sexta-feira, 7 de outubro de 2016

SERÁ QUE NÓS HUMANOS PODEMOS VIVER ATÉ 140 ANOS ?

SERÁ QUE NÓS HUMANOS PODEMOS VIVER ATÉ 140 ANOS ?

Limite máximo de uma vida humana pode já ter sido atingido. E são 122 anos 


A pessoa que mais tempo viveu, de que se tem conhecimento, foi Jeanne Calment. Essa mulher francesa morreu em Arles (França) aos 122 anos de idade, em 1997, e desde então ninguém superou a sua marca. Como acontece com alguns recordes olímpicos, que sempre parecem estar próximos dos limites da biologia humana, é possível que, em termos de longevidade, não se possa ir muito além de Calment. Esta é a hipótese colocada por uma equipe de pesquisadores da Escola de Medicina Albert Einstein de Nova York (EUA).
Embora alguns estudos realizados em animais mostrem que o tempo máximo de vida de um indivíduo pode variar graças a interferências farmacológicas e genéticas, uma análise estatística da evolução desse limite em humanos indica que, ao menos nas atuais condições, este não é o caso para a nossa espécie. Segundo os autores dessa pesquisa, divulgada nesta quarta-feira pela revista Nature, a idade máxima atingida na Suécia, por exemplo, subiu de 101 anos, na década de 1860, para 108 nos anos 1990. Considerando-se dados do mundo todo, se observa que tanto ali como em outros países esse limite máximo se estagnou desde a década em que Jeanne Clement faleceu. Isso seria, segundo interpretam os pesquisadores, uma demonstração consistente de que “a longevidade máxima nos humanos é fixa e está sujeita a limitações naturais”.
Em um outro artigo publicado também pela Nature, Jay Olshansky, pesquisador da Universidade de Illnois, em Chicago (EUA), comenta que os estudos mais recentes indicam que o limite da vida humana não é definido por um sistema de obsolescência programada, fruto da evolução, que nos leva a morrer a partir de uma determinada idade. “O que parece ser um limite natural é um efeito colateral indesejado dos programas genéticos estabelecidos para as atividades do início da vida”, defende ele. Como explica o principal autor do primeiro artigo, Jan Vijg, pesquisador da Escola de Medicina Albert Einstein, “vários dos sistemas que evoluíram para nos proteger de ameaças externas, de danos causados pelo estresse, de falhas em processos moleculares, produzem, no longo prazo, os problemas que acabam por nos matar”.
Na sua opinião, embora em alguns modelos animais medidas como a redução do consumo de calorias prolongaram em cerca de 30% a sua vida, isso não funcionaria no caso do ser humano. “O problema é que cada espécie desenvolve sistemas de proteção adaptados às suas possibilidades de sobrevivência na natureza. Os ratos são muito frágeis e por isso têm uma expectativa de vida muito baixa. Nós, humanos, no entanto, graças, em parte, ao nosso cérebro, incrementamos as nossas possibilidades de sobreviver, e por isso o nosso sistema evoluiu para viver mais tempo”, explica Vijg. “Mas os sistemas que nos permitem sobrevivermos dentro do nosso período de expectativa de vida não são um só, nem dez; eles podem ser milhares ou dezenas de milhares. Quando começam a falhar, o organismo se deteriora, e seria muito difícil criar um tratamento que conseguisse consertar todos de uma vez. Esquecer de tomar apenas um dos milhares de medicamentos que seriam necessários para manter todos esses sistemas em funcionamento já levaria à morte”, conclui.
“Esses programas genéticos de crescimento, desenvolvimento, amadurecimento e reprodução são produtos de 3,7 bilhões de anos de história da evolução”, assinala Olshansky, acrescentando: “Não há um limite estabelecido a partir do qual os humanos não conseguem viver. Mas existem, no entanto, limites para a duração da vida que são impostos por outras características genéticas da nossa história vital”. Um exemplo semelhante seria o da velocidade a que conseguimos correr. Não há nenhum programa genético que a limite, mas existem constrições biomecânicas impostas por um corpo que é fruto de uma história evolutiva concreta.
Alguns pesquisadores, porém, vem o trabalho de Vijg como uma boa análise estatística, mas consideram que ele não vai muito além disso, não podendo prever o que ocorrerá no futuro. É o caso de Timothy Cash, pesquisador do Grupo de Supressão Tumoral do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas (CNIO). Na sua opinião, para conhecer as possibilidades de tratamentos em humanos com restrição calórica ou com o rapamicina, que deram certo em modelos animais, será preciso aguardar a realização de estudos que levarão ainda muito tempo. Para Cash, a estagnação no crescimento da expectativa de vida humana pode ser temporária, e, portanto, graças à ciência, o recorde de Calment ainda poderia ser batido no futuro.


Envelhecer te fará feliz


Estudo mostra que, apesar da perda de faculdades, mais velhos mostram maior nível de satisfação


Nós, seres humanos, sentimos uma intensa atração pelo que nos faz mal. Adoramos as bebidas açucaradas, as comidas gordurosas e passar as férias em casal. Também desejamos ser jovens eternamente, apesar de que, como uma grande quantidade de estudos mostrou, somos mais felizes quando nos aproximamos da velhice. Pesquisas em dezenas de países indicam um padrão bastante generalizado. A maior parte das pessoas dá uma pontuação elevada quando se pergunta a elas sobre sua satisfação com a vida durante os primeiros anos da casa dos 20. Depois, essa satisfação cai, com a menor pontuação ao redor dos 50. A partir daí, a felicidade cresce progressivamente, até mesmo na faixa dos 90.

Na semana passada foram publicados os resultados de um trabalho norte-americano sobre idade e bem-estar psicológico que confirma, com algumas nuances, essa ideia. O estudo, baseado na resposta de 1.546 pessoas dos Estados Unidos e publicado na revista Journal of Clinical Psychiatry por pesquisadores da Universidade da Califórnia, de San Diego, mostra uma tendência a se sentir melhor consigo mesmo e com a vida “ano após ano e década após década”. Além disso, constatou-se o paradoxo de que, apesar da deterioração física e cognitiva, a saúde mental das pessoas idosas era melhor que a das mais jovens. Em contrapartida, os autores viram que os jovens na casa dos vinte e dos trinta anos tinham elevados níveis de estresse e mais sintomas de depressão e ansiedade. A diferença incorporada nesse artigo em relação a anteriores que exploraram as relações entre a idade e o bem-estar psicológico é que, em lugar da habitual forma de U, a progressão do bem-estar é linear dos 20 aos 90 anos.
Os cientistas continuam acumulando provas que indicam que os anos, apesar de nos tornarem mais feios e menos ágeis, nos deixarão mais felizes, mas ainda não se depararam com uma explicação completamente satisfatória que explique a tendência. Uma das possibilidades, apontam os autores, é que exista uma reserva emocional que ajude a contrabalançar a deterioração física, do mesmo modo que alguns sistemas cognitivos passivos equilibram a perda de algumas capacidades. Recentemente foi publicado um estudo que mostrava como o cérebro se reorganiza para compensar a perda de capacidade auditiva.
Outro mecanismo apontado pelos responsáveis do estudo é que com os anos se ganha habilidade na gestão das emoções e na gestão de decisões sociais complexas. Alguns estudos descobriram que com a passagem do tempo as pessoas experimentam menos emoções negativas e mostram um viés cada vez maior para memórias positivas.

Os jovens na casa dos vinte e trinta anos tinham elevados níveis de estresse e mais sintomas de depressão e ansiedade
Todos esses recursos, além da aprendizagem vital, podem estar relacionados com mudanças físicas produzidas pelo envelhecimento. Segundo explica o pesquisador Dilip Jeste, autor principal do trabalho, foi observado que “a amídala, a parte do cérebro associada com a percepção emocional, se torna menos sensível às situações estressantes ou negativas”. Além disso, “os níveis de dopamina no circuito de recompensa do cérebro decaem com a idade”, acrescenta. Ambas as mudanças facilitam o controle das emoções e geram uma maior sensação de bem-estar.
Estas mudanças biológicas, que mostram que muitas vezes os impulsos inscritos em nossos genes pela evolução não têm por que serem o melhor para nossos interesses pessoais, foram observadas em nossos parentes animais mais próximos. Um estudo com 500 chimpanzés e orangotangos também revelava indícios de uma crise da meia idade por volta dos 30 anos. Neste caso, porém, à subjetividade dos participantes que completam as pesquisas nas quais se avalia a própria felicidade se acrescentava que não foram os próprios primatas que julgaram seu nível de bem-estar, mas seus cuidadores.
Os autores do artigo reconhecem que será necessário muito trabalho para explicar esse fenômeno aparentemente contraditório. Esse conhecimento, além de pintar um futuro promissor para todos, ajudará a orientar melhor os tratamentos de saúde mental e adaptá-los às necessidades reais de cada idade.


Quanto mais tempo seus pais viverem, mais tempo você viverá


Os filhos de pessoas mais longevas têm menos problemas de coração quando chegam à velhice

O fato de uma pessoa viver mais ou menos depende de muitos fatores, como o ambiente, a genética e os hábitos. Mas, se o pais viverem muito tempo, também ajuda. Um estudo com quase 200.000 pessoas mostrou que, quanto mais viveram seus pais, mais eles - os filhos - viveram. Para cada ano a mais de vida, a incidência de algumas doenças (mas não de outras) diminui.

Um grupo de pesquisadores de vários países seguiu as pistas dadas por 186.151 britânicos. Quando começaram o estudo, publicado pelo Journal of the American College of Cardiology, os mais jovens tinham 55 anos, e os mais velhos, 73. Todos eles já tinham perdido seus pais e mães. Então, os pesquisadores perguntaram a eles quantos anos tinham seus pais quando morreram; depois, acompanharam a saúde dos filhos pelos cinco anos seguintes.

Depois desse tempo, os pesquisadores comprovaram que a mortalidade entre aqueles cujos pais viveram mais de 69 anos era 16,5% menor para cada década de vida extra de algum dos progenitores. Embora o consumo de tabaco, o abuso de álcool, a obesidade e o sedentarismo também tenham sua carga de responsabilidade, quando esses fatores são controlados, a relação das idades entre pais e filhos se mantém.
"Trata-se do maior estudo que mostra que, quanto mais vivem seus pais, mais serão suas chances de chegar aos 60 ou 70 anos com boa saúde", afirma a pesquisadora Janice Atkins, da escola de Medicina da University of Exeter, no Reino Unido.

O risco de sofrer um infarto baixa até 20% se os pais vivem mais de 80 anos
Esta relação se repete também no sentido contrário. "Constatamos também que os filhos de pais com vida mais curta têm um risco maior de morrer", acrescenta em mensagem por e-mail. Atkins esclarece, em seguida, que se trata de um estudo que mostra tendências gerais: "Se alguém se expõe aos grandes fatores de risco, isso irá pesar mais em sua saúde do que a idade com que seus pais morreram", conclui.
A pesquisa também teve foco nas doenças mais frequentes com o passar do tempo. Praticamente todos os casos de doenças cardíacas têm relação com a idade alcançada pelos pais. O alto colesterol, a hipertensão e o risco de infartos, por exemplo, podem diminuir até 20% se pelo menos um dos pais chegou a 80 anos ou mais.
No que diz respeito ao câncer, as relações encontradas foram muito baixas para considerá-las significativas na maior parte dos tipos da doença. Entretanto, foi encontrada uma ligação entre o câncer de pulmão e a longevidade dos pais. Em outras doenças, como a asma ou a anemia, não houve qualquer ligação. A pesquisa, contudo, não estudou a fundo as doenças mentais relacionadas com a idade. "Também estudamos a depressão, mas não encontramos uma associação ente o tempo de vida dos pais e o risco de depressão de seus filhos", comenta a pesquisadora britânica.

O estudo foi realizado durante oito anos, com quase 200 mil pessoas, todas saudáveis no início das investigações
O professor David Melzer, que dirige o programa de pesquisa de Atkins, disse em uma nota oficial: "Ainda não se sabe por que algumas pessoas têm problemas de coração aos 60 anos, enquanto outros só os desenvolvem aos 90, ou até mais velhos. Evitar fatores de risco conhecidos, como o cigarro, é importante, mas nosso estudo mostra que há outros fatores herdados dos pais que afetam o bom funcionamento do coração".
Essa herança também tem elementos do ambiente familiar em que a pessoa cresce. Pesquisas anteriores mostraram que um nível maior de estudos ou de dinheiro, a prática de atividades físicas e uma alimentação saudável ajudam a alongar a vida. Assim, os filhos que crescem neste ambiente também herdam uma expectativa de vida maior.


Morrer jovem, aos 140 anos


A aplicação da telomerase em camundongos demonstrou que é possível prolongar não só a vida, como também sua qualidade. Será que nós, humanos, poderíamos então viver até os 140 anos?


A modelo Alicia Borrás, de 70 anos, em uma campanha de roupa jeans da marca Desigual. 

Se fizéssemos um estudo sobre os medos mais comuns, além do medo de aranhas ou do escuro, um que muitos de nós compartilharíamos seria o medo de envelhecer. Na verdade, nem é preciso pesquisar muito. Todos entramos em crise com nossos primeiros cabelos brancos, passamos o dia procurando tinturas ou cremes antirrugas e, às vezes, até nos vestimos tentando aparentar menos idade do que a que temos. Mas será que existe realmente alguma forma de escapar da velhice? Parece que a resposta não está no bisturi, que só nos permite “ficar mais jovens” em um nível mais superficial, e sim em nosso próprio DNA.
A diretora do Centro Nacional de Investigaciones Oncológicas da Espanha (CNIO), María Blasco, e a jornalista especializada em ciência e saúde Mónica G. Salomé lançaram o livro Morir Joven, a los 140 (“morrer jovem, aos 140”), uma obra de divulgação que pretende aproximar a ciência da população em geral, com conceitos que muitos de nós veem como ficção científica, mas parece que muito em breve se tornarão realidade.

O livro nasce da linha de pesquisa da cientista María Blasco sobre os telômeros, “estruturas protetoras que existem no final de nossos cromossomos”. A relação entre os telômeros e o envelhecimento se baseia, pelo que nos conta Blasco, no fato de que “eles se corroem cada vez que nossas células se dividem, e assim acabam se encurtando e causando danos ao nosso DNA com o passar do tempo − e é por isso que o encurtamento dos telômeros é uma das causas do envelhecimento molecular”. Para poder interferir nesse processo, Blasco tem passado grande parte de sua carreira pesquisando a chamada telomerase, “que é capaz de frear isso, embora ainda não haja nenhuma terapia aprovada que possa ativar a telomerase de forma potente e que possa ser usada na prevenção ou no tratamento de doenças associadas ao envelhecimento”.
Pode-se viver até os 140 anos?
O que María Blasco relara em seu livro e explica ao EL PAÍS é que suas pesquisas demonstraram que, em camundongos, a aplicação da telomerase conseguiu efetivamente retardar o aparecimento de doenças relacionadas ao envelhecimento, além de prevenir o câncer. “Vimos, além disso, que esses camundongos viviam significativamente mais”, o que levou à investigação das possibilidades dessa terapia em humanos. Mas será possível que vivamos até os 140 anos, como diz o título do livro? Sobre isso, Blasco explica que “a expectativa de vida ao nascer aumenta a cada década e faz isso numa velocidade que não tem diminuído − nem parece que tenda a diminuir em um futuro imediato. À medida que vamos entendendo como se produzem as doenças, em parte graças à compreensão de por que envelhecemos, tenho certeza de que teremos melhores maneiras de preveni-las e tratá-las”, o que, pela lógica, nos levaria a viver mais anos.
A Espanha já é um dos países com maior expectativa de vida, mas o que já se demonstrou é que ganhar anos de vida nem sempre significa ganhar qualidade de vida. A vantagem de trabalhar com a telomerase é que não só viveríamos mais, como faríamos isso justamente por ter menos doenças. “Em camundongos, vemos que quando se prolonga a vida é porque eles têm menos doenças e estão jovens em idades cronológicas avançadas”, insiste Blasco.
O que significa envelhecer?
Quando falamos de envelhecimento, não falamos apenas de cabelos brancos e rugas, mas também da própria vida de nossas células. Assim, de um ponto de vista científico, “o envelhecimento não é nada mais que a deterioração da capacidade de nossas células de se manter saudáveis e funcionais, algo que está associado ao fato de que os mecanismos que nos protegem do dano começam a decair quando termina a idade reprodutiva de nossa espécie”. Conseguir mudar esse mecanismo por meio da telomerase é, portanto, um novo objetivo.
Além da preocupação social com nossa aparência, com o fato de nos sentir excluídos de certas atividades e até mesmo com o fato de ver nossas capacidades se reduzirem, o medo de envelhecer, nas palavras de Blasco, “é uma preocupação lícita, e por isso também é lícito tentar entender quais são os processos moleculares responsáveis por esse decaimento da função das células, para assim poder prevenir o surgimento prematuro de doenças, mas também para ter maneiras, talvez mais eficientes, de tratar enfermidades como o Alzheimer e o infarto do miocárdio, entre muitas outras, cuja incidência aumenta dramaticamente à medida que envelhecemos”. Assim, a ideia que tanto a cientista como a jornalista querem deixar clara em seu livro é que não somos obrigados a envelhecer − e, além da estética, a ciência também está lidando com esse problema.
Nem tudo é DNA
Embora seja importante influir em nosso próprio DNA, para mudar as reações do nosso corpo a seu envelhecimento natural é preciso levar em conta que nem tudo está em nosso próprio genoma. Envelhecer também depende de nossos hábitos de vida − basta comparar uma pessoa fumante e sedentária com uma ativa, que cultiva um estilo de vida mais saudável. Nesse sentido, Blasco afirma: “Chegar saudável aos 70 anos tem um componente importante de hábitos de vida, e chegar aos 100 tem, sem dúvida, um componente genético importante”. Mas ela acrescenta que os problemas ambientais também podem afetar nossas células. Ou seja, enquanto não existe a fórmula perfeita da telomerase, podemos muito bem fazer coisas para cuidar de nossos telômeros, da mesma forma que cuidamos de nossa pele, por exemplo. “Há trabalhos que indicam que o estresse percebido encurta os telômeros. Além disso, também parecem ter efeitos negativos o fato de fumar ou ter sido fumante, assim como a obesidade. Por outro lado, o exercício parece estar associado a telômeros mais longos. O problema é que todos esses estudos são do tipo correlativo, e ainda desconhecemos os mecanismos moleculares pelos quais poderia estar ocorrendo isso”, reflete Blasco.
Resta então uma última pergunta por responder. Se parece que a ciência pode avançar para evitar o envelhecimento de nosso corpo, será que ela também pode evitar o envelhecimento de nossa mente? De uma perspectiva científica, a diretora do CNIO conclui que “o envelhecimento é um processo molecular e celular e ocorre em todo o nosso organismo ao mesmo tempo”, incluindo então o cérebro. O que acontece é que mente e cérebro não são exatamente sinônimos. Por isso, enquanto os cientistas continuam trabalhando para evitar que nossas células envelheçam, nós podemos continuar trabalhando para alcançar a eterna juventude de nossos pensamentos, de nossos sentimentos e de nossas ideias. Porque viver até os 140 anos depende dos cientistas, mas fazer isso sentindo-nos jovens depende de nós.


Por que algumas pessoas envelhecem antes das outras


Um conjunto de fatores permite medir as diferenças entre a idade biológica e a cronológica



Idosos em um lar em Tóquio.  Bloomberg

O tempo não passa igualmente para todos. Quando se chega perto dos 40, alguns continuam parecendo estar na casa dos 20, enquanto outros parecem perto da idade da aposentadoria. Além do aspecto estético, numa sociedade cada vez mais longeva, medir a idade real e a velocidade do envelhecimento individual pode ser muito útil para contrabalançar os efeitos da passagem do tempo quando ainda não começaram a causar doenças. Até agora, contudo, não existem métodos para medir o processo de envelhecimento nos adultos jovens. É isso que uma equipe internacional de cientistas coordenada pela Universidade Duke (EUA) está tentando mudar.

Os pesquisadores usaram o Estudo de Dunedin, que reuniu informações sobre a saúde de mais de 1.000 pessoas da cidade neozelandesa de mesmo nome desde que nasceram, entre 1972 e 1973, até a atualidade. Por um lado, utilizando um algoritmo que inclui 10 indicadores biológicos, como a relação cintura-quadris, a saúde das gengivas, os níveis de colesterol e triglicérides e a pressão arterial, calcularam a idade biológica dos indivíduos que queriam estudar. Embora todos tivessem 38 anos, alguns deles correspondiam à idade biológica de 28 anos, enquanto outros chegavam aos 61.
Os cientistas mediram ainda o ritmo de envelhecimento dos voluntários tomando como referência a variação de 18 indicadores biológicos entre os 26 e os 38 anos. Dessa forma observaram que, enquanto a maior parte das pessoas envelhece um ano biológico a cada ano cronológico, alguns envelheciam até três anos biológicos por ano cronológico. No extremo oposto, três dos participantes do Estudo de Dunedin tiveram um ritmo de envelhecimento biológico inferior a zero, recuperando a juventude fisiológica na casa dos 30.
Os autores do trabalho, publicado agora na revista PNAS, também observaram que quem envelhecia mais rápido e tinha uma idade biológica maior sofria uma queda também mais rápida do quociente intelectual, maior risco de demência e pior equilíbrio. Além disso, os voluntários que acumulavam anos biológicos com maior velocidade tinham uma percepção pior sobre a própria saúde e pareciam mais velhos aos olhos de observadores independentes.
Os pesquisadores reconhecem que ainda devem refinar suas aferições para saber, por exemplo, se alguns fatores relacionados com o envelhecimento têm mais influência no acúmulo de anos biológicos do que outros, esses resultados mostram que é possível quantificar as diferenças na velocidade com que pessoas jovens envelhecem, criando as bases para medir a eficiência de tratamentos anti-idade aplicáveis antes que a deterioração física surja na forma de doenças.

Alguns indivíduos envelheceram até três anos biológicos por ano cronológico
“Nossa pesquisa pode impulsionar de duas maneiras os esforços para prevenir as doenças e incapacidades relacionadas com a idade. Em primeiro lugar, torna possíveis outros estudos que revelem de que maneira diferentes fatores de risco podem acelerar o envelhecimento. Esses estudos poderão identificar metas para o trabalho de prevenção”, explica Dan Belskey, pesquisador da Universidade Duke e autor principal do estudo. “Em segundo lugar, torna possível a avaliação de terapias de antienvelhecimento em pessoas jovens”, acrescenta.
“Antes, os estudos tinham que se concentrar em adultos mais velhos, porque os efeitos da idade costumeiramente são medidos por meio de patologias cognitivas ou físicas”, prossegue. “Tentar retardar o envelhecimento de pessoas que já desenvolveram doenças crônicas é uma corrida morro acima. As terapias para retardar o envelhecimento em pessoas jovens podem ser mais eficientes porque os processos relacionados com a doença ainda não estão em andamento”, conclui.
Para completar os resultados, no futuro os pesquisadores querem medir que parte do ritmo com que envelhecemos está relacionada com a genética e que parte com o estilo de vida. Além disso, tentarão compreender por que alguns dos indivíduos estudados mostravam traços fisiológicos indicadores de que, ao menos durante um certo período, tornavam-se mais jovens com a passagem do tempo.


Identificado o mecanismo que explica por que comer pouco prolonga a vida


Produção de sulfeto de hidrogênio, que aumenta com a restrição calórica, tem efeito protetor sobre partes fundamentais das células


O estudo foi feito em ratos. 

Existe uma recomendação chinesa tradicional de saúde, conhecida como hara hachi bu, que consiste, mais ou menos, em comer apenas até que se esteja 80% satisfeito. Embora só seja por acaso, essa tradição milenar parece ter respaldo na ciência. Até agora, a única intervenção com eficácia demonstrada para ampliar a longevidade no caso de animais consiste em reduzir as calorias ingeridas, sem chegar à subnutrição.
No momento, a utilidade desse tratamento para viver mais não foi comprovada em humanos, mas é um caminho de pesquisa que desperta muito interesse. Agora, uma equipe de pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard (HSPH, na sigla em inglês) identificou em ratos um mecanismo molecular fundamental que pode ajudar a explicar por que comer menos pode prolongar a vida.

Há muito tempo se observa que um dos efeitos positivos da restrição calórica é a proteção das mitocôndrias, as centrais energéticas das células, contra a oxidação. O mecanismo protetor dessas peças essenciais do organismo seria o sulfeto de hidrogênio (H2S). Experimentos com células, moscas e vermes mostraram que se eles são suplementados com H2S ou se lhes proporcionam algum meio para gerá-lo, a proteção em relação a danos como o que produz o estresse oxidativo é aumentada e, no caso de moscas e vermes, sua existência é prolongada. De modo inverso, quando se anula a capacidade das células de produzir H2S, o efeito é o oposto.

Os cientistas, que publicaram seus resultados na revista Cell, observaram que, restringindo na dieta a presença de dois aminoácidos, a metionina e a cisteína, a produção de H2S é incrementada e são reduzidos os danos que ocorrem quando, durante o transplante de um órgão ou um derrame cerebral, o fluxo sanguíneo é interrompido.
Embora os próprios autores reconheçam que são necessários mais experimentos para compreender como se produzem os efeitos benéficos do H2S, um deles, James Mitchell, afirma que seus achados proporcionam “uma nova perspectiva sobre em quais moléculas podem ser concentrados os esforços terapêuticos para combater a doença humana e o envelhecimento”. Em um período mais breve, segundo explicou em um comunicado Christopher Hine, outro dos autores do estudo, poderia ser encontrada a utilização desse conhecimento sobre a capacidade de proteção do H2S para ajudar a decidir “o que comer e o que não comer antes de uma cirurgia na qual o risco de lesão de isquemia possa ser relativamente alto”.


Correr a vida inteira rejuvenesce


O hábito de correr regularmente aumenta a eficiência energética do corpo entre idosos


R. STOWE

Correr – o que agora se chama running e que em nossas origens paleolíticas era a diferença entre um ser humano vivo e outro morto de fome – nos mantém mais jovens. É o que revela um novo estudo que analisou o consumo de energia do corpo humano durante o exercício como se fosse uma máquina a mais. Seus resultados indicam que pessoas na casa dos 60 e 70 anos, que correram durante décadas regularmente, mantêm uma maior eficiência energética, comparável em alguns casos à de pessoas de 20 anos. No entanto, pessoas dessa mesma idade que caminham frequentemente como forma de exercício não têm um organismo tão eficiente, segundo os autores.

A pesquisa, publicada no site PLoS One, sustenta o que foi dito em muitos estudos sobre medicina e esporte: fazer exercícios aumenta a expectativa de vida, atrasa a chegada da dependência em mais de uma década e pode economizar para os sistemas públicos de saúde dezenas de bilhões de euros com remédios, hospitalizações e tratamentos.

e você correr, o risco de morte diminui oito anos comparado com o de pessoas sedentárias da mesma idade"
“Correr mantém você jovem”, diz Rodger Kram, fisiólogo da Universidade de Colorado e um dos autores do estudo. Seu trabalho analisou a eficiência energética de um grupo de pessoas atípicas, como ele mesmo reconhece. São pessoas entre 64 e 74 anos, que correm pelo menos meia hora três vezes por semana há muitos anos, inclusive décadas. São segundo, Kram, herdeiros do chamado jogging boom, uma moda que começou no final dos anos setenta nos EUA e em outros países e que multiplicou o número de corridas populares, maratonas transmitidas pela TV, anúncios de tênis e todo tipo de acessórios esportivos.
O próprio Kram corre há mais de três décadas e estuda seus efeitos sobre o corpo humano a partir do campo científico da biomecânica. Nesse estudo, comparou a eficiência energética desses corredores veteranos com a de pessoas de idade semelhante que caminham regularmente como exercício. Foi pedido que ambos os grupos caminhassem em diferentes velocidades sobre uma esteira ergométrica enquanto se observava seu nível de oxigênio. Os resultados do estudo, que analisou um total de 30 indivíduos, mostraram que os corredores mantêm uma eficiência energética comparável à de uma pessoa sedentária de 20 anos quando caminha. As pessoas que andam regularmente, por outro lado, registraram um consumo energético maior, comparável ao de pessoas sedentárias de sua idade. Os corredores eram entre 7% e 10% mais eficientes que pessoas da mesma idade que andavam.

“Foi uma surpresa que os corredores de nosso estudo caminhassem de forma mais eficiente do que pessoas que andam regularmente como exercício”, afirmou Owen Beck, coautor da pesquisa, em um comunicado à imprensa. “A mensagem final do estudo é que correr regularmente parece atrasar o envelhecimento e permite que pessoas idosas se movimentem mais facilmente, o que melhora sua independência e qualidade de vida”, acrescenta.
A facilidade para caminhar é um indicador “fundamental” de doença e morte. “Se você caminhar menos do que 0,5 metro por segundo [1,8 quilômetros por hora] seu risco de morte aumenta três vezes”, diz Mikel Izquierdo, diretor do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Pública de Navarra. Izquierdo acredita que o estudo de Kram é um pouco “oportunista”, pois se aproveita do crescente interesse que existe em tudo o que é relacionado à corrida para promover benefícios que são reais, mas modestos, avalia. O lado positivo do estudo, reconhece, é que “mostra que correr melhora a economia energética, o que por sua vez facilita que as pessoas possam fazer mais exercício, e este é chave”. “Se você for fisicamente ativo, se corre, seu risco de morte diminui oito anos comparado com o de pessoas sedentárias de sua idade e, acima de tudo, diminui em 12 anos a chegada da dependência por incapacidade”, explica.

Os corredores eram entre 7% e 10% mais eficientes que pessoas da mesma idade que caminhavam"
Por isso, além de ajudar a vender tênis, meias e pulseiras inteligentes, a moda atual do running poderia ter efeitos muito positivos caso deixe de ser uma moda e passe a ser algo mais. “Se podemos manter essa massa crítica do runningspinning ou qualquer outro esporte da moda, haverá pessoas que não apenas vivem mais, mas que serão independentes por muito mais tempo, e isso representa qualidade de vida, economia em remédios, serviços de saúde, atraso da demência e inclusive do Alzheimer etc.”, destaca Izquierdo.

Os ciclistas perdem eficiência

“O estudo é interessante porque mostra que o exercício atenua muito os efeitos do envelhecimento”, destaca Alejandro Lucía, professor de Fisiologia Humana e do Exercício da Universidade Europeia de Madri. Lucía é especialista em efeitos físicos do exercício em pessoas idosas e pacientes com câncer, para os quais a prática de esportes também demonstrou melhora de seu estado de saúde, diz. “Os médicos têm que aprender a prescrever exercício físico”, destaca.
À medida que se envelhece, a capacidade aeróbica vai diminuindo em todos os tipos de pessoas, inclusive nos corredores. A fadiga característica de pessoas idosas acontece porque a curva descendente de sua capacidade aeróbica e a ascendente de seu consumo de energia se encontram, obrigando-as a parar para recuperar o fôlego, afirma Kram. O que o estudo revela é que o consumo de energia em corredores regulares é mais baixo do que o das pessoas que caminham, e se mantém mesmo com o envelhecimento. Esse menor consumo energético permite realizar com menos problemas tarefas como andar.
Os autores do estudo destacam que caminhar como exercício continua sendo muito benéfico, por exemplo, para evitar doenças cardiovasculares. O problema é que a eficiência energética não está entre esses benefícios. Os pesquisadores não conseguiram descobrir por que os corredores são mais eficientes e por que essa eficiência é mantida com o passar dos anos. De fato, estudos anteriores haviam provado justamente o contrário, nesse caso estudando ciclistas e triatletas veteranos. Kram acredita que a resposta possa estar nas mitocôndrias, organelas celulares encarregadas de proporcionar energia. As pessoas que fazem exercício tendem a possuir mais mitocôndrias em suas células e essa pode ser a explicação do que foi observado, embora seja necessário conduzir mais estudos para investigar as causas, diz Kram.


Avós levantando pesos


Outros exercícios podem ser igualmente ou mais benéficos do que correr. Em um de seus estudos mais recentes, Izquierdo demonstrou que, graças a um treino de força muscular com máquinas semelhantes às de qualquer academia, pessoas na casa dos 90 anos, com mobilidade limitada e deterioração cognitiva, reduziram significativamente seu risco de quedas e melhoraram sua capacidade para se movimentar, levantar sozinhos e outras funções básicas. Esse estudo também revelava que quatro meses de exercícios de força dão a uma pessoa de 70 anos a mesma capacidade funcional de um indivíduo de 45 anos iniciante nesse tipo de treino.



Fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/