quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O SEGREDO DO PODER DA MADONA NEGRA


O PODER DE MADONA NEGRA



O Princípio Feminino. 
A Mãe Primordial.
A Deusa da Fertilidade.

As Virgens Negras são símbolos do Matriarcado. A cor negra de Madona se deve aos cultos muito antigos, até mesmo pré-históricos, relacionados com a fertilidade e fecundidade da terra, ao escuro da noite, ao útero, à Mãe Terra, à Deusa Mãe. 

Uma das mais antigas estatuetas encontradas representa Madona com seu filho divino, ambos com cabeça de cobra. Sua ligação com os animais era evidente. Em baixos-relevos cravados na rocha ou em pequenas estatuas, Ela aparece cercada de leões, pássaros, serpentes, leopardos, touros e peixes. O Ovo Cósmico, os círculos concêntricos, as imagens de mulheres avantajadas com protuberantes seios, nádegas e barriga, traziam este poder. Nádegas para parir, barriga para gerar e os seios para nutrir.


As antigas imagens das Virgens Negras são registros valiosos de uma época em que a Terra era reverenciada como Mãe e todas as criaturas eram Seus filhos. Já era conhecida, adorada e reverenciada nos cultos célticos e mesmo em cultos anteriores, muito mais antigos. Na Suméria, aparece como Inanna, de dupla personalidade: de dia é a valorosa Senhora das Batalhas, deusa dos Heróis. À noite torna-se a Deusa da fertilidade, dos prazeres e do amor. 

Na Babilônia, Ela é Isthar. Entre os hebreus, é Astarte. Na Frigia, é Cibele. No Egito, é Isis. Na Grécia é a Mãe Animal que, como cabra, porca ou vaca, alimenta o pequenino Zeus. A Deusa de Creta - Deméter - é a Senhora do Mundo Inferior, das profundezas da Terra e da Morte. Seu ventre terreno é o ventre também da fertilidade de onde a vida emana. 

Harmonizar os opostos – vida e morte, masculino e feminino - é a principal Força da Madona Negra. Ela é o Negro da Luz. A cor negra evoca o mistério impenetrável da Fonte Criadora. Ísis e Shekina são cobertas por mantos ou véus pretos, Cibele era venerada como um bloco de pedra preta, Deméter e Athena tinham versões escuras e a belíssima e tocante estátua de Ártemis de Éfeso, a Mãe dos mil seios, era negra. Como doadora da vida, Ela é o útero eterno. Ela é o Orixá Oxum, senhora das águas, que são o sangue da Terra. 


O seu culto foi difundido por todo o Império Romano, associando-se, posteriormente, às imagens marianas do cristianismo. Nos primórdios do da religião cristã, o princípio feminino era representado por Virgens Negras e Brancas e por uma multidão de santas, todas brancas, com exceção de Sara, a Egípcia, padroeira dos ciganos. Na medida da expansão e do fortalecimento da religião cristã, as estátuas de mármore e bronze das deusas pré-cristãs foram destruídas. Seu culto foi perseguido e proibido. 

Porém, em lugares remotos dos países cristianizados, fieis dos antigos cultos preservaram as pequenas estátuas, escondendo-as nas grutas e fendas da terra, em criptas dos templos antigos, perto de fontes e rios e no oco das árvores. Alguns foram encontrados no sul da França, na proximidade dos centros religiosos dos cátaros e templários e nos lugares onde foi preservado o culto da Mãe Divina e de Maria Madalena. 

Em vários locais, as Virgens Negras “apareceram” posteriormente e de maneira milagrosa, encontradas por pessoas humildes, animais ou crianças. Muitas delas foram perdidas ou destruídas por fanáticos e guerras, enquanto sua verdadeira origem e significado estavam sendo esquecidos. No entanto, sua lembrança influenciou gerações posteriores de escultores e artistas religiosos que reproduziram suas imagens, surgindo assim representações mais recentes, com características e trajes cristãos, mas preservando a cor negra. 


No século VII e VIII chegaram na Europa estátuas originais das deusas antigas trazidas do Oriente Médio pelos Cruzados. Na Idade Média os altares dedicados à Virgem Negra na Europa eram os mais procurados e venerados. Não foi possível extinguir da alma popular a veneração milenar de uma Mãe Divina. Seu culto era possuidor de um espírito de sabedoria própria, que não se submetia a nenhuma organização ou lei. 

A partir do século X, o culto das Mães negras se intensificou de tal forma que ultrapassou o do Pai e Seu Filho. Reis, guerreiros, camponeses, mulheres, doentes e peregrinos se ajoelhavam perante as imagens das Virgens milagrosas nas inúmeras igrejas e grutas a Elas dedicadas nos países europeus. Milagres e aparições aconteciam com frequência, principalmente curas de mulheres, enfermos e crianças. A Virgem Negra tornou-se motivo predominante na literatura mística e alquímica dos séculos XII e XIII e o impulso para a construção de inúmeras catedrais, igrejas e permanentes romarias.


Em tentativas equivocadas e sem fundamento para explicar a cor negra das estátuas, alegavam escurecimento pela fumaça das velas ou reações químicas dos pigmentos das tintas. Era necessário ocultar e distorcer o verdadeiro significado da cor negra: atributo milenar da terra, do inconsciente, da fase escura da Lua, do poder misterioso e sagrado da mulher, da sabedoria ancestral que aceitava a morte seguida pelo renascimento, assim com o dia segue à noite. 

O culto da Virgem Negra representava a importante perpetuação do princípio feminino na cultura e religião patriarcal e misógina. Por isso devia ser abolido ou desacreditado. Apesar da oposição dos teólogos cristãos, da perseguição pela Inquisição, da destruição de inúmeras imagens pelos protestantes, revoluções, guerras e reformas políticas, das tentativas de tingir e disfarçar as estátuas de branco, o fenômeno complexo e multifacetado das Virgens Negras persistiu ao longo dos séculos. 

As fogueiras da Inquisição foram seguidas pela frieza da Era da Razão e do materialismo científico, que antagonizava tudo o que era relacionado ao princípio feminino. Porém, no século XIX e XX, aparições marianas reanimaram o culto da Virgem Negra. A necessidade de conciliar religião e sexualidade trouxe de novo os valores telúricos e femininos à consciência coletiva. 


Algumas das Virgens Negras se tornaram símbolos religiosos e mesmo padroeiras nacionais, como a Virgem de Guadalupe, a Madona Negra de Czestochova (Polônia). Na França, em Saintes Marie dela Mer procissões, missas e oferendas no mar reverenciam a negra Sara Kali.


Para nós, é a Padroeira do Brasil - Nossa Senhora Aparecida, descoberta em 1717 no rio Paraíba, em São Paulo. É uma pequena imagem que se apoia numa lua crescente. Nesse lugar hoje existe uma cidade-santuário, que acolhe peregrinos de todo o Brasil e do exterior. 

Apesar da diversidade de aparências, origens e antiguidade, as Virgens Negras evocam as memórias ancestrais da Grande Mãe, da Mãe Terra. Sua antiguidade supera a das religiões e civilizações. Têm um grande poder de cura e transformação, pois possuem o antigo axé das deusas telúricas, as Senhoras da vida, morte e regeneração. 

Ela é a consoladora dos aflitos e dos excluídos. Aparece misteriosamente onde há sofrimento e opressão. Milagrosa, poderosa, misericordiosa, ela traz conforto e alento para todos. Seu coração é imenso como o Cosmo.


A sua aparição em sonhos, visões e terapias das mulheres contemporâneas representa uma mensagem do feminino sagrado e transcendente. Um incentivo para transpormos as pontes que nos afastam e separam e o aviso urgente e premente de reconhecermos o poder sagrado da Terra e da mulher, da diversidade de todas as formas de vida e da necessária inclusão em uma harmoniosa e abrangente parceria. Nossa sobrevivência como Filhos da Terra depende da nossa capacidade de resgatar, honrar e cuidar da Sua luz.

Madona Negra chega até nós nas viagens xamânicas ao som do tambor. No Xamanismo moderno, há uma vivência especial em que vamos ao seu encontro nas meditações. Ela nos abre o coração. Recebemos seu poder de cura, de fertilidade, criatividade, vida e seus ensinamentos, que estão gravados na alma da humanidade e do inconsciente coletivo. 

Salve Madona Negra!

Fonte:http://www.marcelodalla.com/2016/08/o-poder-de-madona-negra.html