QUANDO O YOGA PODE FAZER MAL ?

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Quando a Yoga pode fazer mal?

Por Cristiana Dias Baptista

Conversei com Francisco Kaiut – o brasileiro que desenvolveu o Método que está fazendo professores e praticantes reverem seus conceitos e mudando a cara da Yoga -, para saber quando a Yoga pode fazer mal e como se prevenir.

Há um ano e meio comecei a fazer Yoga. Eu já havia tido contatos (não muito bem sucedidos) com a prática em duas ocasiões. Na primeira, com 20 anos, dormi na aula. Na segunda, aos 30, dei um mal jeito nas costas que me deixou dois meses parada. Desta vez a coisa funcionou. E acho que isso aconteceu porque finalmente procurei a Yoga, não como ginástica, mas como uma prática de autoconhecimento e bem estar.
Nas duas aulas que frequento, as professoras sempre fazem questão de nos lembrar que a Yoga é um momento de auto-observação, de acalmar a mente, focando-a em cada postura e na respiração; e que tem como objetivo último manter um corpo sempre saudável e pronto para os longos períodos de imobilidade e meditação.
Não sei se jamais farei os tais longos períodos de meditação, mas desde que comecei a Yoga com esse foco, me sinto mais calma e presente; aprendi a ter controle sobre os dedos dos pés; com foco, tenho a impressão de que consigo contrair ou relaxar cada centímetro de músculo do meu corpo; descobri a importância de usar a minha respiração com inteligência; ganhei uma flexibilidade que jamais achei que teria; consegui endireitar minha postura sem esforço e; por luxo, acho que ainda cresci 1 centímetro (não que eu estivesse precisando).
Foi nesse clima de completo êxtase (era mais ou menos assim que eu estava vivendo desde que consegui abraçar meus pés com as mãos e respirar ao mesmo tempo) que entrei em uma aula experimental com Francisco Kaiut, um professor curitibano criador de um método que leva o seu nome. Como a aula era para apresentar o seu método a professores, ele começou falando da sua experiência de muitos anos estudando a Yoga nos Estados Unidos, onde ela primeiro se popularizou fora da Índia e onde já vem sendo praticada há mais de 40 anos.
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Pela lógica cor de rosa das posturas acrobáticas que em geral ilustram os assuntos relacionados a Yoga, imaginei que escutaria uma lista de outros benefícios ainda não conhecidos por aqui. Mas o que eu ouvi não foi bem disso. Ou melhor, foi o exato oposto. Durante mais de meia-hora, ele falou sobre uma Yoga que foi deturpada e adaptada de forma errada ao corpo e aos hábitos ocidentais, resultando em uma série de lesões e fraturas na maioria dos praticantes e professores.
Uma grande interrogação e um certo desânimo surgiram em mim e mesmo ele tendo apontado algumas soluções para uma prática saudável, no fim do dia, um pensamento havia sido criado. Isso que eu tenho feito e parece tão bom, pode vir a me machucar? Enrolo meu tapetinho e vou procurar uma outra coisa para fazer? Será?
Obviamente que eu não enrolei meu tapetinho, nem fui procurar outra atividade. Em vez disso fui entender melhor o tal Método Kaiut e tirar todas as minhas dúvidas diretamente com o próprio Francisco. Sobre ele e o Método, encontrei duas matérias muito legais que dão uma boa dimensão da sua bagagem e importância no mundo da Yoga e no que consiste o seu método.
A primeira delas intitula-se “Yoga para pessoas que odeiam Yoga” e é um relato muito bem humorado, publicado no Huffington Post, de um homem que tinha horror à Yoga e encontrou a salvação nas aulas do Kaiut.
A outra saiu em março deste ano no Yoga Journal americano com o autoexplicativo título “Rebeldes da Yoga: 5 professores que podem mudar o que você pensa sobre a Yoga”. Isso, um deles chama-se Francisco Kaiut.
De posse dessas informações, conversei com ele. Uma conversa que certamente me ajudou a dar um chega pra lá no enxerido do meu Ego, baixar a bola e afinar ainda mais o foco da minha prática. E claro, deixou um gostinho de: preciso conhecer melhor esse método. 😉

Na aula que você deu aqui em São Paulo, eu fiquei um pouco chocada com o seu relato. Pensei em enrolar meu tapetinho e ir andar no parque. É isso?

Andar no parque é uma boa opção (risos). Veja bem, não é que tem um monte de erros e que foi tudo por agua abaixo. Mas as pessoas têm que entender que a Yoga foi desenhada para ser desenvolvida ao longo de uma vida.
O grande equívoco foi terem transformado a Yoga em fitness. Perdeu-se a conexão com a função das posturas. Uma postura pode demorar 2 ou 3 décadas para ficar pronta. Ela tem que acompanhar o desenvolvimento do corpo.
Mas veja que aqui nos Estados Unidos, já se fala bastante nisso, pois as pessoas estão fazendo Yoga há 30, 40 anos. Em 2012, um artigo publicado no New York Times ficou tão popular que virou livro. Chamava-se “How Yoga Can Wreck Your Body”.
Aqui em Boulder*, existe uma comunidade budista muito grande. São pessoas que estudaram e praticaram Yoga na Índia nos anos 50. Outro dia fui em um jantar festivo e percebi que estão todos muito machucados e pararam de praticar há muitos anos. O erro deles foi pensar que a Yoga era para gente jovem. Enquanto, na verdade, a boa Yoga tem que nos preparar para estarmos saudáveis aos 90 anos.
A Yoga nos moldes ocidentais se perdeu no imediatismo, na velocidade e na busca por um resultado puramente físico. Transformaram posições complexas, com várias funcionalidades e para acessar vários órgãos, em puro alongamento.

Qual é o grande diferencial do Método Kaiut?

Estamos acostumados a imagem do professor de Yoga na frente da sala fazendo as posturas com os alunos. Isso não acontece mais em quase nenhum lugar quando o professor é bom. Dar aula exige que o professor esteja 100% disponível. O professor não pode estar ali para praticar junto.
Treino meus professores para que eles entrem em um processo de meditação ativa, onde eles consigam se conectar com todos os alunos presentes de forma a não perder nada e ser capaz de oferecer mais informação e mais atenção do que o aluno ele está acostumado a receber, mesmo sendo uma turma grande.
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Todos os professores  fazem estágio comigo ou com meus professores mais antigos e eu exijo que eles se tornem capazes de entender cada micro-movimento ou reação do aluno. O professor tem que ser capaz de perceber o que é dor, o que é medo e o que o movimento está despertando em cada um dos alunos.
As aulas também são muito faladas e o professor sempre usa um dos alunos para demonstrar as posturas, assim não se cria uma distância muito grande entre aquilo que ele vai ver e o que vai fazer.
Por fim, acho que conseguimos colocar em uma mesma sala pessoas muito diferentes – corpos, idades, histórias e graus de experiência – e mesmo assim conseguimos customizar a aula para que ela seja igualmente boa e profunda para cada uma delas e com o mesmo grau de conexão entre professor e aluno.

Que dica você dá para as pessoas que praticam Yoga, mas que ainda não têm acesso ao seu método?

Não seja muito sério com a prática, mantenha-se na superfície. Todo mundo faz muito bem por 2 ou 3 anos e depois, na maioria das vezes por contusão, tem que parar. Mas a Yoga e seus verdadeiros benefícios são para a vida toda.
A coisa começa a ficar ruim quando a pessoa deixa de querer ter benefícios e passa a ser bom naquilo. É quando o Ego passa a comandar. Você começa a querer fazer do jeito que você entende, achando-se autossuficiente.
A boa Yoga deve ser construída em uma relação de confiança entre aluno e um bom professor, que entenda que nós temos que focar na última etapa da vida, no momento em que a mente madura precisa de um porto seguro para suporta-la. O Hatha Yoga é isso.

Entendi. E quem são as pessoas que procuram o seu Método?

Na minha temporada aqui nos Estados Unidos ensino umas 100 pessoas por dia. Pelo menos 60% de cada turma têm dor e machucados crônicos, a maioria causada pelo Yoga. E o mais irônico é que são pessoas que estudaram com os melhores. Tem também pessoas que tiram um sabático e me acompanham quando estou aqui, professores e jornalistas. Tem, por exemplo, uma senhora que trabalha comigo e é professora sênior de Iyengar – foi 30 vezes pra Índia encontrá-lo –, mas sofre e hoje está fazendo meu método.
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Sala de aula em Boulder, Colorado.
No Brasil, no começo, a maior parte dos meus alunos eram pessoas que nunca fariam Yoga se não fosse através do meu método, que é terapêutico e muito seguro. Eram pessoas com média de idade superior a 50 anos. Ainda temos muitos alunos com esse perfil, mas com o tempo, as minhas escolas passaram a receber todo tipo de público. A ideia do método é que seja para todos.
*Quando conversou comigo, Francisco estava em Boulder, no Colorado. Todos os anos ele passa uma temporada nos Estados Unidos dando aula e preparando novos professores. Veja aqui.
Onde encontrar o Método Kaiut no Brasil – Já existem 6 escolas Kaiut no Brasil, todas em Santa Catarina e Paraná. Mas ele já está preparando um curso para treinar professores em São Paulo ainda este ano. Confira o site aqui.

Fonte:http://www.nowmaste.com.br/quando-a-yoga-pode-fazer-mal/