ENSAIO SOBRE A OBESIDADE - O CORPO REPRESENTA O INCONSCIENTE,E A PARTIR DELE SATISFAZEMOS AS NECESSIDADES E EXIGÊNCIAS PULSIONAIS



O corpo representa o inconsciente,e a partir dele satisfazermos as necessidades e exigências pulsionais



Ensaio sobre a obesidade


O corpo do obeso é lugar de gozo e de pulsações que geram atos psíquicos repetitivos. Ele é ainda mais complexo, é um corpo pesado pelo psíquico, pela biologia e pela pressão do social

Por Eduardo Lucas Andrade e João Antônio Fernandes




O corpo que é incomodado pela pulsão, muitas vezes demanda análise. O corpo é campo concreto para aquisição de sintomas, adesão de mal-estares, investimento de energias psíquicas e representações de ideias inconscientes. O corpo é a fala na carne. Ele tem desmedido peso na teoria psicanalítica e em sua clínica.
Na contemporaneidade, estamos vivendo a cultura dos avanços desenfreados, e com ela surgem novas aplicações do corpo e sobre o corpo, acompanhando (re)edições de sintomas e manifestações psíquicas. A noção de corpo acompanha a teoria psicanalítica desde os seus primórdios. Antes mesmo de Freud denominá-la de Psicanálise, está lá, registrada no "Projeto Para uma Psicologia Científica", de 1895. Aliás, podemos dizer que foi o corpo que ligou Freud à Psicanálise. O corpo histérico manifestando enigmas obscuros do inconsciente, até então desconhecido pela Ciência. Ainda nessa lógica, o corpo foi o que impulsionou Freud a desvendar a obscuridade humana e a se encontrar com o psíquico. Do corpo histérico, como estimulante, ao corpo de Freud, impulsionado pelo Desejo, nascem os primeiros passos que o levariam à descoberta do inconsciente e à fundação da Psicanálise.
De lá para cá esse corpo sofreu desmedidas variações em suas manifestações de linguagens psíquicas nas suas motilidades pulsionais. Do corpo histérico enveredamos ao corpo da psicossomática, da anoréxica, da bulímica, ainda o da "nova" configuração histérica, além do corpo erógeno e do narcísico. Temos ainda o complexo corpo do obeso que inflinge padrões sociais de nossa época, deixando esse corpo como estranho e tendendo-o o social à excluí-lo.

Na Psicanálise, o obeso deverá elaborar o peso que sua condição pulsional lhe colocou em parceria com o Desejo e o corpo

Ao longo do tempo, o corpo sofreu desmedidas variações em suas manifestações de linguagens psíquicas nas suas motilidades pulsionais: do corpo histérico enveredamos ao corpo da psicossomática, da anoréxica e da bulímica
Assim como o da histeria, o corpo do obeso é um corpo estendido como lugar. O corpo do obeso é lugar de gozo e de pulsações que geram atos psíquicos repetitivos. O corpo do obeso é ainda mais complexo, é um corpo pesado pelo psíquico, pela Biologia e pela pressão do social; é um corpo que pesa na sua estreita relação com o Desejo, enfatizando sobre máscaras do prazer drásticas consequências tanto na vivência quanto na sobrevivência. É um corpo que sofre o verdadeiro peso do mal estar da civilização estampado em seu real na carne. Um corpo que se afastou do Desejo e se tornou problema social singular. Mais da metade dos brasileiros está acima do peso, a isto, chamamos de sobrepeso, obeso é um complexo ainda maior. Entenderemos o obeso como um sobrepeso que vai além, conforme veremos.
O corpo representa o inconsciente, assim como o corpo deste escrito representa minhas ideias. O corpo é nossa ferramenta para moposdificar o mundo externo e a partir dele satisfazermos as necessidades e exigências pulsionais. Será assim também o corpo do obeso? De certo a pulsão coloca o corpo em movimento, promove a escolha e incomoda-nos em nossa inquietante busca. Já o obeso encontra dificuldades nessas articulações pulsionais e libidinosas, volta-se a si o peso das relações com o mundo. Peso este que leva-o muitas vezes à clínica psicanalítica, já que se foge do mundo externo deparando-se consigo mesmo - e de nós mesmos é impossível fugirmos. A Psicanálise pode possibilitar ao sujeito obeso o nascimento de uma leveza de ser, por meio do (re)encontro com o Desejo e com suas pulsões credenciadas, que jazem ancoradas ao corpo.
Na Psicanálise, o obeso deverá elaborar o peso que sua condição pulsional lhe colocou em parceria com o Desejo e o corpo, restando sempre a pergunta: o que será que pesa mais, o corpo de um obeso sobre a balança ou seus conflitos psíquicos sobre o corpo?

Neurobiologia, fase oral e obesidade
O descontrole na quantidade de alimentos ingeridos, em paralelo com a falta de disciplina nos horários observados para o efeito, nos faz regressar ao estudo e investigação da fase oral, em que o peito da mãe lhe era oferecido ao ser observada a mais leve irritação. Associada a esta relação, suspeitamos que a excessiva intimidade corporal do bebê com a pele da mãe possa ocasionar nele uma excessiva erotização.
No primeiro caso, o aspecto da disciplina, e de ser contemplado com o estritamente necessário, decerto lhe daria uma ordem, que de fato não podemos observar. No segundo caso, a excessiva erotização garante uma dependência relativamente ao objeto de desejo, ferindo de morte o caminho da autonomia.
Somos confrontados com o objeto desejado e sexualizado, que devido ao padrão de estética idealizado na atualidade, não merece a atenção dos outros, recorrendo, por isso, a todos os métodos para que possa adquirir um modelo desejado e desejável, em que nos é dado a perceber a finalidade de ser amado. Eis a frustração, que empurra o obeso para o médico, e alguns para a análise, por impossibilidade, de por si só. tornar-se o modelo desejado da sociedade.
Podemos ousar, e admitir, que existe uma conversão de excitações exageradas, por impossibilidade de descarga no mundo exterior, que reportam, mais ou menos, ao mesmo grau valorativo da irritação primária. Perante a irritação e na ausência do objeto de desejo, a comida servirá de apaziguador dessas excessivas excitações sentidas.


O sujeito do sobrepeso já ocupou lugares históricos de status. Hoje, o corpo atual cultivado é o dito sarado, magro e sem gorduras. Basta ativar qualquer órgão sensorial para percebê-los no ar dos atos humanos

A marca do prazer
A obesidade infantil circunscreve uma marca atual. Crianças não param de ganhar peso, gordura e posições adoecedoras. Comem o desnecessário, esquecendo o necessário. Trocam o alimentar-se instintual pelo pulsional do repetitivo prazer. Não lhes é apresentado, além do prazer, sentido, funções e as consequências do se alimentar. Os pais perdem-se no controle, dão alimento para tamponar suas ausências. É por isto que os nutricionistas ditam comer de três em três horas, uma tentativa de resgatar o controle. Gastar energia é quase proibido. A contemporaneidade ofere conforto e o corpo reclama.
Cultura do espelho
O sujeito do sobrepeso já ocupou lugares históricos de status. Freud, ao dizer do mal estar na civilização, perpassa a noção do belo aplicado à constituição civilizatória. Hoje, vê-se veemente isto, e o corpo atual cultivado é o dito sarado, magro e sem gorduras. Basta ativar qualquer órgão sensorial para percebê-los no ar dos atos humanos. Segundo Freud, a felicidade da vida é buscada predominantemente pela fruição da beleza. Freud postula, ainda, que "a atitude estética em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento, embora possa compensá-la bastante" (Freud, 1930). Eis uma saída ofertada diante do cultural para o mal estar que hoje tornou-se ilusão.
O belo encanta o olhar e convida ao encontro com o outro. Aqui, consideraremos o olhar como forte registro na constituição do sujeito, não apenas o olhar do vísivel com os olhos e, sim, o perceptível sensorialmente ao mundo e a si próprio. Na constituição do sujeito, é no perpassar a fase do espelho que o olhar se depara com o princípio de realidade e com a tênue separação da realidade psíquica com a realidade externa, assim como, também, com a noção do eu e o Outro. O olhar do obeso encontra dificuldade neste avanço e faz como Édipo na trama final de sua tragédia, onde fronte a frustração tenazmente fixado ao sentimento de culpa, perfura os próprios olhos e retorna a si próprio, regredindo-se por repressão.
Ainda utilizando as metáforas mitológicas, chamaremos a presença da "Cabeça da Medusa", que também representa o obeso mórbido de nossa contemporaneidade. O obeso, ao encarar frontalmente a ameaça de castração, transforma-se em pedra, cristalizando-se como o próprio Desejo, afastando-se dele nas desesperadas tentativas de saciar a falta, alimentando ainda mais o sintoma e mantendo a causa isolada sobre os gozos do corpo. Os obesos também se isolam, até mesmo simbolicamente, fazem do seu corpo sua "calota acústica".
O obeso caminha rumo ao alimento por questões singulares de sua história de vida. Utiliza o princípio de prazer e a tendência à repetição de uma fi xação que o leva à compulsão alimentícia
Os "estranhos" que escapam ao culto do belo tendem a encontrar convites à exclusão. Assim foi com os loucos na história da loucura, assim está sendo com os usuários de tóxicos e com os obesos, já que a cultura em que vivemos no Brasil, e em boa parte do mundo, consiste em uma cultura escultural sobre o corpo. Literalmente, uma cultura do espelho. Temos espelhos de variadas formas e tamanhos, espalhados por todos os lados.
O obeso apresenta-nos esses significantes. Por não brilhar aos olhos do outro, ele sofre no silêncio do encontro consigo mesmo. Engole o mundo em uma passividade que recorda a fase oral, fase fixada do obeso cuja repetição firma-se no erotismo oral. O obeso, assim como o sobrepeso, ultrapassa as margens visíveis julgadas pela cultura do espelho; O obeso caminha rumo ao alimento por questões singulares de sua história de vida. Utiliza o princípio de prazer e a tendência à repetição de uma fixação que o leva a compulsão alimentícia e envereda-o para questões biológicas mórbidas.
Academias, medicamentos, pílulas, promessas, aparelhos, segredos, dietas, dentre outras, são as formas que o social se lembra como sendo dos obesos, na sociedade. Nas formas de lucrar. Quando eles não aderem a essas práticas ofertadas e caem no outro lado do consumismo geram sobre si mesmo um cordão de isolamento, no qual o social tende a afastar aquilo que reflete suas próprias questões, deslocando ao outro as agruras de si próprio. Neste sentido, a cultura do belo é, na verdade, a cultura do afastamento de si próprio sob máscaras de ilusões da tão sonhada completude, felicidade e modelo narcísico. Paga-se um preço pelo sustento desse Desejo infindável e também pelo seu não sustento. Ficando-nos sempre a pergunta: quais são as faíscas do fogo desse Desejo no social e o que ele queima no sujeito? É como se o obeso chegasse à clínica com o grito igual ao do filho ao pai no sonho do capítulo VII da "A Interpretação dos Sonhos". "Pai, não vês que estou queimando?"
Distorção psíquica
O espelho, desde a sua criação, é utilizado para refletir imagens. A imagem do espelho não reflete por si só. A imagem refletida perpassa os estilhaços da vidraça do olhar, onde recebe distorções advindas do psíquico. O ser humano, ao olhar para o espelho, não vê o refletido e, sim, um reflexo que faz par com seus pulsares psíquicos de momento, podendo distorcer aquela imagem perceptível e torná-la monstruosa a si ou sedutora.
O obeso levado ao sobrepeso perpassa todas as classes sociais e idades. Questões psíquicas afetam o biológico que reflete no social que se volta ao corpo e com maior intensidade ao psíquico. Temos um sujeito biopsicossocial que sofre constantemente ataques pelas três vias - e aqui ele começa a diferenciar-se do sobrepeso. Daqui adiante estaremos a falar exclusivamente do obeso, entendido como um além do sobrepeso devido ao que se segue. O obeso, na verdade, é o reflexo de uma cultura que está abandonando o Desejo.
Obesidade e sujeito
O Desejo permanece o mesmo, sendo a mola mestre de cada um, que possibilita o sonhar. Para existir um sonho, deve necessariamente existir um Desejo. Porém, este Desejo carece de manutenções psíquicas, sendo um dos responsáveis e causadores destas deformações, o supereu - instância psíquica de forte cunho repressor. O supereu é a lei do aparelho, nossa moral psíquica, digamos assim. Dissemos moral, não ética; a ética permanece sendo a do Desejo. O supereu advém da cultura e é o herdeiro do complexo de Édipo. Desta forma, o sujeito obeso perdeu parte de sua ética em prol da avassaladora moral superegoica que lhe é imposta em sua forte repressão.

O obeso, assim como o sobrepeso, ultrapassa as margens visíveis julgadas pela cultura do espelho, e se mune de pulsações psíquicas
O sujeito obeso tem fome pulsional como uma saída de um desamparo. O desamparo, o alimentar-se e a passividade são os três representantes magistr ais que ditam a influência da fixação na erotização oral

Epidemia infantil
Um dos problemas mais sérios do mundo moderno é a obesidade infantil. O cinema não ficou fora desse debate. O documentário Muito além do peso discute por que 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deveriam. As respostas envolvem a indústria, o governo, os pais, as escolas e a publicidade. Com histórias reais, o filme tem direção de Estela Renner e conta no elenco com Jamie Oliver e Frei Betto, entre outros.
A nova configuração social influencia, nesta lógica, as manifestações do Desejo. (re)edita suas faces. Os sintomas histéricos, fonte da nascente pesquisa freudiana vestem outras roupagens. Os obesos mórbidos ganham espaços na cadeia sintomática atual, e isso, como qualquer outra coisa, não acontece por acaso. Na cadeia sintomática, o ser obeso afeta o corpo orgânico e psíquico, tentando sobreviver à pressão, hipertensões e demais doenças até mesmo cardíacas. Se estamos inclinados ao agora e temperados a abandonarmos buscas longas, esquecemos um pouco o Desejo, causador de sonhos, não só os noturnos, mas também os diurnos, que chamaremos aqui de "sonhos sociais" aqueles que mune os projetos para o futuro. Os planejamentos que nos levariam à realização destes sonhos, buscas, 'ganham corpo' ao se atualizar para satisfação imediata, no agora.
O sujeito nasce do corte edipiano sobre a dominância do princípio de prazer que torna-se a posteriormente tendência. Quem, por ventura, seria o sujeito obeso? O obeso é aquele que, quando chega à clínica psicanalítica, chega recordando-nos da enigmática esfinge. Ele chega no ritmo do: "Decifra-me ou eu te devoro!". Seus sintomas consistem, em geral, em compulsões atuantes sobre o alimento. Enquanto houver alimento ele come, ingere. Elegendo preferencialmente alimentos que carregam em si significantes que o remetem aos processos psíquicos.
Quando está amargurado, alimenta-se de doce, para adoçar-se. Os alimentos gordurentos o elevam a uma sujeira que incorpora em si a falta de manifestação pulsional. Satisfaz momentaneamente o afeto, mantendo intacta a ideia, cujo objetivo de comer tende a isolar. Sua baixa resistência à frustração o faz tentar recompensar pela comida. No obeso, o ato de comer atravessa o instintual, sobrecarregando o pulsional e o corpo, levando o sujeito ao gozo do além de princípio de prazer sobre forma da repetição, que é o protótipo da pulsão de morte deslizante na plataforma de um prazer barato.



O descontrole na quantidade de alimentos ingeridos, em paralelo com a falta de disciplina nos horários observados, nos faz regressar ao estudo e investigação da fase oral, quando o peito da mãe era oferecido sob a mais leve irritação.
O sujeito obeso está cada vez mais próximo ao encontro com o real, afastando-se do Desejo como busca, mantendo-o apenas como pedra angular de sua estrutura. O corpo do obeso é o sustento da sexualidade. A obesidade não é considerada uma patologia quando se restringe ao sobrepeso, ela é uma patologia na medida em que traz prejuízos ligados à questão biopsicossocial. O sujeito obeso tem fome pulsional como uma saída de um desamparo. O obeso escolhe o que comer, mas não quando parar de comer. É um sujeito fortemente reprimido. A pulsão nos permite a escolha, e a repetição estreita essa flexibilidade elegível. O desamparo, o alimentar-se e a passividade são os três representantes magistrais que ditam a influência da fixação na erotização oral, a mais arcaica do desenvolvimento humano segundo Freud. O aparelho psíquico produz suas próprias saídas e, quando este não mais se arranja satisfatoriamente, a clínica é acionada.
O obeso, assim como aquele que tem uma questão mal resolvida, sente- se sensível em relação aos discursos sobre seus representantes, neste caso a comida. O 'estranho' trabalhado por Freud ataca e desencadeia a angústia que tende levá-lo para a sua única saída conhecida e experimentada pelo seu aparelho psíquico. O sujeito obeso é um sujeito que representa a atual civilização. Mostra-se influenciado pelo discurso da busca da felicidade e do culto à beleza, além do principal, que é o abandono do Desejo para realizações repetitivas do aqui e agora.

Eduardo Lucas Andrade é escritor, palestrante e aluno de psicologia na Faculdade Presidente Antonio Carlos; aluno de Psicanálise no Estúdio Ato de Psicanálise (Bom Despacho - MG).
João António Fernandes é psicanalista freudiano e professor na Analizzare (Divinópolis - MG)
REFERÊNCIAS
FREUD, S; A Interpretação dos Sonhos. Obras completas. 1900: Editora Imago, Brasil.
_______ 'Gradiva' de Jensen. Obras completas. 1906: Editora Imago, Brasil.
_______; O Inconsciente, Obras completas, 1915, Editora Imago, Brasil.

Fonte:http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/89/artigo290551-3.asp