A PROMISCUIDADE RELIGIOSA DO VALE DO AMANHECER

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A Promiscuidade Religiosa do Vale do Amanhecer

por Octavio da Cunha Botelho
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Neiva Chaves Zelaya (1925-1985), mais conhecida como Tia Neiva, fundadora da comunidade do Vale do Amanhecer, em seus tradicionais trajes exóticos e com seu habitual penteado “juba de leão”.
            Recentemente, em um documentário sobre algumas religiões existentes no Brasil, exibido em um canal de TV por assinatura, foi dedicado um trecho da reportagem ao Vale do Amanhecer, uma excêntrica comunidade religiosa sediada na cidade de Planaltina, perto de Brasília-DF, com cerca de 800 templos subordinados espalhados pelo Brasil e pelo exterior, embora alguns deles não sejam mais que um barracão. Qualquer um que estude comparativamente as religiões do mundo, tanto as atuais como as do passado, não deixará de reconhecer neste novo movimento religioso uma extravagância ímpar ou, de uma perspectiva mais crítica, que ele é um dos cultos mais fantasmagóricos que já surgiram. Confesso que, nos meus quarenta anos de estudos comparados das religiões, esta seja a nova religião que reúne as ideias e as práticas mais paranoicas que conheci, portanto, só consigo tratá-las desde uma perspectiva jocosamente crítica.
            Fundada em 1969 por Neiva Chaves Zelaya (1925-85), mais conhecida como Tia Neiva, uma ex caminhoneira sergipana, que ficou viúva aos 22 anos com quatro filhos, esta nova religião, que está mais para um xamanismo sofisticado do que propriamente uma religião, pois é uma sortida mistura de xamanismo com Cristianismo, Espiritismo Kardecista, Umbanda, cultos indígenas, New Age, Milenarismo, comunicação extraterrestre e outras ideias. De modo que, muito mais que um simples sincretismo religioso, esta miscelânea doutrinária está, em razão do estapafurdismo, mais para uma promiscuidade religiosa.
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Vista aérea do Vale do Amanhecer; o visual e a arquitetura impressionam pelo mau gosto.
            Apesar da banalidade e da ficcionalidade da doutrina, bem como da fantastiquice dos rituais, esta fantasmagoria é surpreendentemente admirada por intelectuais brasileiros, já foi até assunto de tese de mestrado (Galinkin, 2008) e de doutorado (Reis, 2008), os quais a tratam com simpatia e deferência. Para que uma pessoa esclarecida admire esta fantasmagórica promiscuidade religiosa é preciso fechar os olhos, por completo, para uma enormidade de erros e de imbecilidades presentes em suas revelações, em sua literatura, em sua doutrina e em seus rituais. Começando pelas revelações, elas foram feitas através da suposta mediunidade de Tia Neiva. Além de outros, seu mentor principal foi um índio inca conhecido como Pai Seta Branca, quem é absurdamente acreditado ter sido são Francisco de Assis em uma encarnação anterior. As revelações, as quais lhe foram feitas através do seu alto poder mediúnico que, psiquiatricamente falando, está mais para alucinações esquizofrênicas, de alguém que não conseguiu se curar dos seus transtornos psicóticos, estão registradas no livro Autobiografia Missionária o qual, além dos frequentes erros ortográficos e gramaticais, em razão da precariedade cultural da autora (ela nem sequer completou o curso primário), abunda em frases cômicas e sem sentido, tais como: “imenso painel da realidade universal” (Neiva, 1992: 38), “Jesus o caminhoneiro” (idem: 39), “balançando o prana” (idem: 40), “doutrinador da força cabalística” (idem: 50), “Já calma, vi as árvores caminhando” (idem: 55), “já são vinte e trinta horas” (idem: 56) e “existem depósitos de pronto socorro universal” (idem: 61).
            Também, ela revela que no período de 1959 a 1964 realizou experiências de transporte (uma espécie de viagem astral) até o Tibete, a fim de receber instruções de um mestre tibetano, conhecido como Umahā. O nome nada tem a ver com a língua tibetana, parece mais um nome de qualquer uma das línguas indígenas brasileiras, bem como o caráter dos ensinamentos não corresponde em nada ao Budismo Tibetano. Estas instruções que ela recebeu estão registradas na sua autobiografia (p. 66-77) e são pautadas por uma banalidade tão primária, que até parecem lições de catecismo infantil, o que não justificaria uma viagem astral para receber instruções em um lugar tão distante tal como o Tibete. Qualquer pai razoavelmente educado é capaz de passar estes ensinamentos para seus filhos. Veja o truísmo e a banalidade das instruções: “Neiva, precisas distinguir entre o verdadeiro e o falso. Deves aprender a ser verdadeira em tudo, pensamentos, palavras e ações… Entre o bem e o mal, o ocultismo não admite transigência, custe o que custar é preciso fazer o bem e evitar o mal” (Neiva, 1992: 66). Ou frases cômicas, tais como as seguintes: “A mente vai até onde a cabeça pode sustentar. O escândalo distancia o missionário de sua missão” (idem: 67). Com isso é possível ter um vislumbre do seu grau de insanidade mental
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Pai Seta Branca, o principal mentor do Vale do Amanhecer.
            Algumas experiências alucinógenas de Tia Neiva, relatadas em sua autobiografia, nos fazem lembrar o filme Atividade Paranormal, tal como a seguinte: “O isqueiro foi arrancado de minha mão e bateu com força no pára-brisa, quebrando o vidro, voltando a cair na minha mão. Olhei o isqueiro e notei que estava sem o parafuzinho e a tampinha. Fiquei apavorada. Estava eu tão nervosa a ponto de fazer tudo aquilo? Procurei a tampinha, e não a encontrei. Já em casa, Beto me disse: ‘Mamãe, olhe, é a tampinha do seu isqueiro'” (idem: 60). Seus surtos de alucinação podem ser percebidos em uma passagem tal como esta: “Voltei os olhos para a rosa e tive a maior surpresa. Minha mão estava cheia de sangue. Dei um grito e a joguei longe. Olhei a mão outra vez, não tinha nada” (idem: 61). Outra frase cômica é: “Desde então, ela (Tia Neiva) foi aperfeiçoando sua carreira sideral…”. Também, alguns trechos dos seus diálogos com os espíritos parecem conversas entre compadres: “Olhei para ele e disse: ‘Feio, o senhor é muito feito’. Porém, respondeu-me com ternura: ‘já fiz concurso de feiura e você nunca fez'” (idem: 64).
            Os livros e os livretos que relatam a doutrina são de uma ficcionalidade fantástica, que até nos fazem lembrar os livros e os filmes de ficção. Os primeiros foram escritos por Mário Sassi, companheiro de Tia Neiva e expoente intelectual da doutrina por excelência. Confundindo ficção com Ciência, os contatos com extraterrestres, as viagens para outros planetas, a presença de extraterrestres na Terra no passado, a travessia de um plano cósmico para outro, o conhecimento de vidas passadas, o fenômeno da reencarnação, etc. são relatados com a liberdade de uma mente delirante. Algumas vezes, os trechos nos livros impressionam pela falta de concatenação didática, o que torna o raciocínio da exposição truncado ou incompleto, próprio de autores que escrevem sem o necessário treinamento escolar. Ademais, a linguagem é acentuadamente obscura e imprecisa, para que seja aquilo que Mário Sassi considera como “religião científica”.
            No lugar da cientificidade, a mensagem é substituída pelo alto grau de ficcionalidade, que pode ser percebida na narrativa da história da origem da civilização, a qual é narrada de uma maneira que nos lembra um texto de ficção científica: “Há 32 mil anos, uma frota de naves extraplanetárias pousou na terra e dela desembarcou homens e mulheres, duas ou três vezes maiores do que o tamanho médio do homem atual. Sua missão era a de preparar o planeta para futuras civilizações. Chamavam-se Equitumans e seu domínio do planeta durou dois mil anos. Depois disso, o núcleo central desses missionários foi destruído por uma estranha catástrofe, e a região em que viviam se transformou no que hoje se chama lago Titicaca. (…) Depois disso, de 30 a 25 mil anos, existiram outros missionários, que se chamavam Tumuchys. Esses eram predominantemente cientistas, que estabeleceram avançada tecnologia, cujo principal objetivo era a captação de energias planetárias e extraplenatárias. Foram estes cientistas que construíram as pirâmides. (…) Depois dos Tumuchys, entre 25 e 15 mil anos atrás, vieram os Jaguares. Estes foram os manipuladores das forças sociais que estabeleceram as bases dos povos e nações. Mais numerosos que os Equitumans e os Tumuchys, eles deixaram suas marcas em todos os povos…” (Sassi, 1979).
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A promiscuidade religiosa é uma marca no Vale do Amanhecer
            Acompanhando a onda apocalíptica dos movimentos New Age da época (1970-1980), os livros do Vale do Amanhecer também anunciam a iminência de catástrofes para o final do século passado, em razão do período de transição de um ciclo para outro, quando aconteceria uma grande transformação na espiritualidade dos habitantes da Terra. Segundo seus ensinamentos, os adeptos do Vale do Amanhecer são os espíritos superiores, vindos do planeta Capela, que sobreviverão às catástrofes, para enfim retornarem ao seu mundo de origem. As expectativas não se cumpriram, pois os desastres não aconteceram, com isso muitos grupos New Age desapareceram, mas, curiosamente, a religião do Vale não só sobreviveu, como até cresceu em número de templos desde então.
            Por seu turno, a doutrina está repleta de estranhezas, que para muitos até parecem repugnantes, tal como: “A escravidão tinha o mais profundo sentido iniciático: a morte, a eliminação da personalidade e o consequente nascimento, ainda na Terra, da individualidade” (Sassi, 1979). Também, a Cosmologia tem uma terminologia até certo ponto cômica, com frases tais como: “planos vibracionais mais sutis” e “no plano da economia planetária” (idem, 1979). Sua visão do cosmos é tão precariamente científica que mistura Astronomia com doutrinas religiosas, por isso segue o ensinamento de Jesus: “Assim na Terra como no Céu”, de modo que o microcosmos tem a mesma organização do macrocosmos, daí admite “a existência de um espírito, de uma alma e de um corpo para a Terra” (idem, 1979). Bem como, ela tem fantasiosas pretensões de ser científica: “Mediunidade: essa atitude científica é que faz com que os médiuns do Vale sejam considerados cientistas espirituais” e o lado prático tem sua terminologia também, com termos tais como: “cuidados técnico-mediúnicos” (Sassi, 1979). Outra jocosidade é a de que, as naves espaciais vindas do planeta Capela recebem o nome burlesco de “estufas” (Sassi, 1979). Para concluir, em suma, a doutrina do Vale do Amanhecer é uma mistura de ficção e teoria banal, enquanto a prática se caracteriza por um xamanismo promíscuo e sofisticado.
            Mesmo com toda força dos Jaguares (espíritos superiores), os adeptos e os visitantes do Vale do Amanhecer não estão imunes aos infortúnios dos não adeptos (espíritos inferiores), pois o Correio Braziliense noticiou em 01/03/2014 que os rituais durante a semana no Vale do Amanhecer foram cancelados, após decisão dos dirigentes, em virtude da onda de roubos de veículos, bem como de assaltos aos adeptos e aos visitantes. Somente funcionarão os rituais nos fins de semana. Esta foi a primeira vez em 40 anos que os rituais foram suspensos. Enfim, com tantos assaltos e crimes por aqui, uma solução poderá ser a de embarcar em uma “estufa”, a fim de encontrar refúgio no planeta Capela.
Obras consultadas
GALINKIN, Ana Lúcia. A Cura no Vale do Amanhecer. Brasília: TechnoPolitik, 2008, p. 152s.
MAIA, Cleiton Machado. As técnicas xamânicas e o caso de Xamanismo de Tia Neiva no Vale do Amanhecer. Revista Húmus, nº 10, 2014.
NEIVA, Tia. Autobiografia Missionária. Planaltina: Vale do Amanhecer, 1992.
OLIVEIRA, Amurabi. Globalização, New Age e Religiões Populares: uma digressão a partir do Vale do Amanhecer em Horizonte (PUC Minas), vol. 12, nº 32, Jan./Mar. 2014, p. 211-32.
REIS, Marcelo Rodrigues. Tia Neiva: a Trajetória de uma Líder Religiosa e sua Obra, o Vale do Amanhecer (1925-2008). Tese de Doutorado ao Programa de Pós-Graduação do Departamento de História da Universidade de Brasília, Setembro, 2008.
SASSI, Mário. Vale do Amanhecer em Conheça Mais Nossa Doutrina (panfleto), 1979.
Fonte:https://observadorcriticodasreligioes.wordpress.com/2015/06/09/a-promiscuidade-religiosa-do-vale-do-amanhecer/
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