CONTRA O EXTREMISMO ISLÂMICO,UMA REVOLUÇÃO

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No norte da Síria, curdos criam região autônoma, 
governam por meio de conselhos e mobilizam, 
contra terror do IS, exército popular com forte
 presença de mulheres 

Contra extremismo islâmico, uma revolução


Há semanas, a cidade curda de Kobanê, em Rojava (curdistão sírio), tem sofrido severos ataques do Estado Islâmico (IS). Os ataques começaram no dia 15 de setembro, quando milhares de combatentes  do IS, apoiados por dezenas de tanques e artilharia pesada, se dirigiram em três frentes a Kobanê. Até agora, o IS obrigou milhares de curdos sírios a se retirar de suas casas nas aldeias vizinhas e buscar refúgio em Kobanê ou do outro lado da fronteira, na Turquia.
Graças à corajosa resistência dos curda Forças de Defesa do Povo e das Mulheres (YPG e YPJ), o IS foi incapaz de entrar na cidade. O presidente do Partido da União Democrática (PYD), Salih Muslim, afirmou com muita confiança: “Eu conheço o povo de Kobanê muito bem. Algumas aldeias podem ter sido derrotadas, e retiradas em massa podem acontecer. Eles podem até fechar a cidade. Mas Kobanê nunca vai cair. Para Kobanê cair, todo mundo tem que ser morto”.



Por mais terrível que pareça, pode ser isso, exatamente, o que o IS planeja. Até porque foram justamente as forças do YPG e YPJ, juntamente com guerrilheiros experientes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que quebraram o cerco de Sinjar no Iraque, onde milhares de Yezidis sofreram um massacre nas mãos do IS. Agora os jihadistas podem considerar o momento ideal para a vingança.
Mais preocupantes, ainda, são os relatos de possível apoio turco aos combatentes islâmicos. Mesmo que a Turquia negue categoricamente todos os vínculos com IS, coincidentemente dias antes da liberação de 49 reféns turcos, moradores turcos da região observaram a movimentação de trens, tanques e munições em áreas controladas pela IS — o que despertou a atenção dos observadores críticos da situação.
Kobanê sob ataque
Esta não é a primeira vez Kobanê sofre ataque do IS. No início de julho, depois de o IS capturar Mosul, os jihadistas usaram armas pesadas, que tomaram do exército iraquiano, para sitiar Kobanê. Depois de vários dias de combates, e centenas de baixas entre as fileiras do IS, o grupo terrorista aceitou a derrota diante das forças de defesa curdas.
De todo modo, a cidade de Kobanê é importante para ambos os lados, tanto em termos estratégicos quanto simbólicos. Situada perto da fronteira com a Turquia, a menos de duas horas de carro ao norte de Raqqa, capital do Estado Islâmico, Kobanê esteve na lista dos objetivos islâmicos por um longo tempo. Conquistar a cidade significaria dividir em duas a Rojava — região no norte da Síria predominantemente povoada pelos curdos, também conhecida como “Ocidente Curdistão” – e assegurar, em favor do IS, o importante controle sobre um trecho da fronteira com a Turquia, tornando ainda mais fácil receber suprimentos do exterior e adesão de jihadistas estrangeiros.
Além disso, a derrota anterior do IS pelas forças curdas da Síria em ambos locais, Kobanê e Sinjar, foi interpretada como um tapa na cara dos jihadistas. Especialmente, o fato de que quase um terço das milícias curdas serem constituídas por mulheres tem servido para envergonhar os islamitas radicais — que preferem ver mulheres cobertas de túnicas pretas da cabeça aos pés, ao invés de despidas de véu, independentes e empoderadas por um fuzil AK-47 em suas mãos.
O último fato importante que coloca Kobanê no topo da agenda do Estado Islâmico é o fato de que foi neste lugar que começou a Revolução Rojava em 19 de julho de 2012. Então, a cidade foi libertada das forças de Bashar Assad e tornou-se o lar de Revolução Democrática Popular. Nessa luta, os curdos da Síria declararam sua autonomia em relação ao Estado e estão em continuo trabalho de desenvolver assembleias democráticas e populares em prol do confederalismo como um meio para se governar.
O papel da Turquia
Apesar da urgente situação em Kobanê, outra questão tem dominado as manchetes dos meios de comunicação controlados pelo Estado na vizinha Turquia. Em 20 de setembro, 49 funcionários do consulado turco em Mosul foram libertados, depois de terem sido sequestrados pelo IS em 11 de junho, quando o grupo terrorista invadiu a cidade.
Nos meios de comunicação turcos, a Organização Nacional de Inteligência (MIT) e o Ministério das Relações Exteriores estão cobertos de glória por seus papéis na libertação dos reféns. Mesmo que o presidente Erdoğan pessoalmente negue qualquer especulação sobre um acordo firmado com o IS, observadores críticos questionaram as relações da Turquia com a organização terrorista e seu papel no ataque a Kobanê.
Quase não é segredo que a Turquia tem sido um defensor secreto de longa data do IS. Contudo, como um dos principais aliados dos Estados Unidos na região, o governo turco escondeu este apoio até quando o cenário tornou-se tenso no Iraque. Tanto a Turquia quanto outros membros da NATO viram inicialmente a organização islâmica como um aliado importante na guerra por procuração para derrubar o regime sírio de Assad. Nem o fato de as ações do grupo serem orientadas por um fundamentalismo extremo, semelhante ao da Al Qaeda foi suficiente para que a Turquia cortasse seus laços com IS.
Pelo contrário, parte dos milhares de combatentes estrangeiros que engrossam as fileiras da IS entrou na Síria cruzando ilegalmente a fronteira da Turquia. Há relatos de que soldados feridos do IS foram tratados em hospitais turcos, além de que o petróleo do território controlado pelo IS é contrabandeado para a Turquia e vendido, com o reconhecimento das autoridades locais, no mercado negro.
À luz dos ataques em curso sobre Kobanê, circulam rumores persistentes sobre um apoio mais direto da Turquia para o IS. A Firat News informou que um dia antes do início do ataque, em 14 de setembro, milhares de membros do IS foram levados para a fronteira em ônibus, e autorizados pelo exército turco a entrar na Síria. Um cidadão local relata: “As milícias do IS trazem pessoas e armas através da fronteira, sob supervisão do exército turco. Temos assistido isso muitas vezes. Nesta ocasião, foi um dia antes de os ataques começaram. “
Autonomia em Rojava
Por que a Turquia se preocupa com a população curda na Síria? A explicação mais provável é que a Turquia teme muito menos os próprios curdos sírios do que suas conquistas. A revolução social em Rojava tem servido como luz de esperança para milhões de curdos na região, cuja terra natal tradicional foi retalhada e dividida entre Turquia, Síria, Iraque e Irã no Acordo Sykes-Picot, de 1916.
A Carta do Contrato Social, que funciona como uma Constituição para os três cantões autônomos em Rojava, deixa pouco espaço para discussão quando se trata da relação entre as pessoas e o Estado: “[A Carta] protege os direitos humanos e liberdades fundamentais e reafirma aos povos o “direito à autodeterminação“. Isto, obviamente, representa insulto e injúria para o Estado turco, que trava há décadas uma guerra de décadas contra o Partido Comunista do Curdistão (PKK). Anteriormente separatista, esta organização abandonou recentemente a luta armada e já não exige a independência para o Curdistão — mas alto grau de autonomia para os curdos que vivem dentro das fronteiras do Estado turco.
As ligações estreitas entre o PKK e o povo do Curdistão sírio vêm de longa data. Foi aqui que o fundador e atual líder do PKK, Abdullah Ocalan, procurou refúgio, no final de 1990; e foram remanescentes do PKK na Síria que fundaram o Partido de União Democrática (PYD) em 2003. Aos olhos da Turquia, o PYD nada mais é que um ramo sírio do PKK, tratado como tal.
No ano passado, quando o governo da Síria tirou suas forças de Rojava, para reforçar as tropas que sitiavam Aleppo, o PYD declarou que estava pronto para governar a região. Então, o primeiro-ministro turco Erdogan (agora presidente do país) declarou que não aceitaria a criação de uma “estrutura terrorista” na região. Ao afirmar que um enclave curdo separatista seria uma ameaça direta aos interesses e segurança da Turquia, ele acrescentou: “É nosso direito natural para intervir (no norte da Síria), pois essas formações terroristas irão perturbar nossa paz nacional”.
A estreita relação entre os curdos na Síria e na Turquia, não existe apenas na imaginação de Erdoğan: é parte muito importante das realidades cotidianas das populações que vivem na região. As fronteiras arbitrárias desenhadas nos primeiros anos do século 20 dividiram tribos e famílias, que de repente viram-se vivendo em lados diferentes das fronteiras nacionais recém-criadas. No entanto, devido ao difícil acesso às regiões montanhosas da fronteira, os curdos locais, com conhecimento íntimo das vias secretas para além da fronteira, continuaram a viver suas vidas onde enxergavam o Curdistão.
Por estas razões, os curdos do sudoeste da Turquia ainda sentem-se intimamente ligados a seus parentes no norte da Síria. A solidariedade entre os dois grupos já era evidente, quando centenas de homens e mulheres jovens cruzaram a fronteira para a Síria, há dois meses, durante o primeiro ataque do IS em Kobanê. O mesmo processo repetiu-se nos últimos dias.
Para auxiliar a resistência, Öcalan apelou ao povo curdo para iniciar uma mobilização em massa contra o IS: “Em relação aos ataques do IS, todos os nossos povos devem moldar sua vidas de acordo com a guerra que se intensificou no Curdistão, neste exato momento. Não só a população de Rojava mas também os moradores do Norte e de outras partes do Curdistão devem agir em conformidade”, disse ele.
Ativistas curdos que protestaram na fronteira, contra a suspeita de envolvimento turco com os eventos em Kobanê, foram atacados por forças de segurança com canhões de água e gás lacrimogêneo.
Apoiar os curdos
Embora o avanço do IS tenha sido refreado, ou mesmo interrompido em várias frentes pelas forças do YPG / YPJ, Kobanê e o resto de Rojava ainda estão sob ameaça iminente de serem massacrados pelos combatentes islâmicos radicais. Os recentes bombardeios praticados pelos EUA e seus aliados posicionados na Síria pode oferecer algum alívio àqueles que defendem a cidade, especialmente após os ataques aéreos durante a noite, aparentemente realizados pelo IS nas proximidades do território de Kobanê. Mas o que realmente os curdos precisam agora é o reconhecimento internacional de sua posição única como uma entidade autônoma, bem como fontes de financiamento e armas em seu apoio.
Enquanto a comunidade internacional permanecer em silêncio sobre o suspeito apoio da Turquia ao IS, só aumentará sua cumplicidade com crimes cometidos contra o povo curdo. O avanço do IS não pode ser interrompido por meio de ataques aéreos e condenações diplomáticas. Pelo contrário, faz-se necessário cortar seus vínculos fundamentais de articulação (isto é o afluxo de novos recrutas e apoio financeiro de material a partir de países da região), e derrotá-lo militarmente. Em ambos os casos, a Turquia e os curdos terão um papel fundamental a desempenhar. A Turquia precisa encerrar qualquer tipo de apoio velado ao IS. Os curdos precisam estar armados e apoiados, pois só assim conseguirão enfrentar as as forças extremistas que espalham o terror no Oriente Médio.
Por Iskender le Verink*, RoarMag | Tradução João Victor Moré Ramos

*Iskender le Verink é um escritor freelance que vive em Istambul, e um dos editores da ROAR Magazine. Você pode segui-lo no Twitter via @Le_Verink.

Fonte:http://outraspalavras.net/posts/contra-o-extremismo-islamico-uma-revolucao/

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