A ILUSÃO DO LIVRE ARBÍTRIO

A ilusão do livre-arbítrio

Embora tenha sido objeto de discussões na filosofia grega, foi com Santo Agostinho, no século IV, que o livre-arbítrio se transformou em doutrina teológica, sendo a partir daí amplamente difundida e adotada pelos religiosos. Grosso modo, o livre-arbítrio seria a possibilidade de agirmos conforme nossa vontade em casos que, obviamente, há escolhas a serem feitas. Por outro lado, não há livre-arbítrio quando não for possível agir de forma adversa.
No cotidiano, temos a faculdade de realizar ações que, em tese, poderíamos não realizar caso quiséssemos. O que defendo aqui é que esta noção não é tão simples quanto parece. Será que temos realmente a faculdade plena de escolher entre essa ou aquela hipótese? Estamos inteiramente livres para escolher entre fazer ou não fazer certas coisas?
Já no século XVII, Spinoza dirá que “a vontade não pode ser chamada causa livre, mas unicamente necessária”. Talvez começasse aí a ideia que Freud alicerçou como sendo suas teorias sobre os impulsos e desejos da nossa mente e que atualmente, viria a inspirar Giannetti no seu fisicalismo. Freud, sem modéstia, anunciou que suas descobertas sobre o inconsciente causariam na raça humana o sofrimento pela terceira “cisão narcisista” (1) por afirmar que o homem não age de forma livre, mas sim conforme seus impulsos e desejos inconscientes, como se fossemos reféns do mesmos.
O fisicalismo (2) irá mais longe ainda e irá propor que o “eu” é uma construção da mente. É um ente abstrato que acreditamos existir devido a nossas experiências de vida, mas que na verdade, não é nada senão o nosso próprio cérebro exigindo as satisfações e as realizações de nossas vontades, forçando-nos agir da forma que agimos.
Desta forma, acreditamos estar agindo a todo instante conforme queremos e escolhemos sem notar que na verdade, estamos satisfazendo desejos - e não necessidades - que se encontram em nosso inconsciente. Tal noção é facilmente percebida se começarmos a notar o que nos leva a consumir certos produtos, a trabalhar em certas atividades e a nos relacionar com determinadas pessoas. Sem muito esforço, perceberemos o quanto condicionamos nossos atos aos resultados que estes trarão. Por vez, estes resultados que almejamos são construídos pelo meio social em que vivemos, de forma que nossas ambições e desejos são moldados não só pela realidade que vivemos, mas também por aquela que desejamos viver. O agir é condicionado à finalidade. Conforme Jamie Arndt, psicólogo da Universidade do Missouri, "sabemos que o que é acessível em nossas mentes pode exercer uma influência no julgamento e comportamento simplesmente por estar ali, flutuando na superfície da consciência".
Voltando à Spinoza, o filósofo dirá ainda que “o esforço pelo qual cada coisa se esforça por perseverar em seu ser, nada mais é do que a sua essência atual, sendo que, a partir das afecções que a coisa sofreu, ela tende sempre a buscar aquilo que a conserve ou aumente a sua capacidade de afetar outros corpos” (3).
Spinoza tece críticas relevantes ao livre-arbítrio que acreditamos ter considerando-o mera ilusão (o que Giannetti trabalhará também em sua obra “O Auto-engano”). Embora em outras palavras, o filósofo descreve metaforicamente mas, de forma parecida, o que Freud cunhou em relação ao controle de nossos desejos e impulsos no trecho seguinte: “Se a pedra lançada tivesse consciência do seu movimento e da sua tendência a perseverar no movimento, julgar-se-ia livre, na medida em que ignoraria o impulso que produziu o seu movimento, que determinou de uma certa maneira a sua faculdade de estar em movimento ou em repouso. Do mesmo modo, aquele que na cólera, na embriaguez ou em sonho, crê agir livremente, é porque ignora as forças que o impelem contra a sua vontade.”
No campo religioso, o livre-arbítrio não pode ser visto senão como uma limitação aos poderes de Deus, pois, sendo ilimitados seus poderes, não haveriam explicações para que ele não interferisse positivamente na Terra para impedir os males. A teodicéia proposta por Epicuro é incisiva neste aspecto: se Deus é onipresente (está em todos os lugares), onisciente (tudo conhece e sabe) e onipotente (tudo pode), em conclusão, só há três hipóteses para explicar os males mundanos. Ou Deus é cruel e não quer deter o mal, ou é impotente porque não pode detê-lo ou por último, ele não sabe como fazê-lo. Com o livre-arbítrio, a noção de que "nem uma folha cai da árvore sem a vontade Deus" se desfaz e é transferida para nós a responsabilidade de tudo (ou quase tudo) que nos rodeia. Deus se exime das desgraças terrenas, cabendo a ele apenas julgamentos pós morte, o que em contrapartida cria sérias controvérsias quanto a responsabilidade de Deus para com o mundo e para com o homem (sua criação à imagem e semelhança).
Em suma, diria que é complexa a noção que possuímos de livre-arbítrio pelos motivos expostos tanto no âmbito prático como no teológico. Se há mesmo uma possibilidade plena de escolha e se somos realmente "condenados à liberdade" como propôs Sartre, podemos concluir que a existência ou não de um Deus é indiferente, pois nada muda para nós enquanto seres vivos e agentes. Por outro lado, se não há essa liberdade plena em que acreditamos, só restou a hipótese de que somos reféns de Deus ou dos nossos próprios desejos.

1 - Para Freud, a primeira cisão narcisista na humanidade aconteceu com a descoberta de Copérnico de que a Terra não é o centro do universo, mas uma parte insignificante dele. A segunda seria causada por Darwin, que retira o posto do homem de criação divina, comprovando através de seus estudos que nada somos senão uma espécie animal que evoluiu.
2 - Para o fisicalismo, mente é igual a corpo e tudo se reduz a um processo físico, não existem idéias privadas nem dualismo.
3 - Retirado da obra “A Ética” de Spinoza.

Fonte:http://catarsenoturna.blogspot.com.br/2010/11/ilusao-do-livre-arbitrio.html

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