quarta-feira, 7 de setembro de 2016

VISLUMBRES DA VIDA APÓS A VIDA - RICHARD W.BROOKS


“A alegação de que não há consciência após a morte do cérebro não é baseada em experiência alguma. É apenas uma hipótese com base em suposições de que um dia os cientistas poderão explicar toda a atividade mental em termos de atividade cerebral.”

Quase todas as religiões do mundo creem em alguma forma de existência consciente após a morte do corpo físico. Entretanto, questionar a verdade dessas crenças tornou-se, recentemente, um lugar-comum. Além disso, há uma considerável divergência de opinião entre as religiões e entre os teólogos que as estudam quanto à natureza dessa existência post-mortem.
Estudiosos empenhados em desmascarar a teologia referem-se a essas crenças como “mitologias”, num esforço para diminuí-las, sugerindo que elas não merecem uma atenção séria por parte de pessoas que se dedicam às ciências. Todo comportamento humano, segundo dizem, pode ser explicado em termos de neuropsicologia, incluindo nossa vida mental e crenças religiosas.
Isso, obviamente, é uma simplificação; segundo essa teoria, quando os neurônios param de funcionar, a vida cessa, a mente para e a consciência desaparece. Depois da morte, nada mais existe. As otimistas crenças religiosas podem ser reconfortantes, podem até mesmo ter algum valor social, mas não são verdadeiras.
A morte, segundo se argumenta, é um fato da vida; deve ser aceita calma e objetivamente. Como um velho amigo biólogo afirmou, “somos todos programados para morrer.” O corpo pode se regenerar, através de divisão celular, até certo ponto; após essa fronteira, ocorre um declínio gradual até a chegada da morte. Esse fim inevitável pode ser adiado – ou seja, a vida pode ser prolongada – eliminando doenças, praticando atividades físicas, adotando uma dieta sensata (recomenda-se o vegetarianismo), respirando mais lentamente etc. Mas a morte não pode ser evitada, e portanto deveria ser aceita de maneira racional e desapaixonada.
A maioria de nós tem certas crenças sobre a morte, mas, racionalmente, temos que admitir que não sabemos nada sobre ela. E nós tememos aquilo que desconhecemos. É difícil aceitar calmamente algo que tememos. Conforme Shakespeare afirmou no famoso solilóquio de Hamlet, é isso que “nos faz suportar os males que possuímos, em vez de partirmos para outros que não conhecemos.”
Portanto, tentamos suprimir o temor da morte com uma série de crenças. Será que essa tentativa é uma mera tolice, como afirmam, de maneira simplista, alguns cientistas e filósofos? Uma indagação interessante a ser feita é a seguinte: você consegue imaginar um vazio total, uma cessação total da consciência após a morte?
Pensar sobre isso é, logicamente, impossível. Imaginar é um ato consciente; não se pode ter uma ideia consciente da não-consciência. Portanto, a alegação de que não há consciência após a morte do cérebro não é baseada em experiência alguma. É apenas uma hipótese baseada em uma certa suposição – a de que eventualmente a ciência poderá explicar toda a atividade mental em termos de atividade cerebral.
Isso não é possível agora, conforme os próprios cientistas admitem; eles afirmam que será possível “em algum momento” futuro. Em outras palavras, trata-se de uma crença, de uma esperança. Como tal, está no mesmo patamar que a crença sobre a vida após a morte. Como podemos conciliar esse conflito entre crenças opostas? É aqui que entram as experiências de quase-morte (EQM). Vários relatos desse tipo de experiência estão reunidos no livro “Dentro da Luz”, publicado pela Editora Teosófica.
Contrariando o ceticismo da maioria dos cientistas, outros estudiosos investigaram certos fenômenos que parecem apoiar a teoria da sobrevivência da consciência pessoal após a morte do corpo físico. Esses cientistas não baseiam suas conclusões apenas nas EQM. Eles também consideram uma ampla variedade de outros fenômenos: as chamadas experiências fora do corpo (EFC), “aparições” de vários tipos, comunicações com os mortos, memórias de vidas passadas e fenômenos psíquicos como percepção extrasensorial (PES) e psicosinese.
Certamente cada uma dessas experiências deve ser submetida a uma cuidadosa investigação. Não queremos ser crédulos – nem dogmaticamente céticos. O que se pretende é examinar e pesar todas essas alegações de modo crítico, imparcial e objetivo, para determinar o que elas podem indicar sobre a natureza humana.
Após mais de quarenta anos estudando esses fenômenos, analisando trabalhos de cientistas competentes e examinando várias hipóteses alternativas, estou convicto de que a explicação mais simples para todos esses acontecimentos é a de que o ser humano é mais que apenas um corpo físico. As tentativas de provar o contrário não abarcam a complexidade dos fenômenos, são teorias muito mais complicadas ou hipóteses não-empíricas, criadas apenas para proteger o dogma da simplificação.

Fenômenos distintos

Foi na última metade do século XX que surgiram a maioria de relatos de EQM – quando a tecnologia permitiu ressuscitar pessoas que tinham, de acordo com todos os critérios, morrido.
No entanto, esse fenômeno conquistou a atenção tanto de crentes quanto de desmistificadores após a publicação do livro “Life After Life”, de Raymond Moody, em 1975. Desde então, uma grande quantidade de livros e artigos sobre o assunto foram escritos; um dos mais significativos é o do cardiologista Michael Sabom, que começou como cético e rendeu-se às evidências de suas investigações pessoais.
Antes de discutir as EQM, porém, é preciso fazer algumas distinções. Tanto os críticos quanto os entusiastas misturam fenômenos bastante distintos (embora possam estar relacionados): experiências fora do corpo, visões no leito de morte, a esperada experiência de morte (EEM) e a verdadeira experiência de quase-morte. A experiência fora do corpo é um aspecto ou estágio da EQM, mas também ocorre com frequência de maneira independente de qualquer ameaça à vida.
A EEM ocorre em meio a um grave acidente ou quando a pessoa acredita que está diante da própria morte. Esse fenômeno tem aspectos em comum com a EQM, mas já que não ocorreu a morte (ou a quase-morte), deve ser classificado em separado e não pode ser usado em nenhuma tentativa de explicar detalhes da EQM.
As visões no leito de morte também são muito diferentes da EQM; ocorrem quando pessoas em estado terminal, porém plenamente conscientes, aparentemente veem amigos ou parentes mortos, como se estes viessem buscá-las. São as chamadas “visões de levar embora”. Porém, a pessoa que tem esse tipo de visão pode permanecer viva por horas ou até dias.

Relatos dos “mortos”

Num caso clássico de EQM, o coração e a respiração param e o corpo começa a esfriar. Há relatos de alguns poucos casos em que a atividade cerebral estava sendo monitorada e o eletroencefalograma fluiu em linha reta, isto é, não mostrou qualquer atividade cerebral. Porém, a maioria dos casos ocorreram provavelmente fora de hospitais; por isso, os relatos de “morte” baseiam-se em observações como a impossibilidade de sentir o pulso, de perceber qualquer movimento respiratório etc. Além disso, a maioria dos eletroencefalogramas registram apenas a atividade elétrica superficial do cérebro; portanto, a “linha reta” não significa necessariamente que todas as funções cerebrais tenham cessado.
Depois da aparente morte o paciente é ressuscitado, geralmente por meio de um desfibrilador cardíaco. São os relatos das experiências vividas pelo paciente durante o tempo em que esteve “clinicamente morto” que formam a base das EQM. Esses relatos variam um pouco de pessoa para pessoa, mas possuem algumas características similares.
O paciente que “morre” (durante uma operação, um acidente, um afogamento ou um ataque cardíaco) ouve alguém dizer “oh, meu Deus, ele está morto”, ou algo parecido; tenta responder que isso não é verdade, mas não consegue fazer com que suas cordas vocais funcionem. Ele pode momentaneamente ficar alarmado ou até em pânico. Geralmente a pessoa ouve um som como um zumbido, e em seguida se vê fora do corpo, observando os esforços que são feitos para socorrê-la. A partir daí, percebe que não sente dor e conquista um sentimento de calma, por ser apenas um observador. Frequentemente, após ser ressuscitada, a pessoa descreve aspectos da cena que não poderia ter presenciado por meios normais.
Após sair do corpo e observá-lo “de fora”, a pessoa atravessa um lugar escuro, geralmente descrito como um túnel, e desemboca numa área de beleza indescritível, onde tudo é inundado por uma luz totalmente diferente da luz que conhecemos. Nesse local ela encontra um amigo ou parente, uma presença afetuosa que assegura, por algum meio telepático, que tudo está bem.
Esse “ser de luz” a ajuda a rever muito rapidamente sua vida passada, de modo impessoal e objetivo, mas com grande número de detalhes, sem, contudo, condenar seus erros ou exaltar suas virtudes. O ser lhe oferece a oportunidade de voltar, mas a experiência ali é tão agradável que a oferta quase sempre é rejeitada. Porém, num determinado momento a pessoa encontra um tipo de barreira, como um muro, um lago, uma corrente de água ou uma linha; então o ser a informa que o seu tempo ainda não chegou e que ela deve retornar. Nesse momento, a pessoa volta a ter consciência do lugar e das pessoas em torno.

O corpo morre, a consciência sobrevive

Essas são características típicas de uma experiência de quase-morte, segundo os protagonistas. Estou convencido de que essas pessoas não estão mentindo. Mas isso não quer dizer que seus relatos sejam descrições do que existe após a morte. Afinal, elas não morreram. Ainda havia algo se passando em sua consciência, e, como afirmam as investigações neurofisiológicas, em seu cérebro. Tudo poderia ser apenas um tipo de fantasia induzida pelo cérebro, resultado da liberação de opióides semelhantes à morfina, uma resposta natural do organismo ao estresse.
Entretanto, nós não interpretamos esses estados cerebrais como fantasias. Antes de mais nada, existe a similaridade (embora não a identidade) das EQM. É exatamente o que encontraríamos se várias pessoas testemunhassem a mesma cena ou ouvissem a mesma música. Afirmar que as EQM são fantasias equivale a dizer que toda realidade é fisicamente intersubjetiva, isto é, acessível à percepção normal dos sentidos, ou à sua extensão por meio de instrumentos. Porém, precisamos lembrar que os sentidos estão localizados no corpo físico. Se admitirmos apenas experiências sensoriais físicas como evidências, naturalmente encontraremos somente objetos e eventos físicos.
Em segundo lugar, as experiências fora do corpo frequentemente permitem que o “morto” relate eventos que não teria meios de presenciar sem de fato testemunhar a cena. Esses aspectos são cuidadosamente ignorados pelos céticos.
Em terceiro lugar, as pesquisas demonstraram que a EQM não se relaciona a crenças religiosas – na verdade, parece ocorrer mais frequentemente entre pessoas não religiosas ou agnósticas, que não acreditavam em vida após a morte. Vários pesquisadores tentaram encontrar fatores fisiológicos, psicológicos ou socioeconômicos que correlacionassem pessoas que diziam ter tido uma EQM. Eles investigaram mais de uma centena de fatores e não encontraram pontos em comum. Parece, portanto, que temos de levar essas experiências a sério, no mínimo como uma evidência parcial da sobrevivência após a morte.
Quando olhamos toda essa gama de evidências (descartando aquelas que não resistem a um escrutínio detalhado, como a maioria dos fenômenos mediúnicos), somos forçados a concluir que a sobrevivência da consciência pessoal após a morte é um fato. A natureza desse estado post-mortem,porém, requer outro tipo de investigação. Textos hindus e budistas têm muito a contribuir para isso, assim como as publicações teosóficas, como “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett”ou “Vida Após a Morte”,de C. W. Leadbeater.

Experiência transformadora

Ao final da EQM algumas pessoas relatam um sentimento de “cair” de volta no corpo, mas a maioria apenas retoma subitamente a consciência do local onde está, e pela primeira vez sente a dor do acidente ou trauma que causou a “morte.” A experiência é tão poderosa que transforma a vida da pessoa. Ela perde o medo da morte, compreende a importância da vida e se torna impaciente com as coisas triviais com as quais desperdiçamos tempo, energia e dinheiro.
A pessoa também sente que a experiência foi tão especial que falar sobre ela indiscriminadamente de alguma forma a diminui. De qualquer modo, ela não tem como descrevê-la adequadamente. Quando tenta partilhá-la com profissionais, família ou amigos, é vista com tal ceticismo que desiste de falar. Na realidade, sente um grande alívio quando encontra alguém que a leva a sério – um profissional como Moody, Sabom ou outra pessoa que tenha tido uma EQM.

Sem medo do futuro

Rejeitar de imediato a hipótese da sobrevivência baseada em evidências neurológicas é uma atitude no mínimo arrogante. Naturalmente ocorrem eventos neurológicos durante a EQM. Se não ocorressem, as pessoas não se lembrariam – ou não teriam uma experiência de quase-morte. Teriam, se pudermos chamar assim, uma longínqua experiência de morte. Como tal, não poderia ser comunicada a nós, que ainda estamos encarnados.
Entretanto, nada disso minimiza o fato de que devemos focar nossa atenção no presente. Esse, afinal, é o único momento no qual de fato nós vivemos. Se carregarmos conosco, em nossa psique, a “bagagem” do passado, ela inibirá a nossa criatividade e a nossa liberdade de ação no presente. Se criarmos imagens do futuro (esperanças, planos, intenções), vamos geralmente falhar em compreendê-las, já que elas não lidam com a realidade presente, com “o que é”, como dizia Krishnamurti. Elas são meras projeções da nossa mente.
Apesar disso, uma das emoções que pode nos afligir é o medo do futuro. Nós poderíamos examiná-lo, compreender sua natureza ilusória e afastá-lo, como Krishnamurti e a filosofia Zen ensinam. Mas nem todos conseguem fazer isso. Uma outra maneira de lidar com os temores baseados na incerteza ou na ignorância é afastá-los através do conhecimento. É justamente esse o sentido de investigar e compreender as experiências de quase-morte e outros fenômenos semelhantes, ao invés de afastá-los e substituí-los pela ilusão da simplificação.

Revista Sophia – Editora Teosófica