segunda-feira, 17 de outubro de 2016

POESIA SEM NOME... AO AMOR QUE NÃO ACABA - IVANE PEROTTI

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POESIA SEM NOME... AO AMOR QUE NÃO ACABA



VISLUMBRES INSPIRADORES

- fragmentos da natureza entre a vida o homem –

“Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa com janelas de aurora e árvores no quintal. Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.”Manoel de Barros

                              Quando as vozes suavizaram-se, finas cordas desceram do teto abobadado. Não eram muitas. Suficientes para prender o grito e amarrar a vontade. Bastantes para dar lugar ao teatro de lugares marcados pela força da inspiração.
                             Invisíveis ao plano externo, as cordas ocupavam o centro da grande cena. No átrio, um cometa ameaçava romper os lábios da proteção sonora. De onde surgira? Duplas caixas infláveis localizadas no interior da cavidade torácica chamavam para si a responsabilidade do feito. Ambas trocavam movimentos: surdo e sonoro era o resultado do empuxo e da explosão. Mas a voz que se desprendia iniciava outro caminho: uma jornada de liberta aspiração. E do encantamento pessoal brotava um sopro de sabores brilhantes. Pois, ... que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós...” (Manoel de Barros). O momento requeria olhar de mágico, mãos de criança, olhos de pássaros e coração de semente madura. Todos somados à frente das cortinas abertas.
                          Do auditório quase vazio, um homem levanta o desejo de compreender a razão da beleza e da ausência dela. Faltaria motivo, em sua leitura sábia e delongada, para uma composição de vozes desvozeadas. Faltaria modelos de feitura, performance ordenada e foco nas possíveis alterações das cordas, dos lábios, dos pulmões e demais componentes da peça.  Conceitos amalgamados em cursos invertidos estariam prejudicando a tradução dos sentidos. O papel das metáforas estaria relegado ao teto e não ao solo, às cordas e não à voz. Enfim, para o desejo do homem, outra cena deveria compor o palco das inspirações. Tal como uma ordem de primeira necessidade, de pronta aceitação, de fácil interpretação diante da massa de ar que empurrava o cometa da sorte para depois dos lábios apertados.
                       Eis que a magia não morrera de véspera e colocou-se de prontidão; mãos de criança levaram à boca velhos dedos de unhas gastas e as cordas tensas travestiram-se de pregas vocais. E então se ouviu o coro das almas vivas. Uma vez que, um pouco de voz não faria mal à audiência, pois a poesia descera do céu e fizera-se homem, natureza, e beijava as flores da consciência livre.
                      Dizer da beleza e da vida não é dizer do que acontece entre a estética e a percepção. Dizer da beleza da vida é perscrutar a voz que ecoa em sentimentos e emoções, nem sempre prontos, nem sempre do lado que se lhes deseja.
                      Versos habitam a borda dos abismos da vontade.

Ivane Laurete Perotti


Fonte:http://ivaneperotti.blogspot.com.br/2016/10/poesia-sem-nome-ao-amor-que-nao-acaba.html