tu formularás a excelência da Criança eterna, simples e perfeita.
Conhecendo a luz, permaneça no Escuro. Não manifesta a tua Glória, mas a tua obscuridade. Vestido nesta excelência eterna de Criança, tu alcançastes o Retorno do Primeiro Estado. Conhecendo o esplendor da Fama, se agarre ao Descrédito e à Infâmia; então tu permanecerás como no Vale para o qual fluem todas as águas, o magneto que fascina todos os homens. Sim, eles devem saudar essa Excelência em ti, eterna, simples e perfeita, de Criança.
2. A matéria-prima, moldada em forma, origina vasos. Assim o Rei sábio formula sua Plenitude em diversos Ofícios; e a sua Lei é sem violência ou constrangimento.

XXIX Abstendo-se da Ação

1. Aquele que, desejando um reino, se empenha em obtê-lo, falhará. Um Reino é da natureza do espírito, e não cede à atividade. Aquele que o agarra, o destrói; aquele que o ganha, o perde.
2. A roda da natureza revolve constantemente; o último se torna o primeiro, e o primeiro o último; as coisas quentes esfriam, as coisas frias esquentam; a fraqueza vence a força, as coisas ganhas são perdidas imediatamente. Portanto o homem sábio evita o esforço, o desejo e a preguiça.

XXX Uma Advertência Contra a Guerra

1. Se um rei convocar em seu auxílio um Mestre do Tao, que ele não aconselhe o uso das armas. Tal ação certamente traz a reação correspondente.
2. Onde há exércitos, há ervas daninhas. Más colheitas seguem grandes exércitos.
3. O bom general ataca decisivamente, de uma vez por todas. Ele não corre o risco de excesso de ousadia. Ele ataca, mas não gaba sua vitória. Ele ataca de acordo com a lei estrita da necessidade, não do desejo de vitória.
4. As coisas se tornam fortes e maduras, então envelhecem. Isso é a discórdia com o Tao; e o que não está em harmonia com o Tao logo se acaba.

XXXI Criando Conflito

1. Armas, ainda que sejam belas, são de mau agouro, abomináveis para todos os seres criados. Aqueles que têm o Tao não amam seu uso.
2. O lugar de honra é à direita em tempos de guerra; assim pensa o homem de distinção. Armas afiadas são de mau agouro, indignas de um tal homem; ele as usa apenas em necessidade. Ele estima a paz e a tranquilidade, não deseja a violência da vitória. Desejar a vitória é desejar a morte de homens; e desejar isso é falhar em conciliar o povo.
3. Nas festas, à esquerda está o assento elevado; em funerais, à direita. O vice-comandante do exército conduz a ala esquerda; o comandante-chefe, a ala direita; é como se a batalha fosse um rito de luto! Aquele que feriu mais homens deve chorar por eles mais amargamente; assim então o lugar do vencedor é atribuído a aquele com propriedade filosófica.

XXXII A Sabedoria do Te

1. O Todo-Tao não tem nome.
2. É Aquele Ponto Minuto que todavia o mundo inteiro não ousa lutar contra aquele que o tem. Se um lorde ou um rei o obtivesse e guardasse, todos os homens lhe obedeceriam por vontade própria.
3. O Céu e a Terra combinando-se sob seu feitiço, derramam orvalho, estendendo ao longo de todas as coisas por conta própria, sem a interferência do homem.
4. O Tao, em sua fase de ação, tem um nome. Então os homens podem compreendê-lo; quando eles o fazem, não há mais risco de erro ou falha.
5. Tal como os grandes rios e os oceanos estão para os córregos do vale, assim também está o Tao para todo o universo.

XXXIII A Discriminação (Viveka) do Te

1. Aquele que entende outros entende Dois; mas aquele que entende a si mesmo compreende Um. Aquele que conquista aos outros é forte; mas aquele que conquista a si mesmo é mais forte ainda.
O contentamento é opulência; e a ação contínua é Vontade.
2. Aquele que se adapta perfeitamente ao seu ambiente, persevera por muito tempo; aquele que morre sem morrer, vive para sempre.

XXXIV O Método de Consecução

1. O Tao é imanente; se estende tanto à direita como à esquerda.
2. Todas as coisas derivam seu ser dele; ele as cria, e todas se sujeitam a ele. Seu trabalho é feito, e ele não o proclama. Ele é o ornamento de todas as coisas, no entanto, não reclama nada deles; não há nada tão pequeno que ele não habite, e não conduza.
Todas as coisas retornam sem o conhecimento da Causa dos mesmos; não há nada tão grande que ele não o habite, e o conduza.
3. Desta forma também pode o Sábio realizar suas Obras. É por não se apressar que conquista o seu sucesso.

XXXV A Boa Vontade do Te

1. O mundo inteiro é atraído a aquele que tem a Semelhança com o Tao. Os homens se arrebanham ao redor dele, e não sofrem nenhum mal, mas obtém descanso, encontram a paz, desfrutam de toda tranquilidade.
2. Sons e pratos doces atraem o viajante para fora de seu caminho. Mas a Palavra do Tao; embora pareça dura e insípida, indigna de se ouvir ou de se ver; tem seu uso todo inesgotável.

XXXVI O Esconder da Luz

1. A fim de respirar, esvazie primeiro os pulmões; para enfraquecer o outro, primeiro o fortaleça; para derrubar o outro, primeiro o exalte; para despojar o outro, primeiro o encha de presentes; isso é chamado de Regime Oculto.
2. O macio conquista o duro; o fraco destrói o forte.
3. O peixe que deixa o oceano está perdido; o método de governo deve ser escondido do povo.

XXXVII O Uso Correto do Governo

1. O Tao prossegue por sua própria natureza, nada fazendo; portanto não há ação que ele não compreenda.
2. Se reis e príncipes governassem desta maneira, todas as coisas funcionariam corretamente por sua própria moção.
3. Se essa transmutação fosse meu objetivo, eu o chamaria de Simplicidade. A Simplicidade não tem nome, nem propósito; silenciosamente e à vontade todas as coisas sucedem.

PARTE II - TE CHING

 

 

XXXVIII Relativo ao Te

1. Aqueles que possuíam perfeitamente os poderes não os manifestaram, e assim os preservaram. Aqueles que os possuíam imperfeitamente temiam perdê-los, e assim perderam.
2. O primeiro não fez nada, nem tinha necessidade de fazer. O segundo fez, e tinha necessidade de fazer.
3. Aqueles que possuíam a benevolência a exercitaram, e precisaram dela; assim também foi com aqueles que possuíam a justiça.
4. Aqueles que possuíam as convenções as exibiram; e quando os homens não concordaram, se prepararam para enfrentá-los.
5. Assim, quando o Tao foi perdido, os Poderes da Magia apareceram; então, por degradações sucessivas, vieram a Benevolência, a Justiça, a Convenção.
6. Agora a convenção é a sombra da lealdade e da boa vontade, e assim o arauto da desordem. Sim, até mesmo o Entendimento é uma Florescência do Tao, e prenuncia a Estupidez.
7. Então o Homem-do-Tao agarra-se à Massa, e evita o Movimento; ele está ligado à Raiz, não à flor. Ele deixa um, e se apega ao outro.

XXXIX A Lei do Princípio

1. Estas coisas possuíram o Tao desde o princípio: o Céu, claro e brilhante; a Terra, estável e silente; os Espíritos, poderosos em Magia; os Veículos, transbordando de Alegria; tudo o que tem vida; e os governantes dos homens. Todos estes derivam sua essência a partir do Tao.
2. Sem o Tao, o Céu se dissolveria, a Terra romperia, os Espíritos se tornariam impotentes; os Veículos vazios; as coisas vivas pereceriam e os governantes perderiam o seu poder.
3. A raiz da grandeza é a humildade, e a força da exaltação está em sua base. Assim os governantes falam de si mesmos como “Sem pai”, “Desvirtuoso”, “Indigno”, proclamando com isso que sua Glória está em sua vergonha. Assim também a virtude de uma Carruagem não é qualquer uma das partes de uma Carruagem, se forem enumeradas. Eles não procuram parecer bem como a jade, mas discretos como a pedra comum.

XL Omitindo a Utilidade

1. O Tao procede por curvas correlativas, e sua força está na fraqueza.
2. Todas as coisas surgiram a partir do Te, e o Te brotou a partir do Tao.

XLI A Identidade do Diferente

1. Os melhores estudantes, aprendendo sobre o Tao, começam ardentemente a praticar o Caminho. Estudantes medíocres ora o apreciam, ora o deixam de lado.
Os piores estudantes zombam dele. Se não fosse assim escarnecido, ele seria indigno de ser o Tao.
2. Assim falaram os criadores de Provérbios: o Tao em sua forma mais brilhante é obscuro. Quem avança nesse Caminho, se retira. Seu Caminho suave é áspero. Seu cume é um vale. Sua beleza é a feiura. Sua riqueza é a pobreza. Sua virtude, o vício. Sua estabilidade é a mudança. Sua forma é sem forma. Sua compleição é o vazio. Seu enunciado é o silêncio. Sua realidade é a ilusão.
3. Sem nome e imperceptível é o Tao; mas ele inspira e aperfeiçoa todas as coisas.

XLII Os Véus do Tao

1. O Tao formulou o Um.
O Um exalou o Dois.
Os Dois foram pais do Três.
Os Três foram pais de todas as coisas.
Todas as coisas passam da Obscuridade à Manifestação; inspiradas harmoniosamente pelo Sopro do Vazio.
2. Os homens não gostam de ser sem pai, desvirtuosos, indignos: embora os governantes se descrevam por esses nomes. Assim o acréscimo traz o decréscimo para alguns, o decréscimo traz o acréscimo para outros.
3. Outros ensinaram assim; eu concordo. Homens violentos e fortes não morrem de morte natural. Este fato é o alicerce de minha lei.

XLIII O Método Cósmico

1. A substância mais macia caça e captura a mais dura; o Insubstancial penetra onde não há abertura. Aqui está a Virtude da Inércia.
2. Poucos são aqueles que alcançam: cuja Fala é Silêncio, cujo Trabalho é Inércia.

XLIV Monitorial

1. O que beneficiará um homem obter fama ou riqueza, e perder a sua vida?
2. Se um homem se agarra à fama ou à riqueza, ele arrisca aquilo que vale mais.
3. Fique satisfeito, não temendo a desgraça. Não aja, e não arrisque a crítica. Assim vivas tu muito tempo, sem alarme.

XLV A Inundação Do Te

1. Despreze as tuas obras-primas; assim renove o vigor de tua criação.
Considere a tua plenitude vazia; assim a tua plenitude nunca será vazia.
Que o reto pareça torto para ti; tua Arte deselegância; tua Músicka discórdia.
2. O exercício modera o frio; a quietude o calor. Ser puro e manter silêncio, é a Verdadeira Lei de tudo que está sob o Céu.

XLVI A Retirada da Ambição

1. Quando o Tao veleja sobre a Terra, os homens colocam cavalos velozes em carroças da noite. Quando é negligenciado, eles procriam carregadores nas marchas da fronteira.
2. Não há mal pior do que a ambição; nenhuma miséria pior do que o descontentamento; nenhum crime maior do que a avareza. Contentamento de mente é a paz e a satisfação eternas.

XLVII A Visão do Distante

1. Não é preciso passar do limiar para compreender tudo o que há debaixo do Céu, nem olhar para fora de sua treliça para contemplar o Tao Celestial. Não! mas quanto mais longe vai um homem, menos ele conhece.
2. Os sábios adquiriram seu conhecimento sem viajar; nomearam todas as coisas corretamente sem contemplá-las; e, agindo sem propósito, cumpriram as suas Vontades.

XLVIII Esquecimento Superando Conhecimento

1. O estudioso busca diariamente aumentar o saber; o sábio do Tao o diminuir do fazer.
2. Ele o diminui, e de novo e de novo, até que ele não faça nenhum ato com ânsia de resultado. Tendo alcançado essa Inércia, tudo se realiza.
3. Aquele que atrai para si tudo o que há debaixo do Céu, o faz sem esforço. Aquele que se esforça não é capaz de atraí-lo.

XLIX A Adaptabilidade do Te

1. O homem sábio não tem princípio fixo; ele adapta sua mente a seu ambiente.
2. Para o bom eu sou bom, e para o ruim eu sou bom também; assim tudo se torna bom. Para o verdadeiro sou verdadeiro, e para o falso sou verdadeiro; assim tudo se torna verdadeiro.
3. O sábio parece hesitante para o mundo, porque sua mente está desapegada. Por isso o povo o observa e ouve, como seus filhos; e assim ele os arrebanha.

L A Estima da Vida

1. O homem adquire vida, e retorna novamente para a morte.
2. Três em cada dez homens conservam a vida; três em cada dez homens buscam a morte.
3. Também três em cada dez homens desejam viver, mas seus atos apressam sua viagem para a casa da morte. Por que isso? Por causa de seus esforços para preservar a vida.
4. Mas isso eu ouvi. Aquele que é sábio na economia de sua vida, do qual ele é responsável por uma estação, viaja sem a necessidade de evitar o tigre ou o rinoceronte, e vai sem armadura entre os guerreiros, sem medo de espada ou de lança. O rinoceronte não acha nele lugar vulnerável para seu chifre, o tigre para suas garras, a arma para sua ponta. Por que isso? Porque não há casa da morte em todo o seu corpo.

LI O Te Como O Nutridor

1. Todas as coisas procedem do Tao, e são sustentadas por sua virtude que flui. Cada um toma forma de acordo com sua natureza, e é perfeito, cada um de seu Jeito particular. Portanto, todos e cada um deles glorificam o Tao, e adoram a sua Virtude que flui.
2. Esta glorificação do Tao, este culto do Te, é constantemente espontâneo, e não por indicação da Lei.
3. Assim, o Tao os faz florescer, os nutre, os desenvolve, os sustenta, os aperfeiçoa, os amadurece, os suporta, os reabsorve.
4. Ele os faz germinar, e não reclama soberania sobre eles; é supervisor de suas mudanças, e não se gaba de sua pujança; os aperfeiçoa, e não interfere com seus Caminhos; isso é chamado de o Mistério de sua Virtude.

LII A Retirada ao Silêncio

1. O Tao faz brotar todas as coisas debaixo do Céu; é a Mãe de tudo.
2. Conhecendo a Mãe, podemos conhecer sua prole. Aquele que conhece sua Mãe, e que habita em Sua natureza, permanece em segurança todos os seus dias.
3. Com a boca fechada, e os Portões da Respiração controlados, ele permanece repousando todos os seus dias. Com a boca aberta, e a Respiração direcionada para assuntos externos, ele não tem a certeza todos os seus dias.
4. Perceber aquele Ponto Minuto é a Verdadeira Visão; manter o Suave e o Gentil é a Verdadeira Força.
5. Empregando a Luz Interna harmoniosamente para que ela volte à sua Origem, protege-se até mesmo seu corpo do mal, e mantém Silêncio ante todos os homens.

LIII O Testemunho da Ganância

1. Se eu fosse descoberto pelos homens, e encarregado com o governo, o meu primeiro medo seria que eu não devesse tornar-me orgulhoso.
2. O verdadeiro Caminho é plano e liso; mas os homens adoram atalhos.
3. Eles adornam suas cortes, mas eles negligenciam seus campos, e deixam seus armazéns vazios. Eles usam vestes bordadas e elaboradas; eles cingem-se com espadas afiadas; eles comem e bebem com luxúria; eles acumulam bens; eles são desonestos e orgulhosos. Tudo isso é oposto ao Caminho do Tao.

LIV O Testemunho Da Sabedoria

1. Se um homem planta de acordo com o Tao isso nunca será arrancado; se ele assim reúne, nunca será perdido. Seus filhos e os filhos de seu filhos, um após outro, honrarão o santuário de seu ancestral.
2. O Tao, aplicado a si mesmo, fortalece o Corpo, à família, traz riqueza; ao distrito, prosperidade; ao Estado, grande fortuna. Deixe que seja a Lei do Reino, e todos os homens crescerão em virtude.
3. Assim observamos seu efeito em todos os casos, como para a pessoa, a família, o distrito, o estado e o reino.
4. Como eu sei que isso é assim universal sob o Céu?
Por experiência.

LV O Feitiço do Mistério

1. Aquele que tem os Poderes Mágicos do Tao é como uma criança. Insetos não o picarão ou bestas ou aves de rapina não o atacarão.
2. Os ossos da criança são macios e seus tendões são elásticos, mas seu alcance é firme. Ele não conhece nada da União do Homem e da Mulher, embora seu Órgão possa ser excitado. Isso é por causa de sua perfeição natural. Ela gritará o dia todo sem ficar rouca, por causa da harmonia de seu ser.
3. Aquele que entende essa harmonia conhece o mistério do Tao, e se torna um Verdadeiro Sábio. Todos os artifícios para inflamar a vida, e aumentar o Sopro vital, por esforço mental, são maus e dissimulados.
4. As coisas se tornam fortes, então velhas. Isto está em desacordo com o Tao, e o que não é uno com o Tao logo chega a um fim.

LVI A Excelência do Mistério

1. Quem conhece o Tao mantém Silêncio; aquele que balbucia não o conhece.
2. Quem conhece fecha sua boca e controla as Portas de sua Respiração. Ele tornará sua agudeza sem corte; ele soltará seus complexos; ele diminuirá seu brilho à obscuridade geral. Isso é chamado de o Segredo da Harmonia.
3. Ele não pode ser insultado quer pela familiaridade ou pela aversão; ele é imune a ideias de ganho ou perda, de honra ou desgraça; ele é o verdadeiro homem, inigualável debaixo do Céu.

LVII A Influência Verdadeira

1. Pode-se governar um estado por restrição; as armas podem ser usadas com habilidade e astúcia; mas adquire-se verdadeiro comando somente pela liberdade, dada e tomada.
2. Como estou ciente disso? Pela experiência de que multiplicar as leis restritivas no reino empobrece o povo; o uso de máquinas causa desordem igualmente no estado e na família. Quanto mais os homens usam a habilidade e a astúcia, mais máquinas existem; e quanto mais há leis, mais há criminosos.
3. Um homem sábio disse isso: eu pararei de fazer, e as pessoas agirão corretamente por sua própria vontade; eu amarei o Silêncio, e as pessoas instintivamente se voltarão para a perfeição; eu não tomarei medidas, e as pessoas desfrutarão da verdadeira riqueza; eu restringirei a ambição, e as pessoas atingirão a simplicidade.

LVIII Adaptação ao Ambiente

1. O governo que exerce o mínimo cuidado serve melhor às pessoas; aquele que se intromete com os assuntos de todos opera todo tipo de danos. A tristeza e a alegria são companheiros; quem pode adivinhar o resultado final de cada?
2. Devemos evitar a restrição? Sim, a restrição distorce a natureza, de modo que mesmo o que parece bom nisso é mau. Há quanto tempo os homens sofrem por causa do engano sobre isso.
3. O homem sábio é quadrangular, e evita a agressão; seus cantos não ferem os outros. Ele se move em linha reta e não desvia dela; ele é brilhante, mas não cega com seu brilho.

LIX Protegendo o Tao

1. Para equilibrar a nossa natureza terrena e cultivar a nossa natureza celestial, trilhe o Caminho do Meio.
2. Este Caminho do Meio por si só conduz ao Retorno Oportuno à Verdadeira Natureza. Este Retorno Oportuno é resultado da constante junção de Poderes Mágicos. Com essa Junção vem o Controle. Este Controle sabemos que é Sem Limites e aquele que conhece o Ilimitado pode governar o Estado.
3. Aquele que possui o Tao persevera até longe. Ele é como uma planta com o raízes bem firmes e caules fortes. Assim protege a longa duração de sua vida.

LX O Dever do Governo

1. O governo de um reino é como cozinhar peixes.
2. Se o reino for governado de acordo com o Tao, os espíritos de nossos antepassados não manifestarão o seu Te. Esses espíritos têm esse Te, mas não o tornarão contra os homens. Ele é capaz de injuriar os homens; assim também é o Rei Sábio; mas ele não o faz.
3. Quando estes poderes estão de acordo, a sua Boa Vontade produz o Te, dotando as pessoas com o mesmo.

LXI A Modéstia do Te

1. Um estado se torna poderoso quando se assemelha a um grande rio, profundo; para ele tendem todos os pequenos riachos debaixo do Céu.
2. É como a fêmea que conquista o macho por seu silêncio. O Silêncio é uma forma de Atração.
3. Assim, um grande estado atrai os estados pequenos por ir de encontro aos seus pontos de vista, e pequenos estados atraem o grande reverenciando sua eminência. No primeiro caso, este Silêncio obtém apoiadores; no segundo, favor.
4. O grande estado une os homens e os sustenta; o pequeno estado deseja a boa vontade dos grandes, e a oferece serviço; assim cada um ganha a sua vantagem. Mas o grande estado deve manter Silêncio.

LXII As Operações do Tao

1. O Tao é a mais exaltada de todas as coisas. Ele é o ornamento do bem, e a proteção e purificação do mal.
2. Suas palavras são a fonte da honra, e suas ações o motor da realização. Ele está presente até mesmo no mal.
3. Embora o Filho do Céu fosse entronado com seu três Duques indicados para servi-lo, e a ele fosse oferecido um símbolo de status circular tão grande que poderia encher as mãos, com uma equipe de cavalos o seguindo, este presente não se igualava ao Tao, que poderia ser oferecido pelo mais humilde dos homens.
4. Por que os antigos consideraram o Tao assim? Porque aquele que o procura pode encontrá-lo, e porque essa era a Purificação de todo o mal. Portanto todos os homens sob o Céu o estimam como a mais exaltada de todas as coisas.

LXIII Premeditação no Início

1. Aja sem ânsia de resultado; trabalhe sem ansiedade; prove sem apego ao sabor; estime as coisas pequenas como grandes e poucas coisas como muitas; afaste a violência com a gentileza.
2. Faça as grandes coisas enquanto elas ainda são pequenas, as coisas difíceis enquanto elas ainda são fáceis; pois todas as coisas, não importa quão grandes ou difíceis, têm um começo quando elas eram pequenas e fáceis. Assim então o homem sábio realiza as maiores tarefas sem empreender nada importante.
3. Aquele que empreende irrefletidamente certamente falhará na realização; aquele que estima as coisas fáceis as achará difíceis. O homem sábio considera até mesmo as coisas mais fáceis como difíceis, de modo que mesmo as coisas difíceis são fáceis para ele.

LXIV Preocupar-se com os Detalhes

1. É fácil agarrar o que ainda não está em movimento, resistir ao que ainda não é manifesto, quebrar o que ainda não é denso, dispersar o que ainda não é coerente. Agir contra as coisas antes que se tornem visíveis; preocupar-se com a ordem antes que a desordem nasça.
2. A árvore que preenche um abraço cresceu de um pequeno broto; a torre de nove andares foi erguida de uma base baixa; a viagem de dez dias começou com um único passo.
3. Aquele que age opera injúria; aquele que se agarra acha liso. O homem sábio não age, assim não pratica injúria; ele não se agarra, e assim não solta. Os homens muitas vezes arruínam seus negócios na véspera do sucesso, porque eles não são tão prudentes no final como no início.
4. O homem sábio quer o que os outros não querem, e não estima as coisas raras. Ele aprende o que os outros não aprendem, e recolheu o que eles desprezam. Assim ele está de acordo com o curso natural dos eventos, e não é ousado demais na ação.

LXV A Pureza do Te

1. Os de antigamente que eram habilidosos no Tao não procuravam esclarecer o povo, mas mantê-los simples.
2. A dificuldade do governo é o conhecimento vão do povo. Usar a inteligência no governo é torturar o reino; usar a simplicidade é ungi-lo.
3. Conheça estas coisas, e faça delas a tua lei e teu exemplo. Possuir esta Lei é a Perfeição Secreta do governo. Profunda e Prolongada é essa Perfeição; aquele que a possui realmente é contrário ao resto, mas ele os atrai à plena conformidade.

LXVI Colocando-se por Último

1. Os oceanos e os rios atraem as correntezas por sua habilidade de ser mais baixo do que eles; assim são mestres disto. Assim o Homem Sábio, para estar acima dos homens, fala abaixo; e para os preceder age com humildade.
2. Assim, ainda que esteja acima deles, eles não sentem ônus; nem, ainda que os preceda, eles se sentem insultados.
3. Assim todos os homens se deleitam em honrá-lo, e não se cansam dele. Ele não compete contra nenhum homem; portanto, nenhum homem é capaz de competir contra ele.

LXVII As Três Joias

1. Eles dizem que, embora este meu Tao seja grande, ainda assim é inferior. Esta é a prova de sua grandeza. Se fosse como qualquer outra coisa, sua pequenez teria sido conhecida há tempos.
2. Eu tenho três joias valiosas às quais me agarro; a bondade, a moderação e a humildade.
3. Essa bondade me torna corajoso, essa moderação generoso, essa humildade honrado. Os homens de hoje abandonam a bondade pela violência, a moderação pela extravagância, a humildade pelo orgulho: isso é a morte.
4. A bondade trás a vitória na luta; e defende seu lugar com segurança. O Céu protege o homem gentil por essa mesma virtude.

LXVIII Assimilando-se com o Céu

1. Aquele que é hábil na guerra não faz nenhum gesto feroz; o lutador mais eficiente toma precaução contra a raiva. Aquele que conquista se abstém de atacar na batalha; aquele a quem os homens mais de bom grado obedecem, persevera silenciosamente com o seu Trabalho. Assim é dito: “Poderoso é aquele que não luta; governa aquele que se une com seus súditos; brilha aquele cuja vontade é a do Céu”.

LXIX O Uso do Jeito Misterioso

1. Um grande estrategista diz: “Não me atrevo a tomar a ofensiva. Eu prefiro a defensiva. Não ouso avançar uma polegada; prefiro recuar um pé”. Portanto ponha o exército onde não há exército; prepare-se para a ação onde não há compromisso; ataque onde não há conflito; avance contra o inimigo onde o inimigo não está.
2. Não há nenhum erro tão grande quanto se engajar em batalha sem força suficiente. Fazê-lo é correr o risco de perder a doçura que está acima de qualquer preço. Assim, quando as tropas realmente iniciam o ataque, aquele que lamenta a necessidade é o vitorioso.

LXX A Dificuldade da Compreensão Correta

1. Minhas palavras são fáceis de compreender e de realizar; mas há alguém no mundo que pode compreendê-las e realizá-las?
2. Minhas palavras derivam de um Princípio criativo e universal, de acordo com a Lei Única. Os homens, não conhecendo estes, não me compreendem.
3. Poucos são os que me entendem; portanto sou o que mais deve ser valorizado. O Homem Sábio veste trapos, mas guarda sua joia em seu peito.

LXXI A Enfermidade do Conhecimento

1. Saber, embora não saber nada, é o mais elevado; não saber, mas fingir ter conhecimento, é uma enfermidade.
2. Esta enfermidade é dolorosa; por isso a evitamos. O homem sábio não a tem. Sabendo que ele está ligada ao Sofrimento, a põe de lado.

LXXII Sobre o Amor de Si

1. Quando os homens não temem o que é para ser temido, aquilo que eles temem se cruza com eles.
2. Que eles não vivam, sem pensar, a vida superficial. Que eles não se fatiguem da Fonte da Vida!
3. Evitando a vida superficial, esse cansaço não recai sobre eles.
4. Essas coisas que o homem sábio conhece, não demonstra: ele ama a si mesmo, sem isolar o seu valor. Ele aceita o primeiro e rejeita o último.

LXXIII Instituindo a Lei da Liberdade

1. Um homem, ousando, é executado; outro, não ousando, vive. Parece como se um curso fosse rentável e o outro prejudicial. No entanto, quando o Céu fulmina um homem, quem atribuirá a causa disso? Por isso o sábio é reservado.
2. O Tao do Céu não luta, embora vença; é silencioso, embora sua necessidade seja respondida; não convoca, embora todos os homens venham até ele por livre vontade. Seu método é o sossego, mas sua vontade é eficiente. Grandes são as malhas da Rede do Céu; bem aberta, embora nada deixando escapar.

LXXIV Uma Restrição dos Mal-Entendidos

1. O povo não teme a morte; por que então procurar amedrontá-los pela ameaça de morte? Se o povo temesse a morte e eu pudesse executar os malfeitores, quem se atreveria a insultar?
2. Há alguém nomeado para infligir a morte. Aquele que quiser usurpar essa posição se assemelha a um lenhador de madeira fazendo o trabalho de um carpinteiro. Tal pessoa, presunçosa, certamente cortará suas próprias mãos.

LXXV O Prejuízo da Ambição

1. O povo passa fome por causa do peso da tributação imposta por seus governantes. Esta é a causa da fome.
2. As pessoas são difíceis de governar porque seus governantes se intrometem com elas. Esta é a causa do mau governo.
3. As pessoas recebem com prazer a morte porque a labuta da vida é intolerável. É por isso que eles superficialmente estimam a morte.
Em tal estado de insegurança é melhor ignorar a questão de viver do que considerá-la.

LXXVI Uma Advertência Contra a Rigidez

1. No nascimento do homem, ele é elástico e fraco; em sua morte, rígido e inflexível. Esta é a lei comum; as árvores também, em sua juventude, são tenras e flexíveis; em sua decadência, duras e secas.
2. Então rigidez e dureza são os estigmas da morte; elasticidade e adaptabilidade, da vida.
3. Então aquele que mete a força não é vitorioso; mesmo como uma árvore forte preenche um abraço.
4. Assim o duro e o rígido têm o lugar inferior, o macio e o elástico o superior.

LXXVII O Caminho do Céu

1. O Tao do Céu é semelhante à curvatura de um arco, onde a parte alta é trazida para baixo, e a parte baixa é erguida. O extremo é diminuído, e o meio aumentado.
2. Este é o Caminho do Céu, remover o excesso, e complementar a insuficiência. Não é assim o caminho do homem, que tira dele que não tem para dar para aquele que já tem em excesso.
3. Quem pode empregar seu próprio excesso para o bem-estar de todos sob o Céu? Somente aquele que possui o Tao.
4. Assim age o Homem Sábio sem ânsia de resultado; não conquista e não se gaba; ele não quer proclamar sua grandeza.

LXXVIII Um Credo

1. Nada no mundo é mais elástico e flexível do que a água; no entanto, é preeminente dissolver as coisas rígidas e resistentes; não há nada que possa se igualar.
2. Todos os homens sabem que o mole supera o duro, e o fraco conquista o forte; mas nenhum é capaz de usar essa lei na ação.
3. Um Homem Sábio disse: “Aquele que assume a carga do estado é um semideus digno de adoração sacrificial; e o verdadeiro Rei de um povo é aquele que toma a responsabilidade do peso de seus sofrimentos”.
4. A verdade parece paradoxo.

LXXIX Verdade na Aliança

1. Quando os inimigos se reconciliam, há sempre um rescaldo de hostilidade. Como isso pode ser útil?
2. Portanto, o Homem Sábio, enquanto mantém a sua parte do registro de uma transação, não insiste em sua pronta execução. Aquele que tem o Te considera a situação por todos os lados, enquanto aquele que não tem busca apenas beneficiar a si mesmo.
3. No Tao do Céu, não há distinção de pessoas em seu amor; mas é para o Verdadeiro Homem reivindicá-lo.

LXXX Isolamento

1. Em um pequeno reino de poucas pessoas deveria ser a ordem que apesar que houvesse homens capazes de fazer o trabalho de dez homens ou de cinco, eles não deveriam ser empregados. Embora o povo considerasse a morte como pesarosa, mesmo assim eles não deveriam querer ir para outro lugar.
2. Eles deveriam ter barcos e carroças, embora nenhuma necessidade de viajar; corseletes e armas, embora nenhuma ocasião para lutar.
3. Para a comunicação deveriam usar cordas com nós.
4. Eles devem considerar a sua comida doce, suas roupas belas, suas casas lares, seus hábitos prazerosos.
5. Se houvesse um outro estado à vista, de modo que sua aves e cães devessem ser ouvidos; ainda até a velhice, mesmo até a morte, o povo não deve ter nenhum comércio com ele.

LXXXI A Proclamação da Simplicidade

1. O discurso verdadeiro não é elegante; o discurso elaborado não é a verdade. Aqueles que sabem não argumentam; os argumentadores são sem conhecimento. Aqueles que assimilaram não são eruditos; aqueles que são enormes com conhecimento não assimilaram.
2. O Homem Sábio não acumula coisas. Quanto mais ele dá, mais ele tem; quanto mais ele rega, mais ele próprio é regado.
3. O Tao do Céu é como uma Flecha, ainda que não fira; e o Homem Sábio, em todas as suas Obras, não causa conflito.
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