JUNG E O ESPIRITUALISMO : PSICOLOGIA E ESPIRITUALIDADE


Jung e o Espiritualismo



Por: Ricardo Chioro

Em diversos sites esotéricos e espiritualistas, vemos artigos de Carl Gustav Jung e da Psicologia Junguiana. No ramo do Espiritualismo, Jung é muito conhecido, inclusive livros de e sobre Jung e sua Psicologia são muito indicados em palestras e estudos espiritualistas.
Vamos ver neste texto o uso, o estudo e as descobertas de Jung com meios Espiritualistas e espirituais como o I-Ching, a Alquimia, os Símbolos, a Intuição, as Mandalas e o Budismo e também algumas de suas vivencias. Jung fez publicações sobre todos esses meios, e na maioria deles, Jung estudou durante muitos anos.

Intuição

Um tema que é espiritual entrou para a Psicologia de Jung, e este tema é a Intuição. Jung falava que a intuição é quando sabemos de algo, sem que aquele saber passe pelos nossos pensamentos; você simplesmente sabe, mas não existe um raciocínio que o leve a conclusão daquilo que você sabe.
No Espiritualismo a intuição está associada ao Chakra Ajna, que é o Chakra da intuição.

Retorno para Deus

Jung dizia que na vida humana existe a busca de um sentido para ela, e que esta busca, é a busca do retorno ao Uno, a Deus. É o retorno, pois a alma saiu de Deus, que a criou, e tem que voltar para o mesmo, e ela clama por esse retorno.
Assim sendo, a psique, vivencia um processo que leva ao crescimento interno, a uma conscientização de ter uma finalidade na psique, que trás o ser humano ao autoconhecimento, chamado por Jung de individuação.
Carl G. J. dizia que para este processo há um arquétipo (uma estrutura psíquica dentro do inconsciente coletivo) centralizador e organizador de nossa vida psíquica, que se possui uma imagem do divino, que é o Self.
O Self é com freqüência figurado em sonhos ou imagens de forma impessoal - como um círculo, mandala, cristal ou pedra - ou pessoal como um casal real, uma criança divina, ou na forma de outro símbolo de Divindade.”( Fadiman e Frager, 2002, p. 56 na ed. Harbra)

Crescimento Espiritual

Com suas pesquisas sobre mitos e simbolismo, Jung desenvolveu teorias próprias a respeito da individuação ou integração da personalidade. Mais tarde, ele se impressionou profundamente por diversas tradições orientais, que forneciam a primeira confirmação exterior de suas próprias idéias, em especial seu conceito de individuação.” ( Fadiman e Frager, 2002, p. 46 na ed. Harbra)
Jung descobriu que as descrições orientais do crescimento espiritual, do desenvolvimento psíquico e da integração, correspondem rigorosamente ao processo de individuação que ele observou em seus pacientes ocidentais.” ( Fadiman e Frager, 2002, p. 46 na ed. Harbra)
Com esse trabalho de Jung na tradição oriental, abriram-se muitas portas, para estas tradições aqui no Ocidente; elas foram mais faladas e mais comentadas, existiram observações científicas, por uma pessoa muito famosa e conceituada, o Jung.
Muitas pessoas da ciência e psicólogos, que não são espiritualistas, acreditam na validade de práticas orientais, como as da Yôga, Meditação e outras, graças a esse trabalho.
O Crescimento espiritual é a pessoa, enxergar seus defeitos, e mudar para não tê-los, enxergar suas qualidades, e mudar, se valorizando e gostando mais de si e enxergar quem os outros são e se modificar para lidar melhor com eles. Para crescer espiritualmente você pode enxergar estas coisas e com isso obter as auto-modificações propostas. Um psicólogo atua para que as pessoas tenham este descobrimento, e as técnicas do Yôga, do Budismo e do I-Ching, estudadas por Jung, levam a isso também.  
Carl escreveu o livro: "Psicologia da Religião Oriental e Ocidental" no qual além de abordar o fenômeno religioso, também trata da religiosidade no Oriente e no Ocidente.

Símbolos

Jung descobriu que o inconsciente se expressa através de símbolos. Ele viu que existem símbolos no inconsciente coletivo (dentro de nós), símbolos religiosos tais como o símbolo do dharma budista, a cruz, a estrela de David entre muitos outros.
Eu procurei a Psicóloga Junguiana Dra. Maria Aparecida Diniz Bressani para me esclarecer sobre este tópico e ela disse: “Para Jung, cada pessoa que nasce, traz consigo como que uma "herança ancestral" de toda a história da humanidade codificada em símbolos.
O ser humano vive, na verdade, simbolicamente, porém, com seu racional desenvolvido (principalmente aqui no ocidente), acabou se afastando do ser divino que há em si (que se expressa por meio de símbolos) e é por isso que ele, atualmente, não consegue compreender a linguagem dos símbolos. 
É preciso saber "ouvir" os símbolos!”.
Obrigado Dra. Maria!
Carl escreveu o livro: "Homem e seus Símbolos". Outro livro dele que também trata de de símbolos é o "Tipos Psicológicos" além de falar sobre religião, mitologia e filosofia.

Mandalas

Jung estudou a mandala e utilizou em seu consultório, assim pode constatar que seus pacientes melhoravam ou relaxavam com o uso da mesma. Ele dizia que a mandala poderiam trabalhar a Psique, atuando para o processo de autoconhecimento do cliente.
Mas claro que existem mandalas especificar para este trabalho, outras atuam em áreas diferentes.
Jung descobriu que as mandalas expressavam conteúdos interiores do ser humano, e no seu estudo das manifestações do inconsciente, seus analisados produziam de forma espontânea desenhos de mandalas, sem saber o que ela é ou o que estavam fazendo, e ele dizia, que isso tende a acontecer com pessoas que possuem um progresso muito grande na sua individuação.
Jung ficou muito interessado no símbolo mandálico taoísta chamado A Flor de Ouro, e dizia que era um material trazido frequentemente por seus pacientes.
A Flor de Ouro é desenhada tanto como um ornamento geométrico regular, ou de cima, ou um borrão crescendo de uma planta. A planta com freqüência nasce da escuridão, possui cores ardentes e tem um botão de luz no topo.
Jung publicou um livro chamado “O Segredo da Flor de Ouro”, junto com Richard Wilhelm.

I-Ching – O Livro das Mutações

Quando Carl G. J. entrou em contato com o I-Ching encontrou relações entre este livro e seus próprios pensamentos.
O I-Ching é um livro usado para respostas de um oráculo, onde se faz uma pergunta e se usa uma técnica com varetas ou moedas com um calculo, que vai indicar aonde no livro a está a resposta para sua questão.
Jung usava este oráculo com seus pacientes. Teve um caso que Jung estava tratando um jovem com complexo de Édipo e o I-Ching respondeu que a jovem é poderosa e não se deve casar com ela.
Através do I-Ching, Jung formulou a teoria da sincronicidade, que diz que paralelos ocorrem entre o mundo mental e material.
Jung também escreveu uma introdução para o I-Ching.
Ele teve uma excelente relação com este oráculo.

Budismo

Jung se interessou pelo Budismo no seu aspecto de lidar com o sofrimento.
No seu trabalho como médico, ele lhe dava com a dor dos outros, e o Budismo lhe serviu para que pudesse lidar melhor com isso já que fala muito no sofrimento.
Para o Budismo, o sofrimento acaba quando atingimos a iluminação. Isso é, quando a pessoa atinge um nível de autoconhecimento muito grande, que algumas pessoas vêm como maximo grau de evolução espiritual, e outros vêem que esse progresso continua mesmo após isso, mas em um outro nível.
Carl mostrava um respeito muito grande pelo Budismo e também estudou símbolos e mandalas Budistas, além de que trouxe uma idéia que é muito similar ao Budismo: Que o ego no processo de autoconhecimento, até a pessoa atingir o nirvana, vai entender sua relatividade, e de que é na realidade uma ilusão.

Alquimia

As pessoas em geral tendem a ver a alquimia como algo pseudo-científico e sem validade. Jung não, ele encontrou nesta tradição ocidental uma maneira simbólica de descrever o crescimento pessoal.
Ele via nas escrituras de metamorfoses mágicas e químicas representações do processo de auto-transformação e auto-conhecimento. A transformação do metal comum em ouro, era para Jung, uma mudança interior, para uma consciência e atitudes melhores.
Com isso Jung também conseguiu muito mais aceitação por parte das pessoas pela Alquimia, que a consideravam uma bobagem.
Muitas pessoas que lêem a Alquimia por Jung acham que a interpretação da simbologia como processo de individuação, substitui como processo de transformação do metal em ouro, mas eu não acredito nisso, acho que ela pode ser tanto a transformação do metal em ouro, como no autoconhecimento; acredito que as duas são verdadeiras.
Jung escreveu os seguintes livros de alquimia: "Psicologia e Alquimia", "Estudos Alquímicos","Mysterium Coniunctionis I" e "Mysterium Coniunctionis II". Estes dois últimos, contendo estudos avançados.

Experiências Espirituais de Jung

Os pais de Jung eram pastores luteranos e desde cedo ele era afetado profundamente por questões espirituais e religiosas.
Quando tinha doze anos de idade, saiu da escola, “viu o sol cintilando no telhado do Catedral, refletiu sobre a beleza do mundo, o esplendor da igreja e a majestade de Deus sentado no alto do firmamento, num trono de ouro” (Fadiman e Frager, 2002, p. 43 na ed. Harbra). Logo em seguida o rumo que seus pensamentos iam tomando era uma linha considerada altamente sacrilegiosa, e no âmbito de repressão religiosa da época eles eram impensáveis, por isso foi algo aterrorizante.
Por vários dias Carl tentou suprimir o pensamento proibido, até que então, se permitiu continuar a sua linha de pensamento, e viu de lá do alto do trono de ouro de Deus sair um coco enorme que caiu em cima do teto da igreja e a despedaçou. Com isso sentiu um aliviou enorme e um estado de graça.
Interpretou a experiência como uma prova enviada por Deus para mostrar-lhe que cumprir seu desejo pode fazer com que a pessoa vá contra a igreja e contra as mais sagradas tradições”. (Fadiman e Frager, 2002, p. 43 na ed. Harbra)
Quando Carl tinha sessenta e nove anos, passou por uma extraordinária experiência, ele quase morreu no hospital por um ataque no coração e se viu flutuando no alto em cima da terra, e ele, então, entrou em um grande bloco de pedra que também flutuava, havia lá um templo escavado e à medida que subia os degraus da entrada do templo, viu que deixava para trás sua história e viu também que era uma grande matriz histórica, que nunca tinha percebido antes.
Mas antes de entrar no templo foi chamado pelo seu médico dizendo que não tinha o direito de morrer.
É interessante, que já vi algumas pinturas sobre Plano Astral Superior, que é o Céu, que alias fica em cima da terra, e essas pinturas pareciam templos e cidades flutuando.
Quando Jung se recuperava do ataque cardíaco, se sentia deprimido e fraco durante o dia. Durante a noite acordava com sentimentos de profundo êxtase, tinha visões noturnas que duravam cerca de uma hora, e, essas visões deram-lhe coragem para formular algumas de suas idéias mais originais.
Quando Jung se curou, entrou em um período muito produtivo, onde escreveu uns de seus trabalhos mais importantes.
Estas experiências mudaram também a perspectiva pessoal de Jung para uma atitude mais profundamente afirmativa em relação ao seu próprio destino”. (Fadiman e Frager, 2002, p. 44 na ed. Harbra)
Aqui vai uma deixa para aquela idéia espiritualista que as coisas não acontecem por acaso, elas acontecem para aprendermos algo.

Bibliografia

Fadiman, James & Frager, Robert. Teorias da Personalidade, Editora Harbra, São Paulo, 2002.
Revista Superinteressante. Ano 20, edição 235, pagina 48. Janeiro 2007.
Jung, Carl Gustav. Os Sermões do Buda.
Na pagina da internet Anseios da Alma e Destino Humano http://www.meiodoceu.com/Jung_1.htm, Claudia Araújo.
Na pagina da internet Mandala http://www.pipa.com.br/mandala/index2.asp, Maria Angela Guerra Barreto e Elsio Van Meegroot.
Na pagina da internet Obras Completas de Carl. G. Jung http://www.salves.com.br/jb-jung.htm Sérgio Pereira Alves.

Fonte:http://www.espiritbook.com.br/forum/topic/show?id=6387740

Psicologia & Espiritualidade – O Ser Humano Integral

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta.” – Carl Gustav Jung, psiquiatra.
espiritualidade
Por Redação.
Longe de ser áreas de conhecimento inconciliáveis, no mundo atual a psicologia e o campo da pesquisa e desenvolvimento da espiritualidade vêm cada vez mais assumindo trajetórias paralelas e complementares.
O  diálogo entre esses saberes fundamentais à existência humana possibilita que se construa um Ser Integral, conhecedor de seu interior, saudável e pronto para o seu caminho místico de descoberta espiritual que o conduzirá a uma vida plena.
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Carl Gustav Jung
Quando o psiquiatra Carl Gustav Jung revelou “A questão não é atingir a perfeição, mas sim a totalidade.” e complementou: “Não preciso ‘acreditar’ em Deus; eu sei que ele existe.”, na realidade, ele deu um passo evolutivo indispensável na escala da compreensão humana – até então sem precedentess na psiquiatria – e na percepção de que o Ser Humano, sua psique, sua existência física e espiritual estão integrados e indissociáveis.
Assim, Jung avançou profundamente no desenvolvimento do trabalho de seu – também brilhante – predecessor, Sigmund Freud, no caminho rumo ao aprimoramento humano. Sem perder o rigor científico, Jung foi capaz de desenvolver na psicologia jungiana a junção entre o estudo físico (da mente) e da metafisica, o que faz de seu trabalho tão contemporâneo.

– No vídeo abaixo, o intelectual, escritor e teólogo Leonardo Boff fala um pouco sobre o estudo da Psicologia Jungiana e a espiritualidade:


Segue abaixo um texto sobre a atuação harmônica e complementar da espiritualidade junto à psicologia:

Psicologia & Espiritualidade – Seus Aspectos

Por Solange Patrício, Patrick Sampaio e Jorge Videira.

Antes de tratar do tema “Espiritualidade e Psicologia”, traremos a definição individual desses dois conceitos. Assim, obtendo essa compreensão, poderemos aprofundar nosso entendimento e diálogo a respeito do tema.
  • Espiritualidade
Dimensão da pessoa humana que traduz, segundo diversas religiões e confissões religiosas, o modo de viver característico de um crente que busca alcançar a plenitude da sua relação com o Transcendente. Cada uma das referidas religiões comporta uma dimensão especifica a esta descrição geral, mas, em todos os casos, se pode dizer que a “espiritualidade” «traduz uma dimensão do homem, enquanto é visto como ser naturalmente religioso, que constitui, de modo temático ou implicito, a sua mais profunda essência e aspiração» (Ref. George Brown – “Spirituality: history and perspectives”).
Espiritualidade é um estado de consciência; é reconhecer em si a Vida, e a mesma Vida em tudo e em todos. É consciência não-condicionada pela mente. É consciência livre da mente, para ser o que é: não aquilo que pensamentos e crenças dizem ser.
As palavras em um ensinamento espiritual apenas apontam para o estado de consciência essencial do ser humano.
Alcançado esse estado de consciência, o ser humano vive a vida na Terra a partir dessa liberdade, expansividade e mestria sobre a realidade interna e externa, pois está alinhado com a essência daquilo que o criou: a vasta inteligência criativa que permeia e dá Vida a todo o Universo.
  • Psicologia
É a ciência que estuda os processos mentais (sentimentos, pensamentos, razão) e o comportamento humano e animal (para fins de pesquisa e correlação, na área da psicologia comparada). Neste ponto é necessário uma informação importantíssima: o corpo e a mente não são separados, quando se fala que o estudo se dá pelo viés da mente e/ou pelo viés do corpo, é necessário informar que essa é uma elaboração teórica, já que existem estudos, com grande comprovação ao longo dos tempos, que mostram a influência de um sobre o outro. Para estes fins, há vários métodos, como a observação, estudos de caso, estudos em neuropsicologia entre outros estudos multidisciplinares.
Outro objeto de estudo da psicologia são as personalidades inadaptáveis com comportamentos desviantes, chamados de psicopatologia. Como dito, a partir do pressuposto básico que existe um monismo – e não um dualismo como Descartes apregoou – este ramo do conhecido tem seus estudos voltados a esse axioma principal. Entre outras atuações que esta ciência permite ao profissional da área, estão a explicação dos mecanismos envolvidos em determinados comportamentos, assim como preveni-los e modifica -los.
Cabe à psicologia estudar questões ligadas à personalidade, à aprendizagem, à motivação, à memória, à inteligência, ao funcionamento do sistema nervoso, e também à Comunicação Interpessoal, ao desenvolvimento, ao comportamento sexual, à agressividade, ao comportamento em grupo, aos processos psicoterapêuticos, ao sono e ao sonho, ao prazer e à dor, além de todos os outros processos psíquicos e comportamentais não citados.

Espiritualidade x Psicologia

meditacao-mantra-espiritualidade-relaxamento-namaste-1326461413771_956x500Com freqüência, é dito que a busca pela espiritualidade, tão presente nos dias de hoje, é mérito das exigências da vida moderna que diante de tantas solicitações distancia o homem de si mesmo. De certa forma, isto é verdadeiro, principalmente para nós ocidentais que somos compelidos às benesses do externo em detrimento de uma maior reflexão sobre o sentido da vida.
Mas, por outro lado, a busca e rituais ao Sagrado sempre estiveram presente no homem nas diferentes épocas e culturas. Talvez o que se observe mais no presente é um interesse da ciência em discutir os temas espiritualidade e religiosidade, atitude até então não comum, já que a própria ciência havia estabelecido um distanciamento. E esta aproximação é liderada pela física que, partir da mecânica quântica, traz um novo conceito de universo.
Na área da psicologia também havia um entendimento da espiritualidade como um comportamento primitivo, um estado regressivo, sublimação da sexualidade ou fuga. Mas a psicologia analítica de Carl Jung reintroduziu a espiritualidade como aspecto integrante em todo ser humano.
O inconsciente na visão junguiana tem também uma função prospectiva, transcendente, criativa, transformadora religiosa e espiritual. Para Jung, o sentimento religioso seria essencial ao ser humano, constituiria uma função natural e sua ausência deixaria a psique incompleta, comprometendo o seu equilíbrio. Ele afirmava que todos os pacientes adultos (com mais de 35 anos) que o procuravam tinham na raiz dos seus problemas a questão religiosa, no sentido de um significado para sua presença neste mundo.
Para a psicologia analítica, a vida é teleológica, ou seja, tem um sentido. A busca, portanto, para o autoconhecimento é fundamental. Assim, o desenvolvimento psicológico leva progressivamente para além do ego, para o Self. Este é entendido como o centro maior da personalidade, a representação da divindade interior que guia todo o desenvolvimento do ego. Ou dito de outra forma, é a dissolução da falsa visão do ego, de suas identificações e de seus falsos objetivos e substituída pela consciência de que o ser humano é maior do que acredita ser.
O-que-é-a-psicanáliseO objetivo da psicoterapia junguiana não é só a cura do sintoma e adaptação da personalidade, mas sobretudo a transformação espiritual, a auto-realização e a experiência de plenitude do lado transcendente da vida.
Jung mostrou que o desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento psicológico fazem parte do mesmo processo. Não existe desenvolvimento psicológico sem o correspondente desenvolvimento espiritual. E os dois caminhos levam ao desenvolvimento do sentido ético da vida.
Também a psicologia transcendental (além do pessoal), considerada a quarta força da psicologia, dá ênfase à dimensão espiritual do indivíduo, que vê como uma finalidade do desenvolvimento humano. A psicologia transcendental estabeleceu um mapeamento da psique mais abrangente, incluindo os vários níveis de consciência. Em cada nível de consciência podem ser percebidos aspectos da realidade correspondente do estado de consciência. Essa compreensão incentiva o desenvolvimento progressivo e evolutivo da consciência em direção aos estados superiores e transcendentes. Ela tenta unir o conhecimento atual da ciência do Ocidente com a sabedoria do Oriente.
Na realidade, tanto a psicologia analítica como a psicologia transpessoal consideram a experiência do Sagrado como intrinsicamente terapêutica e integradora. Assim, a psicologia já vem colaborando no sentido de não só aproximar, mas inserir a dimensão espiritual na visão de um homem integral.
Se a mente humana fosse resultado apenas das reações físico-químicas do cérebro, a Psicologia não precisaria existir. Da mesma forma, se os psicólogos esquecerem que o ser humano possui uma essência própria, e se detiverem apenas a leituras de comportamentos, seu trabalho será incompleto e de poucos resultados.
Por que não se pode conceber que o ser humano possui espírito? Chame-o de mente, de self, se quiser, mas ele está ali, sendo responsável pela individualidade de cada um. Cada ser é único, dessa forma, qualquer tipo de massificação de conceitos sobre a personalidade humana será falho, e esse é o maior desafio da Psicologia.
Como compreender algo que não se pode conhecer? Por que os psicólogos não podem conceber a possibilidade de uma alma, um espírito?
Simples. Porque automaticamente voltaria-se a subjetividade de pseudociência, uma vez que falar em espírito ou alma, significa considerar os aspectos controversos da religião. Perderia-se o crédito científico, e qualquer coisa que se afirmasse a respeito teria de ser aceita como uma possível verdade, pois diversos seriam os parâmetros.
Todavia, de que vale uma ciência, em construção limitada?
Pois é isso que vêm acontecendo com a Psicologia. Ela trilha um caminho inversamente proporcional ao seu objeto de estudo.
Enquanto o ser humano vêm, a cada dia, expandindo suas potencialidades, a Psicologia caminha a passos curtos, como que temerosa. É óbvio que não se pensaria numa Psicologia Mística, e sim num estudo sério sobre o espírito humano, algo que muitos pesquisadores já estão fazendo, afinal o ser humano é Corpo e Mente, ou Matéria e Espírito. Nas tradições orientais essa concepção de um homem integral é bastante conhecida e assimilada desde cedo. O equilíbrio do corpo depende da ação do espírito. A dimensão espiritual tem para a abordagem transpessoal um aspecto central e não periférico na vida humana, envolvendo todas as funções psicológicas como a cognição, percepção, emoção e vontade, promovendo o bem estar físico, social e mental.
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É comum buscarmos rapidamente as alturas do Espírito, dando pouca importância à nossa Personalidade. Porém, um estudo e uma percepção mais aguçada, que vai surgindo conforme vamos tentando trilhar o caminho desta forma, nos mostra que não conseguimos chegar ao Espírito sem passar pela Personalidade. Apenas nos resolvendo no imanente podemos almejar o transcendente. Ou, para viver o sagrado, precisamos viver antes o profano em sua plenitude.
Segundo a espiritualista e psicóloga inglesa Dion Fortune (1890-1946), poderíamos dividir nosso ser em três partes, nesta ordem: Corpo – Personalidade (Alma) – Espírito (1). Nossa Consciência encontra-se encerrada no Corpo. No trabalho espiritual, tentamos elevá-la às alturas do Espírito. Mas o esquema acima mostra que a Personalidade encontra-se no meio caminho entre o Corpo e o Espírito. Não apenas é a ponte entre a Consciência e o Eu Superior (que encerra-se no Espírito), como também age como um filtro.
A Personalidade filtra a experiência que desce do Espírito para o Corpo/Consciência. Se o filtro estiver sujo, a experiência do Espírito chegará à Consciência deturpada, ocasionando desequilíbrios em nosso ser. Dizer que o filtro está sujo quer dizer que a Personalidade está desequilibrada. Ora, desequilíbrios na Personalidade, todos temos, em maior ou menos escala. Daí a importância de trabalharmos psicologicamente para podermos trabalhar espiritualmente. Das condições da nossa Personalidade é que dependem se a experiência espiritual virá para nos redimir ou para nos condenar (quantos de nós não conhecem pessoas que, ao se dedicarem à espiritualidade, ficaram piores do que estavam, ao invés de melhores?).
Sendo o trabalho psicológico tão fundamental para o trabalho espiritual, penso que escapar do primeiro é, na realidade, fugir do segundo. É iludir-se com nada além de sombras do que realmente seja espiritualidade. Falando de experiência pessoal, o que tenho percebido é que, se não trabalho psicologicamente, os resultados que obtenho com o trabalho espiritual são falsos resultados. Enquanto que se o faço o trabalho psicológico, isto me abre portas no espiritual.
Isto não quer dizer que não possamos nos dedicar à Espiritualidade enquanto não estivermos completamente resolvidos psicologicamente (seria muito utópico). Mas que o trabalho psicológico e o espiritual devem se dar paralelamente. O trabalho espiritual sempre auxilia o espiritual. O espiritual, se levar em conta o trabalho psicológico, também pode ajudá-lo. Então, a pergunta que sempre devemos nos fazer é: “o trabalho espiritual que faço está me ajudando a me resolver psicologicamente ou está me fazendo fugir dele?” A resposta desta pergunta determina se estamos trilhando nosso caminho corretamente. Ou, se este é um “caminho com coração”.
*Solange Patrício – Psicóloga, Patrick Sampaio – Psicólogo e Professor, Jorge Videira – Teólogo e Professor.
Fonte:https://angelussite.wordpress.com/tag/carl-gustav-jung/