A ARTE QUE VEM DO IRÃ

Do Re Mi Fair Play
A arte que vem do Irã

Mais que petróleo e conflitos... País tem uma vida cultural pulsante

Mais de 12 milhões de habitantes, uma intensa vida social: cinemas, teatros, galerias de arte, shows. Artistas jovens e badalados. A produção cultural efervescente. Poderia ser São Paulo ou mesmo Nova York, mas é Teerã, capital do Irã, país cuja seleção joga em Belo Horizonte neste sábado (21) contra a Argentina pelo grupo F da Copa.
Para além do petróleo, dos conflitos religiosos ou mesmo pela incursão em experimentos nucleares – fator que deixou o país constantemente nos noticiários dos últimos anos – o contato proporcionado pela vinda de muitos iranianos para o Brasil reforça a imagem de um povo moderno, divertido e viajado e retira de vez o estereótipo de um conservadorismo antiocidental. No entanto, se aqui eles já têm demonstrado sua simpatia e descontração, lá eles bombam!
“Teerã pulsa, é uma cidade muito vibrante”, declara Samy Adghirni, jornalista que vive há mais de dois anos na cidade. Ano passado, o país passou por uma troca de governo que pôs fim à era do linha dura Mahmoud Ahmadinejad e trouxe o mais “paz e amor” Hassan Rohani. Mais abertura no que tange ao papel da mulher na sociedade e mais flexibilidade na política internacional são algumas das diferenças já sentidas, mas ainda assim muitas das restrições da lei islâmica com relação à diversão, à cultura e às artes continuam valendo. “Os iranianos se divertem muito, mas tudo acontece na esfera privada. Não há vida noturna nas ruas, os bares são proibidos, as discotecas são proibidas, menos os restaurantes. Come-se muito bem, mas como não se pode beber, as pessoas vêm, comem e vão embora”, conta Samy, que é o correspondente do jornal “Folha de S. Paulo” no Oriente Médio. Toda a diversão acontece dentro de casa, e dentro de casa, podemos dizer, o bicho pega. Tudo que não existe na rua, acontece nas casas”.
Inclusive, shows. Mas não são apenas aquelas tradicionais rodinhas de violão que se formam em festinhas de jovens por lá não. Samy conta que já frequentou festa em casa que contava até com palco montado. E no repertório rola de tudo, desde o mais mainstream da música pop, reproduzido por DJs, até bandas de caráter mais underground. O folk blues do Bomrani, o “fusion” do Pallett e o indie rock do The Muckers são alguns nomes que têm feito a cabeça dos jovens atualmente. Mas nem tudo são flores, a polícia moral pode chegar a qualquer momento e acabar com a graça de todo mundo.

Censura
Para organizar concertos ou gravar discos é preciso ter permissão do governo e todo o material produzido passa pela vistoria do Ministério de Cultura e Orientação Islâmica. Nenhuma performance feminina é permitida. Tantas barreiras fazem muitos artistas procurarem visibilidade no exterior, mas a vontade de muitos mesmo é produzir e consumir música no próprio país, desejo que parece estar sendo atendido.
O músico Raam Em conta que desde que o novo governo tomou posse, mais e mais shows têm acontecido no Irã. “Temos tantos jovens talentosos de volta para casa que estão criando uma arte muito bonita, com tudo o que está à sua disposição. Uma das coisas mais legais é que a cena local é agora muito mais interessante e popular que as influências estrangeiras. Os jovens iranianos são muito apaixonados por sua música”, declara, otimista e orgulhoso. Segundo ele, além do pop ouvido em todo lugar, há muito rap, rock, jazz... Além das bandas citadas acima e da sua própria, King Raam, ele indica a alternativa Langtunes entre suas preferidas.
Algo que salta da sua fala, e parece ser o desejo de todo artista ou habitante do Irã, é que a vida por lá não é tão estranhamente diferente em relação a qualquer outro lugar do mundo, como muitas vezes a TV e os jornais parecem taxar. “As pessoas se reúnem nas casas uns dos outros para tocar música, ou falar de arte e cultura, ou apenas assistir a filmes... Desfrutamos das mesmas coisas que os jovens de qualquer outro país”.

‘Do Re Mi Fair Play’ traz som iraniano
Em campo, não11, mas dez homens. Músicos de três diferentes e comentadas bandas do Irã – Pallett, King Raam e Damahi –, com diferentes trajetórias sonoras, se juntaram para mostrar um pouco do que se está produzindo no país hoje em dia, sem rótulos. Assim nasceu o “Do Re Mi Fair Play”, apenas alguns meses antes da Copa do Mundo. “O projeto surgiu quando um grupo cultural decidiu mandar alguns músicos iranianos para o Brasil como representantes de um setor diferente da nossa sociedade. A música é uma linguagem universal, que transcende raça, religião e fronteiras. É a língua que todo mundo fala e entende ”, declara Raam Em, o vocalista.
Sob um manifesto que propaga a paz e a harmonia, tanto no futebol quanto na música, o grupo segue a seleção iraniana, explorando as cidades-sede onde os atletas jogam. “Do Re Mi Fair Play” já se apresentou em SP e Curitiba e está em BH para a partida contra a Argentina. A ideia é produzir um documentário sobre a estadia deles no país, contando com a participação de vários músicos parar criar uma trilha sonora. Até o fechamento desta edição, a banda ainda procurava locais e parceiros para tocar na capital mineira.

Sangue novo na música
King Raam Cantor, violonista e pianista iraniano, é pioneiro do rock underground do país e lidera a banda. Hoje mantém carreira solo. Tem dois discos lançados: “Song of the wolves” (2011) e “The Vulture” (2014).
Pallett Com um lançamento na bagagem, “Mr. Violet” (2013), Pallett é uma das bandas mais comentadas da cena musical de Teerã. A música folk europeia é uma grande influência, associada à música clássica iraniana. 
Bomrani O sexteto formado em 2005 faz um som meio country & blues. Com dois discos lançados, “Yellow Sky & Blue Sun” (2010) e “Naked Socks” (2012), é uma das bandas mais tocadas nas rádios locais. 

Sob o rígido olhar do regime
Ao longo dos anos que sucederam a Revolução Islâmica de 1979, muitos iranianos foram protagonistas de uma intensa diáspora. Pelos mais diversos motivos, dentre eles o político e o religioso, artistas preferiram se dirigir para a Europa e Estados Unidos, principalmente, em busca de mais liberdade parar criar. No entanto, se fora os habitantes da antiga Pérsia são conhecidos por sua criatividade e originalidade, dentro eles não deixam a desejar. São nas galerias de arte onde se dão as mais refinadas e badaladas reuniões de embaixadores, famosos, cineastas, artistas e afins.
“O interessante é que muitas das galerias são comandadas por mulheres. Esses locais são um dos espaços de maior audácia. Tudo passa pelo Ministério, o cinema, por ser um negócio de massa, recebe muitas restrições, mas nas artes plásticas, como o público é mais restrito, o regime não dá muita bola e as obras passam com facilidade. Eu já visitei até uma exposição que tinha até mulheres nuas”, conta o jornalistaSamy Adghirni, estupefato. Exemplo disse é a exposição “Pulso Iraniano” que ficou em cartaz em Belo Horizonte no Oi Futuro mais ou menos dois anos atrás. Nela, o trabalho de fotografia da artista plástica Shirin Aliabadi intitulado “Garota Híbrida” retirava a imagem das mulheres persas do lugar comum e apresentava um mix com aspectos das sociedades ocidentais. Uma jovem loira de olhos azuis mascando fazendo uma bola de chicletes e usando véu é emblemática.
Fora das galerias e dentro das salas escuras, se a censura se faz mais presente, o cinema não deixa de ser uma paixão nacional. Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf são dois nomes de peso quando se fala em sétima arte iraniana moderna. Muito conhecidos no exterior, seus filmes são objeto de admiração e estudo inclusive no Brasil. Mas é “Separação”, do cineasta Asghar Farhadi lançado em 2012, com a queridinha Leila Hatami, a obra mais comentada nos últimos tempos. Primeiro e, por enquanto, único ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro do Irã, o longa fala dos dramas de uma família prestes a se separar porque a mulher, junto com a filha, quer deixar o país. Este é, ao lado de “À Procura de Elly” (Darbareye Elly, 2009), os filmes preferidos da iraniana Hedieh Zalaki, 25, uma estudante de português formada em Letras residente em Belo Horizonte há um ano e meio. Além do cinema, ela lembra que seus programas preferidos em Teerã eram visitar teatros, parques e viajar para as montanhas que rodeiam a cidade.

Até Novelas
Com uma indústria cinematográfica sólida, o país se orgulha de possuir uma intensa produção local. Os filmes iranianos ocupam várias salas e são realmente assistidos pela população, mas nem por isso os filmes hollywoodianos deixam de existir. Seu lugar é a televisão. A estudante conta que é muito comum, ao ligar a TV, se deparar com longas norte-americanos dublados, mesmo nos canais do IRIB, “Islamic Republica of Iran Broadcasting”, o órgão estatal responsável pelo controle das telecomunicações, embora muitas casas tenham acesso a canais internacionais.
Programas religiosos, bem no estilo “Fala que eu te escuto”, como diz Samy, e noticiários são os mais frequentes na grade diária e, salvo o fato de se tratar de uma televisão controlada pelo governo e tudo aquilo que isso acarreta, a programação de lá parece não ser muito diferente da tv aberta brasileira. Até novelas os iranianos adoram! “Avaye Baran”, algo como “canto da chuva”, de 2013, é um dos grandes sucessos. “Todos paravam às 21h para assistir, eu acho que todas as pessoas no mundo gostam de novela”, constata Hedieh.
Os programas esportivos também são campeões de audiência, ainda mais em época de Copa. Samy elogia o programa “Navad” (Noventa, em farsi, a língua persa) do apresentador Adel Ferdowsi Poor. “Esse cara convidou o Dunga, ele esteve aqui semana passada e foi tratado como celebridade. É um programa muito bom, bem feito, eles sempre trazem convidados famosos”, comenta o jornalista, que teve a oportunidade e, segundo ele, prazer, de conhecer pessoalmente o ex-jogador e ex-técnico da seleção brasileira em Teerã. “Ele foi falar sobre o Mundial, foi um programa de altíssimo nível”. Agora, quem quiser ouvir música, as rádios ficam devendo. “As emissoras fazem parte da IRIB, tem as rádios da religião, que difundem o Corão, tem os noticiários, às vezes toca música clássica. Mas eu não sintonizo muito as rádios, só ouço quando estou no táxi, mas geralmente peço pra desligar”, conta o jornalista.

Ardeshir Mohassess
Obra de 1978 do artista plástico iraniano Ardeshir Mohassess integrou a mostra “Iran Modern”, em Nova York até janeiro deste ano; artes plásticas são reduto cultural de maior ousadia e crítica no país

Pérolas do cinema do Irã ganham mostra em BH
Conhecido no mundo todo, o cinema iraniano será contemplado pelas atividades promovidas pela Embaixada do Irã como celebração da estadia da seleção de futebol no Brasil. Da próxima terça-feira (24) a sexta (27), serão exibidos seis filmes no Museu Histórico Abílio Barreto que procuram fazer um panorama da sétima arte produzida pela antiga Pérsia dos anos 1990 para cá, de diretores conhecidos e outros nem tanto (confira roteiro abaixo).
“A expectativa é aprofundar mais o conhecimento cultural. Nosso país não é muito conhecido e nós estamos tentando reverter isso. Mostrar a sociedade iraniana, fazer com que os brasileiros a conheçam melhor”, comenta Mehdi Zanjani, o conselheiro e chefe do departamento de cultura da embaixada. Dentre as obras, ele indica “M de Mãe” e “Procurando Elly”.
A programação comemorativa também oferece a exposição “A Beleza da Cultura Iraniana”. Até o 29 de junho, o visitante que for à Galeria de Arte do BDMG terá acesso a peças da tapeçaria persa, produtos tradicionais, artesanato de várias regiões, imagens, quadros e livros que mostram a diversidade do país. 
 Leila Hatami
Leila Hatami. A queridinha do cinema iraniano em cena do filme “A Separação”
Mostra de cinema Iraniano
Local: Museu Abílio Barreto (av. Prudente de Morais, 202, Cidade Jardim, 3277-6330). Gratuito.
17h “O Filho de Maryam” Dir. Hamid Jebelli
Por não ter conhecido sua mãe nem mesmo em foto, um menino sente-se atraído pela beleza do ícone da Virgem Santíssima, em que descobre semelhança com a imagem que faz de sua mãe.

19h “M de Mãe” Dir. Rasoul Mollaghholipour
Jovem iraniana se casa com membro do governo iraniano e descobre que o seu primeiro filho provavelmente nascerá com problemas congênitos porque a mãe fora exposta a gás tóxico durante a guerra Irã-Iraque.

Quarta (25)
17h “Um Tempo para Amar” Dir. Ebrahim Forouzeeh
Um relacionamento familiar começa a se tornar difícil quando os dois filhos de um casal, um com limitações físicas e outro saudável, não conseguem conviver em harmonia. Levando o casal a uma quase separação.
19h “Procurando Elly” Dir. Asghar Farhadi
Ahmad volta ao Irã, seus amigos organizam três dias de comemoração e convidam para a festa Elly. Ahmad, acabou de se separar e vê na jovem a mulher perfeita para recomeçar. No dia seguinte, no entanto, ela desaparece misteriosamente.

Quinta (26) 
17h “Maria – A Mãe de Jesus” Dir. Shahryar Bahrani
Documentário sobre a vida da mãe de Jesus Cristo.

19h “José” Dir. Farajallah Selhashoori
História do profeta José, que de escravo passou a ser um dos homens mais respeitados do Egito Antigo.

Sexta (27)
17h “O Balão Branco”
Uma criança não desiste de seu propósito, apesar de todas as dificuldades que encontra em seu longo caminho.

19h “A Separação” Dir. Asghar Farhadi
Após ser largado por sua esposa, Nader contrata uma jovem para cuidar de seu pai doente. O que ele não sabe é que essa jovem está grávida e aceitou o trabalho sem o consentimento do marido, um homem psicologicamente instável.
Fonte:http://www.otempo.com.br/pampulha/a-arte-que-vem-do-ir%C3%A3-1.867496

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