RELIGIÃO E SEUS DILEMAS INSUSTENTÁVEIS

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Religião e seus dilemas insustentáveis

Da Bíblia e do Corão se extraem mensagens de amor e ódio, de guerra e paz, de luz e trevas, de sabedoria e ignorância. Sempre que crentes fanáticos buscam uma aprovação imediata para suas práticas criminosas, é aos livros sagrados que eles recorrem. É permitido a qualquer ser humano apedrejar e enforcar adúlteras, decapitar apóstatas, acender fogueiras contra hereges, perseguir homossexuais e imolar a genitália de recém-nascidos, contanto que haja um pretexto sobrenatural que sirva de justificativa. A serenidade do “ama a teu próximo” e a demência do fundamentalismo religioso estão inscritas no mesmo cardápio das escolhas que os crentes podem fazer.
No momento em que o cristianismo foi domesticado, evangélicos e católicos ergueram as bandeiras que defendem a laicidade do Estado e a causa dos homossexuais, em contraponto aos homofóbicos e teocratas que espalham o sofrimento e a desgraça por onde passam. A versão mais pacífica do islã, por exemplo, repudia as facções islâmicas que infligem a pessoas inocentes um terror implacável. Os muçulmanos que defendem o islamismo como uma religião de paz, conforme o sectarismo sunita, são, ao mesmo tempo, indivíduos notavelmente corajosos e ridiculamente covardes. Corajosos porque arriscam-se no combate ao preconceito e à xenofobia ao condenarem a fábrica de ódio, destruição e pânico que são as vertentes mais radicais do islamismo xiita, despertando a cólera dos terroristas; e covardes porque jamais condenariam, com a mesma repugnância, os trechos do Corão que fazem apologia à guerra e ao massacre dos infiéis.
Quando um mártir se enche de explosivos e os detona em meio à multidão, seu propósito é satisfazer a vontade de Alá, tal como descrito nas leis sagradas; quando Salman Rushdie escreveu Os Versos Satânicos, foi decretada umafatwa para que a sua pena de morte fosse cumprida pelas blasfêmias contidas em sua obra literária; quando os jihadistas invadiram o jornal francês Charlie Hebdo e aniquilaram os cartunistas ali presentes, eles acreditavam estar obedecendo ordens do profeta Muhammad. Todas essas motivações que levam ao assassinato são parte inerente aos ensinamentos corânicos do hadith e da lei de sharia que, do ponto de vista religioso e histórico, precisam ser executados até que este mundo decaído seja conquistado para a honra e glória de Alá.
Precisamos descobrir quantos islâmicos diriam ao Criador do Universo que o Corão, além de brevemente servir como um manual de paz, é também um manifesto anti-humano de malvadezas: “Sobre os incrédulos, que morrem na incredulidade, cairá a maldição de Deus, dos anjos e de toda a humanidade, e essa maldição pesará sobre eles eternamente. O castigo não lhes será atenuado, nem lhes será dado alívio algum” (2, 161-2); “A luta é obrigatória para vós, ainda que vós a repudieis. Pois é possível que repudieis algo que seja bom para vós, e talvez vos agrade algo que vos é prejudicial” (2, 216). E, para finalizar: “aqueles que negarem a revelação de Deus sofrerão severo castigo; pois Deus é poderoso, e vingador” (2, 272).
Embora os muçulmanos sejam moderados e sinceros ao renegarem o terrorismo islâmico, eles continuam covardes por não contestarem a autoridade sagrada que orienta a fé dos terroristas. Absolutamente o mesmo desprezo dado aos cruéis homens-bomba cabe também a Alá. Ainda que a Bíblia e o Corão contenham certa erudição e nos prestigiem com alguns sábios provérbios, nenhum deles é capaz de provar que os preceitos divinos não são moralmente problemáticos, vacilantes e contraditórios. Há mais de dois mil anos, Platão descreveu, em um de seus memoráveis diálogos, uma indagação que Sócrates fez ao jovem Eutífron: o piedoso é amado pelos deuses porque é piedoso, ou é piedoso porque é amado pelos deuses? Chegou a hora de romper o nosso pacto com os deuses e buscar uma solução racional para os nossos dilemas.
Fonte:http://www.bulevoador.com.br/2015/11/religiao-e-seus-dilemas-insustentaveis/
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