domingo, 4 de setembro de 2016

LIVRE ARBÍTRIO - SWMAMI DAYANANDA SARASWATI

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Livre Arbítrio
Swami Dayananda Saraswati

Pergunta:
- Swamiji, tenho dificuldades em reconhecer que existe livre arbítrio.
Como é o livre arbítrio? 

Swamiji:
- Existe livre arbítrio. Livre arbítrio é o poder de escolha sobre as ações.
Um ser humano é uma entidade auto-consciente, aparentemente separada, que pode
escolher suas ações. Um ser humano pode escolher agir, não agir ou agir de um modo
diferente. Sempre que há escolha, há livrearbítrio. Um animal, por exemplo, não tem livre
arbítrio. Suas ações são programadas pelos seus instintos. Tampouco uma árvore
pau-brasil tem a livre escolha de tornar-se um carvalho. Mas, para o ser humano, existe
sempre algum tipo de escolha. Um homem pode até tornar-se mulher hoje em dia!
Existe escolha humana - livre arbítrio. 

Não compreendo o que o senhor quer dizer com escolha. Parece ter que existir uma harmonia entre
o que você deseja e o que você conhece. Existem sempre fatores envolvidos que têm que ser pesados. 
Isso é livre arbítrio. 

Mas um computador pode fazer isso também... 

Sim, um computador pode fazer isso se foi programado para fazer escolhas. Mas o computador não pode fazer escolhas por si mesmo sem um programa. A "escolha" do computador foi colocada nele através de um programa.
A "vontade" do computador é a vontade do programador. Da mesma maneira, a vontade de um animal é
"pré-determinada" pelos seus instintos. 

Eu simplesmente não sei o que existe de livre na vontade humana. Se sei que sorvete vai me dar dor de barriga, onde está a escolha?! 

Ainda assim você pode escolher comê-lo! Você acha que a pessoa que fica com dor de estômago não comerá mais sorvete? Ele comerá e terá uma lógica: "eu acho que desta vez não me dará dor de estômago; e, mesmo se der, valerá
a pena". Veja a pessoa que bebe demais. Existe uma estória de um médico que desejava provar a um grande beberrão que o álcool lhe fazia muito mal. O médico trouxe um copo de bebida e deixou cair dentro dele uma minhoca viva.
A minhoca imediatamente morreu. Então o médico disse: "você vê como bebida alcoólica faz mal? Viu com a minhoca morreu rapidamente?". E o beberrão respondeu: "Sim, eu sei. É por isso que eu bebo. Não quero vermes". Isso é livre arbítrio. Você não poderá ganhar quando alguém como esse está determinado a exercer sua livre escolha. A lógica inclinar-se-á para dar cobertura à sua escolha. 

Algumas vezes haverá condições limitantes que parecerão restringir o campo de escolha, mas para o ser humano existe sempre um campo, uma escolha para suas ações, palavras e pensamentos. A escolha desaparece somente quando se está lidando com fatos e não com ações. Fatos são da alçada do conhecimento. Sempre que a questão é conhecimento, não existe escolha. Dois mais dois são quatro. Esse fato não está aberto para escolha. Não se pode escolher que dois mais dois sejam três ou cinco. Mas, quando a questão é ação, ou comportamento, então existe escolha. 

Em alguns momentos, talvez, poderia existir tanto abuso do livre arbítrio da parte do agente humano imediato quanto algum karma envolvido da parte da vítima do abuso. Mas, em geral, nós não consideramos assim. Não vemos o karma funcionando dessa maneira. 

Todo o livre arbítrio é somente em termos de esforço, ação ou comportamento. Pode-se escolher situar-se numa posição para conhecer ou em outra para não conhecer. Isso é escolha na ação. Mas uma vez em posição de conhecer
- com o pramána, o meio de conhecimento operativo, e o objeto de conhecimento à disposição - não existe escolha do que é conhecido. Se estou cochilando em minha cadeira com os olhos fechados e alguém chega até mim e diz:
"abra seus olhos e veja o que eu tenho", e então segura uma casquinha de sorvete de morango em frente de mim, quando abro os olhos não posso escolher ver uma rosa vermelha ao invés da casquinha. Não importa o que eu escolha, meus olhos, auxiliados pela minha mente, dizem: "casquinha". Isso é conhecimento. 

Quando os fatores necessários para o conhecimento estão juntos, não posso escolher o que conhecer, ou o que não conhecer, ou conhecer de maneira diferente. Uma vez que o assunto é conhecimento, não existe espaço para a escolha. Não devemos nos confundir quanto a isso. É inevitável. Não existe escolha em relação à ação ou ao esforço. Isso é livre arbítrio. 

Swamiji, gostaria de fazer mais uma pergunta sobre livre arbítrio. Consideremos que existam duas estradas. Uma pessoa escolhe uma estrada e sofre um acidente naquela estrada. O acidente seria devido ao karma ou ao livre arbítrio? 

Existem várias possibilidades. Uma delas é a de que o acidente foi devido ao karma. Karma, nesse sentido, significa
o destino da pessoa sendo determinado pelos frutos das ações passadas, feitas ou nesta vida ou em outra vida. Geralmente, dizemos que se a causa imediata do acidente é algum fenômeno natural, como um terremoto ou enchente, então foi karma o fato de a pessoa estar ali naquele momento. Mas também existem acidentes cuja causa imediata é um simples abuso do livre arbítrio. Por exemplo, você pode estar dirigindo com cuidado e outra pessoa dirigindo negligentemente, mas você é quem bate e se machuca no acidente que acontece. Esse acidente é provavelmente devido ao abuso do livre arbítrio por parte do outro motorista, e não ao seu karma. 

Tanto homicídio quanto suicídio são abusos do livre arbítrio. Eles não devem ser atribuídos ao karma, mas à vontade usada erradamente. O mandamento vêdico é: "himsan na kuryat". Não cause dano. Esse é um mandamento aplicado a danos relacionados com o seu próprio corpo, bem como aos corpos de outras pessoas. Se não existisse livre arbítrio, mandamentos como esse não teriam propósito. Todos os valores, ética e dharma dependem da existência do livre arbítrio. Se nós fôssemos autômatos pré-programados, não haveria necessidade de se falar sobre valores ou normas. As leis de todos os Estados tem como base o reconhecimento de que existe livre arbítrio. De outra maneira, como alguém poderia ser considerado responsável pelos seus atos?


 Perguntas, comentários, referências
http://www.vidyamandir.org.br/texto-dayananda-8