FUNK,FUTEBOL,COCAÍNA E AS FARC : O QUE SE SABE SOBRE A FAMÍLIA DO NORTE DO BRASIL(AMAZONAS)

Márcio Ramalho Diogo, vulgo Garrote, de boné vermelho.

Funk, futebol, cocaína e as FARC: o que se sabe sobre a Família do Norte


Facção ligada ao rompimento do PCC com o CV é acusada de matar 56 nomes da facção paulista


“Tava tudo dominado, a cadeia em nossas mãos, e os presos tudo decapitado na quadra do cadeião. Foi batido o martelo pra torar [matar] os PCC, o Comando é um só e tá daquele jeito, representa a FDN junto ao Comando Vermelho”. A letra acima faz parte de um funk de autoria desconhecida feito para celebrar o massacre de 56 presos do Primeiro Comando da Capital pelos detentos da Família do Norte, no Complexo Penitenciária Anísio Jobim (Compaj), em Manaus. A facção criminosa amazonense, desconhecida em grande parte do país até os primeiros dias do ano, ganhou notoriedade ao ser apontada como a responsável pelo rompimento da aliança de décadas entre o CV e o PCC no final de 2016. Agora, após a chacina de 1º de janeiro, o grupo escreveu seu mais sangrento capítulo, de uma história que parece longe de acabar. Ou como profetiza o funkeiro: “Não desacredita que a guerra só começou, nóis corre pelo certo e não aguenta safadeza, foi mídia no mundo todo, arrancamos várias cabeças”.

Mesmo longe das manchetes, a Família do Norte já estava na mira das autoridades. Uma operação da Polícia Federal, batizada de La Muralla e desencadeada em 2015 revelou detalhes da organização até então desconhecidos. Um time de futebol, cadastro de membros em um computador guardado dentro da prisão e uma rede de corrupção que aos poucos prometia subjugar policiais e tentar influenciar integrantes do Executivo.

Ligação apontada com as Farc

A área de influência da Família do Norte se estende para além das fronteiras do Amazonas: quase todos os Estados do Nordeste e do Norte contam com criminosos ligados à facção. Além disso, a Família do Norte controla um dos mais importantes corredores de tráfico de drogas do país, chamada de Rota Solimões, percurso entre Tabatinga (AM), na região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, até a capital Manaus. Além de ter o monopólio da distribuição de droga no Estado, a facção também atua enviando remessas de cocaína para a Europa, principalmente para Portugal.
A denúncia do Ministério Público Federal apresentada contra as lideranças da Família do Norte após a operação dão conta de que o grupo tinha “relações estreitas” com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Além de negociar a compra de drogas, o grupo amazonense também obteve armamentos de guerra como lança-granadas e fuzis AK-47 das mãos dos guerrilheiros. Segundo grampos telefônicos feitas pelas autoridades, a facção paga 1.000 dólares (cerca de 3.100 reais) por carga de 50 kg de cocaína “de segunda” (já diluída), e 1.650 pela mesma quantidade de pasta base. O grupo também utilizaria 74 contas correntes, a maioria em nome de laranjas, para realizar os pagamentos no Amazonas, Colômbia e Peru.
Atualmente Márcio Ramalho Diogo, apelidado de Garrote, teria assumido um papel de comando na organização
As principais lideranças da Família do Norte foram transferidas para presídios federais após a operação da PF. Além de Barbosa – que também é conhecido dentro do sistema carcerário pelos apelidos de Z, Doido, Pertubado, Pertuba e Messi –, João Pinto Carioca, conhecido como Potência Máxima também deixou o Compaj. Atualmente Márcio Ramalho Diogo, apelidado de Garrote, teria assumido um papel de comando na organização. A matança de presos em Manaus teria sido ordem sua – ele passou um ano isolado no Regime Disciplinar Diferenciado, muito mais rígido, mas voltou para o convívio com os outros presos. Uma imagem divulgada nas redes sociais mostra Diogo segurando o que aparenta ser uma escopeta dentro do presídio, cercado por detentos com facões e pistolas comemorando a chacina dos rivais do PCC.

Governo negociou com facção criminosa, segundo a PF

O governador do Amazonas, José Melo (PROS), que afirmou na quarta-feira que no Compaj “não morreu nenhum santo” durante o massacre, já tinha visto seu nome sair na imprensa ao lado de menção à facção antes mesmo da operação da PF. Em 2014 a revista Veja divulgou áudio no qual integrantes da Família do Norte conversavam com o então subsecretário de Justiça e Direitos Humanos do Estado, major Carliomar Barros Brandão. Na pauta, a troca de apoio dos criminosos à eleição de Melo em troca de benesses na prisão. “Vamos apoiar o Melo, entendeu? (...) gente não conhece o Melo, a gente quer dar um alô, que ele não venha prejudicar nós. E nem mexer com nós”, diz o traficante José Roberto Fernandes Barbosa, vulgo Messi, líder do grupo preso atualmente em um presídio federal. “Não, ele não vai, não (...) a mensagem que ele mandou para vocês, agradeceu o apoio e que ninguém vai mexer com vocês, não”. Pouco depois da divulgação do áudio o governador exonerou o major Brandão. Melo sempre negou que tivesse autorizado que o subsecretário falasse em seu nome.
A força da facção ficou evidente quando o Governo do Amazonas propôs uma rodada de negociações com o chefão da Família do Norte, segundo a PF
A PF apontaria, na Operação Muralla meses depois, que o Governo do Amazonas propôs uma rodada de negociações com Barbosa, então detido no Compaj, para tentar chegar a um acordo para pacificar as ruas e cadeias do Estado. Em julho 2015, Barbosa, nome do tráfico internacional de cocaína e apontado como mandante de homicídios, se encontrou, na biblioteca do presídio, com o então secretário de Administração Penitenciária do Estado, o coronel reformado Louisimar Bonates. O líder da facção queria evitar transferência para um presídio federal em outro Estado para não se afastar de seus comandados e da família. Deixou o local satisfeito com a promessa de ter as reivindicações atendidas, além de ter conseguido ganhar espaço em relação ao rivais do PCC no presídio.
O suposto pacto seria frustrado pela própria PF meses depois e Barbosa seria transferido para o presídio federal de Campo Grande. O secretário Bonates deixaria o cargo em setembro daquele ano, pouco mais de um mês após seu encontro com Barbosa, alegando “motivos pessoais”. Ele não chegou a ser investigado por eventuais crimes envolvendo a negociação com o criminoso. Procurada por telefone e email em novembro, a gestão José Melo (PROS) não se pronunciou.

Compensão futebol e crime

De dentro dos presídios os líderes do grupo criminoso teriam negociado contratações de jogadores e treinadores
A facção também tem seus tentáculos no futebol, por meio da equipe Manaus Compensão, o Compensão, campeão em 2009 da segunda divisão do campeonato amazonense. O nome do time homenageia o bairro manauara de Compensa. Barbosa, fundador da Família do Norte, é um dos principais cartolas do clube. “Eu gasto muito com o time mano. Eu já gastei 320.000 reais”, reclama o chefão em mensagem de texto de celular obtida pela PF.
Detento cobre o escudo do Compensão dentro do Compaj.
Ainda segundo a polícia, os criminosos negociam contratações de jogadores, treinadores e investem na estrutura do Compensão de dentro dos presídios. Em dia de jogo, salves – comunicados da organização criminosa – são enviados aos membros da Família do Norte e seus familiares, para instar torcida. Atualmente a equipe está afastada das divisões oficiais. A Família do Norte também é responsável por organizar os campeonatos internos de futebol dentro dos presídios.

Fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/05/politica/1483644143_976068.html



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