YOGA NOS DIAS DE HOJE - GIRIDHARI DASA

Foto de Renunciantes(tyagi)na índia


Yoga nos Dias de Hoje

Giridhari Dasa

O objetivo do presente artigo é tentar compreender as principais formas pelas quais o yoga é apresentado hoje no mundo, bem como apresentar ao leitor os fundamentos das tradições ainda vivas que mais se aproximam daquilo que foi detalhado no Yoga-sutra e demais textos védicos sobre yoga.
Para fins didáticos, com exceção do yoga moderno, não farei menção às inúmeras escolas baseadas no yoga ou na espiritualidade védica que surgiram a menos de cem anos, com suas variadas práticas e filosofias, as quais frequentemente guardam pouca ou nenhuma relação com a doutrina e filosofias originais, encontradas nos textos védicos.

O Yoga Moderno


Foto: Aula de yoga na organização Paraíso dos Pândavas, Chapada dos Veadeiros.
A popularidade do yoga não para de crescer. Academias de yoga surgem em cada vez mais cidades e bairros ao redor do mundo. A técnica apresentada nessas academias é geralmente composta por técnicas de respiração (pranayama) e relaxamento, um pouco de filosofia e, principalmente, uma sequência de posturas (asanas). Os detalhes mudam, novas variações surgem, mas o “pacote” é basicamente o mesmo. Este tipo de yoga é identificado por acadêmicos como “yoga moderno”. O termo vem do fato de que essa escola, ou forma de apresentar yoga, foi criada a menos de um século.
Foto: Tirumalai Krsnamacarya, pai do yoga moderno.
O pai do yoga moderno foi Tirumalai Krsnamacarya (1888-1989). Entre seus discípulos, que foram responsáveis por levar essa forma de praticar yoga para o ocidente, estão Pattabhi Jois (nascido em 1915) e B. K. S. Iyengar (nascido em 1918). Seu filho, T. K. V. Desikachar (nascido em 1938) continua formando muitos instrutores de yoga do ocidente[i].
Krsnamacarya nasceu numa família de brahmanas (intelectuais) vaisnavas (praticantes de bhakti-yoga). Durante toda sua vida, foi um devotado seguidor e praticante da milenar tradição do Sri Vaishnavismo, que valoriza os aspectos ritualísticos e formais da devoção ao Senhor. Seu pai lhe ensinou o Yoga-sutra quando ele ainda era criança. Ele foi um estudioso muito dedicado e, ao final de sua vida, possuía o equivalente a quatro doutorados em filosofia indiana e sânscrito. Um de seus professores na faculdade, conhecendo seu interesse por yoga, aconselhou-o a procurar um grande mestre de hatha-yoga chamado Ramamohan Brahmacari, que residia numa remota caverna perto do lago Manasa-sarovara, no Himalaia tibetano. Aos 28 anos, foi ao encontro deste mestre e lá permaneceu por sete anos como seu discípulo. Krsnamacarya e seu mestre conversavam em sânscrito, e é dito que o mestre tinha, quando se encontraram, 150 anos de idade. Durante este período, ele memorizou o Yoga-sutra, aprendeu diferentes asanas, técnicas de pranayama e aspectos terapêuticos do yoga[ii]. É dito que Ramamohan Brahmacari conhecia sete mil asanas e que Krsnamacarya aprendeu três mil deles (sendo que só conseguiu transmitir 640 para seu discípulo Pattabhi Jois, cujo principal aluno, seu neto, dominou somente 150)[iii].
Em 1931 Krsnamacarya tornou-se professor de yoga e sânscrito na faculdade de sânscrito de Mysore, com o apoio financeiro da família real local. O rei de Mysore era diabético e ficou muito contente com o trabalho terapêutico de yoga de Krsnamacarya, que o ajudou a lidar com sua condição. Ele financiou viagens e demonstrações de Krsnamacarya por toda a Índia. Foi nesse período que Krsnamacarya desenvolveu o sistema que ele chamou de astanga-vinyasa-yoga (mais tarde simplesmente viniyoga), cujo ponto central eram as diferentes sequências de asanas. O foco, em seu trabalho, era apresentar uma técnica de saúde baseada no yoga, como forma de reduzir o sofrimento das pessoas. Ele via isso como um ato de caridade e ajuda ao próximo, característico de sua intensa religiosidade e devoção ao Senhor.
Mais tarde, na década de 50, Krsnamacarya adaptou o sistema, criando sequências diferenciadas, compatíveis com diferentes tipos de pessoas. Para os alunos mais avançados, ele introduzia os aspectos mais puramente espirituais e o canto de mantras. Ao longo de toda a sua carreira como professor de yoga, sempre enfatizou, para aqueles dispostos a ouvir, que o único objetivo do yoga era a devoção e meditação no Senhor. Quando ele ensinava as diferentes técnicas de respiração (pranayama), ele dizia, “quando inspirar, lembre-se de que esse alento lhe foi dado por Deus, e, quando expirar, lembre-se de que o alento está voltando a Ele”[iv]. Seus ensinamentos eram, assim, completamente saturados de bhakti (amor e serviço a Deus). Ele compreendia que a saúde física e mental são importantes alicerces para a prática espiritual e, também, que o aspecto externo terapêutico do yoga serviria de ponte para o aspecto mais importante – o espiritual e devocional.
Estes ensinamentos propagados por Krsnamacarya estão perfeitamente de acordo com o Yoga-sutra, que enfatiza não somente o aspecto interno, mas, em última análise, o objetivo devocional da prática de yoga. Não é por acaso que não são encontrados maiores detalhes no Yoga-sutra sobre diferentes asanas e técnicas de pranayama. Mesmo o texto base da hatha-yoga, o Hatha Yoga Pradipika, escrito no século XV, lista apenas quinze asanas. O ponto é que existem inúmeros métodos para se manter a boa saúde física. A tradição chinesa nos traz a acupuntura, técnicas de massagem, Tai Chi Chuan, Qi Qong, etc. Na cultura indiana, temos a hatha-yoga e também a medicina, a massagem e a dieta aiurvédicas. A cultura ocidental se utiliza da ciência moderna para desenvolver programas de musculação, alongamento, nutrição, etc. Aqueles interessados em saúde física também podem se valer de diferentes técnicas combinadas. Todos esses programas para a boa saúde são perfeitamente compatíveis com as práticas internas do yoga.  É dito inclusive que Krsnamacarya utilizou conhecimento de exercícios usados por lutadores indianos e técnicas da ginástica inglesa ao desenvolver diferentes asanas. Um exemplo disto é a famosa sequência de posturas surya namaskar, adaptada por Krsnamacarya.  É dito que a sequência, como é praticada hoje, foi primeiro ensinada por Krsnamacarya na mesma época em que o pai do halterofilismo moderno, o inglês Eugene Shadow, publicou um livro com este exercício em 1928[v].
Resumindo, o yoga moderno foi fundado por um praticante de bhakti-yoga, que adaptou os ensinamentos de hatha-yoga e outros conceitos de saúde disponíveis em sua época para criar um programa terapêutico, com o intuito de aliviar o sofrimento das pessoas, mas sem deixar de enfatizar que o verdadeiro objetivo do yoga é a devoção ao Senhor.


Os Ascetas

Quando se fala em espiritualidade ou misticismo da Índia, para muitos, a primeira imagem que vem à mente é a dos ascetas do norte da Índia, os quais se vestem com apenas um trapo ao redor da cintura, usam os cabelos em dreadlock, o corpo coberto de cinzas ou poeira, contas de madeira ao redor do pescoço e marcas de barro em diferentes partes do corpo.
Esse tipo de renunciante (tyagi) dos dias de hoje não é exatamente um yogi, mas certamente suas práticas contêm elementos tradicionais da cultura do yoga.  A maioria vive em peregrinação, indo para diferentes lugares sagrados e festivais. Todos são celibatários, sem vínculos familiares e a maioria tem o hábito de fumar maconha. A técnica que mais utilizam é a do asceticismo e austeridade severa, como forma de adquirir poder e avanço espiritual. Das diferentes ordens monásticas do norte da Índia, a maior hoje é dos vaisnavas ramanandis, um grupo de tyagis cujas práticas culminam em adoração ao Senhor (bhakti)[vi].
Este grupo, assim como os demais tyagis, inclui elementos de hatha-yoga em suas práticas.  Isto se dá pelo fato de que as práticas de hatha-yoga, como são vistas hoje, foram introduzidas pelos Naths, que eram a predominante ordem monástica de tyagis nos séculos XIV e XV. Como essas diferentes ordens não seguem os textos védicos clássicos, elas têm se transformado ao longo do tempo, assimilando práticas de outros grupos. Um exemplo vívido disto é o uso da maconha, que foi introduzido na Índia por ascéticos itinerantes sufis por volta do século XIV[vii], apesar desta prática contrariar as regras encontradas nas escrituras védicas do yoga, as quais enfatizam a importância de pureza e busca pela clareza mental.
Mais em linha com os textos védicos, os vaisnavas ramanandis advogam a meditação nas formas de Sita e Rama e a constante repetição de Seus santos nomes[viii]. O rei Rama e Sua rainha Sita são importantes avataras (encarnações) da cultura védica. O grande épico Ramayana, que narra a história e os ensinamentos de Rama e Sita, é muito apreciado e permanece popular até os dias de hoje, estando disponível na maioria dos principais idiomas. Rama e Sita são adorados ao redor do mundo e, mesmo em nosso país, Suas imagens são comuns em camisetas e pôsteres. Portanto, estes tyagis priorizam a prática central de bhakti, o canto dos santos nomes, e a meta final de meditar na forma pessoal de Deus, mas usam as técnicas de hatha-yoga, as austeridades e a renúncia como suporte para tal. Podemos, assim, traçar um paralelo entre a prática dos tyagis com aquelas do yoga moderno original.
Outro paralelo é a influência do tantra. A hatha-yoga tem sua origem em práticas tântricas shivaístas, nas quais os elementos externos do uso de carnes, bebidas e mulheres é interiorizado na forma de diferentes tipos de meditação e direcionamentos da energia vital. O yoga moderno não foi criado com qualquer elemento tântrico, mas, ao ser transplantado para o ocidente, vários ditos ensinamentos tântricos foram então introduzidos. O fato é que não há uma origem ou corpo doutrinal definido sobre aquilo que hoje é ensinado sob o título de tantra.  O que poucos sabem é que a única referência encontrada nos textos védicos para o termo tantra é a prática ritualística de adoração de Deidades por praticantes de bhakti-yoga. Este é o verdadeiro e original tantra. As demais práticas ensinadas no ocidente, especialmente a ênfase no aspecto sexual, são, em geral, de origem incerta, sem qualquer menção nos textos védicos, sem qualquer ligação com o yoga e sem qualquer base científica. Alguns acadêmicos acreditam que tais práticas surgiram por influência de grupos aborígines da Índia, sendo então assimiladas por certos praticantes do hinduísmo, que adotaram a terminologia da cultura védica (cakras, etc.) e atribuíram os ensinamentos a Shiva. Deste tipo de tantra, os ramanandis mantêm apenas o uso de alguns rituais de purificação do corpo, permanecendo, no entanto, estritos vegetarianos e celibatários.
Resumindo, o maior grupo dos ascetas renunciantes (tyagis) também enfatiza os elementos internos do yoga (meditação e devoção). Para atingir este estado desejado, eles priorizam a prática do canto dos santos nomes de Deus e a visualização (meditação) da forma transcendental do Casal Divino, Sita e Rama. Apesar de praticarem elementos da hatha-yoga, o principal suporte para suas práticas internas de yoga é a austeridade corporal e a renúncia. Neste sentido, suas práticas se assemelham àquilo que é encontrado no Yoga-sutra e em outros textos védicos.

Bhakti-yoga

Uma análise mais cuidadosa do Yoga-sutra mostra que Patanjali apresenta quatro categorias de práticas. Na primeira seção, ele apresenta o aspecto meramente interno, relativo ao conhecimento psicológico, passando para a meditação e culminando no estágio final do yoga, o transe (samadhi). Na segunda seção, Patanjali inicia com a descrição de kriya-yoga, que contém apenas três componentes (austeridade, estudo das escrituras e devoção). Mais tarde, ainda na segunda seção (sutras 2.29-3.7), ele descreve astanga-yoga, que contém oito componentes. Na última seção, ele enfatiza a importância do discernimento (viveka) baseado em conhecimento sobre o funcionamento da consciência e da realidade a nossa volta como meio de obter a liberação.
Comete-se um engano, portanto, ao considerar que é necessário seguir os detalhes do yoga de oito componentes (astanga-yoga) para se obter sucesso em yoga. Patanjali não faz esta afirmação. Ao longo de todo o texto, ele enfatiza questões internas, como a meditação, a correta visão da realidade e o transe (ou liberação). Ele, inclusive, distingue os cinco primeiro itens da prática de astanga-yoga dos três últimos (sutra 3.7) colocando-os em seções distintas do livro (os primeiros cinco na segunda parte e os três últimos no início da terceira). Ao final da descrição de astanga-yoga, no sutra 3.8, ele declara que todo esse processo é externo ao objetivo final do yoga: o transe sem semente (nirbija-samadhi). Demonstra-se, assim, que o yoga de oito componentes é uma forma de ajudar o praticante a se estabelecer no aspecto essencial do yoga: focar a consciência puramente na transcendência.
Das quatro categorias acima citadas, em três delas apenas uma recomendação se destaca como ponto em comum: a devoção ao Senhor. Mais do que um ponto em comum, a devoção ao Senhor é enfatizada como sendo da maior importância. Na descrição da primeira categoria de prática, encontramos o sutra 1.23, no qual Patanjali explica que a perfeição do yoga é atingida pela devoção ao Senhor. E, logo após, ele enfatiza este ponto ao dedicar os nove sutras subsequentes a descrever o Senhor (isvara). A definição da segunda categoria de prática (kriya-yoga) é “austeridade, estudo dos Vedas e devoção a Deus” (sutra 2.1). E, no segundo dos oito componentes (observância, ou niyama) de astanga-yoga, encontramos o item “devoção ao Senhor” (sutra 2.32). Não podendo ser mais claro e enfático, ele diz no sutra 2.45: “Da devoção ao Senhor vem a perfeição do transe”. Ou seja, a perfeição da perfeição do yoga (samadhi-siddhi) é obtida pela devoção ao Senhor.
Alguém poderia argumentar que, na quarta seção, é descrita uma prática superior ou objetivo superior ao mero transe, e lá não é citada a devoção ao Senhor. Uma comparação com outros textos védicos sobre yoga, em especial o Bhagavad-gita, mostra que este argumento não é válido. Os conhecimentos e recomendações apresentados na quarta seção do Yoga-sutra são comuns em todos os textos de espiritualidade védica e seu propósito é prover conhecimento transcendental para que o praticante de yoga compreenda melhor a realidade onde se encontra e, assim, possa enxergar as coisas como elas são. Este tipo de discernimento é essencial para que a pessoa não mais seja confundida pela ilusão, sendo tão necessário como obter um mapa e direções claras antes de iniciar uma viagem a algum lugar desconhecido. Os métodos de compreensão e aplicação do conhecimento transcendental no dia-a-dia são descritos no Bhagavad-gita como buddhi-yoga. O termo buddhi é traduzido normalmente como “inteligência”, mas seu sentido mais apropriado é o de “discernimento”. Buddhi é, então, aquele aspecto de nossa consciência que analisa e interpreta a realidade sendo captada pelos nossos sentidos sensoriais, determinando como “enxergamos” o mundo. Na Bíblia, o equivalente mais próximo de buddhi é a injunção “vigiai e orai”, no sentido de estar atentamente enxergando o mundo (buddhi) com a consciência fixa no divino (yoga). O Bhagavad-gita explica que buddhi-yoga é a base essencial do caminho do yoga, começando suas explicações com este assunto, logo no segundo capítulo. E, deixando claro que buddhi-yoga não é uma prática que se descarta depois de certo avanço, o tema é mencionado até o último capítulo. Mais relevante ao nosso tema, é explicado na conclusão do Bhagavad-gita que buddhi-yoga forma a base para a prática da devoção ao Senhor. Krsna diz: “Conscientemente renunciando todas as atividades em Mim, sempre devotado a Mim, apoiando-se em buddhi-yoga, seja sempre consciente de Mim”[ix] (Bhagavad-gita 18.57). Inclusive, pode-se argumentar que o elemento central que distingue as diferentes formas de devoção ao Senhor encontradas nas religiões populares e o caminho do yoga devocional (bhakti-yoga) é justamente o elemento de buddhi-yoga, ou seja, a compreensão científica do aspecto metafísico da realidade e de como a energia material afeta a consciência espiritual. Portanto, a última categoria de prática enunciada por Patanjali é um aspecto necessário para se estabelecer livre da ilusão e condicionamentos mundanos (kaivalya) para melhor se fixar em devoção ao Senhor.
Esta conclusão do Yoga-sutra está em linha com o Bhagavad-gita, no qual Krsna, que é descrito nos textos védicos como sendo o Senhor e o yogesvaresvara, que significa “o mestre de todos os mestres de yoga”, declara enfaticamente a supremacia da prática de bhakti-yoga: “Verdadeiramente, entre todos os yogis cujo ‘eu’ veio a Mim, aquele que é dotado de fé e que me oferece amor é o que considero como o mais profundamente absorto em yoga[x] (Bhagavad-gita 6.47).

Foto: A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada,acharya-fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna
A maior instituição a divulgar a prática de bhakti-yoga no mundo hoje é a ISKCON (Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna), popularmente conhecida como o Movimento Hare Krsna. Seu fundador, Sri Srimad A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada (1896-1977), transplantou esta antiga prática ao ocidente em meados da década de 60, sem se desviar da tradição milenar em geral e muito fiel ao modelo ensinado por Sri Krsna Caitanya Mahaprabhu (1486-1533). Este modelo enfatiza o canto dos santos nomes (em especial o mantra Hare Krsna), o estudo dos textos védicos, a divulgação da cultura de bhakti e do conhecimento transcendental (como supremo ato de caridade e serviço ao Senhor) e o transe meditativo na forma e atividades do Senhor, especificamente aquelas do Casal Divino Radha e Krsna e Seus associados.

A Prática de Bhakti-yoga

Utilizando a mesma terminologia encontrada no Yoga-sutra, passarei a descrever a prática de bhakti-yoga como é realizada nos dias de hoje, com ênfase nas práticas recomendadas pela escola de Sri Krsna Caitanya (vaisnavismo gaudiya), que é, de longe, a mais popular em todo o mundo.
O primeiro passo, comum a todos os caminhos de yoga que visam à expansão da consciência, é promover as adaptações necessárias à vida pessoal de forma a enquadrar-se no comportamento descrito nos dois primeiros itens de astanga-yoga, ou seja, yama e niyama (sutras 2.30-45). Como Patanjali enfatizou, estes princípios de comportamento, retidão moral, limpeza, castidade, etc. são universais e primordiais, criando as condições básicas para o avanço espiritual.
Tendo tornado fértil o solo da consciência para o avanço espiritual, o bhakti-yogi então pratica a meditação valendo-se do mantra: Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare, que é composto por diferentes nomes do Senhor (Krsna, “O Todo-atraente”, e Rama, “A Fonte do Prazer”) e uma invocação ao aspecto feminino do divino (Hare). O mantra é entoado muito suavemente (japa) usando contas de meditação (mala). No sutra 1.28, Patanjali recomenda esta prática de japa usando o mantraom”. Os bhaktas (praticantes de bhakti-yoga) entoam os santos nomes do Senhor como forma de conectar-se diretamente com o aspecto pessoal do Senhor e não apenas com a transcendência em geral (Sua luz), representada pelo mantra “om”.
Paralelamente a isto, o bhakta deve se dedicar-se seriamente ao estudo dos textos védicos (svadhyaya), descrito por Patanjali no sutra 2.1 como prática essencial do yoga. No sutra 2.44, é explicado que, ao estudarmos tais textos, entramos em comunhão direta com a Deidade descrita no texto. Assim, se o texto estiver descrevendo diretamente o Senhor, entramos em comunhão com Ele ao estudar o texto. O estudo dos textos védicos de conhecimento transcendental e yoga, como o Bhagavad-gita, tem o efeito de treinar a inteligência e discernimento (viveka) do praticante de yoga para que ele saiba enxergar a realidade de forma correta, livre da ilusão. Como explicado anteriormente, toda a quarta parte do Yoga-sutra foi dedicada a valorizar este ponto, que é, de fato, crucial para o avanço em yoga.
Fixo em sua prática (realizada sempre em devoção e não de forma mecânica) de yama, niyama, japa e svadhyaya, o bhakta se torna forte e bem estabelecido no caminho da autorrealização. Com isso, ele se qualifica para experimentar o estágio final de yoga: o transe (samadhi). Afinal, a vida não acaba com a autorrealização – ela começa! Tão logo a prática esteja “segura”, como foi descrito no sutra 1.14, há possibilidade de se situar em transe, ou seja, em consciência espiritual, experimentando, assim, a vida em autorrealização.
Para o bhakta, há duas formas de experimentar a transcendência: 1) ocupando-se de forma prática na missão de difundir e ensinar o caminho de bhakti-yoga e 2) absorvendo-se meditativamente nas formas, atividades, associados, etc. do Casal Divino, Radha e Krsna, que existem continuamente além da manifestação cósmica. A primeira é mais fácil e também superior, pois nela predomina a sobreexcelente qualidade divina da compaixão. Usando seus dons naturais, seu corpo e sua energia (prana) com o intuito de servir o Senhor, o bhakta naturalmente se situa (asana) em yoga e assim, internamente situado em meditação e devoção ao Senhor (dhyana e isvara-pranidhana), experimenta a transcendência. A segunda é realizada apenas após muito avanço e requer uma situação externa compatível, composta do afastamento de toda atividade e companhia mundana, da companhia de outros realizando igual prática e o intenso estudo (ao ponto de memorizar quase que integralmente os textos confidenciais que descrevem as atividades do Casal Divino[xi]), tendo como base as revelações contidas no Srimad-Bhagavatam. Nesta prática, há riscos de imaturidade (almejando a visão divina antes de ter avanço para tal) e, mais grave, de egocentrismo (colocando novamente os interesses pessoais em primeiro lugar, ao invés dos interesses do Senhor, que é justamente a principal diferença entre consciência mundana ilusória e consciência transcendental devocional). Por estas e outras razões, estimula-se hoje a primeira forma de experimentar o transe, sendo que milhares de pessoas ao redor do mundo têm comprovado a eficácia desta técnica.

Conclusão

O caminho do yoga é sempre bom. Mesmo em suas aplicações mais simples e mundanas, ele nos traz resultados de boa saúde e redução do estresse. Praticando seu aspecto intermediário (comportamento, estilo de vida, dieta, etc.), o yoga nos proporciona uma vida feliz e tranquila. Vivendo seu aspecto avançado (estudo dos textos védicos e meditação), experimentamos crescente bem-aventurança e visão transcendental. E, por último, situando-nos em transe (completa dedicação ao Senhor, interna e externa, meditativa e prática) gradualmente nos livramos de todo o sofrimento mundano e nos absorvemos em puro amor divino.
O processo do yoga é científico e claro. Basta ter um bom professor e seguir suas instruções para, em pouco tempo, experimentar o resultado. Como Patanjali explicou nos sutras 1.21-22; assim como em qualquer tipo de treinamento, quanto maior a intensidade da prática, maior o resultado. Além disso, o processo é acessível a todos que tenham dedicação e o sincero desejo de avançar, independente de raça, sexo, religião, idade, grau de escolaridade, situação econômica ou nacionalidade.
Encerro esta pequena explanação do “Yoga nos Dias de Hoje” agradecendo a todos que me guiam e apoiam, em especial meus professores Dr. Howard J. Resnick (Srila Hridayananda Das Goswami Acharyadeva) e Sri Srimad A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, e desejando ao leitor sucesso em suas práticas e estudos no caminho do yoga.
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Este artigo é o posfácio da obra Yoga-sutra, Uma Abordagem Prática.

Fonte:http://voltaaosupremo.com/artigos/artigos/yoga-nos-dias-de-hoje/