sábado, 10 de setembro de 2016

CULTIVO SEM LIMITES - É POSSÍVEL PLANTAR VEGETAIS EM QUASE QUALQUER LUGAR OU ÉPOCA DO ANO

Cultivo sem limite

Alface no fundo do mar. Tomate nas gavetas do escritório. Pimenta no frio antártico. A ciência da produção de alimentos supera os limites da biologia e torna possível plantar vegetais em (quase) qualquer lugar ou época do ano
   
Conquistador por natureza, o homem ocupou (e ainda quer ocupar) lugares onde o ambiente não favorece a vida. E aonde ele vai, precisa produzir alimentos. Se muita gente ficou boquiaberta ao ver batatas no solo marciano no recente filme Perdido em Marte, é porque não sabe o que os agrônomos andam fazendo por aqui. Produzir vegetais em lugares pouco prováveis põe à prova nossa capacidade de sobreviver e revela caminhos para a colonização de outros planetas.
LAVOURA ALIENÍGENA
É possível cultivar verduras e legumes em Marte? Em teoria, sim. Mas a que custo? Provavelmente não bastariam batatas, combustível de foguete e alguns pacotes de fezes (a matéria-prima usada em Perdido em Marte) para isso. Na opinião de Raymond Wheeler, especialista em plantas da Nasa, ainda precisamos desenvolver tecnologias que estão engatinhando na Terra para ter a certeza de produzir alimentos em quantidade significativa por lá. “Temos de melhorar a reciclagem de nutrientes, o aproveitamento da água, e reduzir o consumo de energia nas estufas artificiais que conhecemos”, afirma.
Experiências agrícolas em condições extremas poderão facilitar a colonização de outros planetas, como sinaliza o filme Perdido em Marte / Fotos: Nasa / divulgação
Experiências agrícolas em condições extremas poderão facilitar a colonização de outros planetas, como sinaliza o filme Perdido em Marte / Fotos: Nasa / divulgação
Experiências agrícolas em condições extremas poderão facilitar a colonização de outros planetas, como sinaliza o filme Perdido em Marte / Fotos: Nasa / divulgação
Com o robozinho Curiosity no solo marciano, a equipe do físico brasileiro Ivair Gontijo, líder do Laboratório de Ciências de Marte, na Nasa, levantou novos dados sobre o solo e a atmosfera do planeta. “A superfície por onde o Curiosity passou parece não ter compostos orgânicos. A atmosfera tem 95% de CO2 – o que é bom para as plantas –, mas a pressão para manter os gases é equivalente a 1% da pressão da Terra. Além disso, existe a questão do fraco campo magnético, incapaz de proteger a superfície dos raios do Sol”, afirma Gontijo.
Um estudo divulgado em junho serviu para dar alento aos pesquisadores. Cientistas da Universidade Wageningen (Holanda) usaram um solo desenvolvido pela Nasa para imitar o de Marte e conseguiram cultivar rabanete, ervilha, centeio e tomate. Outros testes são necessários para descobrir se esses vegetais absorveriam os altos níveis de metais pesados (como chumbo, cobre e cádmio) presentes no solo marciano, mas a novidade é animadora.
ATÉ DEBAIXO D’AGUA
Há poucos anos, um grupo de mergulhadores italianos decidiu investir num projeto que parecia mirabolante. Construíram balões de plástico transparente, levaram-nos para o leito do mar, encheram-nos de ar e começaram a cultivar manjericão lá dentro. Em 48 horas, as folhinhas brotaram. Na terra, o mesmo processo leva uma semana.
O cultivo de vegetais realizado no Jardim de Nemo, no litoral italiano: opção para regiões costeiras muito quentes, como o Golfo Pérsico.
O cultivo de vegetais realizado no Jardim de Nemo, no litoral italiano: opção para regiões costeiras muito quentes, como o Golfo Pérsico.
O cultivo de vegetais realizado no Jardim de Nemo, no litoral italiano: opção para regiões costeiras muito quentes, como o Golfo Pérsico.
O projeto, apelidado Jardim de Nemo (em referência ao famoso peixinho do filme da Pixar), começou desacreditado, mas hoje atrai atenção de cientistas do mundo todo. “As descobertas podem indicar um caminho para a produção de alimentos em lugares muito quentes, com pouca água doce, onde a agricultura exigiria investimentos impensáveis”, afirma Gianni Fontanesi, um dos coor­denadores.
Nesse intervalo, eles já produziram, além do manjericão, tomate, abobrinha, alface e outros pequenos vegetais hidropônicos e sem agrotóxicos. Todos foram testados e consumidos. No laboratório, descobriram que a concentração de óleos essenciais (supersaudáveis) no “seu” manjericão, por exemplo, era três vezes maior que nas folhas comuns.
Interior da Estufa Lunar, para a qual foi desenvolvido um sistema que mantém o ambiente ideal para as plantas se desenvolverem sem um grande consumo de energia externa
Interior da Estufa Lunar, para a qual foi desenvolvido um sistema que mantém o ambiente ideal para as plantas se desenvolverem sem um grande consumo de energia externa
Interior da Estufa Lunar, para a qual foi desenvolvido um sistema que mantém o ambiente ideal para as plantas se desenvolverem sem um grande consumo de energia externa
O segredo para isso está na profundidade. As bolhas de ar ficam presas a até dez metros abaixo do nível do mar (com cabos que sustentam quase três toneladas). Nesse ponto, a pressão é duas vezes maior que a da superfície. A quantidade de luz do Sol que passa pelo mar é suficiente para a fotossíntese. E a temperatura se mantém estável dia e noite, por causa da água em volta. Além disso, as plantas reciclam naturalmente o ar e a umidade dentro da bolha. A evaporação das folhas passa por condensação e irriga as mudas de volta. Ou seja, uma vez que as plantas, o ar e a água doce foram levados lá para baixo, o sistema se torna autossuficiente.
COMIDA CONGELADA
A temperatura média na Estação Americana do Polo Sul é de 50° C negativos. A quase 3 mil metros acima do nível do mar, esse é um dos pontos mais gelados da Terra. No inverno, todos os dias são noite. Mesmo assim, os 150 moradores da estação plantam (e colhem) verduras e legumes.
Durante os seis meses de escuridão, tudo o que os cientistas e funcionários consomem tem de estar na estação. O que vem de fora só chega de navio e no verão. São tantas as dificuldades que pesquisadores do Arizona (EUA) viram na instalação o lugar perfeito para testar a Estufa Lunar, cápsula que um dia a Nasa poderá levar até a Lua.
A câmara de cultivo tem um sistema biorregenerativo, capaz de manter o ambiente ideal para o crescimento das plantas sem consumir muita energia externa. A cápsula, em forma de cone, pode ser montada e desmontada como uma sanfona. Cabos de fibra ótica buscam a luz do Sol do lado de fora e a armazenam para quando for necessário. Todo o funcionamento pode ser monitorado a distância. “O custo por quilo dos vegetais colhidos é alto, mas continua mais baixo do que o do transporte marítimo para um lugar tão distante das plantações”, diz Kevin Fitzsimmons, pesquisador da Universidade do Arizona.
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SELVA DE PEDRA
Imagine chegar ao escritório para trabalhar e sentar a uma mesa com tomates brotando dentro das gavetas. Ou parar para o cafezinho, vestir galochas e colher brotos de arroz que nascem na sala do andar abaixo. Isso tudo é rotina para os funcionários de uma empresa de Tóquio, no Japão, megalópole onde espaço para plantar é luxo.
Nesse cenário estão crescendo as “fazendas urbanas”: plantações minúsculas mantidas pelos moradores para aproveitar espaços onde couber um quadrado de terra. O escritório descrito no parágrafo anterior, da empresa Pasona, é um dos projetos mais ousados na cidade. São mais de 200 tipos de vegetais crescendo pelas paredes. “A maioria é comestível e vai direto para a cafeteria. Todos adoram!”, garante Satomi Watanabi, relações-públicas da empresa.
As salas do prédio, no centro comercial de Tóquio, têm controle manual de CO2, temperatura, umidade e contaminação. A iluminação é quase toda artificial, com lâmpadas de LED ou HEFL (as Hybrid Electrode Fluorescent Lamps, presentes nas TVs de LCD e que podem emitir vários tamanhos de onda, ou cores de luz). As plantas crescem mais rapidamente ali do que numa horta comum.
Maximizar o aproveitamento do espaço também é tendência na pequena e superpopulosa Cingapura. Ali, a empresa Sky Greens produz verduras e legumes em escadas de alumínio. São milhares de bandejas com água, empilhadas umas sobre as outras, em estruturas de 9 metros de altura. Os agricultores trabalham subindo e descendo o dia todo. A estrutura inteira gira durante o dia para que a luz e a umidade se distribuam por igual. Segundo Roshe Wong, chefe de desenvolvimento da empresa, “os produtos chegam aos mercados com mais frescor e preços mais baixos porque gastamos muito menos com o transporte”.
Parede cultivada da empresa Pasona, na capital japonesa
Parede cultivada da empresa Pasona, na capital japonesa
Parede cultivada da empresa Pasona, na capital japonesa
COMO FAZER UMA GELEIRA
A gelada e seca região de Ladakh (Índia), a mais de 3 mil metros de altitude, é uma das menos habitadas do planeta. O Himalaia forma um paredão ao lado dos vilarejos e a neve é a única fonte de água para irrigação. Cevada, ervilha e trigo têm de ser plantados e colhidos lá rigorosamente entre março e setembro, e por isso os agricultores precisam de água logo no primeiro mês da primavera.
Paisagem do Ladakh, na Índia: a presença de gelo apenas nos picos mais altos levou o engenheiro Chewang Norphel a criar as geleiras artificiais, que revitalizaram a agricultura local
Paisagem do Ladakh, na Índia: a presença de gelo apenas nos picos mais altos levou o engenheiro Chewang Norphel a criar as geleiras artificiais, que revitalizaram a agricultura local
Trinta anos atrás, o engenheiro Chewang Norphel percebeu que, com o gradual derretimento das geleiras, a produção local de alimentos estava ainda mais difícil. As geleiras que sobraram ficavam em picos tão altos que a água derretida não chegava às aldeias.
Norphel venceu o problema com uma ideia simples: a geleira artificial. Ele desviou a água que descia da montanha para áreas de sombra, com face norte, e bloqueou a queda com barreiras de pedra. No inverno, a água, descendo devagar por causa das barreiras, vai se tornando gelo. Durante quatro meses, o gelo se acumula para depois derreter em grande quantidade nos meses de plantio.
As geleiras vêm sendo cons­truídas com trabalho voluntário e financiamento das Forças Armadas.­ O custo é baixo, de até US$ 6 mil por obra. Com água disponível, os agricultores chegam a fazer duas colheitas por ano.
Fonte:http://www.revistaplaneta.com.br/cultivo-sem-limite/