QUANDO NÃO NOS SENTIMOS AMADOS

Abrir mão das exigências, reconectar-se com a vida como ela chegou até nós e assumir a responsabilidade pelo nosso presente é o caminho para a cura da nossa alma.

Recebemos muitas perguntas em nossos canais sobre problemas que as pessoas enfrentam em suas vidas. Uma grande parte delas descreve as dificuldades que surgem por não se sentirem amadas ou por que gostariam de receber mais amor e afeto de seus pais.
É comum sentirmos esse desnível afetivo em alguma fase da nossa vida, onde parece que nossas carências nunca são supridas. Lamentamos-nos por não sermos compreendidos a amados, e desse movimento transformamos essa carência em exigências direcionadas principalmente a nossos pais e nossas famílias.
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Entramos nessa vida através da infância. E lá moldamos nossas percepções do mundo, e por lá ficamos por mais ou menos 14 anos. E então, nosso corpo muda, o mundo muda e precisamos crescer. Algumas partes de nós fazem isso automaticamente. Outras exigem mais trabalho. É este o duro processo do amadurecimento.

O Amor infantil

No processo de amadurecimento, uma das primeiras coisas que percebemos e relutamos em abrir mão é a forma como o afeto chega até a gente. Se na infância fomos supridos em nossas expectativas de forma abundante (o que é normal e necessário no início da vida) aos poucos os pais vão alterando a forma de troca, para estabelecer novas informações necessárias para o desenvolvimento dos filhos. Bert Hellinger fala sobre isso no seu livro “O Amor do Espírito”:
“O arquétipo da ajuda acontece na relação entre pais e filhos, principalmente, entre mãe e filho. Os pais dão, os filhos tomam. Os pais são grandes, superiores e ricos; os filhos pequenos, necessitados e pobres. Entretanto, porque pais e filhos estão ligados por um profundo amor mútuo, o dar e o tomar entre eles pode ser quase ilimitado. Os filhos podem esperar quase tudo de seus pais. Estes estão dispostos a dar quase tudo aos seus filhos. Na relação entre pais e filhos as expectativas dos filhos e a prontidão dos pais para atendê-las são necessárias e por isso, estão em ordem.
 Entretanto, estão em ordem enquanto os filhos ainda são pequenos. Com o avançar da idade os pais vão colocando limites aos filhos, com os quais estes podem entrar em atrito, amadurecendo dessa forma.
 Então os pais são menos amorosos com os seus filhos? Seriam pais melhores se não colocassem limites? Ou provam ser bons pais justamente porque exigem de seus filhos algo que os prepara para uma vida de adultos? Muitos filhos ficam então com raiva de seus pais porque preferem manter a dependência original. Contudo, justamente porque os pais se retraem e desiludem essas expectativas, ajudam seus filhos a se libertarem dessa dependência e, passo a passo, agirem por própria responsabilidade. Somente assim os filhos tomam o seu lugar no mundo dos adultos e se transformam de tomadores em doadores.”
Muitos filhos relutam em aceitar essa troca, confundido esse endurecimento dos pais como falta de amor. É a criança interna que briga e bate o pé por algo que ela quer e não aceita trocar. E com essa crença, sofrem por muito tempo um sofrimento auto-imposto e que retira a força de viver.
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Muitas vezes é assim que o filho  deixar de buscar nos pais o que ainda é necessário ao seu desenvolvimento, além dos tesouros escondidos na relação diária. Na nossa fantasia de criança, julgamos a qualidade do amor que vem de nossos pais, como se eles pudessem ter sido diferentes. E então, entramos num caminho pesado, onde queremos nos separar dos pais, numa tentativa de esquecer a dor que isso causa. Esse movimento é muito difícil.
Conseguir cultivar o que foi possível receber dos nossos pais, com aceitação ao que se mostrou e com a compreensão que nossos pais fizeram o melhor que puderam,  é um bom lugar para iniciar a cura da alma.
Todos os filhos amam seus pais, e é muito difícil viver de forma plena quando tentamos nos convencer do contrário.

Amadurecendo

Ao nos dar conta que o afeto está em nossos pais, e está disponível da forma como é possível ser passado adiante, percebemos que até pequenas trocas diárias estão cheias de cuidado e atenção. Mas até mesmo isso não importa. Ao amadurecermos, saímos do lugar do juiz impiedoso, a quem os pais nunca conseguem estar à altura. Tornamos-nos novamente filhos, que não estabelecem barreiras para o que os pais estão disponíveis para dar.
A abundância está em não julgar o que nos é passado. Vemos que nossa briga com os pais serve mais a nós, para fugirmos das dores e responsabilidades do crescimento. Temos medo de sermos responsáveis por nós mesmos, sem poder correr ao socorro daqueles que sempre nos protegeram.
A boa notícia: Eles sempre estarão lá. Se não fisicamente, dentro do nosso coração e através de todos os tesouros que nos passaram, entre eles, a vida – nosso maior tesouro.
Você pode estar duvidando disso agora? Muito clichê o que falamos? Então verifique: você trocaria sua vida por algo ou alguma coisa?
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Sair do papel julgador da criança inocente abre a porta para que a vida aconteça.
Com esta postura ficamos alinhados com nosso papel e em nosso lugar na nossa rede familiar. Ao permanecermos como filhos que sabem receber o que os pais podem dar, honramos principalmente nossos pais, reconhecendo suas capacidades como genitores. Mas também honramos toda linhagem que conduziu a vida até nós. A cada geração de antepassados, vemos e aceitamos as contribuições para que a vida fizesse seu caminho. E desse ponto, a vida se torna mais leve e fluída, mesmo em situações difíceis. Aprendemos que temos o que é necessário para dar conta da vida que se abre a nossa frente.
Joan Garriga resume esse movimento de forma linda, no livro “Onde estão as moedas”:
“No mais profundo de cada um de nós, por mais graves que sejam as feridas, nós, filhos, seguimos sendo leais a nossos pais, e inevitavelmente os tomamos como modelo e os interiorizamos. De algum modo nos conectamos a uma força que nos faz ser como eles. Por isso, quando somos capazes de amá-los, honrá-los, dignificá-los e respeitá-los, podemos fazer o mesmo com a gente mesmo e ser felizes.
 Ainda que as vezes nos percebemos em movimentos de dores relacionados à nossa família, cabe a cada im de nós entender e aceitar que nossos pais são também imperfeitos, como somos todos.
E que também eles foram crianças com carências e dores no processo de crescimento. A forma que temos para acessar a cura da alma e de nossas carências é parar de exigir deles (e do mundo, por consequência) que nos forneçam mais do possam nos dar.
Aceitar que a vida e nossos pais estão aqui para nos servir com amor dentro do que é necessário para nossa evolução, ainda que por vezes de uma forma que é difícil compreender. Garriga fala da seguinte forma:
“Sabemos que qualquer sofrimento se sustenta sobre boas razões e vem envolvido em argumentos brilhantes. Isso o faz mais vendável, mais justificável. Entretanto, o único sentido do sofrimento, que não é dor, é fazer sofrer os demais.
 A solução para o sofrimento é muito simples. Se sabemos que buscamos no lugar inadequado e que isso nos deixa insatisfeitos, talvez possamos corrigir e, finalmente, buscar no lugar adequado, que sempre é com nossos pais e com a integração de nossa história pessoal, ou seja, aprendendo a apreciá-la por mais dolorosa que seja.
 Na prática, as dinâmicas familiares e afetivas são muito complexas e sutis e, com frequência, uma crise, a separação, problema com os filhos ou qualquer outro infortúnio costuma ser uma oportunidade para trazer à tona e rever o que é preciso ser recolocado na relação com os pais ou com a família de origem e, com eles, enfrentar os assuntos pendentes.
 Quando o caminho com o qual pretendíamos nos encher falha, quando uma crise nos assola, quando um trecho de nosso caminho se esgota, talvez se abra uma oportunidade, sobretudo se somos capazes de permanecer em nossa fragilidade e abrir o coração.
 Como todas as pessoas, os pais são mais reais que perfeitos, e é suficiente que sejam assim… Quem exige perfeição fica sozinho, nem sequer tem a si próprio, porque também se acha imperfeito. As ideias de perfeição pertencem ao reino de nossas imagens mentais, mas não à realidade, que seguramente anda pouco preocupada com si mesma e com sua melhoria. É que talvez a realidade seja perfeita por si mesma, tal como é “neste momento”,incluindo nossos desejos de mudá-la, que também são tão reais.
 O que ajuda não é muito popular, mas tem efeito e consiste em estar de acordo com a mente, o corpo e a alma, inclusive com a dor que se sente. É estar de acordo no coração com o fato de que as coisas são como são e se abrir emocionalmente a isso.
 A maioria das pessoas ama profundamente seus pais e, quando param de se fechar em seus argumentos defensivos, reabrem o coração e superam a dor, voltando a sentir o amor e a ternura que tinham por eles. Também descobrem que um dia os pais foram crianças e que o coração deles também foi frágil e aprendeu a se defender, que viveram da mesma forma suas carências e mágoas.
 Bastaria que aceitássemos a dor da mesma forma que outras experiências da vida para estarmos mais perto da serenidade e do amor, que é o que nos faz sentir plenos. O mal-estar interior certamente não se baseia em não ser querido, mas em sermos nós mesmos quem nos rejeita.
 Por fim, o que ajuda é cada um estar no lugar que lhe corresponde na cadeia da vida e tomar de seus antecessores a força e a chama vital, em vez de buscar encontrá-la nos posteriores ou nas ilusões mais comuns da vida: a riqueza, o poder ou o afã da notoriedade.”

A Constelação Sistêmica como possibilidade de compreensão da nossa história familiar

Se temos dificuldade em reconhecer toda a influência que nossos pais têm sobre nós, e se sentimos que isso pode estar segurando nossa caminhada na vida, a constelação familiar é um bom caminho para visualizar as dinâmicas e encontrar nosso verdadeiro lugar de filhos dentro da nossa rede familiar.
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O momento onde uma pessoa é constelada é de forte conexão com suas raízes e seus antepassados. Se por vezes nosso racional não alcança todas as informações que são abertas pela constelação, num nível interior percebemos e sentimos tudo. Esse reestabelecimento da conexão é, para muitos, um recomeço e a descoberta destas forças ampliam nosso olhar.
Através da constelação, percebe-se de forma clara quando uma pessoa está deslocada de seu lugar dentro da família.
Por outro lado, percebemos nos pais a força que sentem quando um filho está em seu lugar, e dali, parte para o mundo. Vemos a alegria dos sucessos e como todos se penalizam com o fracasso de um membro. Dessa forma, percebemos que o amor da família está além do que é mostrado no dia-a-dia: a alma familiar ama junto, constantemente, de forma clara e igual.
Através deste trabalho é impossível não perceber nosso amor por todos, e o amor de todos por nós.
Fonte:https://iperoxo.com/2017/02/21/quando-nao-nos-sentimos-amados-por-onde-comecar-nossa-cura-interior-e-encontrar-a-forca-da-vida/