MOSTRA RETRATA MUNDO DE JOAN MIRÓ,GRANDE ESCULTOR E PINTOR SUREALISTA CATALÃO, COM GRAVURAS E FOTOS

Mostra retrata mundo de Miró com 

gravuras e fotos

Depois de São Paulo, obras percorrem o Brasil até janeiro de 2015


"Le cheval ivre", de Miró (Foto: Divulgação)
 
Por meio de 69 obras e 23 fotos, os visitantes da exposição A Magia de Miró, desenhos e gravuras, que começa este sábado (22), na Caixa Cultural São Paulo, poderá mergulhar mais fundo na visão de um dos artistas mais importantes da arte moderna. O catalão Joan Miró (1893-1983), que tinha entre seus temas recorrentes as mulheres, animais e estrelas, ficou conhecido por representar estes elementos de forma poética e transcendental, de tal forma que seu estilo se aproximava do surrealismo e dadaísmo.
 
Sua visão "mágica" e "onírica", como é descrita muitas vezes, esconde o estudo dedicado e até minucioso que existia antes de realizar as obras. E é por isso que os esboços, notas e desenhos feitos em papel, ou qualquer outra superfície, com lápis ou giz de cera, permitem que o interlocutor conheça um pouco mais da intimidade de seu processo criativo. Inédita no Brasil, a mostra já passarou por Europa, Ásia e Oceania. 
Chien, de Miró (Foto: Divulgação)
 
As fotos preto e banco foram feitas por Alfredo Melgar, conde de Villamonte, que se dedicava a produzir portfólios de pintura, música e poesia e também assina a curadoria da mostra. Antes, havia atuado como médico voluntário em quatro continentes.
 
A partir das 18h30 do sábado, será exibido um documentário ao ar livre sobre a vida do artista.

As peças ficam em exposição até dia 20 de abril, de terça a domingo. Depois, serão exibidas nas unidades da Caixa Cultural em Curitiba (20 de maio a 20 de julho), Rio de Janeiro (28 de julho a 28 de setembro), Recife (7 de outubro a 7 de dezembro) e Salvador (16 de dezembro de 2014 a 8 de fevereiro de 2015).
"La cascade", de Miró (Foto: Divulgação)
"La cascade", de Miró (Foto: Divulgação)
 
CAIXA Cultural São Paulo
Praça da Sé, 111, Centro, São Paulo. Entrada gratuita.


Fonte:http://gq.globo.com/Cultura/noticia/2014/02/mostra-retrata-mundo-de-miro-com-gravuras-e-fotos.html


VIDA E OBRA


Joan Miró i Ferrà (Barcelona20 de abril de 1893 — Palma de Maiorca25 de dezembro de 1983) foi um escultor e pintor surrealista catalão.
Quando jovem frequentou a Escola de Belas Artes da capital catalã e a Academia de Gali. Em 1919, depois de completar os seus estudos, visitou Paris, onde entrou em contacto com as tendências modernistas como os fauvismo e dadaísmo.
No início da década de 1920, conheceu o fundador do movimento em que trabalharia toda a vida, André Breton, entre outros artistas surrealistas. A pintura O Carnaval de Arlequim, 1924-25, e Maternidade, 1924, inauguraram uma linguagem cujos símbolos remetem a uma fantasia, sem as profundezas das questões psicanalistas surrealistas. Participou na primeira exposição surrealista em 1925.
Em 1928, viajou para a Holanda, tendo pintado as duas obras Interiores holandeses I e Interiores holandeses II. Em 1937, trabalhou em pinturas-mural e, anos depois, em 1941, concebeu a sua mais conhecida e radiante obra: Números e constelações em amor com uma mulher. Mais tarde, em 1944, iniciou-se em cerâmica e escultura. Em suas obras, principalmente nas esculturas, utiliza materiais surpreendentes, como a sucata.
Três anos depois, rumou pela primeira vez aos Estados Unidos. Já nos anos seguintes; durante um período muito produtivo, trabalhou entre Paris e Barcelona.
No fim da sua vida reduziu os elementos de sua linguagem artística a pontos, linhas, alguns símbolos e reduziu a cor, passando a usar basicamente o branco e o preto.
Algumas obras revelam grande espontaneidade, enquanto em outras se percebe a técnica feita com muito cuidado, e esse contraste também aparece em suas esculturas. Miró tornou-se mundialmente famoso e expôs seus trabalhos, inclusive ilustrações feitas para livros, em vários países.
Em 1954, ganhou o prêmio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris ganhou o Prêmio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris realizou uma exposição de toda a sua obra.
Joan Miró morreu em Palma de Maiorca, Espanha, em 25 de dezembro de 1983.


Joan Miró
Joan Miró, fotografia de Carl van Vechten, junho de 1936
Nascimento20 de abril de 1893
Barcelona
Morte25 de dezembro de 1983 (90 anos)
Palma de Maiorca
OcupaçãoEscultor
PrêmiosMedalha de Ouro da Generalidade da Catalunha (1978),Prêmio Antonio Feltrinelli (1978)

Algumas obras do artista

Ligações externas

Fonte:http://pt.wikipedia.org/wiki/Joan_Miro


Joan Miró i Ferrà conhecido entre todos como somente Joan Miró, o pintor e escultor nasceu na cidade de Barcelona (Espanha) no ano de 1893, e se especializou em sua carreira artística com as técnicas do estilo surrealista, pelo qual se tornou um grande nome nesse estilo de arte.
joan miro–pintor e escultor surrealista Miró Pintor e Escultor Surrealista Espanhol e Suas Obras Principais
No início de sua vida artística quando ainda era bem jovem, Miró teve aulas na Escola de Belas Artes e na Academia de Gali, e após concluir seus estudos no ano de 1919 foi para Paris, e lá conheceu as técnicas de estilos modernistas como o dadaísmo e o fauvismo.
Já em 1920, Miró teve seus primeiros contatos com o artista que fundou o movimento surrealista, André Breton. Duas de suas primeiras pinturas utilizando a técnica surrealista foi a pintura “O Carnaval de Arlequim” e “Maternidade“, deram início a um estilo que as formas demonstram uma ilusão naïf (arte que são produzidas por artistas sem preparação acadêmica). Sua primeira participação em uma exposição surrealista foi no ano de 1925.
Veja abaixo alguns tópicos sobre Miró:
- 1928, o artista foi para a Holanda, e estando lá pintou fez as obras “Interiores holandeses I” e “Interiores holandeses II”;
- 1937, fez trabalhos de pintura-mural;
- 1941, fez sua obra de arte mais conhecida e relevante de todas o “Números e Constelações em Amor com Uma Mulher”;
- 1944, deu início em seus trabalhos com cerâmica e escultura, nas suas obras, Miró usava materiais diferentes do convencional, como por exemplo sucatas;
Veja abaixo algumas obras de Joan Miró, são quadros e esculturas:
o carnaval de arlequim joan miro 300x211 Miró Pintor e Escultor Surrealista Espanhol e Suas Obras Principais
O Carnaval de Arlequim – Joan Miró

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Números e Constelações em Amor com Uma Mulher – Joan Miró

maternidade joan miro 234x300 Miró Pintor e Escultor Surrealista Espanhol e Suas Obras Principais
Maternidade – Joan Miró

interiores holandeses i joan miro 225x300 Miró Pintor e Escultor Surrealista Espanhol e Suas Obras Principais
Interiores holandeses I – Joan Miró

interiores holandeses ii joan miro 225x300 Miró Pintor e Escultor Surrealista Espanhol e Suas Obras Principais
Interiores holandeses II – Joan Miró

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Joan Miro – Escultura

joan miro–escultura 220x300 Miró Pintor e Escultor Surrealista Espanhol e Suas Obras Principais
Joan Miro – Escultura
Fonte:http://www.pinturasemtela.com.br/miro-pintor-e-escultor-surrealista-espanhol-e-suas-obras-principais/


Joan Miró era antes de tudo um catalão sem ser um catalão.
Joan Miró era antes de tudo um catalão sem ser um catalão.


Intimista, reservado e rigoroso – ou seja,o oposto da mitologia do surrealismo – fazem deste catalão um caso à parte. Entretanto, os seus 85 quadros nas mãos do Estado português continuam pendentes.
Joan Miró nasceu a 20 de Abril de 1893 em Barcelona, casou em Maiorca num dia 12 de Outubro com Pilar Juncosa, teve uma filha que nasceu em Junho de 1931 e se chamou Dolores, e morreu em Palma de Maiorca no dia de Natal de 1983. E é tudo.

Ao contrário de quase todos os outros artistas que com ele construíram não apenas o dadaísmo e o surrealismo, mas toda uma forma diferente de observar o planeta - uma coisa inédita e integral como o mundo nunca antes vira (talvez com a excepção alucinada de Hieronymus Bosch) - Miró morreu sem deixar uma mitologia.

Deixou apenas a sua obra, surrealista, mas profundamente trabalhada, aprimorada e rigorosa - muito distante da desordem alucinogénia, alcoólica, amorosa e outras com que os seus contemporâneos enchiam numa raiva telas, páginas em branco, películas de filmar e outros objectos indiferenciados, entre os quais lixo industrial.

Joan Miró era antes de tudo um catalão sem ser um catalão. "Jamais voltarei a Barcelona! Paris e o campo até que morra. Não sei por que razão todos os que perdem o contacto com o cérebro do mundo adormecem e se mumificam. Na Catalunha nenhum pintor conseguiu alcançar a sua evolução completa...! Têm de se converter em catalães universais!", escreveu ao seu amigo e pintor E. C. Ricart (cujo retrato, de 1917, é uma das suas obras mais conhecidas), antes de regressar repetidas vezes. Mas esse regresso - tal como o de Dali, também catalão sem verdadeiramente o ser (pelo menos até decidir perdoar ao governante Francisco Franco) - não importava nada: Miró e os surrealistas desconstruíram e reconstruíram Paris de uma ponta à outra antes de irem à procura dos outros mundos, mais dóceis, mais endinheirados e sedentos da mitologia da capital de França.

Introvertido e simples, Miró correu com os seus companheiros todos os recantos da arte, sem contudo se confundir com a cosmologia iconoclasta dos outros. Em certo sentido, acabou por construir um universo pessoal que o distingue logo ao primeiro traço dos que com ele correram as mesmas ruas e discutiram os mesmos pressupostos: um Miró é definitivamente um Miró, por muito que Paul Klee gostasse de por vezes ser confundido com o catalão.

Mas achava-se pouco democrático, vamos dizer assim: a sua obra não era para apreciadores de paisagens mortas, por muito vivas que estivessem. Foi por isso que tentou outras disciplinas: a escultura - onde amiúdes vezes usou sucata para início de conversa - e a cerâmica, que se abriram às suas mãos em 1944 e das quais saíram objectos que pareciam a transformação dos seus quadros na equivalência das três dimensões. Não é fácil descobrir maior democracia nestas outras disciplinas, mas o certo é que há uma evidência tão grande nestas outras artes como na pintura.

Desse ponto de vista, é profundamente catalão: por uma razão qualquer, os artistas que atravessaram aquela pálida fronteira nesses anos de início de século (Dali, Tàpies, Ponç, Buñuel) construíram obras que não deixam margem para qualquer dúvida: são definitivamente deles.
Da Europa a Nova Iorque
Miró fez como quase todos os outros: internacionalizou-se, como hoje é hábito dizer. Mandou primeiro uns trabalhos como se fossem em prospecção (ainda na década de 30 do século XX), a coisa correu bem, e lá se resolveu a atravessar o Atlântico em 1947 - estava a Europa a lamber as feridas que infligira a si própria, numa devastação que o pintor catalão tivera oportunidade de repudiar em tela (O Ceifeiro) já desde a fase de treino bélico (a guerra civil espanhola, 1936-39).

A viagem valeu a pena: o reconhecimento além-mar permitiu-lhe regressar em 1958 para concluir (em parceria com José Llorens Artigas), os extraordinários murais do Sol e da Lua para o novo edifício da UNESCO, em Paris, o que acabaria por catapultar o catalão para, nesse mesmo ano, vencer o prémio da Fundação Guggenheim.

E contudo regressava sempre, não à cidade de Barcelona, mas a Mont-roig (o tal campo) - uma espécie de refúgio bucólico e ajardinado que era da sua família fazia muito tempo, família essa que, confessou por diversas vezes, em pouco ou nada influenciaram a sua veia artística. Era aí - porque às vezes o dinheiro não chegava para pagar o aluguer dos ‘ateliers' na capital francesa - que engendrava a sua obra.
Nada é um acaso, mas está em saldo
Traços e cores e pretos e brancos em frente uns aos outros ou então de lado ou por baixo e em cima. Mas nada é por acaso no surrealismo do catalão, nenhum ponto, nenhum traço, nenhuma cor. "Miró tem uma obra distinta de todos os outros surrealistas, nas suas formas e cores de regresso à infância. Utiliza símbolos e signos diversos, como astrais, animais, vegetais, que constituem uma espécie de estranha passagem do mundo do sonho e da imaginação", explica uma ‘marchand' que já teve uma pintura de Miró nas mãos e a viu seguir para o Norte do país, pelas mãos de um investidor particular.

"Não conheço em Portugal muitos quadros de Miró", adianta. "Há vários desenhos, mas não quadros, pelo menos no que diz respeito aos particulares". Obras por isso menores - ou, dito de outra forma, não passíveis de atingir os preços que os quadros do catalão atingem nos mercados internacionais. O mais destacado é ‘Estrela Azul', uma obra de 1927 pertencente à série ‘Quadros de sonho' com que Miró iniciou, dois anos antes, uma nova fase da sua mestria, mais intimista e menos prolífera na profusão de iconografias abstractas.

Em Junho de 2012 essa obra foi vendida pela leiloeira Sotheby's por pouco menos de 26,5 milhões de euros - três vezes mais que o preço proposto aos endinheirados e quase sempre anónimos interessados. 26,5 milhões: 73,6% do preço que o Estado português entende ser o necessário e suficiente para se ver livre de 85 obras do catalão, entretanto colocadas na praça por 36 milhões, apesar de haver uma avaliação que lhes atribui um valor entre 80 e 150 milhões de euros.

O problema (mais um) é que a extravagância do processo de venda por parte do Estado português faz com que nem sequer os 36 milhões sejam expectáveis: "Os quadros estão ‘queimados', como se diz na gíria. Os investidores internacionais não costumam querer ter em mãos obras que passaram por semelhante trapalhada". E o cancelamento decidido pela Christie's tentou igualmente evitá-las. E é isto: tinha de vir de Portugal um desassossego que o rigoroso e surrealista pintor catalão nunca quis sentir enquanto vivo.

Fonte:http://economico.sapo.pt/noticias/joan-miro-a-historia-de-um-artista-realmente-surreal_187204.html



Miró era sobretudo um pintor de estúdio - gostava de trabalhar sozinho e em silêncio DR/EXPOSIÇÃO "LA METÁFORA DEL COLOR", BUENOS AIRES

Miró, o artista que nos convidou a ver tudo como se fosse a primeira vez

Tem sido referência constante nos media nas últimas semanas por causa de um banco nacionalizado e de uma colecção de arte que fez as malas sem autorização e viajou para Londres, à procura de outros donos. Mas, afinal, quem é Joan Miró? O que é que trouxe de novo ao século XX? O PÚBLICO pediu a três especialistas que respondessem a esta e a outras perguntas.

Era um homem baixo de cabelo curto, traços comuns e uns olhos pequenos, muito vivos. Na maioria das fotografias e filmes aparece impecavelmente vestido, mas de forma algo conservadora. Se é apanhado pelas câmaras a trabalhar, é natural que esteja de bata ou em mangas de camisa; se surge no meio de um grupo de artistas e poetas, no começo do século XX, quando se transformou num dos inventores das vanguardas, chega a parecer um pouco deslocado, estranhamente convencional.
Desmond Morris, o zoólogo britânico e pintor surrealista que chegou a conhecê-lo, lembra num breve depoimento dos arquivos da Tate Modern, o importante museu londrino de arte moderna e contemporânea, que, quando viu Joan Miró pela primeira vez, o artista catalão lhe pareceu um banqueiro ou um diplomata espanhol, até mesmo um chefe de Estado: “Era extremamente reservado e educado, cortês. O oposto das suas pinturas.”
Estávamos em 1964 e Morris, que expusera com Miró em 1950, guiava-o numa visita ao jardim zoológico de Londres, deliciando-se com o encantamento permanente do artista - “os seus olhos eram como os de uma criança que vê uma coisa que a entusiasma” -, em particular perante um camaleão e o trabalho de Congo, um chimpanzé de três anos que, graças a um projecto do zoólogo, se dedicava à pintura.
Joan Miró (1893-1983) era, diz quem o conheceu e sobre ele escreveu, na sua maioria artistas, poetas, críticos e historiadores de arte, um homem singular. Diz a sua obra, que essa singularidade se estendia, sobretudo, a tudo o que criava, deixando uma marca inconfundível na arte do século XX.
Nas últimas semanas muito se tem dito, e escrito, sobre este artista que se deixou encantar por Paris mas nunca esqueceu a sua Catalunha, a propósito da colecção de 85 pinturas, desenhos e colagens que dele guardava o Banco Português de Negócios (BPN), que foi nacionalizado. Acusações de ilegalidades na expedição das obras para Londres, onde deveriam ter sido leiloadas pela Christie’s, providências cautelares a correr no Tribunal Administrativo de Lisboa, movimentos cívicos, petições e intensas manobras da oposição para garantir que este acervo privado que nunca esteve exposto em Portugal e muito poucos tiveram oportunidade de ver quando estava ainda nas mãos do BPN de Oliveira e Costa, não volta a deixar o país.
Mas, afinal, quem é Joan Miró? O que é que trouxe de novo ao século XX? Porque é que identificamos à partida as suas obras, capazes de seduzir audiências de origens e gerações tão diversas? Ouvimos três especialistas responderem a estas e a outras perguntas, usando muitas vezes as palavras poesia e liberdade.
Um grande artista e é só
Para Rosario Peiró, chefe do departamento de colecções do Museu Nacional Rainha Sofia, Joan Miró não é apenas um dos maiores artistas do século XX, é também um dos inventores das vanguardas, um homem que compreendeu e representou como nenhum outro a relação entre a pintura e a poesia. “Nos anos 20, em Paris, Miró dava-se mais com poetas do que com pintores e sempre se sentiu bem no meio deles”, lembra a conservadora, que não se cansa de comparar a sua importância à do mestre de Málaga, Pablo Picasso (1881-1973).
Entre ambos há grandes diferenças, explica Peiró, que começam na personalidade de cada um: “Picasso criou um personagem para lá do artista, era dado ao convívio social, gostava de se misturar com as pessoas, de conversar, de dar entrevistas. Miró era o oposto - era um homem do silêncio, extremamente discreto, um artista de estúdio avesso a jornalistas, que dispensava festas e atenções, mesmo quando o seu trabalho era já muito disputado. Em Miró é quase sempre a obra que fala.”
Uma obra que, ao contrário da de Picasso, não era declaradamente politizada, embora fossem evidentes as suas posições perante a Guerra Civil de Espanha (apoiou a causa republicana contra Franco) ou a independência da Catalunha. “É claro que, para os catalães, a liberdade artística está ligada à liberdade de expressão”, dizia.
Peiró e João Fernandes, o curador português que foi director artístico do Museu de Arte Contemporânea de Serralves e hoje é director-adjunto do Rainha Sofia, em Madrid, um dos maiores museus de arte moderna e contemporânea da Europa, defendem que Miró nunca recusou partilhar as suas opiniões políticas, nomeadamente as que o afastavam da ditadura militar franquista. “Toda a arte é política e a de Miró, que tão crítico foi em relação à Espanha dos anos 1930, não é excepção”, diz a primeira. “Nunca deixou de aceitar os convites da História para intervir política e civicamente”, acrescenta o segundo. E se o fazia de forma mais discreta era porque era esse o seu modo de ser.
O que lhe interessava, verdadeiramente, era explorar as possibilidades da arte, testar os seus limites, cruzá-la com a literatura e o teatro, criar uma nova maneira de dizer e de fazer. Projecto ambicioso para o filho de um relojoeiro transformado em empresário de relativo sucesso que o queria formado em Comércio e que não viu com bons olhos a sua partida para uma estadia inicial em Paris, em 1920, depois de cumprido o serviço militar, depois de ter já recebido formação em arte, de ter visto a sua primeira exposição cubista, de ter lido a poesia de Appolinaire e conhecido o pintor e poeta Francis Picabia.
É em Paris, a onde chega praticamente sem dinheiro - a mãe dá-lhe apenas o mínimo que precisa para se instalar e é por isso que dirá mais tarde que, nos primeiros tempos, não tinha sequer como comprar um croissant e que “a fome era boa para ter ideias” - que vai conhecer alguns dos maiores nomes da arte e da literatura do século passado, bem como as suas obras, ocupando o seu lugar num universo cheio de “istas”: cubistas, modernistas, abstraccionistas, surrealistas, dadaístas... Max Ernst, Picasso, Henri Matisse, Georges Braque, Paul Klee, Raoul Dufy, André Breton, Paul Eluard, entre muitos outros.
“O cubismo abriu muitas portas mas, depois do cubismo, a pintura tornou-se muito estática”, diz Joan Miró numa das suas raras entrevistas, no final dos nos 1970. “Estava só preocupada com a plasticidade e eu queria saltar em frente. (...) Com o surrealismo encontrei o que estava à procura.”
Embora seja ao surrealismo que o público em geral o associa, Rosario Peiró defende que não faz qualquer sentido chamar a Miró outra coisa que não “um grande artista”. As categorizações passaram de moda, garante, e o autor de obras como O Carnaval de Arlequim (1924-25), Cão a ladrar à lua (1926),Corda e Pessoas I (1935) ou Mulher perante o sol (1950) é impossível de classificar: “A sua produção é tão grande e diversificada que não faz sentido fechá-lo em caixas. Em cada década, Miró tem alguma coisa nova para mostrar porque está sempre disposto a experimentar cores, suportes, formas… Ele está sempre à procura de uma liberdade na expressão, na pintura, na poética, no processo.”
João Fernandes concorda. Afinal, é o director-adjunto do museu espanhol que explica por que razão Miró merece uma “categoria” só sua: “Ele pertence ao grupo de artistas que, no início do século XX, fizeram tudo para explorar novas possibilidades para a pintura. Não pode ficar aprisionado num só termo porque ele fundou algo que é só seu, fora do que até aí tinha sido toda a experiência pictórica.”
Reiventar o mundo
O resultado das longas décadas da sua carreira, explicam os dois curadores, é um corpo de trabalhos de extraordinária diversidade e coerência, muito ancorado na escrita e nos seus mecanismos. Miró transporta para a sua arte a “mecânica da escrita, criando estruturas poéticas visuais”: “As suas figuras, mulheres, estrelas, pássaros são como letras, fazem parte de um alfabeto que ele vai construindo até ao fim.”
E é com este alfabeto, acrescenta Fernandes, que o artista catalão “reinventa uma representação do mundo”, com linhas muito simples, convidando-nos a ver tudo como se fosse a primeira vez.
E se é verdade que recorre a algumas técnicas que vêm do surrealismo e a um “imaginário que vai para além da representação do onírico” que é familiar a este movimento, também é verdade que dele se afasta para construir o seu próprio universo, “radicalmente pessoal”. Um universo que, segundo Peiró, é “lírico” e “lúdico”, e que, apesar de criado sem qualquer “intenção de prazer”, pode tornar-se “absolutamente sedutor”, tanto para crianças como para críticos exigentes.
António Olaio, artista, professor e Director do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, fala num Miró “enternecedor” e “fácil de amar”, autor de uma obra em que não se sente descontinuidade alguma, próxima do surrealismo no processo, mas não no resultado.
“Se há uma sensação de cliché no efeito de recepção da obra de Miró, isso resulta de quem vê - o artista não tem culpa”, explica. “Na sua obra lemos as abstracções como personagens. O seu universo onírico é amável e suave, como o de Chagall. Talvez por isso a pintura de Miró seja capaz de desencadear um encantamento epidérmico”, acrescenta, recusando filiá-lo em movimentos ou dizer se o catalão é, ou não, um dos mais influentes artistas do século XX: “A questão da influência não é importante, nem a da catalogação. Se é bom vê-lo numa perspectiva surrealista não é para lhe encontrar uma família, mas para perceber até que ponto é diferente, até que ponto subverte as expectativas que o surrealismo criou para si mesmo.”
Diz ainda Olaio que Miró “desfoca” o surrealismo do seu jogo de símbolos e da sua ligação tradicional com a psicanálise. “É por isso, em parte, que a sua obra é imediatamente reconhecível. Todos os artistas interessantes são eles próprios um movimento.”
Miró não gostava de falar nem de ser o centro das atenções. Para tal atitude terá contribuído a sua natureza reservada e, talvez, os primeiros tempos de Paris, em que se tornava muitas vezes alvo de chacota no grupo dos surrealistas por causa da sua timidez e dos seus modos conservadores e “burgueses”. É dessa altura o célebre episódio em que Max Ernst, seu colega de atelier, e outros artistas quase o enforcaram para que se pronunciasse sobre um tema qualquer. Miró teve medo de morrer, contaria mais tarde um dos seus amigos, o escritor Michel Leiris, mas permaneceu em silêncio. Para ele, parece dizer a cada nova obra, as palavras importantes eram as que fazia chegar às suas pinturas, desenhos, esculturas, composições e colagens.
Para falar do seu trabalho, a Miró bastava mostrá-lo. Foi o que fez numa manhã de Julho, em 1966, quando recebeu na cidadezinha de St. Paul de Vence, no sul de França, um músico de jazz que andava em digressão. Miró levou-o a ver as suas esculturas, dizendo apenas uma ou outra palavra, em catalão ou francês; o músico, nada mais nada menos do que “Duke” Ellington, sorria-lhe e respondia em inglês. Nenhum deles percebia o que o outro dizia, mas isso não teve qualquer importância. Quando a lenda do jazz se juntou ao seu trio e tocou para o anfitrião, Miró encostou-se ao plinto de uma das suas obras e começou a dançar discretamente. Vê-lo seguir a música é delicioso, e provavelmente muito mais eficaz, do que ouvi-lo falar sobre ela.
Fonte:http://www.publico.pt/cultura/noticia/miro-o-artista-que-nos-convidou-a-ver-tudo-como-se-fosse-a-primeira-vez-1622959

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