VAMOS NOS ABRAÇAR DE DENTRO PARA FORA

Vamos nos abraçar de dentro para fora


Às vezes, eu paro e penso por que comecei a escrever. Sim, por quê? Não tem nada a ver com a minha profissão, ocupa parte do meu tempo e me deixa constantemente nesse estado de inquietação. Mas, então, percebo que nunca mais fui a mesma desde que passei a trilhar o meu caminho com as vírgulas e as palavras. E sei, também, que ainda estou engatinhando nessa jornada por entre versos e parágrafos, e sinto que é uma ida sem volta, porque eu não consigo mais parar.
Desde que comecei a escrever, tenho percebido o quanto os sentimentos são universais e estão interligados e como precisamos uns dos outros para continuarmos nessa caminhada ainda tão cheia de perguntas que compõem o aprendizado do nosso dia a dia.
Eu comecei a juntar as palavras que me surgem através das coisas que leio, sinto, vivo e vejo em mim e nas outras pessoas. E isso tem sido tão transformador que até as emoções trancadas aqui dentro, aquelas que muitas vezes não queriam sair de jeito nenhum, começam a fluir pelas pontas dos meus dedos sem que eu perceba.
Além disso, essa viagem pela escrita tem me levado a momentos anteriores da minha vida que eu não compreendia, mas que me marcaram. Como certo dia, anos atrás, quando eu ainda morava em São Paulo e acordava cedinho para atravessar a cidade e seu trânsito caótico até chegar depois de uma hora num Centro de Saúde Público onde trabalhava no seu ambulatório.
Naquele dia, depois de ter atendido vários pacientes por quase 5 horas sem parar, segurando a vontade de ir ao banheiro, chorando por dentro sem saber se o que mais doía era o meu joelho pelo esforço nos treinos de corrida ou o meu coração por mais uma tentativa de relacionamento que já tinha acabado sem mal ter começado, eu chamei para a consulta o último paciente da manhã.
Era um senhor muito idoso, de jeito simples e o olhar perdido. Ele entrou sozinho, falou baixinho, esperou por mim. Minha alma doeu mais ainda ao vê-lo daquele jeito, então eu quis saber onde estavam os seus parentes. Era viúvo, os filhos moravam longe, não via os netos, não tinha vizinhos para conversar.
Minha vontade de chorar era tamanha que eu não sabia se era pelas suas dores ou pelas minhas, e eu ainda tinha uma dura jornada de plantão no Pronto Socorro me esperando, em que novamente não teria tempo para o almoço, para então depois chegar em casa e ir dormir tarde da noite e começar tudo de novo no dia seguinte.
Eu pedi para ele não ficar tão triste e ter paciência. Porque, às vezes, as coisas podem não estar do jeito que nós gostaríamos, mas uma hora elas melhoram, e o que não podemos nunca é perder a esperança. Então, o encaminhei para um geriatra.
Mas, aí vem a vida e nos surpreende com o mais inesperado. Enquanto eu fazia a sua carta de encaminhamento, aquele senhor discreto levantou-se de sua cadeira, deu a volta em minha mesa, ergueu-me pelo braço e abraçou-me como há tempos não devia abraçar alguém.
Foi um dos abraços mais emocionados que eu já recebi na vida. E hoje, escrevendo essas recordações, pensando naquele senhor que eu nunca mais vi, jogo essas palavras ao vento esperando que elas abracem a quem precise falar mas não consegue, a quem precise chorar mas se represa e a quem ainda não sabe por onde começar para se encontrar ou para seguir adiante, como algumas vezes eu não sabia antes de ter começado a escrever.
Porque, às vezes, nós só precisamos de ouvidos acolhedores para desafogar as nossas dores e de braços sinceros que nos confortem em nossas inseguranças. Como naquele dia em que eu prontamente ouvi o desabafo de uma solidão e fui honestamente abraçada.
E, ainda hoje, ele continua me abraçando, de dentro para fora, quando eu transformo os meus sentimentos em palavras.
Por isso, nunca devemos abandonar a nossa fé, mesmo naqueles momentos em que pareça inacreditável haver esperança. Acreditando, é possível ler o poema alegre dessa vida que anda se apagando pela miséria e pela doença ou pelo medo da morte e da solidão.
Sim, encontraremos a nós mesmos e a nossa poesia em todas as vezes que nos abraçarmos de dentro para fora.

Por Rebeca Bedone

Fonte:http://www.revistabula.com/3176-vamos-nos-abracar-de-dentro-para-fora/