"O CORCUNDA DE NOTRE DAME" - VICTOR HUGO



O CORCUNDA DE NOTRE-DAME: GROTESCO, SUBLIME E DEFICIÊNCIA NA IDADE MÉDIA

Nerli Nonato Ribeiro Mori
Resumo

A coexistência do grotesco e do sublime e, ao mesmo tempo, as fronteiras que o separam se constituem em ponto de partida para discutirmos o tema da deficiência na Idade Média, tal como representada na obra o Corcunda de Notre Dame, de Victor Marie Hugo. Como é a vida de Quasímodo, personagem externamente disforme e grotesco, mas também terno, ingênuo e apaixonado? Quais as representações sobre deficiência presentes nesta história ambientada na Paris do século XV? Ao buscar resposta para estas questões, tenta-se entender como os dramas demonstrados na história original foram se transformando na versão produzida para a televisão e lançada em 1997, bem como no desenho animado com o mesmo nome e um dos maiores sucessos dos estúdios de Walt Disney.

"O Corcunda de Notre Dame"-Victor Hugo

"Notre Dame de Paris", mais conhecida como "O Corcunda de Notre Dame", mas cuja tradução do título original é "Nossa Senhora de Paris", foi uma obra que, quando escrita em 1831 pelo grande poeta francês Victor Hugo, não tinha a intenção de chocar e emocionar com sua história real e, ao mesmo tempo, fantástica. Tinha sim o objetivo de atentar a sociedade para a conservação da catedral de Notre Dame, realizando um retorno histórico ao mundo medieval do final século XIX e dissertando sobre o modo de vida, a miséria, as diferenças sociais, dentre outros assuntos relacionados à sociedade da época. Isso nos é demonstrado ainda no prefácio, onde o autor nos fala:
"Com o tempo, rebocaram ou rasparam (ignoro qual das duas coisas) a parede, e a inscrição desapareceu. Há uns duzentos anos que é costume fazer isso nos maravilhosos templos da Idade Média. As mutilações procedem de toda parte, de dentro e de fora. O padre reboca-os, o arcediago raspa-os, vem o povo que os deita por terra."
Entre os núcleos de personagens , encontramos contrastes: o clero, o rei Luiz XI e os fidalgos se cruzam  na história com ciganos, deficientes, doentes e ladrões, os quais são representados pelo "Pátio dos Milagres", bairro que abriga os proscritos, os sem rumo e personagens importantes de nossa história, como a Esmeralda.
De fato, o personagem principal do livro não é nosso famoso corcunda, nem tampouco nenhum dos personagens que vivem a história que nos é contada. A grande protagonista do livro é o berço de nossa história, que assiste a todos os inúmeros acontecimentos e à vida de nossos personagens: a catedral de Notre Dame.
A obra relata a história de três diferentes tipos de amor. O primeiro, responsável por todas as tragédias que surgiriam posteriormente no livro, é o do arcediago Cláudio Frollo pela cigana Esmeralda. O arcediago era um homem da ciência, frio e instruído, que, mesmo que houvesse algumas vezes se interessado por outras mulheres, havia se contido, até conhecer a Esmeralda. A Esmeralda era uma morena dos olhos pretos de beleza quase divinal, que encantava a todos que a viam, como foi e o caso do arcediago. Este, não conseguindo livrar-se do amor, decidiu fazê-la morrer, como se essa fosse a única salvação para sua alma. Tentou raptá-la, com a ajuda de Quasimodo em uma noite, mas foi interceptado pelo capitão Febo de Châteaupers, que a salvou, deixando-a perdidamente apaixonada por ele.
Quasimodo, também conhecido como o corcunda de Notre Dame, obedecia a Frollo, seu mestre e senhor, pois ele o havia salvado de ser atirado a fogueira ainda bebê. Ele era cego de um olho e vesgo, era coxo e corcunda, ao que se devia seu título; a única dádiva que lhe havia sido dada, a audição, lhe havia sido tirada pelo alto ressoar dos sinos, visto que ele era o sineiro de Notre Dame. Após o incidante noturno, Quasimodo é condenado e sofre humilhação pública, além de ser terrivelmente chicoteado e maltratado. A única boa alma que lhe estende a mão em compaixão para lhe entregar um copo d'água é Esmeralda, que faz isso com piedade, porém temerosa, visto que Quasimodo é feio como um monstro. Assim surge o terceiro grande amor de nossa história: que nos traz o contraste de aparências de Quasimodo e Esmeralda.
Uma noite, o capitão Febo, aproveitando-se da paixão da bela virgem a leva para um quarto e tenta seduzí-la. Frollo, que assistia tudo às escondidas, não consegue suportar a cena e apunhala o capitão, deixando a Esmeralda como culpada do crime e condenada pela morte do capitão. No momento em que ela ia ser enforcada, momento este assistido por Frollo e Febo (que havia sobrevivido), ela é salva por Quasimodo que a leva para o grande satuário de Notre Dame, onde ela encontra asilo, visto que dentro da catedral sagrada ela não pode ser atacada. Nesse momento, apesar do horror que ela possui por Quasimodo, aos poucos ela começa a perceber sua doçura e bondade. Enquanto isso, Frollo continua dando investidas, ao passo que ela ainda suspira pelo capitão. O clímax do livro ocorre quando a catedral é atacatada pelos revoltos do Pátio dos Milagres para "salvar" a Esmeralda e saquear a catedral. Quasimodo, no entanto, pensa que eles querem enforcar a bela e, sozinho, protege a catedral da invasão. Enquanto isso, Frollo captura a Esmeralda e, como ela não aceita ficar com ele, ele a manda enforcar.
Ao início do livro, encontramos a seguinte descrição de Quasimodo: "Era efetivamente mau, porque era selvagem; era selvagem, porque era feio. Na sua natureza, como na nossa, havia uma lógica." O pobre corcunda havia, toda uma vida, sido odiado pelo simples fato de não possuir uma aparência agradável e ser deficiente. Sua mãe era a catedral, seus amigos, os sinos, principalmente, o maior sino de todos: a amada Maria. O que lhe havia sido dado de mais próximo de pai era Frollo, que o acolhera e ensinara. No decorrer do livro, após o pouco de compaixão de que lhe serve a Esmeralda, vemos em Quasimodo uma segunda face: a face da candura, da bondade e da capacidade de amar. Ainda que aos outros ele parecesse um monstro, nós o vemos como o homem doce que ele podia ser se não lhe tivesse sido entregue tanto ódio.
A Esmeralda, ainda que tivesse pena e compaixão por Quasimodo, o temia por sua aparência. Quando ele a resgata, ela se esforça para não demonstrar seu medo, mas ele, com uma alta percepção de liguagem corporal, inerente aos surdos, não se engana e tenta não aparecer em sua frente, velando-a de ângulos por onde não pode ser visto.
O sentimento que Quasimodo nutre por Esmeralda é puro, delicado e cativante. Um amor completamente altruísta, capaz de desejar a felicidade dela a qualquer preço. Em um determinado momento, a Esmeralda pede ao corcunda para trazê-la Febo e este vai em busca dele, mas o encontra com sua noiva, Flor de Lis. Quando retorna, não diz a Esmeralda o que viu. Diz simplesmente que não conseguiu trazê-lo. A Esmeralda fica realmente irritada com ele e Victor Hugo nos dá a seguinte passagem: "Deixou-a. Ela estava descontente com ele. Preferia ser maltratado a afligí-la. Guardara para si toda a dor."
Diferente do amor de Quasimodo, o amor que Frolo nutre por Esmeralda é um amor pecaminoso, amaldiçoado. Mas não somente por ele ser um padre e, principalmente, porque é um amor egoísta. Ele prefere que Esmeralda morra a ficar nos braços de outro. Frollo é, na obra, a representação do homem barroco.
Enquanto isso, Febo não possui nenhum tipo de sentimento por Esmeralda. Durante o início do livro, ele demonstra ter um desejo carnal por ela, que logo se esvai quando surgem novos interesses. Ao vê-la condenada por sua morte, ele nada faz para impedir.
E finalmente, temos o amor que Esmeralda nutre por Febo. Apesar de platônico, ela acredita ser correspondida e está, durante todo o livro totalmente entregue a seu amado, até a morte. Em um trecho do livro, Quasimodo, quando descobre o amor da bela por Febo, afirma: "Maldição! Ali está como era preciso ser! É preciso ser belo, nada mais", nos apresentando à face fútil de Esmeralda, a linda e doce donzela que não conseguia enxergar por trás da carcaça, como é até hoje. Encontramos uma referência ao contraste Quasimodo e Febo na seguinte passagem:
"Uma manhã, [Esmeralda] descobriu, quando acordou, sobre a janela dois vasos cheios de flores. Um era de cristal, belo e luzente, mas rachado. Deixara fugir a água de que o tinham enchido, e as flores que continha estavam murchas. O outro era um pote de barro, grosseiro e vulgar, mas que conservava toda a água e as flores frescas e vermelhas.Não sei se foi intencionalmente, mas a Esmeralda pegou no ramalhete murcho e trouxe-o todo dia no seio."
Durante todo o livro, Quasimodo tem de se confrontar com um dilema: salvar sua amada Esmeralda, ferindo seu mestre Frollo ou obedecer às ordens deste e deixar a donzela em suas mãos. Ao fim, o corcunda, em uma atitude impulsiva e, portanto, verdadeira, atira Frollo de cima da catedral e assiste, com lágrimas e lamentos, à morte de seu amado tutor e da belíssima jovem que roubara seu coração, suspirando ao final: "Oh! Tudo o que eu amei."
Dois anos depois, uns homens que estão desenterrando ossadas no local onde a Esmeralda havia sido enterrada encontram duas ossadas com as seguintes descrições:
"[...] encontrou-se entre essas horrendas ossadas dois esqueletos, um dos quais tinha o outro singularmente abraçado. Um desse esqueletos era o de uma mulher [...]. O outro, o que tão estreitamente abraçava este, era um esqueleto de homem. Notou-se que tinha a coluna vertebral desviada, e uma perna mais curta que a outra. Não tinha ruptura alguma de vértebras na nuca, o que provava a evidência de que não tinha sido enforcado. O homem a quem ele pertencia tinha vindo a té ali e ali tinha morrido. Quando o quiseram desprender do esqueleto que abraçava, desfez-se em pó."
Este trecho pertence ao capítulo final da obra, intitulado de "Casamento de Quasimodo".
Dramático, nostálgico, histórico, forte. Seja qual for a caracterização que se queira dar à obra, a percepção geral é que esta nos faz refletir sobre diversos temas, tanto locais e do período, quanto universais e atemporais. Algo que realmente vale a pena ser lido.


Video-curiosidades:
Foram inúmeras as adaptações do livro para o cinema, dentre elas, encontramos:
A primeira versão cinematográfica do livro, americana de 1939, dirigida por William Dieterle
Uma versão italiana/francesa de 1956, dirigido por Jean Dellanoy;
E a mais bela e conhecida versão do livro, feita pelos estúdios Disney em 1996. Eu, particularmente, tenho um carinho especial por esse filme, que considero maravilhoso. No entanto, como é feito para crianças, grandes eventos importantes na história original são modificados, o que compromete a história, diferenciando-a do livro.

Fonte:http://literaturaparaasobremesa.blogspot.com.br/2010/11/o-corcunda-de-notre-dame-victor-hugo.html




Resenha: O corcunda de Notre Dame
de Victor Hugo






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