NEM TUDO QUE É OCULTO É ESPIRITUAL



Nem Tudo Que é Oculto é Espiritual


 
Por Que a Teosofia Descarta os Siddhis Inferiores
 
 
Carlos Cardoso Aveline
 
 
 
A teosofia inclui um enfoque científico e
experimental da caminhada do espírito. Ela
respeita os processos místicos autênticos,
 mas denuncia a mistificação, a falsificação
e o abuso da credulidade humana.
 
Os três textos a seguir, o primeiro dos
quais está escrito em forma de diálogo,  
foram publicados inicialmente sem indicação
de nome de autor no boletim mensal “O
Teosofista”, em sua edição de Julho de 2009.


 
1. Deixando de Lado a Pseudoespiritualidade
 
Estudante A:
 
O que a teosofia diz sobre chacras? 
 
Estudante B:
 
H.P. Blavatsky e os Mestres pouco ou nada ensinaram sobre chacras. A teosofia original ensina sobre os sete princípios,  e a compreensão dos chacras fica implícita. Há poucas menções a kundalini na teosofia original, embora elas existam. O motivo deste silêncio sobre chacras é que a prioridade está no autoaperfeiçoamento interno, e evita-se a manipulação de energias que podem ser sutis, mas não são espirituais. Os siddhis inferiores desviam do Caminho, como vimos no caso da pseudoteosofia de Adyar. 
 
Estudante A:
 
O que são siddhis inferiores?

Estudante B:
 
Siddhis inferiores são os poderes psíquicos (clarividência, telepatia consciente, clariaudiência, etc.), quando exercidos pelo eu inferior, nos planos inferiores de consciência e com objetivos do eu inferior. Quem não compreende que o ser humano tem duas almas -  uma mortal e inferior e uma imortal e superior -  tem pouca chance de superar o ocultismo inferior, com seus objetivos pessoais, financeiros, de orgulho, etc.

A alma imortal e altruísta, que não  busca ganhos para si, é descrita lendariamente nas vidas de Buddha, Jesus e São Francisco de Assis, entre outros. Quem não adota o desenvolvimento desta consciência superior como sua meta, ou usa um discurso altruísta como fachada externa,  não  tem acesso às energias realmente espirituais. Algumas destas pessoas ficam fascinadas com o que chamam de “as energias”, e começam a manipular coisas  que não conhecem. Mas a vida do eu superior nada tem a ver com tais malabarismos.
 
Estes temas “espetaculares” - chacras, clarividência, poderes - funcionam como meios de alimentar a vaidade “espiritual” e de parecer que se é mais evoluído do que outras pessoas. Ou como fogos de artifício para ganhar dinheiro.
 
Estudante A:
 
Isso me faz lembrar da passagem do Novo Testamento em que Jesus expulsa os mercadores do templo a golpes de relho. O trecho está em Mateus, 21: 12-13.
Estudante B:
 
O exemplo é correto. Por acaso nós poderíamos imaginar  o Jesus dos Evangelhos cobrando pelas suas curas?  Seria possível imaginá-lo multiplicando os pães e cobrando um “preço especial” por eles? O único personagem que ganhou dinheiro com os eventos narrados pelos Evangelhos foi Judas, e ele enforcou-se pouco depois de receber as suas 30 moedas. São Francisco de Assis expulsava terminantemente da sua “Ordem dos Frades Menores” quem sequer ACEITASSE dinheiro.  Mahatma Gandhi nada tinha de seu. Os principais fundadores do movimento teosófico levaram vidas extremamente modestas.
 
O ser humano tem  sete princípios. Todo o treinamento esotérico autêntico passa por reduzir as energias dos quatro princípios inferiores e colocá-las a serviço dos três princípios superiores. “É morrendo que se nasce para a vida eterna”, ensinou São Francisco. E, segundo a raja ioga oriental, não é sequer pensável para um discípulo, ou para um aspirante ao mais humilde grau de discipulado autêntico, buscar poderes psíquicos para si. Se ele  porventura tiver algum poder, sem que o tenha buscado, não buscará tirar qualquer vantagem pessoal desse fato.  Nem se menciona ganhar dinheiro com isso. No entanto, obter dinheiro através de curas “espirituais” é a meta do Reiki,  algo que H.P.B. qualifica, basicamente, como magia egoísta.   

Cabe acrescentar algo do contexto brasileiro. O jornal mensal tabloide “Essência Vital”, do RJ, publicou em sua edição de agosto de 2001 um texto de duas páginas de Franklin Matos intitulado “Reiki: Verdades, Mentiras e a Ganância Humana por Muito Dinheiro!(pp.  10 e 11) O texto faz um inventário rigoroso e bem documentado sobre a queda ética vertical do reiki, transformado em meio de ganhar dinheiro facilmente, com “profissionais” misturando práticas e adotando procedimentos sem critério.
 
Estudante A:
 
Obrigado, isso é revelador. No entanto, sabemos que a saúde e a doença são amplamente astrais e em última instância incluem a relação da alma mortal com a alma imortal. Onde fica, então, a linha divisória exata entre “curas físicas” e “curas mentais”?
 
Estudante B:
 
Fizemos acima uma distinção entre “curas físicas” e  “curas mentais”. Os médicos homeopatas explicam que a homeopatia produz a cura por um processo “quase material”. É interessante deixar claro que consideramos curas físicas aquelas curas iniciadas por um ato físico, como ingerir uma substância homeopática, ou qualquer outro ato fisico; e que curas mentais são aquelas iniciadas por um ato mental do terapeuta.

Todas elas vão acabar atuando sobre o segundo princípio, prana.  Porém, vale a distinção pela origem física ou mental. Um exemplo mais: há um ásana (um exercício)  em ioga que é específico para estimular a vitalidade, ou prana, o segundo princípio.  Mas é um ásana físico, evidentemente.
 
É claro que a saúde e a cura são temas inseparáveis da teosofia. A filosofia esotérica talvez possa ser definida como uma cura da alma mortal,  provocada pela influência ampliada da energia positiva da alma imortal. A médio e longo prazo, a saúde da alma é um fator positivo para a saúde do corpo. Mas o mais importante é remover as causas do sofrimento. 

Estudante A:
 
Hoje a ioga é popular. Qual é a posição da teosofia original em relação à Hatha Ioga?
 
Estudante B:
 
A “hatha ioga” indiana do século 19  é nitidamente criticada e condenada na literatura dos Mestres e de HPB. Porém, a hatha ioga indiana no século 19 se caracterizava pela retenção de respiração e pelo despertar dos siddhis inferiores. A “ioga” ou “hatha ioga” que se pratica hoje no Brasil é uma versão mais simples e ocidental da Hatha Ioga tradicional indiana, da qual fala HPB. Os ásanas em si  (as posturas, a ginástica psico-física), fazem parte da Raja Ioga. Eles também são usados no Oriente na tradição da ciência esotérica, da qual faz parte da filosofia teosófica. Os Mestres que estão na fonte de inspiração interior do movimento teosófico autêntico são, na verdade, raja-iogues.  

Assim, para efeitos de manter a saúde, não há problema algum em praticar a  “ioga” simples e popular de hoje,  entendida como ginástica com um grau de concentração mental, sem retenção de respiração e sem desenvolvimento das funções sensitivas do eu inferior. Um tal desenvolvimento seria prejudicial ao despertar prático da consciência do eu superior.
 
Os exercícios simples e moderados de ioga física são uma prática que desintoxica o corpo e a mente. Eles dão flexibilidade ao corpo físico e produzem um grau de autocontrole, colocando o corpo físico mais claramente a serviço do que realmente interessa.  Os ásanas ou posturas físicas  da ioga também são mencionados na obra clássica de Raja Ioga, os “Aforismos de Ioga” de Patañjali.  H.P.B. sempre elogiou com ênfase nas páginas das suas revistas as boas versões dos Ioga Sutras de Patañjali. Vários colaboradores dela, entre eles William Judge,  promoveram diretamente a publicação de versões da obra de Patañjali.

2. Para Investigar os “Poderes Latentes”
 
Os dois primeiros objetivos do movimento teosófico moderno são: 1) A formação de um núcleo da fraternidade universal; 2) O estudo das escrituras sagradas e filosóficas orientais. O terceiro objetivo do movimento é o mais interno, e talvez seja o mais complexo. Nos parágrafos iniciais do capítulo 3 de “A Chave para a Teosofia”,  H.P. Blavatsky descreve da seguinte maneira o terceiro objetivo:  

Investigar em todos os aspectos possíveis os mistérios ocultos da Natureza, e os poderes psíquicos e espirituais latentes no homem, especialmente.”

Aqui estão mencionados lado a lado os perigosos poderes “psíquicos”, do eu inferior, e os poderes “espirituais”, que são confiáveis porque pertencem ao eu superior. O terceiro objetivo do movimento propõe ir além das aparências e transcender o egoísmo “espiritualizado”, para alcançar gradualmente uma percepção do mundo em sua essência dinâmica e universal, que é oculta aos cinco sentidos e que o eu inferior não pode compreender plenamente.

Como se pode investigar de modo correto os poderes potenciais da alma humana, sem cair nas armadilhas do plano astral e ilusório? Uma chave, sugerida nas Cartas dos Mahatmas, parece estar em habituar-se primeiro a usar corretamente os poderes que já estão desenvolvidos. Entre os poderes que todo indivíduo tem a seu dispor e que deve aprender a utilizar corretamente estão:

1) O poder de buscar a verdade;
2) O poder de pensar e compreender;
3) O poder de querer e usar a vontade;
4) O poder de tomar decisões responsáveis em relação à vida; 
5) O poder de falar e escrever; 
6) O poder de ouvir a voz da sua própria consciência;
7) O poder de fazer o que diz a voz da consciência.

Não por acaso H.P. Blavatsky escreveu: “Antes de desejar, faça por merecer”.
 
À medida que administrarmos corretamente o que já está ao nosso dispor e o colocarmos a serviço de uma meta digna, o potencial positivo que ainda é latente se desenvolverá de modo natural. No caminho teosófico, este é o meio correto de avançar com segurança e vitoriosamente.   
 
 
3. O Pensamento é o Leme Que dá Rumo à Vida
 
Pergunta:
 
Há inúmeras tendências dispersivas na sociedade de hoje. Como se pode ter uma vontade suficientemente forte para vencer os obstáculos e obter autodomínio e paz interior? 
 
Comentário:

É uma experiência comum para o estudante de teosofia que ele deseje elevar seu nível médio de consciência e tenha dificuldade. Ele tenta e falha muitas vezes. Em outras ocasiões, ele obtém resultados favoráveis. Apesar das vitórias, o progresso é mais lento e inclui mais altos e baixos do que o estudante gostaria. Sobre isso,  W. Q. Judge escreveu:

“É verdade que um homem não consegue forçar a si mesmo imediatamente a ter uma nova vontade e uma nova crença, mas ao pensar muito sobre a mesma coisa ele em seguida obtém uma nova vontade e uma nova crença, e disso virá força, e também luz. Tente este plano.” [1]  
De fato, o pensamento é o leme que dá rumo à vida. Se pensarmos constantemente no rumo desejado, o caminho se abrirá à nossa frente.

NOTA:

[1] “A Book of Quotations From W.Q. Judge”, Theosophy Co., Mumbai, India, ver p. 2.
 
 
Sobre a missão do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a vivência da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline.
 
 
 
A obra tem 255 páginas e foi publicada em outubro de 2013 por “The Aquarian Theosophist”. O volume pode ser comprado através de Amazon Books.