O PAPA FRANCISCO PARA ALÉM DA ESQUERDA E DA DIREITA,É MELHOR QUE SEUS DETRATORES


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O Papa Francisco para além da esquerda e da direita



15/5/2017, 0:01

Não basta a mera «atualização de velhas categorias de pensamento». A mensagem do Papa Francisco situa-se num plano que vai muito para além dos esquemas ideológicos, e da “esquerda” e da "direita".
A respeito da mensagem social do Papa Francisco, há quem o qualifique como socialista e “de esquerda”. Há até quem o indique como principal referência da esquerda mundial hoje, num contexto de sucessivas desilusões fruto dos insucessos de outras referências dessa corrente política. Há quem veja, por isso, e só por isso, na sua autoridade moral e na sua popularidade um motivo de esperança. Mas também há quem, por esses mesmos motivos, por o qualificar como socialista, o acuse e critique, atribuindo a essa mensagem os mesmos malefícios das experiências históricas do chamado “socialismo real”, como se ela nada trouxesse de novo em relação a tais experiências e surgisse agora muito retardada. 
Esta forma de etiquetar a mensagem social do Papa Francisco (seja como elogio, seja como acusação) segundo estes esquemas simplistas (esquerda e direita) não lhe faz justiça, não esclarece e deturpa essa mensagem. É redutora do seu alcance e esquece a sua especificidade e o que ela traz de verdadeiramente novo. O seu alcance revolucionário está para além desses esquemas e não se confunde com experiências históricas fracassadas, nem com utopias renascidas das cinzas.
Essa mensagem insere-se na continuidade da doutrina social da Igreja e do magistério dos anteriores pontífices. Certamente, reveste-se de uma tonalidade própria, que reflete uma particular sensibilidade pessoal e o contexto social e cultural da América Latina. Mas não representa uma rutura com esse magistério (nem teria sentido que representasse, pois entre os sucessivos Papas, mais conservadores ou mais progressistas, não há a alternância própria da dialética partidária). Isto vale quer para quem elogia o Papa Francisco, por romper com os seus antecessores, quer para quem o critica, também por romper com os seus antecessores.
Assim por exemplo, quando o Papa Francisco critica o sistema económico hoje dominante não se distancia dos seus antecessores. Não critica a economia de mercado, critica a «autonomia absoluta dos mercados», os mercados entregue a si próprios, sem limitações ou corretivos. Tem sido sempre esta a expressão que emprega para definir o objeto das suas críticas (acrescentando-lhe, por vezes a «especulação financeira»), certamente vigorosas. E também tem enaltecido a «nobre missão dos empresários» (que atuam numa economia de mercado), por poderem criar oportunidades de emprego. Não tem, por isso, sentido contrapor (como fazem os seus críticos católicos) essa mensagem ao magistério de São João Paulo II, que, na encíclica Centesimos annus, escrita no rescaldo da queda do comunismo, sublinhou as virtualidades da liberdade económica e da economia de mercado (devidamente enquadrada, porém).
Certamente não é o Papa Francisco o primeiro Papa a denunciar a «autonomia absoluta dos mercados». Poderíamos recuar a mais de um século, a Leão XIII e à Rerum novarum, aos primórdios da formulação sistemática da doutrina social da Igreja (onde também se denunciou o socialismo coletivista), para encontrar a denúncia do puro liberalismo.
E denunciar a «autonomia absoluta dos mercados» não é professar o socialismo, como parece considerar José Bento da Silva no referido artigo. Denota algum fundamentalismo liberal pensar assim, como fazem, por exemplo, os opositores republicanos ao Obamacare, que em sistemas que minimamente se aproximem do “modelo social europeu” veem os perigos do socialismo estatista.
Que a autonomia absoluta dos mercados gera injustiças e desigualdades vai-se tornando cada vez mais evidente, quando as desigualdades de rendimentos atingem níveis nunca antes atingidos. Não são apenas organizações não governamentais, como a Oxfam, que o denunciam. Estudos recentes da O.I.T., e até do F.M.I., denunciam a crescente desvalorização dos rendimentos do trabalho no conjunto global dos rendimentos.
Nas suas críticas ao pensamento social do Papa Francisco, José Bento da Silva cita um texto recente do pontífice, a sua mensagem à Academia Pontifícia das Ciências Sociais de 28 de abril. Trata-se, porém e precisamente, de um texto de grande densidade doutrinal (não de um conjunto de ideias simplificadas ou slogans, de cujo emprego também é acusado o Papa Francisco), que reflete bem a continuidade do seu magistério com o dos seus antecessores, assim como a especificidade da doutrina social da Igreja, irredutível a esquemas simplistas de contraposição ideológica.
A propósito de trabalho humano, o texto reflete a visão personalista (distinta das visões eficientista, economicista ou coletivista), que também se encontra na constituição do Concílio Vaticano II Gaudium et spes (aí citada) e na encíclica de São João Paulo II Laborem exercens. Nele se afirma: «O trabalho não é um mero fator da produção que, enquanto tal, deve adaptar-se às exigências do processo produtivo para aumentar a sua eficácia. Pelo contrário, é o processo de produção que deve ser organizado de maneira a permitir o desenvolvimento humano das pessoas e a harmonia dos tempos dedicados à vida familiar e ao trabalho».
Nesta mensagem, o Papa Francisco sublinha a importância da fraternidade como princípio regulador a atividade económica, em termos que se situam na linha da encíclica Caritas in veritate, do Papa emérito Bento XVI, e que se distinguem de visões inspiradas no liberalismo individualista e no socialismo coletivista. Afirma:
«Onde outras linhas de pensamento só falam de solidariedade, a doutrina social da Igreja fala acima de tudo de fraternidade, dado que uma sociedade fraterna é também solidária, enquanto o contrário nem sempre é verdade, como numerosas experiências no-lo confirmam. Por conseguinte, o apelo é aquele de emendar o erro da cultura contemporânea, que levou a crer que uma sociedade democrática possa progredir mantendo separados o código da eficiência — que sozinho seria suficiente para regular os relacionamentos entre os seres humanos, no âmbito da esfera da economia — e o código da solidariedade — que regularia as relações intersubjetivas no contexto da esfera social. Foi esta dicotomização que depauperou as nossas sociedades.
«A palavra-chave que hoje, mais do que qualquer outra, exprime a exigência de superar tal dicotomia é “fraternidade”, termo evangélico, retomado pelo lema da Revolução francesa, mas que em seguida a ordem pós-revolucionária abandonou — pelos conhecidos motivos — até ao seu cancelamento do léxico da política e da economia. Foi o testemunho evangélico de São Francisco, com a sua escola de pensamento, que atribuiu a este termo o significado que sucessivamente se conservou ao longo dos séculos, ou seja, de constituir o complemento e ao mesmo tempo a exaltação do princípio de solidariedade. Com efeito, enquanto a solidariedade é o princípio de planificação social que permite aos desiguais tornar-se iguais, a fraternidade é o princípio que permite aos iguais ser pessoas diferentes. A fraternidade consente que pessoas que são iguais na sua essência, dignidade, liberdade e direitos fundamentais, participem diversamente no bem comum, em conformidade com a sua capacidade, o seu plano de vida, a sua vocação, o seu trabalho ou o seu carisma de serviço.
A sociedade em que a verdadeira fraternidade se dissolve não é capaz de um futuro; ou seja, a sociedade em que existe unicamente o “dar para ter”, ou então o “dar por dever”, não é capaz de progredir. Eis por que motivo nem a visão liberal-individualista do mundo, onde tudo (ou quase tudo) é troca, nem a visão estadocêntrica da sociedade, onde tudo (ou quase tudo) é obrigatoriedade, são guias seguras para nos levar a superar a desigualdade, a iniquidade e a exclusão nas quais hoje as nossas sociedades se encontram encalhadas. Trata-se de procurar uma saída da sufocante alternativa entre as teses neoliberal e neoestatal.».
Esta mensagem do Papa Francisco denuncia o individualismo libertário, antes de mais no plano antropológico:
«Por fim, não posso deixar de mencionar os graves riscos ligados à invasão, nos níveis altos da cultura e da educação, tanto universitária como escolar, das posições do individualismo libertário. Uma caraterística comum deste paradigma artificioso é que minimiza o bem comum, ou seja, o “viver bem”, a “vida boa” no contexto comunitário, e exalta o ideal egoísta que, fraudulentamente, inverte as palavras propondo a “bela vida”. Se o individualismo afirma que somente o indivíduo confere valor às coisas e aos relacionamentos interpessoais e portanto só o indivíduo decide o que é o bem e o que é o mal, o libertarismo hoje muito na moda, prega que para fundar a liberdade e a responsabilidade individual é preciso recorrer à ideia de autocausalidade. Assim o individualismo libertário nega a validade do bem comum, porque por um lado supõe que a própria ideia de “comum” implica a constrição pelo menos de alguns indivíduos e, por outro, que a noção de “bem” priva a liberdade da sua essência.»
Uma igualdade que não se confunde com uniformidade ou igualitarismo, uma saída para a alternativa entre o individualismo liberal e o socialismo estatista – é esta a proposta do Papa Franscisco, como a do Papa emérito Bento XVI.
Mas não se trata de uma “terceira via”, intermédia, trata-se de uma proposta que se situa noutro plano. A proposta é de um «novo Humanismo»:
«O século xv foi o do primeiro Humanismo; no início do século xxi sente-se a exigência cada vez mais acentuada de um novo Humanismo. Naquela época a transição do feudalismo para a sociedade moderna foi o motor determinante da mudança; hoje, é uma viragem igualmente radical: da sociedade moderna para a pós-moderna. O aumento endémico das desigualdades sociais, a questão migratória, os conflitos identitários, as novas formas de escravidão, o tema ambiental, os problemas de biopolítica e biodireito são apenas algumas das questões que falam das dificuldades de hoje. Diante de tais desafios, a mera atualização de velhas categorias de pensamento ou o recurso a requintadas técnicas de decisão coletiva já não são suficientes; é necessário empreender novos caminhos, inspirados pela mensagem de Cristo.»
Não basta, pois, a mera «atualização de velhas categorias de pensamento». Penso que deste modo se torna manifesto como a mensagem do Papa Francisco se situa num plano que vai muito para além dos esquemas ideológicos, e muito para além da “esquerda” e da “direita”.
Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz
Fone:http://observador.pt/opiniao/o-papa-francisco-para-alem-da-esquerda-e-da-direita/

Sim, o Papa Francisco é socialista!


11/5/2017, 9:27

O Papa está genuinamente centrado nos pobres, mas acredita numa solução tipo socialista; os liberais também estão genuinamente centrados na pobreza, mas propõem uma solução um ‘tudo-nada’ diferente.

O leitor mais atento certamente terá notado que sempre que o Papa Francisco fala sobre economia ou política há a necessidade imediata de uma interpretação daquilo que Sua Santidade decidiu, no calor do momento, dizer. Tal sucede porque o que o Papa Francisco diz sobre política e economia é, no mínimo, tão misterioso quanto o fenómeno de Fátima. Isto para não falar de algumas coisas que ‘faz’.
Os comentários feitos por Sua Santidade aquando do ataque terrorista ao jornal Charlie Ebdo, a sua aceitação de uma cruz com a foice e o martelo oferecida por Evo Morales, a sua presença num congresso de movimentos de extrema esquerda aquando da sua visita à Bolívia (e no qual o Papa esteve sentado ao lado de um Evo Morales vestido com um casaco envergando a imagem do Che Guevara), são exemplos de atitudes que na realidade têm confundido. Para todas estas atitudes e mal-entendidos não têm faltado explicações, algumas delas com algum sentido. Sim, é verdade que Evo Morales não prima pela finura diplomática e que a Igreja na Bolívia tem sido o alvo principal dos devaneios revolucionários da figura. Sua Santidade muito provavelmente fez o que tinha a fazer, e podemos esquecer o assunto! Quanto ao Charlie Ebdo, não comento.
No entretanto, como é próprio dos Pontífices, lá apareceram os ditos escritos. Não há dúvidas que os mais polémicos são os escritos politico-económicos, os quais merecem debate sério. Infelizmente, tal debate não tem ocorrido. Isto por duas razões, parece-me. Em primeiro porque os tais escritos carecem infelizmente de rigor intelectual, não sendo por isso propriamente estimulantes (o famigerado texto sobre a ‘economia que mata’ é particularmente fraco). É triste termos que dizer isto, mas as coisas muitas vezes são o que são. Em segundo porque os escritos politico-económicos do Papa têm sido apresentados sistematicamente como pertencendo a outra ordem que não a nossa, meros mortais. Sem excepção, os defensores da ‘visão politico-económica’ do Papa investem o seu tempo a tentar demonstrar que estamos perante algo que desafia a nossa razão e por isso pertence à ordem da revelação divina, só acessível a místicos ou aos 3 Pastorinhos: é um plano da caridade que desconhecemos (eles conhecem, claro); é uma ‘antropologia Cristã não compreensível’ a ‘relativistas’ e ‘individualistas’ (eles tiveram a graça de compreender desde pequeninos); é a negação do egoísmo (podemos verificar, no Facebook, que eles já estiveram em África em missões de grande abnegação); é uma nova economia, a qual não vem nos manuais (juro que já li isto… e escrito por gente séria…). É da mais básica justiça deixar claro que o Papa Francisco nunca entrou neste tipo de argumentação. No entanto, não é compreensível esta tentativa por parte de alguns de classificar como sendo da ordem divina algo que é bem terrestre: chama-se socialismo.
Após as afirmações do Papa feitas à Academia Pontifícia de Ciências Sociais no passado dia 28 de Abril já não temos dúvidas, sendo que a argumentação dos abençoados com a faculdade do ‘entendimento místico’ cai por terra: o Papa rejeita a possibilidade liberal e faz afirmações que o posicionam como socialista. No seu comunicado, o qual li em Inglês, o Papa refere-se ao ‘libertarian individualism’ como um ‘fallacious paradigm’. É explícito! Acerca da deriva socialista, materialista, nacionalista e populista que grassa no Ocidente o Papa nada diz. Nunca o Papa, na sua comunicação, refere os termos socialismo, populismo ou nacionalismo. E na única vez em que o Papa refere o materialismo é para o associar ao egoísmo, à ganância e à concorrência injusta.
O socialismo materialista que atribui a estruturas ‘socio-materiais’ as causas da desigualdade nunca é explicitamente mencionado, mas está bem presente. Por exemplo quando Sua Santidade fala da desigualdade: ‘Inequalities – along with wars for dominance, and climate change – are the causes of the greatest forced migration in history’; ‘inequalities and iniquities as the consequence of a global economic dictatorship’; ’what makes people suffer the most and leads to the rebellion of citizens is the contrast between the theoretical attribution of equal rights for all and the unequal distribution of goods for most people’.
Não há dúvidas. O Papa é também vítima da falácia clássica, devidamente exposta por Hayek: igualdade perante a lei não implica igualdade económica e social. Na verdade a desigualdade, quando decorre das diferenças individuais, é natural, saudável e extremamente positiva pois é a única forma de garantir o desenvolvimento livre das sociedades. A igualdade forçada, totalitária, centralmente desenhada e materialmente empobrecedora é visível na Venezuela de Chavez e Maduro, as duas luminárias de uma economia que afinal parece matar mais do que a outra.
Não são necessárias experiências místicas para vermos com clareza as revelações que o socialismo tem feito na Venezuela. Contudo, quando o Papa se refere a uma ‘society of unhappy and desperate people from whom everybody would try to flee, in extreme cases even by suicide’ está a referir-se a uma sociedade liberal e não à Venezuela. Na Venezuela, uma sociedade fraternalmente igualitária, aparentemente ninguém pondera o suicídio… E na mesma semana em que o Papa emite este comunicado faz um comentário sobre a Venezuela extremamente infeliz. Como já é habitual, as explicações sucederam-se, sendo que nenhuma delas (absolutamente nenhuma) nega o que o Papa disse.
Interpretar a crise de refugiados parece ser fácil: é culpa do individualismo libertário, fonte do egoísmo, e das alterações climáticas (sem comentários…); interpretar a crise na Venezuela já é mais difícil: há todo um contexto que explica aquelas palavras e que o Papa, dizem, conhece bem. Mais uma vez, nós, os terráqueos, estamos errados porque desconhecemos. Ultimamente dou por mim a agradecer a Deus não ser místico: dispenso estas visões do inferno! De novo, é da mais elementar justiça dizer que não é o Papa Francisco quem entra neste tipo de justificação primária.
A comunicação do Papa está ainda repleta de mal entendidos sobre o que é o liberalismo e de comentários falaciosos em torno da noção de liberdade. Jeffrey Tucker, da Foundation for Economic Education, já expôs a interpretação profundamente errada que o Papa faz do liberalismo, mostrando até como a posição do Papa é contrária à defendida pela Igreja (incluindo os próprios Jesuítas) ao longo dos séculos. Aliás, a confusão de Sua Santidade acerca do liberalismo é bem visível quando afirma que ‘indeed, while solidarity is the principle of social planning that allows the unequal to become equal; fraternity is what allows the equal to be different people.’ Esta frase parece em total contradição com o que o Papa, no mesmo texto, afirma sobre o liberalismo. E são precisamente este tipo de frases aparentemente contraditórias que merecem debate sério e liberto de argumentações carregadas de um fervor espiritual primário e superficial.
Um debate intelectualmente sério sobre o significado de liberdade, fraternidade, solidariedade, caridade e por aí adiante é extremamente bem-vindo e urgente, especialmente dada a confusão originada em torno das sucessivas declarações do Papa. Muito provavelmente o Papa está a lançar-nos desafios, mais não seja porque o seu papel não é certamente envolver-se em debates intelectuais sobre o liberalismo.
Contudo, e dado que não temos clareza acerca das intenções do Papa, é legítimo, com os dados que temos, afirmar que o Papa é socialista. Ao contrário do que alguns comentadores auto-proclamados candidatos a santos pretendem sugerir, o Papa não desenvolveu qualquer tipo de pensamento único centrado nos pobres, inacessível aos menos iluminados ou sequer assente em qualquer tipo de antropologia cristã que demora muito tempo a compreender (também li isto… as coisas que um indivíduo lê…). O pensamento politico-económico do Papa está classificado há muito: é o socialismo. O Papa está genuinamente centrado nos pobres, mas claramente acredita nos resultados de uma solução socialista; os liberais também estão genuinamente centrados na pobreza, mas propomos uma solução um ‘tudo-nada’ diferente. É somente isto!
A legitimidade de Sua Santidade, a sua simplicidade genuína, o seu amor pelos pobres, o seu fervor espiritual, a sua proximidade ao Povo de Deus e a beleza dos seus escritos espirituais não estão em causa. Está contudo por estabelecer a relação de causalidade entre a santidade de uma pessoa e a razoabilidade das suas opções politico-económicos.
Professor Universitário
Fonte:http://observador.pt/opiniao/sim-o-papa-francisco-e-socialista/

O Papa Francisco é bem melhor que os detratores



17/5/2017, 7:27

Sucede que a economia não é matéria de Fé (a epidural também não) e desculpo que o Papa diga disparates sobre capitalismo e liberalismo, desde que esteja certo no que conta: o amor e o perdão de Deus.
Cuzco, no meio dos Andes peruanos, julho de 2001. No meio da cidade descubro um dos sorvedouros turísticos de Cuzco, o famoso Korikancha: um mosteiro dominicano plantado em cima de um edifício anterior, com as características paredes de pedra inclinadas do sistema antissísmico dos incas. Chegados à capital dos incas, os missionários católicos usaram esta subtil forma de conversão: em cima de um local de culto pagão, construíram o local de culto cristão, fazendo uso do sempiterno comodismo da natureza humana. Já que se tinham habituado a visitar para efeitos religiosos o Korikancha, então continuariam a ir, para iguais efeitos, à igreja dominicana que ocupava o mesmo sítio. Nada como ser prático.
Por volta do século IV, algures no mundo romano. 25 de dezembro estabelece-se como data de nascimento de Jesus. Não se sabem com exatidão os argumentos que estacionaram nesta data, mas não terá sido totalmente alheio coincidir com a festa romana de Saturnalia ou a do Sol Invicto do imperador Aureliano. Já que os gentios celebravam uma festa em finais de dezembro, continuavam a celebrar uma festa em finais de dezembro se se convertessem ao cristianismo.
Século I, Jerusalém. São Paulo e São Pedro têm um embate, tão forte que os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo estão repletos dele. Resumindo muito, São Pedro (e São João e São Tiago) queria manter o cristianismo dentro da Lei Mosaica do judaísmo e São Paulo pretendia que os gentios que se convertessem não fossem obrigados aos estritos trâmites judaicos. Vingou a proposta mais facilitista, digamos, de São Paulo.
Exemplos desta tendência pragmática na história do cristianismo e da Igreja são infindáveis. E, em boa parte, responsáveis pela expansão do cristianismo. Se viam como objetivo converter as populações, claro que os evangelizadores não se colocavam com rodriguinhos doutrinários exigentes, porque aí apenas convenceriam um ou outro fanático. A ideia era ter muitas pessoas sob a alçada da Igreja para, aos poucos, lhes tornar natural a fé católica.
É por conhecer tantos exemplos que me rio imenso com os católicos mais conservadores que acusam, quase em apoplexia, o Papa Francisco de querer seduzir as populações e de as querer trazer para o reduto católico sem lhes fazer testes exaustivos de virtude. Ah, o Papa está a sucumbir ao mundo, o apocalipse aproxima-se e a febre e a pestilência e etc.
Bom, alguma coisa de bem veio desta histeria ultraconservadora anti Francisco. Finalmente estes católicos perceberam que um Papa não está acima das críticas, nem a infalibilidade se aplica às decisões do Santo Padre sobre a hora a que toma o café a meio da tarde. Habituados que estavam a tentar calar os católicos menos conservadores com palavras papais e documentos do Vaticano – às quais dão o mesmo valor que à Bíblia ou ao Credo de Niceia – é um fartote agora vê-los insultando o Papa.
Tem piada que os católicos da resistência anti franciscana venham sobretudo da Igreja norte-americana. Provoca gargalhadas ver quem foi indecorosamente benevolente com os padres abusadores sexuais, insurgir-se contra as aberturas de Francisco aos católicos recasados, aos homossexuais, às alterações às anulações de casamentos. Que autoridade supõem ter a Igreja para moralizar sobre sexualidade, depois de acolher os mais indecentes pecados sexuais?
Para mim, que já muito contactei com jesuítas e abundantes vezes vi o mundo renitente ser seduzido por eles, Francisco não foi surpresa. Voltou a colocar o enfoque no fulcral. Em vez de uma organização obcecada com a moral sexual (alheia, claro), cheia de vontade de tornar os católicos um grupinho cada vez mais pequeno de gente sexualmente imaculada (mas demasiado suscetível aos ímpetos de julgar e excluir; é ver a alegria deste setor quando há uma excomunhão), Francisco retomou a missão evangelizadora que vem do tempo em que Jesus seduzia um número crescente de seguidores. Aos quais, hélas, Jesus (fazia-lhe bem aprender uma ou duas coisas com o cardeal Burke) também não aplicava testes psicotécnicos nem exigia garantias de castidade. Em vez de um grupinho restrito de fariseus preocupados em manter a sua pureza ritual, uma Igreja fiel à vocação preferencial pelos pobres e um local de acolhimento para os excluídos.
Francisco não é perfeito. Tem, como quase todos os padres, uma visão machista da Igreja. O meu amigo José Bento da Silva, por exemplo, queixa-se que é socialista. De facto, já carpimos juntos irritações com tiradas de jesuítas que parecem produzidas por Catarina Martins. É uma pena que atualmente a hierarquia da Igreja goste de dar palpites desacertados sobre economia, com o mesmo despropósito que no século XVI teimava em ser autoridade sobre os fenómenos da Astronomia.
Enfim, a tendência da Igreja para se meter onde não é chamada não se fica pela economia e não foi inventada por Francisco. Há uns tempos descobri que Pio XII (bem mais simpático que a sua fama injustamente sinistra) aprovou o método Lamaze para o parto sem dor, porque houve quem na Igreja no século XX visse necessidade de esclarecer que uma tirada do século VI a.C. (quando foram redigidos os mitos da Criação do Génesis e o castigo de Eva) não era uma maldição sobre o meu sexo. Escandalosamente, houve quem ponderasse ser compassivo e decente deixar mulheres sofrer durante o parto quando tal se podia evitar.
Sucede que a economia não é matéria de Fé (a epidural também não) e eu desculpo que o Papa diga disparates sobre capitalismo e liberalismo, desde que esteja certo no que conta. Isso: aquelas irrelevâncias do amor e perdão de Deus.
Fonte:http://observador.pt/opiniao/o-papa-francisco-e-bem-melhor-que-os-detratores/
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