quarta-feira, 12 de outubro de 2016

OS SEIS REINOS DE EXISTÊNCIA NO BUDISMO





Os Seis reinos de existência no budismo

Por Daisy Camargo.
Quando decidi começar a escrever sobre Budismo não foi com a intenção de passar ensinamentos prontos ou repetir o que já li e ouvi durante os anos em que tive a oportunidade de ter um contato maior com praticantes e mestres tibetanos. Na verdade, o meu projeto é o de escrever sobre as minhas próprias vivências, sem a pretensão de achar que carrego comigo as respostas a todas as dúvidas.
Ao observar a vida dentro e fora de mim chego à conclusão de que o caminho a percorrer será sempre repleto de questionamentos, incertezas e medos. O processo de expansão da consciência é infinito e sempre virá acompanhado de interrogações e reticências… Se acreditarmos que temos a verdade absoluta em nossas mãos o risco de estagnação se torna iminente. É como tentar delimitar algo que está além da nossa concepção. Uma vez ouvi que uma das maiores ilusões do ser humano é a tentativa de querer conceituar Deus, pois quando dizemos que Deus é “isto” ou “aquilo”, já estamos impondo limites a algo que é ilimitado por sua natureza. As escrituras se referem à figura de Deus como “O Onipotente”, “O Onipresente”, “O Onisciente”. No Druidismo Deus é chamado de “O Incriado”. Lindo isso, não é?
Infelizmente, nós precisamos das palavras e dos conceitos para nos referirmos a uma ideia, por mais sutil que ela seja. Por isso considero difícil escrever sobre os seis reinos de existência, pois vou ter que encontrar formas de descrever aquilo que não consigo visualizar com clareza absoluta em minha mente. Apesar de já ter renascido em cada um desses reinos por vezes incontáveis é impossível para a minha condição atual ter acesso a esses registros e lembranças.
Mas existe uma maneira de podermos estudar um pouco sobre o que acontece em cada um destes reinos. Basta analisarmos o que há por trás das metáforas e simbologia daquilo que estamos observando. No caso, os seis reinos de existência podem ser entendidos como estados mentais que surgem como consequência de nosso karma.
O estudo do karma é muito complexo, envolve pesquisa minuciosa e uma compreensão profunda de aspectos sequer imaginados por nossa consciência formal. De forma bem simplificada, quando geramos karma negativo estamos criando as causas para renascermos em um dos três reinos inferiores. E quando geramos karma positivo criamos as condições que nos levarão a renascer em um dos três reinos superiores do samsara.
Uma afirmação constantemente repetida pelos budistas é a de que podemos experienciar os seis reinos de existência em um único dia. Em apenas 24 horas temos a capacidade de migrar por esses reinos e sofrer os seus efeitos. É fácil de entender isso quando fazemos uma análise de nosso dia-a-dia, onde acordamos de mau-humor, brigamos com todos a nossa volta e nos sentimos extremamente desconfortáveis. Mas no mesmo dia, durante a tarde, algum fator externo ou interno provoca uma mudança em nosso estado emocional e saímos do “inferno” e entramos no “paraíso celestial”, vivenciando momentos de prazer e alegria.
Por quê não conseguimos parar este ciclo incessante de idas e vindas, passando exaustivamente por esses mundos? Acho que uma das razões é o fato de que estamos sempre buscando, desejando alcançar condições mais prazerosas, o que nos leva a sonhar com o renascimento em reinos superiores sempre. É claro que ao gerarmos o karma específico, o mérito necessário para termos essas experiências, isso se dará, sem sombra de dúvidas. Mas esquecemos o fato de que por mais positivo que seja o nosso karma, um dia ele se extinguirá e nós, fatalmente, voltaremos a cair em reinos inferiores.

Podemos enumerar os seis reinos da seguinte forma:

  • Reino dos infernos
  • Reino dos fantasmas-famintos (pretas)
  • Reino animal
  • Reino Humano
  • Reino dos semideuses (asuras)
  • Reino dos deuses

1. O Reino dos Infernos




Este é o reino que provoca estados mentais de grandes dores e sofrimentos. O ódio, a aversão, a culpa e o remorso são os sentimentos que tomam conta de nosso ser a maior parte do tempo. Quando estamos absorvidos na dor provocada por esse tipo de padrão mental ficamos vulneráveis a toda espécie de penas e castigos. É quando a vida se torna um fardo tão pesado, a ponto de não conseguirmos encontrar uma saída para os nossos sofrimentos e angústias.
Viver no inferno é estar mentalmente condicionado a cumprir pena eterna por nossos atos ilícitos. O mundo inteiro nos julga e condena e, quando isso não acontece, nós mesmos nos colocamos na condição de réus, culpados por todos os “pecados” da humanidade.
Também podemos nos colocar na plataforma de vítimas, acreditando que alguma maldição nos persiga e impeça a possibilidade de sermos felizes e vivermos em paz. A vítima sempre acha que o mundo está contra ela e que todos os seus esforços para mudar a situação serão em vão. A tendência, na maioria dos casos, é passar a vida chorando e remoendo o passado que insiste em tomar conta do presente. Muitas vezes, sentimos que não temos direito a viver experiências agradáveis e positivas, sendo constantemente perseguidos por algozes e malfeitores. E, quase sempre, nos apaixonamos por nossos algozes. Vocês nunca perceberam o quanto um masoquista fica realizado ao lado de um sádico? É o casal perfeito! Rs, rs, rs…
Em meus infernos particulares (sim, porque tenho mais de um; coleciono vários) tenho a nítida sensação de que este é um estado inerente a minha natureza, o que me dá a falsa convicção de sofrimento eterno e imutável. Como se nenhum esforço para inverter a situação atual pudesse surtir algum efeito. Mas quando começo a observar o que se passa internamente e ao meu redor, percebo que a muralha da prisão construída por meus pensamentos e emoções negativos não tem nenhuma solidez, o que deixa claro que sempre será possível modificar o quadro que se apresenta como um obstáculo intransponível. É dessa forma que consigo reverter minhas crises de depressão e tristeza muito mais rapidamente, hoje em dia.
O reino dos infernos é doloroso, mas nos traz muito aprendizado. Temos a possibilidade de descobrir através dele o quanto nos alimentamos de nossas ilusões e nos punimos por nossa incapacidade de perdoar a nós mesmos e aos outros.
No próximo texto falarei sobre o reino dos fantasmas-famintos. Que nome estranho e assustador, não é?

2. O Reino dos Fantasmas-famintos (pretas)




Contei a vocês sobre a dificuldade que encontrei para escrever sobre este tema em meu texto passado. No entanto, parece que agora está sendo um pouquinho mais fácil. Talvez seja porque eu me identifico bastante com o reino sobre o qual falarei hoje.
O reino dos fantasmas-famintos, também conhecido como o reino dos “pretas”. Sempre que leio algo ou faço alguma referência sobre os “pretas” sinto que meu coração se aquece, como se buscasse um meio de poder amenizar o sofrimento desses seres. Pode ser que seja um lampejo de compaixão que se manifeste durante esses períodos, mas pode ser também que seja uma projeção de meu próprio sofrimento, de minha própria auto-piedade.
Os mestres descrevem os “pretas” como seres que vivem em constante sofrimento; seus corpos são muito desproporcionais. Eles têm barrigas enormes, mas a boca é muito pequena e o pescoço extremamente estreito. Desse modo, eles sentem muita fome, constantemente, e estão sempre em busca de alimento. Quando conseguem encontrar algo para comer, o que é raro de acontecer, há uma enorme dificuldade para engolir, pois a comida não passa pela garganta com facilidade. Mesmo assim, a fome é tanta que eles insistem em tentar colocar algum alimento em seus estômagos. O alimento ou água que eles encontram para aplacar sua fome e sede desce por suas gargantas como fogo que queima seu organismo de uma forma terrível, até chegar ao estômago.
E por mais que eles comam, nada os satisfaz e continuam sempre procurando mais e mais comida na tentativa de saciar uma fome que não tem fim.
Eu costumo comparar o sofrimento desses seres com a nossa sede por emoções, nossa busca incessante por soluções mágicas que possam reverter a sensação de escassez em que nos encontramos. Escassez do amor verdadeiro que nunca chega para nos resgatar, escassez do reconhecimento de nossos potenciais, escassez de colher os frutos das tantas sementes que plantamos, escassez do futuro que não se apresenta da forma como gostaríamos…
É claro, nós plantamos muitas sementes, mas será que preparamos a terra e cuidamos para que elas encontrassem solo fértil e pudessem dar bons frutos?
Será que o futuro já não nos deu oportunidades incontáveis de mudarmos nossas vidas, oportunidades que perdemos por não termos olhos para perceber a simplicidade com que a própria vida se transforma e se adapta aos nossos sonhos?
Tenho algumas lembranças de minha infância que explicam o quanto criamos e nos apegamos a esses padrões negativos, que ficam enraizados em nossa psique, moldando nossas personalidades e direcionando a forma como vemos o mundo e nos relacionamos com ele.
Como quase toda criança da minha geração, eu acreditava em Papai Noel. O Natal era uma época cheia de magia e encantamento. Sempre escrevia minha cartinha para ele, enfeitava a árvore e mal podia me conter quando via os presentes que ele trazia para mim, após a meia-noite. Uma vez, quando estava abrindo as caixas com os brinquedos percebi alguém passando correndo ao meu lado. Olhei e vi um velhinho pequenininho carregando um saco nas costas e atravessando a sala onde eu estava. Naquela hora achei estranho ele ser tão pequeno, mas não dei muita importância, pois estava mais interessada em minhas bonecas novas. Somente muitos anos depois fui entender que não era o Papai Noel que eu tinha visto. Era um gnomo. Huá! Huá! Huá!
Um belo dia, ou melhor, um triste dia, desses que a gente não esquece nunca mais, descobri que o Papai Noel não tinha barbas brancas e não andava de trenó. Para uma criança de nove anos encarar essa realidade é, no mínimo, constrangedor.
Adivinhem o que aconteceu? Parei de acreditar em Papai Noel, mas continuei acreditando cegamente no coelhinho da Páscoa. Claro! Uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Fazia o ninho para ele com uma caixinha de papelão e palha para proteger os ovinhos. Escrevia cartinha para o coelhinho e deixava sempre uma cenoura fresquinha para ele comer.
Adivinhem o que aconteceu? Um belo dia, ou melhor, um terrível dia, descobri que quem trazia os ovinhos de chocolate para mim era a minha vovozinha, e quem comia a cenoura era o meu cunhado. Arrghhh !!! Imaginem o trauma para uma criança que só queria ser feliz no seu mundinho de faz-de-conta, ter que enfrentar mais essa situação desconcertante.
Adivinhem o que aconteceu? Parei de acreditar no coelhinho da Páscoa e comecei a sonhar com príncipe encantado. Claro! E como poderia ser diferente? Afinal, minhas histórias prediletas eram “A Bela Adormecida”, “Cinderela”, “Branca de Neve”, etc, etc, etc…
Vocês devem estar se perguntando: “Mas o que tudo isso tem a ver com o reino dos fantasmas-famintos?”
E eu respondo: “Tudo a ver.” Essa foi a maneira que encontrei de demonstrar o quanto nossas crenças e nossas vidas são guiadas pelos desejos e sonhos que acreditamos serem os responsáveis por nossa felicidade nesse mundo.
E quando esses desejos não se realizam por algum motivo, procuramos substituí-los por outros, rapidamente, para não termos tempo de parar e analisar com objetividade a situação em que nos encontramos. Se pararmos, se dermos um tempo para nos perguntar o que, realmente, é importante para preencher nosso vazio existencial, corremos o risco de descobrir quanto tempo e quantos esforços inúteis foram desperdiçados em uma corrida maluca que nos leve até o pote de ouro, no fim do arco-íris.
O arco-íris existe, sim. E o pote de ouro também. Mas somente quando nos tornarmos capazes de gerar e expandir essa luz, com todos os seus matizes multicoloridos para além de nossas fronteiras individuais; somente quando estivermos aptos a compartilhar com os outros o tesouro contido neste pote mágico, poderemos nos sentir plenos e saciados de toda e qualquer sensação de angústia, solidão e insuficiência em nossas vidas.

3. O Reino Animal




Expliquei a vocês anteriormente que os seis reinos do samsara podem ser divididos em três reinos inferiores e três superiores. Hoje falarei um pouco sobre o terceiro reino inferior, o reino dos animais.
Esta é uma esfera da existência com a qual estamos bastante acostumados, pois podemos observá-la com nossos olhos físicos. Assim, fica mais fácil entender o que se passa com os seres que habitam este reino. Não preciso dizer que os seres que renascem na esfera animal estão sujeitos a grandes sofrimentos durante a maior parte de suas vidas.
É claro que existem exceções, como muitos animais de estimação, que renascem em ambientes onde são bem cuidados e protegidos, recebendo amor e carinho de seus donos durante toda a vida. O karma positivo gerado em existências passadas possibilita a esses seres um renascimento favorável, mesmo em um reino inferior onde o sofrimento e o medo predominam.
Constantemente observamos cães e gatos domésticos que parecem ter uma vida mais feliz e confortável que a de muitos humanos. Mas esquecemos que o reino animal é limitado pela ignorância, o que impossibilita aos animais a possibilidade de adquirir conhecimento sobre o Dharma e caminhar em direção a iluminação. Além disso, estão sempre dominados pelo instinto, numa luta permanente pela sobrevivência, principalmente aqueles que renascem como animais selvagens ou vivem nas ruas, abandonados a própria sorte.
Hoje, pela manhã, recebi um e-mail que chamou minha atenção, criando o estímulo necessário para que eu começasse a escrever este texto. É sobre uma campanha que está arrecadando assinaturas para convencer a ONU a incluir o Brasil como um dos países que consideram os animais como seres sencientes, ou seja, seres sensíveis, com mente e direito a felicidade, assim como nós. Quando assinamos a petição estamos, automaticamente, nos unindo a dez milhões de pessoas que participam dessa campanha, com a finalidade de alcançar o reconhecimento e dar proteção aos animais do planeta Terra que vivem mergulhados no sofrimento e são vítimas de abusos, maus tratos e toda espécie de exploração praticada pelos seres humanos insensíveis e que visam apenas seus próprios interesses egoístas.
Se você, que está lendo este artigo agora se sentir sensibilizado e quiser contribuir para essa campanha, não deixe de acessar o link abaixo:
Navegando por este site pude encontrar muita informação interessante sobre questões que envolvem a proteção e preservação de animais, onde destaco um artigo sobre uma campanha iniciada na Espanha, chamada “CULTURA SEM CRUELDADE”. Todos conhecemos a popularidade das touradas na península Ibérica, mas de uns tempos para cá, muitos espanhóis estão se conscientizando da crueldade que praticam contra animais durante esses “shows” sangrentos e estúpidos, realizados para deleitar uma platéia ainda mais estúpida, em busca de distração a qualquer preço.
Que esta iniciativa possa crescer e encontrar solo fértil nos corações de todos aqueles que praticam atos de tortura e provocam a morte de inúmeros seres vivos, vítimas da ganância e do sadismo que apenas os representantes medíocres da raça humana conseguem manifestar.
Às vezes, ficamos tão acostumados a ver animais em estado de miséria e fome cruzando nossos caminhos, diariamente, e não nos damos conta do quanto cada um de nós poderia estar contribuindo de alguma forma para minimizar o sofrimento desses nossos irmãos. Se não podemos mudar o mundo e salvar o planeta da extinção, como super-heróis, ao menos podemos fazer a diferença para alguém que esteja ao alcance de nossa bondade e compaixão.
Uma vez, ao ler um artigo escrito por uma famosa escritora, senti-me extremamente desapontada e frustrada ao ler sua declaração sobre a dedicação de pessoas que se preocupam com o salvamento de baleias encalhadas nas praias do litoral brasileiro. Segundo sua opinião, essa preocupação com o destino das baleias seria desnecessária, já que existem causas muito mais nobres, relacionadas ao bem-estar dos seres humanos.
Isso demonstra, claramente, o quanto grande parte da sociedade mundial ainda preserva uma visão cartesiana, limitada, sem perceber que tudo na natureza está interligado. A interdependência entre todas as coisas e todos os seres não é mais considerado apenas uma manifestação poética de alguns místicos visionários, mas é fato reconhecido cientificamente e amplamente divulgado por cientistas e profissionais de diversas áreas do conhecimento. Representantes da nova física, como Fritjof Kapra, explicam detalhadamente os processos que envolvem essas interrelações que formam a teia da vida em nosso universo. Dessa forma, chegamos a conclusão de que nossa permanência e sobrevivência nesse planetinha tão machucado depende de como estaremos lidando nas próximas décadas com todas as formas de vida que compartilham a terra, os mares e os céus que pensamos, em nossa santa ignorância, serem de usufruto exclusivo da espécie humana.
Do ponto de vista psicológico é muito fácil descobrirmos quando estamos influenciados ou vivenciando o reino animal em nossa vida diária. Se observarmos o comportamento de nosso animalzinho de estimação poderemos encontrar muitos pontos em comum entre os hábitos dele e os nossos.
É interessante verificar o quanto somos dominados pela insegurança e o medo que envolvem o reino animal. Estamos sempre em busca de segurança e proteção, assim como a maioria dos animais em seu habitat natural.
As relações afetivas são marcadas pela busca de aceitação por parte do outro, o que torna nosso equilíbrio e bem-estar dependente do reconhecimento que recebemos ou não daquele que é o objeto de nosso amor e dedicação. Vocês já pararam para pensar quantas vezes nos tornamos subservientes e dominados pela vontade de quem escolhemos para dirigir nossas vidas, como se fossem tutores de nossos atos e pensamentos?
Criamos nossas próprias correntes, nos trancamos em jaulas intransponíveis, mas intimamente conhecidas e aceitas como um local seguro e acolhedor para passarmos nossos longos momentos de hibernação, sem saber que existe um mundo vasto, cheio de aventuras a nossa espera.
Esse comodismo, esse contentamento infantil em fabricar estruturas que possam nos trazer algum conforto e segurança pelo maior tempo possível é o responsável pela estagnação que impede as sociedades de quebrarem suas regras e padrões pré estabelecidos.
Essa é a diferença entre a vida comum e convencional de uma galinha, rodeada por um galo simpático e uma penca de pintinhos sob suas asas, até que a morte os separe e uma águia selvagem, livre para alçar vôos mais altos e dona de seu destino. Pois a águia tem autonomia para cruzar territórios desconhecidos, muitas vezes perigosos, muitas vezes extenuantes, mas sempre com a certeza de que muito será apreendido e utilizado em benefício próprio e de todos que olham para o céu e acompanham a beleza de seu voo infinito.

4. O Reino dos Semideuses (asuras)




Chegamos à metade do caminho. A partir de hoje, estarei escrevendo sobre os três reinos superiores do samsara. Vou tomar a liberdade de alterar um pouco a ordem desses três planos de existência, pois nos textos tradicionais encontramos o reino humano como a primeira esfera superior, seguido do reino dos semideuses e, por último, o reino dos deuses. Mas acho que seria interessante deixarmos o reino humano para o final, porque existem considerações específicas que o diferencia de todas as outras esferas.
Começarei essa seqüência com o reino dos semideuses, também conhecidos como asuras ou titãs. Podemos caracterizar esses seres como extremamente invejosos e ciumentos. Eles estão sempre buscando guerras com os deuses, pois invejam sua condição e se consideram injustiçados por não poderem desfrutar as experiências daqueles que renascem no reino dos deuses.
Qualquer pessoa que esteja vivenciando a esfera dos asuras encontra-se em um estado mental de paranoia geral. Piração mesmo! Essas emoções negativas como raiva, inveja, ciúme e medo nos deixam completamente cegos e dispostos a todo e qualquer tipo de tentativa que possa nos tornar superiores em relação àqueles que nos “ameaçam” de alguma forma.
Não preciso nem dizer que essas tentativas são sempre infrutíferas pois, na maioria das vezes, aquilo que nos ameaça não passa de mera criação de nossas mentes viciadas e patológicas. Eu sei bem o que é isso. Quantas vezes me senti perseguida por inimigos ferozes, ou vítima de injustiças e traições cruéis. Um drama atrás do outro e, depois de muitas noites sem dormir, descobria que a maluca na história era eu, e mais ninguém.
Um ótimo laboratório para estudarmos as características e comportamentos de quem está sob o domínio do reino dos asuras é observar o que acontece dentro de uma empresa, por exemplo. Quando trabalhamos em uma instituição, seja de que tipo for, nos deparamos com situações extremamente didáticas em relação a aspectos comportamentais e éticos. É muito raro encontrar um ambiente de trabalho onde não haja competitividade desleal em algum nível. A busca por cargos superiores que propiciem melhores salários ou status vem, muitas vezes, acompanhada de meios politicamente incorretos. Ou, para ser um pouco mais sutil, meios não convencionais.
O ideal seria que pudéssemos atuar nesses ambientes sem nos deixar influenciar pelas energias que circulam e exalam de alguns seres (não todos, claro) que convivem nesses espaços. Mais ou menos como um antropólogo que estuda o comportamento de determinada sociedade, sem julgar ou interferir, sem condenar ou impor mudanças de atitudes.
Trabalhei como vendedora por alguns períodos de minha vida. Curtos períodos, diga-se de passagem. Essas experiências me trouxeram alguns ensinamentos muito úteis, mas também deixaram algumas sequelas. Quando percebia o quanto um colega de trabalho é capaz de fazer para conseguir uma comissão a mais no final do mês, passando por cima de princípios éticos, por considerar-se mais esperto ou o melhor vendedor de todos os tempos, sentia que havia algo de muito errado comigo. Poderia ser falta de empenho ou covardia por não usar as mesmas “armas” que os outros sabiam utilizar tão bem.
Infelizmente, naquela época ainda não conseguia lidar com esse tipo de situação sem sofrer os efeitos negativos da convivência com pessoas que tinham crenças e percepções diferentes das minhas. Resultado: sempre pedia demissão do emprego, pois achava que saindo da esfera de ação dessas pessoas estaria resolvendo o problema. Doce ilusão!
Quando nos deparamos com uma questão que nos faz mal e não procuramos entender suas causas e as conseqüências que esta situação trará para o nosso futuro, estaremos apenas acumulando temas mal resolvidos que nos acompanharão incansavelmente, vida após vida. Até que um belo dia, resolvamos encarar os fatos e olhar o problema com sabedoria e desprendimento adequados.
Tudo o que você puder resolver agora em sua vida, resolva agora. Não deixe para uma próxima oportunidade, quando as circunstâncias possam ser mais propícias. Lembre-se que um grande carvalho nasce de uma pequena bolota. Uma sementinha insignificante que, com o passar do tempo, se transforma em gigante. Como quando criamos o hábito de pagar apenas o mínimo da fatura de nosso cartão de crédito. Rs, rs, rs… Assim são os nossos problemas. Surgem como pequenos inconvenientes, passando quase que despercebidos a maior parte do tempo, mas acabam se avolumando e tomam conta de nossas mentes, tornando-se nossos algozes impiedosos e companheiros por períodos infindáveis.
Um bom antídoto para os venenos mentais que nos aprisionam ao reino dos asuras é aprender a compartilhar nossas experiências e nossos conhecimentos, sem acharmos que nosso universo ficará mais escasso por causa disso. A mania de perseguição, o medo constante de perdermos nosso lugar ao sol, a raiva por nossos esforços frustrados, a inveja pelo sucesso alheio e tudo o mais que contamina a atmosfera dos seres que vivenciam o reino dos semideuses acaba se dissolvendo na vacuidade, mais cedo ou mais tarde.
É só uma questão de tempo…
É só uma questão de saber aproveitar o tempo…
Dar tempo ao tempo…
Dissolver-se no tempo…
Que tempo?

5. O Reino dos Deuses




Acredito que este seja o reino mais sonhado, mais idealizado por todos nós: o reino dos deuses. Fazemos de tudo para merecermos uma chance de renascer nesse “paraíso”. Todas as escrituras, de diferentes tradições, fazem referências às esferas celestiais como sendo o prêmio máximo por “bom comportamento”. Ou seja, se fizermos tudo direitinho, seremos recompensados ao final da jornada, com merecidas férias em um cenário paradisíaco e atendimento 5 estrelas. Ou, em alguns casos, aposentadoria eterna garantida. Dá para resistir a tamanha tentação?
Mas, infelizmente, trago um aviso aos navegantes:
Os deuses também sofrem.
Ahhh!!!! E agora? Ficamos sem ter para onde correr? Perdemos tudo, até mesmo a esperança de encontrar a nossa ilha tropical encantada?
Não, não é bem assim. Nós podemos chegar a desfrutar as mordomias e prazeres do reino dos deuses, sim. Como já disse em outro texto, basta termos gerado o karma específico para vivenciarmos as experiências de qualquer um dos seis reinos do samsara.
Na verdade, o que realmente importa entendermos aqui é o quanto a influência do reino dos deuses pode desacelerar os mecanismos responsáveis por nossa evolução. Estou me referindo aos efeitos produzidos pelos estados mentais que vivenciamos quando nos sentimos embriagados pelas experiências prazerosas que buscamos e agarramos com unhas e dentes, com medo de perdê-las e não as encontrarmos mais.
Como das outras vezes, vou tentar explicar este tema de uma forma bem simples, citando exemplos pessoais, para que possamos perceber a proximidade da esfera dos deuses em nosso cotidiano. Quando falamos em deuses, geralmente, olhamos para o céu, voltamos nosso olhar para cima, como que buscando encontrá-los em uma dimensão superior e fora do nosso alcance. Mas, se pararmos para observar com um pouco de atenção, veremos que basta olhar para o lado e encontraremos seres que vivem como deuses bem ao alcance de nossas mãos. Pelo menos, eles acreditam nisso. Às vezes, nem é preciso olhar para o lado; basta olhar para o espelho.
Todos nós já experienciamos uma ou inúmeras vezes as sensações produzidas por esses estados de consciência, onde a satisfação dos desejos, a procura por diversão que possa nos distrair, os cuidados com a beleza da forma, tudo gira em torno da realização do ego.
Se eu começar a fazer uma lista de todas as vaidades humanas e todas as qualidades inerentes ao reino dos deuses, esse texto terá que se transformar em livro (e dos grandes). Então, acho melhor delimitar um pouco esta questão. Quando me pergunto qual a palavra que possa traduzir e explicar os motivos que nos levam a esse esforço desenfreado por momentos de prazer e pela crença de superioridade diante dos outros, uma palavrinha surge em minha mente, como num passe de mágica: TÉDIO.
Isso mesmo. O tédio é um dos grandes responsáveis pelo desequilíbrio mental que domina nossas ações e sentimentos. Fazemos de tudo para darmos um pouco de sentido às nossas vidas, nem que seja preenchendo o tempo com futilidades e atividades que só gastam nossa energia. É o que nos faz chegar em casa e, imediatamente, ligamos para alguém que venha nos buscar e levar para algum outro lugar. Mas se a única alternativa for permanecer em casa mesmo, o jeito é ligar a televisão e assistir as novelas.
Já vi casos de pessoas que conseguem ver televisão, ouvir música, acessar a internet e, para completar, ainda vão até a cozinha preparar aquela vitamina de banana no liquidificador. Tudo ao mesmo tempo, acreditem.
Eu tenho um pouco de dificuldade para lidar com várias coisas ao mesmo tempo. Tá legal, tudo bem, eu tenho muita dificuldade. Para ser sincera, eu tenho uma enorme dificuldade mesmo. É isso.
Viver no reino dos deuses… Que bom seria se fosse possível permanecer nele por toda eternidade. No entanto, como bem explicou nosso poeta, só é eterno enquanto dura. E não dura para sempre, nunca. Os seres que renascem como deuses têm vidas muito longas, se comparadas ao tempo de vida de um ser humano. Eles podem desfrutar de inumeráveis prazeres e estados mentais sutis. Mas, um dia, quando menos esperam, o karma positivo que eles geraram se esvai, fazendo com que eles caiam, automaticamente, em reinos inferiores de existência.
Isso acontece porque, como deuses, eles somente experienciam felicidade e prazer ininterruptos. Dessa forma, não se preocupam em nenhum momento com a prática do Dharma e com o aprimoramento das qualidades que possam levá-los a atingir o estado de iluminação.
Por isso, quando começam a morrer e percebem que desperdiçaram suas vidas mais uma vez, entram em um processo de sofrimento mental terrível.
Se quisermos estar preparados para enfrentar as armadilhas do reino dos deuses sem nos iludirmos com seus encantos e tentações, podemos começar analisando os nossos sonhos. Questionar aquilo que nos traz felicidade e realização pessoal. Se pudermos colocar nossos desejos em uma balança e escolher com sabedoria entre a satisfação efêmera e o que realmente fará a diferença em nossas vidas, tenho certeza de que deixaremos de desperdiçar tempo precioso em nossa jornada.
Mas não se esqueçam de que não há nada de errado em saber aproveitar as boas coisas da vida. Afinal, vivemos em um planeta chamado Terra, e fazemos parte dele. Considero o “Caminho do Meio” ensinado por Buddha extremamente efetivo no processo de auto-conhecimento.
Nunca adote uma posição radical em relação à vida. Saiba que tudo é impermanente e tudo é relativo. Fazer as escolhas certas. Esse é o grande lance.

6. O Reino Humano




Chegamos ao final dessa jornada por entre os reinos inferiores e superiores do samsara.
Como havia dito no texto anterior, deixei o reino humano para o final, pois este reino contém algumas peculiaridades que podem nos ajudar a compreender melhor alguns processos que vivenciamos durante nossa existência.
Imaginei que seria, relativamente, fácil escrever sobre este reino, já que estou inserida nele neste exato momento e posso falar por experiência própria. Mas essa é a questão. Estar mergulhada nessa esfera, sentindo na pele todas as experiências oferecidas pela condição humana, ao invés de facilitar, pode dificultar ainda mais minha tentativa de abordagem deste tema.
Afinal, enquanto escrevia sobre os outros reinos de existência, minha posição era um pouco confortável, pois poderia analisar cada reino de um ponto-de-vista mais imparcial, apenas como observadora. Apesar de vivenciar todos esses reinos em minha vida atual, torna-se mais fácil entendê-los como experiências mentais e estados emocionais, que podem ser trabalhados e compreendidos como instrumentos de crescimento e auto-aperfeiçoamento.
No entanto, a consciência de estar vivenciando uma experiência humana não é garantia de que minha análise seja 100% livre de tendências errôneas e deturpadas. Mesmo assim, procurarei escrever sobre algumas características do reino humano, com base nos ensinamentos transmitidos pelos mestres e pelos próprios exemplos que minha memória conseguiu registrar e arquivar.
Segundo o Budismo, apenas conseguiremos atingir o estado de iluminação se tivermos um renascimento humano. Isso não quer dizer que basta pertencer ao reino humano para recebermos de presente um passaporte para Shamballa. Na verdade, renascidos na forma humana teremos maiores possibilidades de conhecer e praticar o Dharma e nos libertarmos das correntes que nos aprisionam ao samsara.
Nos reinos inferiores, dominados pelo sofrimento, os seres não conseguem encontrar tempo e condições favoráveis para percorrerem o caminho que leva à iluminação. E isso é perfeitamente compreensível, pois não há como direcionar a mente para essas questões quando emoções perturbadoras como o medo, o ódio, dores intensas e todo tipo de sofrimento assolam nossa consciência.
Se vocês quiserem descobrir um pouco mais sobre o quanto é importante aproveitarmos a oportunidade de estarmos vivenciando uma experiência humana nesta vida atual, assistam ao filme “Samsara”, dirigido por Nalin Pan. Não vou contar os detalhes da história, claro! Mas posso afirmar com convicção que este é um dos filmes mais interessantes sobre a busca espiritual que vi até hoje.
Durante o desenrolar da história o espectador é levado a fazer uma profunda reflexão sobre a necessidade ilusória de satisfazer a qualquer preço seus desejos pessoais, alimentando suas visões egoístas e limitadas sobre o verdadeiro significado da vida.
Além da fotografia do filme ser de uma beleza e requinte insuperáveis, os diálogos travados entre os personagens são jóias preciosas que nos auxiliam a compreender o funcionamento de nossos processos mentais, que desencadeiam inúmeros desvios e perdas em nosso progresso espiritual.
Só para vocês terem uma ideia do tipo de questionamentos abordados em “Samsara”, há uma conversa entre mestre e discípulo, onde este tenta convencer o mestre sobre a necessidade de ter uma vida comum fora do mosteiro, para confirmar sua escolha pelo Dharma.
O discípulo pergunta: “Como posso ter renunciado ao mundo se não o conheço? Estou neste mosteiro desde os cinco anos de idade!”. Então, o mestre responde: “O que é mais importante, satisfazer mil desejos ou conquistar apenas um?”.
Uma das características inerentes ao reino humano é o poder da supremacia da consciência em relação a outros reinos do samsara. Para conseguirmos atingir níveis profundos de consciência podemos fazer uso do intelecto como instrumento de desenvolvimento e aprendizado. O intelecto não é garantia de superioridade sobre nada, nem ninguém. Aliás, o que mais se vê hoje em dia é o abuso das faculdades intelectuais na busca do domínio sobre outros seres. Vivemos em uma sociedade que valoriza o mais “forte” em detrimento do mais “fraco”. Somos criados desde a infância para atingir metas que nos propiciem um status superior perante nossos semelhantes, acreditando que acumulando conhecimentos teóricos e bens materiais nossa relação com os outros seres será privilegiada e protegida de infortúnios.
Isto me lembra uma história Zen muito famosa, na qual um homem de grande sabedoria viveu por vários anos em um mosteiro, na posição de um simples cozinheiro, não sendo reconhecido seu valor e superioridade espiritual, apenas por ser um homem iletrado, sem cultura e de modos grosseiros. Até que, um belo dia, o mestre do mosteiro, que estava velho e acreditava que sua vida estava chegando ao fim, decidiu criar um concurso para a escolha do novo mestre que seria seu sucessor. Os monges deveriam criar gathas (versos) que traduzissem o verdadeiro sentido do budismo, segundo suas opiniões pessoais.
O monge mais inteligente e preparado do mosteiro escreveu uma gatha com as seguintes palavras:
“O corpo é a árvore da iluminação,
O espírito é o suporte de um espelho brilhante.
Limpai-o constantemente, com inteligência sempre alerta
Para preservá-lo da poeira do mundo.”
O mestre do mosteiro leu os versos e não ficou contente com a qualidade das palavras do monge, afirmando que ele estaria muito longe ainda de ter a compreensão verdadeira sobre a natureza da Verdade.
Então, o monge cozinheiro resolveu criar sua gatha, baseando-se nos versos proferidos pelo monge intelectual:
“A iluminação não é uma árvore,
Nem o brilhante espelho um suporte.
Não sendo coisa alguma,
Como a poeira nele depositar-se-ia?”
Nesse instante, o simples cozinheiro mostra o quanto sua compreensão da vida é abrangente e profunda, fazendo cair por terra toda a bagagem intelectual e superficial dos outros monges, que passaram anos acumulando conceitos e regras, sem se preocuparem em estabelecer elos de conexão entre a teoria e a prática em si.
Espero que com este artigo possamos começar a questionar nossas motivações e direcionar nossas mentes para um estudo mais sério da natureza búdica e de sua interrelação com o reino humano.
Gostaria de terminar este texto com uma poesia da obra de “Roberto Juarroz”.
“Às vezes, parece que estamos no centro da festa.
No entanto, no centro da festa não há ninguém.
No centro da festa está o Vazio.
Mas no centro do Vazio há outra festa.”

Fonte:https://medium.com/@franklinalexandre/os-seis-reinos-de-exist%C3%AAncia-no-budismo-72f7cd041b83#.o9bxhluqh
Daisy Camargo


Daisy Camargo