DOIS PRINCÍPIOS OPOSTOS DO SER HUMANO - RUDOLF STEINER

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DOIS PRINCÍPIOS OPOSTOS DO SER HUMANO
Rudolf Steiner – 07/05/1923

As forças arimânicas são aquelas que continuamente buscam nos transformar em uma espécie de cadáver ressecado. Se somente as forças arimânicas agissem, nos seriamos calcificados, enrugados e fossilizados. As forças contrárias de rejuvenescimento e amolecimento, de imaginação e de fantasia, são as forças luciféricas. Nos precisamos dela para não nos tornarmos cadáveres. Mas se somente as forças luciféricas existissem permaneceríamos crianças toda a vida. Precisamos de ambas as tendências – sem as luciféricas seriamos velhos e anciãos aos três anos de idade; sem as arimânicas, seriamos eternas crianças. Estas duas tendências precisam ser equilibradas e harmonizadas.
Rudolf Steiner

Não podemos deixar de reconhecer o fato de que há dois princípios simultaneamente em ação em nós, que se opõe mutuamente. Nosso sistema nervoso nos faz envelhecer continuamente durante o dia. Durante a noite o frescor da vida é restaurado através do sangue. É como o balanço de um pêndulo: envelhecer, rejuvenescer novamente, envelhecer, rejuvenescer novamente. Mas cada dia que passa permite que um pouco mais de “idade” advenha, apesar do bom trabalho da noite, até que tenha resultado “idade” suficiente e nós finalmente morremos como um todo.
Estes dois princípios opostos do ser humano e o equilíbrio entre eles, tem amplas consequências para o homem. Se as forças de juventude e vitalidade são muito exageradas, as pessoas podem desenvolver pleurisia ou pneumonia. Coisas que são boas e adequadas em sua esfera correta se tornam tendências patológicas se estiverem fora de proporção. A doença sempre aparece quando aspectos que tem seu ligar correto e adequado escapam do controle e se imprimem muito distante do estado de equilíbrio. A febre aparece quando os processos de rejuvenescimento se tornam muito fortes: todo o nosso corpo começa a ser muito vigoroso e vital.
O desequilíbrio entre polaridades também afeta nossa vida emocional e mental. Assim como o corpo não pode se tornar nem muito febril, nem muito esclerosado, assim também as nossas almas. As pessoas têm uma certa tendência sobre a qual não gostam muito de ouvir fala, uma vez que ela é muito difundida hoje em dia, de se tornarem rígidas e pedantes. Um professor, por exemplo, pode facilmente se tornar ressecado e pedante, embora ele na realidade precise ser flexível e entusiasmado. Este é um fenômeno da vida da alma semelhante ao endurecimento físico das artérias. Mas podemos também nos tornarmos compassivos na alma, em tal caso nos tornamos sonhadores, “cabeça nas nuvens”. Podemos então nos tornarmos místicos ou teósofos, na medida em que evitamos pensar corretamente, de forma a permitir que nossa imaginação nos leve a outros mundos sem termos que afiar o nosso pensar. Nos tornamos místicos ou teósofos é o mesmo que ter a temperatura em alta.
Precisamos de ambas as tendências. Não podemos entender ou penetrar em nada sem a força da imaginação; e não podemos levar qualquer ordem às nossas vidas sem um tanto de pedantismo, sem mantermos algum tipo de anotações e controle das coisas. O que é necessário é o equilíbrio, a proporção correta.
Nosso espírito também é capturado por essas duas tendências. Imaginem o que acontece quando acordamos do sono, de fato, uma mudança abrupta.
Estamos deitados, bastante inconscientes sobre o nosso ambiente – alguém pode ate nos fazer cócegas sem que acordemos. Então subitamente acordamos e vemos, ouvimos tudo. Esta é de fato uma mudança enorme em nossa condição e precisamos do poder, da força que nos permite acordar.
Mas esta pode se tornar muito forte se, por exemplo, não conseguimos adormecer, se somos atormentados pela insônia.
Há também pessoas que de fato, nunca acordam corretamente. Passam suas vidas numa espécie de estado de sonho crepuscular e sempre prefeririam estar dormindo. É claro que precisamos da capacidade para adormecer – mas não a tal ponto que não possamos acordar corretamente.
Vamos então resumir: podemos distinguir certas tendências polares no ser humano em três níveis diferentes. De um lado esta o sistema nervoso que continuamente tende ao endurecimento e a calcificação. Todos vocês – com a exceção do rapazinho sentado ali – são suficientemente velhos para que seus sistemas nervosos estejam um pouco calcificados. Se seus nervos fossem ainda moles como quando vocês tinham seis meses de idade, vocês todos seriam loucos (insensatos). As pessoas loucas têm um sistema nervoso muito mole, infantil. Precisamos dessa tendência em direção ao endurecimento e a calcificação. Por outro lado, também precisamos em sua esfera correta, da tendência ao rejuvenescimento e ao amolecimento.
Corpo:
Endurecimento/amolecimento
Calcificação/rejuvenescimento
Na nossa vida emocional, no âmbito da alma, podemos dizer que o endurecimento corresponde ao pedantismo, ao filistinismo, ao materialismo, á razão árida. Disto também precisamos na dose certa! Se não tivéssemos nada destas qualidades, seriamos “avoados” – em relação a tudo. Se não tivéssemos nem um sinal de pedantismo, não colocaríamos nossa roupa na gaveta certa; nos as colocaríamos no forno ou as penduraríamos na chaminé! Precisamos da imaginação, mas não a ponto de erguemos fora da terra: e precisamos de um pouco de pedantismo, mas não ao ponto de nos tornarmos rígidos e fossilizados.
Uma vez conheci alguém que odiava a imaginação e o imaginário, a tal ponto que esta pessoa nunca ia ao teatro, muito menos a opera, pois dizia que era tudo irreal. Ela não tinha nem um lampejo de imaginação. Então, vocês podem ver que sem esta, podemos nos tornar um tipo de espécime muito ressecado, alguém que se esquiva da vida, ao contrario de uma pessoa verdadeiramente “cheia de sangue”.
Alma:
Pedantismo / Fantasia
Filistinismo / Sonhador
Materialismo / Misticismo
Razão Árida / Teosofia
Em relação ao nosso espírito, podemos reconhecer a tendência em relação ao endurecimento no processo de acordar. Quando acordamos, nos apossamos firmemente do corpo, começamos a usar nossos membros. A tendência oposta, em relação ao amolecimento, se expressa quando adormecemos, quando mergulhamos nos sonhos. Então abandonamos o corpo.
Espírito:
Acordar / Adormecer
Vocês podem ver então, que estamos constantemente correndo o risco de oscilar muito fortemente entre uma ou outra destas direções. Um imã, como vocês sabem, atraem o ferro; mas há dois aspectos neste processo, o magnetismo positivo e o negativo. Um atrai, o outro repulsa. No campo do fenômeno físicos, nos não ficamos nem um pouco embaraçados em chamar uma espada de espada, em nomear o que observamos. Eu descrevi agora as mesmas tendências polares em três âmbitos diferentes: o físico, o anímico e o espiritual. Vocês podem entender e reconhecer o que estou dizendo e observa-lás por si mesmos. Mas para fazer isto, é necessário chamar as coisas por seus nomes. Quando observamos o magnetismo positivo, nos precisamos ser claros quanto ao fato que não é o próprio ferro que traz este efeito, mais algo que esta agindo de modo invisível dentro do ferro.
 
Alguém que se recusa a contemplar tal idéia não consegue enxergar muito alem do próprio nariz. É como se dizer que a atração magnética no ferro é uma bobagem. “O que é esta bobagem sobre o magnetismo?” – ele dirá “ É só ferro, nada mais nem menos que isto – eu faço a ferradura do meu cavalo com isso, é tudo o que há pra se dizer”. Esta é, sem duvida, uma visão um tanto pedante ou imbecil das coisas, pois a ferradura pode ter outros aspectos alem da sua função aparente.
 
Da mesma forma, o processo de endurecimento e calcificação contem um aspecto essencial invisível, supra-sensível que é possível observar se desenvolvemos a capacidade para isso. Este aspecto é chamado “ arimânico”. As forças arimânicas são aquelas que continuamente buscam nos transformar em uma espécie de cadáver ressecado. Se somente as forças arimânicas agissem, nos seriamos calcificados, enrugados e fossilizados.
 
Estaríamos continuamente bem acordados e seriamos incapazes de adormecer.
 
As forças contrárias de rejuvenescimento e amolecimento, de imaginação e de fantasia, são as forças luciféricas. Nos precisamos dela para não nos tornarmos cadáveres. Mas se somente as forças luciféricas existissem permaneceríamos crianças toda a vida. Precisamos de ambas as tendências – sem as luciféricas seriamos velhos e anciãos aos três anos de idade; sem as arimânicas, seriamos eternas crianças.
 
Forças Arimânicas 
Corpo: endurecimento, calcificação 
Alma: pedantismo, filistinismo, materialismo, razão seca
Espírito: estar acordado
Forças Luciféricas
Corpo: amolecimento, rejuvenescimento
Alma: fantasia, sonho, misticismo, teosofia
Espírito: estar dormindo
 
Estas duas tendências precisam ser equilibradas e harmonizadas. Como isso pode se dar? Nenhuma das tendências deveria ganhar a supremacia.

Fonte:


http://www.antroposofy.com.br/forum/rudolf-steiner-dois-principios-opostos-do-ser-humano/