COMO ESTUDAR O BUDISMO : O CAMINHO DO DARMA - MESTRE HSING YUN

Como estudar o budismo

Ensinando o Darma, o Buda deu ao mundo um pre­sen­te de ines­ti­má­vel valor, que ensina como encon­trar a liber­da­de. O Darma é um espe­lho que refle­te nos­sas mais pro­fun­das verda­des inte­rio­res. Mostra-nos como pode­mos nos liber­tar de nos­sas pró­prias ilu­sões ao reve­lar pro­fun­das cama­das de ver­da­de que já exis­tem den­tro de nós. Essas são as mes­mas ver­da­des que gover­nam o uni­ver­so. Examinando nossa mente no espe­lho dos ensi­na­men­tos do Buda, des­co­bri­re­mos que a sabe­do­ria que nela des­per­ta é algo que já conhe­cía­mos. A verda­de não é algo ­alheio a nós e, de fato, quan­do a apren­de­mos, vemos que é muito menos desconhecida do que as ilu­sões nas quais acre­di­tá­va­mos antes.
O preço de apren­der o Darma não é fácil de ava­liar ou descrever, pois esse apren­di­za­do ­requer que desper­te­mos para nós mes­mos. Exige tam­bém que tome­mos mui­tas peque­nas e silencio­sas deci­sões no âmago de nosso ser. Devemos decidir que que­remos mudar, apren­der e real­men­te ten­tar apli­car os ensi­na­men­tos do Buda ao mundo em que vive­mos. O budis­mo não é uma ciên­cia árida que possa ser vista como separada das pes­soas que nos rodeiam, assim como não é ape­nas mais um papel que possamos ado­ta­r com rela­ção a elas.
O Darma é a ver­da­de. Por ser ver­da­dei­ro, o Darma não pode estar contido em uma única súmula. Tampouco pode ser cap­tu­ra­do em algu­ma fór­mu­la abs­tra­ta da lin­gua­gem filosófica. Basta che­gar­mos à cer­te­za de tê-lo com­preen­di­do para que o Darma uma vez mais nos esca­pe. Isso acon­te­ce por­que, no momen­to em que toca­mos uma de suas verdades, nós pró­prios começa­mos a mudar. No momento em que uma luz se acen­de na escu­ri­dão, a escuridão desa­pa­rece – desa­pa­re­ce a som­bria mão que escon­dia a luz.
O apren­di­za­do do Darma é o pro­ces­so mais empol­gan­te e mara­vi­lho­so do mundo. A seguir, ten­ta­rei expli­car como abor­dar o Darma de forma a tirar dele o maior pro­vei­to. Os con­se­lhos que apre­sen­ta­rei foram tes­ta­dos e apro­va­dos por pra­ti­can­tes budistas ao longo de mais de dois mil anos. Lembre-se sem­pre: no pro­ces­so de aprendizado das ver­da­des que o Buda ensi­nou, um ele­men­to muito impor­tan­te é apren­der como apren­dê-las.

Verdades para vida

Tenho sobre o Darma uma certeza absoluta: ele é para as pessoas. Os ensinamentos do Buda não são um mero sistema filosófico para recolocar em ordem os conceitos que estão em nossa cabeça, mas um ato vivo de compaixão para nos mostrar como abrir o coração ao milagre da consciência – a nossa consciência em meio à consciência dos demais.

Aprendi essa verdade da forma como todos devem aprendê-la: vivendo a vida e aplicando os ensinamentos do Buda àquilo que eu experienciava. Espero que, ao descrever algumas dessas minhas experiências, consiga auxiliar os leitores a compreender minha abordagem do Darma e minha profunda certeza de que ele deve ser praticado com as pessoas, em meio a elas e para elas.
Nasci na China, num vilarejo da província de Jiangsu, em 1927. Como a maioria das pessoas da época e do lugar, minha família professava uma mistura de crenças religiosas, acreditando tanto em deuses e espíritos como nos ensinamentos do Buda. Não havia separação clara entre as diferentes crenças, mas uma coisa era certa: a religião era uma parte muito importante da vida de todos. Assim, aos três ou quatro anos, eu já havia absorvido a profunda convicção religiosa da classe camponesa da China.

Minha infância foi passada, em grande parte, na casa da minha avó materna. Por motivos religiosos, ela era vegetariana desde os 18 anos. Casou-se com meu avô e manteve essa prática, além de adotar outras. Despertava muito cedo todas as manhãs para recitar um sutra budista. Embora ela não fosse capaz de ler uma única palavra, ela conhecia de cor o Sutra Amitabha e o Sutra Vajracchedika-prajñaparamita (Sutra Diamante), entre outros.

A recitação dos sutras proporcionou-lhe poderosas experiências religiosas, interpretadas por ela como o desenvolvimento de superpoderes, o que a levou a redobrar seu empenho: passou a levantar-se ainda mais cedo e a meditar por mais tempo. Ainda me lembro dela, saindo da cama antes do raiar do Sol para meditar. Não sei onde ela havia aprendido um exercício de ioga que fazia seu estômago roncar. O barulho era tão alto que chegava a me acordar, arrancando-me dos sonhos.

Uma vez perguntei: “Vovó, por que sua barriga faz tanto barulho?”.

E ela respondeu: “É o meu kung-fu, resultado de anos de prática”.

À medida que fui crescendo, tive contato com muitas outras formas de religiosidade popular, incluindo reuniões mediúnicas, transes, “viagens espirituais”, fenômenos de clarividência etc.

Fui para o monastério com 12 anos. Naquele momento, meu mundo mudou. Deixei de ser uma criança despreocupada e tornei-me um disciplinado estudante do Darma. Sete ou oito anos de estudos se passaram antes que eu pudesse voltar à minha vila para visitar a família. A guerra com o Japão (1937-1945) já havia ter minado. Encontrei minha avó sentada embaixo de uma árvore, costurando. Ajoelhei-me a seu lado e, de repente, pensei: durante todo aquele tempo no monastério, eu nunca tinha ouvido falar de uma técnica de meditação que fizesse o estômago roncar. Julguei a oportunidade excelente para ensinar-lhe algo mais a respeito do Darma.

Vovó, sua barriga ainda faz aquele barulho quando a senhora medita?”, perguntei.

Com a pura sinceridade das velhas senhoras, ela me respondeu: “É claro que sim. Como poderia viver sem aquele kung-fu?”.

Repliquei então: “Mas qual a utilidade disso? Carros e aviões também fazem barulho. Uma máquina pode fazer mais barulho que o seu estômago. Provocar o estômago para fazer ruídos não ajuda na elevação moral da raça humana e nem ajuda os seres sencientes a se libertarem do ciclo de nascimento e morte. Conheci muitos grandes mestres nos últimos anos, e nenhum deles faz o estômago roncar durante a meditação”.

Minha avó ficou perplexa. Depois de um longo silêncio, indagou:

“Então, qual é a forma correta de me aperfeiçoar?”.

Respondi: “O cultivo adequado exige que desenvolvamos todo o potencial de nosso caráter através da elevação da natureza moral, em cada oportunidade que se nos apresente. A verdadeira prática espiritual requer que nos observemos de perto para perceber a verdadeira natureza da mente. Nada disso tem a ver com fazer o estômago roncar!”.

Minha avó ficou me olhando por um longo tempo. Sob seus olhos maduros e gentis, minha certeza se desvaneceu. E o pior é que ela havia acredita do em mim! Suas décadas de prática solitária eram o alicerce de sua fé. Talvez fosse mesmo verdade que os roncos de seu estômago não tinham ajudado muito na elevação moral da raça humana, mas também era verdade – e esta era uma verdade muito mais profunda – que seu kung-fu era tudo o que ela tinha. Era tudo para ela.

Em um único instante impensado e com pouquíssimas palavras, levei-a a questionar o alicerce de sua fé. Mal consegui enfrentar a decepção que vi em seus olhos. Eu era jovem e tinha ultrapassado os limites do nosso vilarejo. Portanto, ela acreditou em mim. Continuamos a conversar, mas percebi que eu nada poderia fazer ou dizer para sanar a dor que havia provocado. Até hoje essa lembrança me incomoda.

Pouco tempo depois, a China continental entrou no turbilhão da revolução comunista. Acompanhei uma unidade militar que foi enviada para Taiwan (Ilha de Formosa), pensando logo retornar ao continente, mas, à medida que a revolução avançava e mais soldados nacionalistas batiam em retirada, percebemos que o mais provável era ficarmos em Taiwan por muito tempo. Foi o que aconteceu.

Quando comecei a pregar o Darma em Taiwan, lembrei-me de minha experiência com minha avó. Nunca mais tentei destruir as complexas crenças populares de quem viesse me ouvir. Percebi que esse tipo de convicção religiosa pode servir de introdução às profundas verdades ensinadas pelo Buda. Ninguém consegue compreender o Darma em uma única palestra; portanto, devemos respeitar as crenças dos outros.

Em 1953, mudei-me para Yilan, na costa leste de Taiwan. Logo percebi que, muito provavelmente, eu era o primeiro monge budista a pôr os pés ali para pregar o Darma. Havia na região um templo sempre cheio de fumaça de incenso, que era dedicado à deusa Mazu, protetora dos navegantes. Toda a população da localidade ia lá para reverenciar e adorar. Ninguém tinha a compreensão do budismo, mas todos os fiéis acreditavam que aquela era uma forma de prática budista. E, estando satisfeitos com elas, jamais aceitariam que alguém de fora da comunidade pudesse convencê-los a tentar outra coisa. Muitos missionários cristãos passaram pela região sem conseguir uma conversão sequer.

Com a lembrança da decepção de minha avó ainda fresca na memória, empreendi a tarefa de apresentar os ensinamentos do Buda com muito mais reserva do que teria tido anteriormente. Decidi adotar uma abordagem gradual, considerando cuidadosamente aquilo em que as pessoas já acreditavam. Sabia muito bem que tentar demolir suas crenças de nada adiantaria: esse caminho apenas as levaria a decepcionar-se consigo mesmas ou a rejeitar o Darma e a mim.

Concepções errôneas não são tão boas como concepções corretas, mas, pelo menos por algum tempo, servem para abrandar a impressão de solidão e isolamento dos que são desprovidos de convicções religiosas. Por ter vivido minha juventude no interior da China, aprendi que a religião é importante para o bem-estar da sociedade como um todo. Um olhar nos olhos de minha avó ensinou-me a ver que a religião é essencial a todo e qualquer coração humano.

Todo monge budista estuda o Darma e aprende com tantos professores quanto possível. Eu não fui exceção à regra. Um monge budista geralmente estuda com um mestre principal. Meu orientador foi mestre Zhikai (1911-1981), abade do Monastério Qi Xia Shan, um dos maiores e mais antigos da China. Apesar de ser o abade desse monastério tão importante e famoso em toda a China, ele nunca fez nada para me ajudar: apenas me enviava a outros monastérios para estudar, e, às vezes, anos se passavam sem que eu o visse.

Nas raras ocasiões em que o encontrei, ele nunca me ofereceu a oportunidade de sentar com ele, conversar e fazer perguntas. Ele era como a maioria dos monges de sua geração: tratava os monges mais novos com extrema frieza. Quando não estava aborrecido com algo que eu tivesse feito, mestre Zhikai estava me dando ordens. Jamais me perguntou se eu precisava de alguma coisa ou se havia algo que pudesse fazer para me ajudar. Em dez anos, tudo que ganhei dele foram duas mudas de roupa. E é claro que eu não ousava pedir-lhe dinheiro para comprar roupas. Entretanto, sempre que escrevia para casa, dizia algo como: “O mestre é muito bom para mim. Estou muito feliz aqui. Vocês não precisam se preocupar comigo”.

Nas décadas de 1930 e 1940, a China era um país muito pobre. No monastério onde eu morava, havia mais de quatrocentas pessoas. Nossa comunidade era tão carente que só comíamos arroz integral duas vezes por mês. Em geral, as refeições limitavam-se a um ralo mingau de arroz. O caldo servido no desjejum, de tão ralo, era quase transparente. O pouco de comida servido com o mingau não passava de bagaço de queijo de soja ou tiras de nabo seco. O queijo de soja de verdade era reservado para os visitantes. Das tiras de nabo, frequentemente saíam larvas que rastejavam pela mesa. Visto que nunca tínhamos óleo comestível, o resíduo de queijo de soja que comíamos não era cozido. Havia poucos nutrientes em nossa alimentação; mas, pelo que me lembro, não ficávamos doentes com frequência. A maioria era bem saudável.

A vida monástica nos ensinou a sermos estoicos. Esperavam de nós que fôssemos firmes e capazes de suportar privações. Estoicismo não é a única virtude no mundo, mas acho que é uma das mais úteis no ensino e no aprendizado do Darma. Como poderia conquistar a própria mente alguém que não consegue aguentar as provações do corpo?

Não existe melhor professor do que a vida. Não adoto o método antigo com meus discípulos, mas não me ressinto de ter passado por ele. Depois de alguns anos vivendo daquela maneira, dificilmente alguma coisa consegue nos perturbar.

Aos 15 anos, fui ordenado monge. A cerimônia de ordenação estendeu-se por 53 dias, período que deixou marca indelével em minha mente e foi a fonte de muitos hábitos que até hoje mantenho.

Durante os 53 dias da cerimônia, tínhamos de prestar total atenção àquilo que estávamos fazendo. Nesse período, mal abri os olhos e nem uma vez ousei virar a cabeça para ver o que acontecia ao meu redor. Aos 15 anos, os jovens são curiosos, querem saber de tudo e ver quem está fazendo o quê. Ouvem o som do vento nos campos e querem ir até a janela para ver o que está acontecendo. É a curiosidade natural da juventude. Durante a cerimônia de ordenação, tal comportamento era inadmissível. Se fizéssemos algum movimento, um dos monges coordenadores vinha e nos batia com uma vara, dizendo: ”Garoto, o que você pensa que está fazendo? Feche os ouvidos e deixe de prestar tanta atenção ao que ocorre fora de você!” ou: “Rapaz, não deixe seus olhos serem levados por tudo o que veem! De tudo isso, o que realmente lhe pertence?”.

Lembro-me bem do golpe de vara que me levou a pensar na verdade contida naquelas palavras. De fato, em todo o monastério Qi Xia Shan, não havia um tijolo, uma telha, uma folha sequer que me pertencesse. Aquela lição me tocou profundamente, e até hoje ainda tenho por hábito fechar os olhos e me abstrair do mundo ao meu redor. Nesses momentos, descortinam-se as tranquilas paisagens do mundo interior, e meus olhos e ouvidos preenchem-se com os sons da solidão interna, em vez de com os ruídos da mudança dos fenômenos.

Quando a cerimônia de ordenação estava para ser concluída, pude lançar novamente o olhar ao mundo. Ainda me lembro de que tudo me pareceu vívido e fresco. Montanhas, árvores e flores saltaram à minha mente com uma intensidade nunca antes experimentada.

Existe um ditado que afirma: “Praticar o Darma por um minuto vale mais do que falar dez minutos sobre o Darma”. O texto deste livro destina-se a auxiliar o leitor a penetrar nos significados profundos do ensinamento do Buda Shakyamuni. Não é aqui apresentado como ideias desvinculadas da vida. Aprender o Darma sem praticá-lo seria trágico! Minha esperança é de que todos os que lerem este livro venham a também praticar os ensinamentos nele contidos.

Recitar o nome do Buda ou meditar regularmente assemelha-se a cozinhar. O esforço constante é como a chama sob uma panela de arroz. Se acendermos o fogo e o apagarmos em seguida, não conseguiremos preparar a refeição. Contudo, aplicando a quantidade certa de calor durante o tempo correto, iremos usufruir plenamente dos frutos de nossos esforços. Essa é a sabedoria de milênios de prática budista. Ao concentrar a mente nesses grandiosos ensinamentos, sendo receptivos a eles, as maravilhosas e compassivas energias de planos mais elevados começarão a preencher nossa vida. E com elas aprenderemos o caminho para encontrar a verdade.

A prática budista deve começar por nós mesmos: quem somos, o que somos, o que fazemos. Primeiro, aprendemos a controlar os impulsos negativos do corpo. Isso é moralidade. Em seguida, aprendemos a controlar a mente. Isso é meditação. Enfim, aprendemos a compreender as verdades profundas da vida. Isso é sabedoria. Cada estágio depende do anterior.

Quando eu era jovem, passávamos muitas horas em meditação. Assim como em muitos monastérios chineses, os ensinamentos do Qi Xia Shan eram uma combinação das escolas Terra Pura e Chan. Às vezes, recitávamos o nome do Buda Amitabha; outras, simplesmente meditávamos sobre nossa natureza búdica. Essas duas práticas complementam-se muito bem, uma vez que a primeira ensina a humildade de depender do Buda e a segunda ensina a sabedoria de depender de si próprio.

No monastério, costumávamos meditar à noite. Suponho que isso acontecia em parte porque nada mais tínhamos a fazer. Nosso templo localizava-se nas montanhas e dispúnhamos de pouquíssimos recursos. Não podíamos desperdiçar óleo com lamparinas para ler à noite, pois nosso óleo mal dava para as necessidades da cozinha. Ensinaram-nos a sentar na posição de lótus. A finalidade da meditação é acalmar a mente, assentando assim as distrações do pensamento iludido. À medida que isso acontece, uma consciência mais elevada começa a se manifestar.

Nos escritos budistas, a mente é por vezes comparada a um espelho-d’água, cuja natureza original é límpida e pura e só se turva quando o sedimento da ilusão é remexido em seu fundo. A meditação é vista como uma forma de deixar o sedimento assentar e, quando isso ocorre, tudo se torna claro. Provavelmente, a maior lição que podemos aprender sentados em meditação é que a clareza mental também pode ser alcançada em qualquer situação. Ao dominar a técnica da meditação na posição sentada, começamos a ver que também é possível vivenciar profundos estados meditativos em pé, andando ou fazendo praticamente qualquer coisa.

A meditação é um elemento essencial da prática budista, mas não pensem que seja tudo no budismo. A verdade mais profunda que aprendi no templo chan do monastério Qi Xia Shan foi que a mente em meditação é a mente de todos os seres sencientes – e essa é a mente de todos os Budas. A meditação é uma porta; o que passa por essa porta é nossa compaixão pelos outros.

A principal razão que leva as pessoas a abandonar o budismo ou a não obter grande benefício com sua prática é não terem aprendido como adotar para si mesmos o equilíbrio adequado entre a experiência e a compreensão dos ensinamentos do Buda. Como consequência desse desequilíbrio, perdem o entusiasmo e concluem que o Darma não leva a nada. Ora, não é pleno o entendimento do Darma que se baseie só nas palavras ou apenas no funcionamento da mente. A finalidade da recitação e da meditação é mostrar que a percepção do Buda Shakyamuni é real. Quando temos essa experiência em meditação, ou quando isso nos inspira na recitação, nós nos renovamos e nos capacitamos a prosseguir no longo processo de introspecção e crescimento moral que é o caminho para a iluminação.

Se sentirem preguiça em seus estudos ou tédio com o Darma, encontrem um lugar adequado para meditar ou procurem uma oportunidade de fazer um retiro. A experiência será transformadora. Com a prática, os benefícios da meditação são rapidamente trazidos à mente. Com a prática, aprendemos a sentir o Buda interior quase sem precisar procurar.

Minha maior ambição sempre foi disseminar o Darma por meio de textos: apenas a palavra escrita sobre vive ao tempo. Aprendi o Darma principalmente em escritos de outros e sinto que meu dever é tentar transmiti-lo de forma adequada. As verdades contidas no Darma transcendem as palavras; apesar disso, a linguagem é o meio utilizado para se transmitirem essas verdades. Espero que os leitores deste pequeno livro apreciem as palavras nele contidas, beneficiando-se da profunda sabedoria do Buda que originalmente as pronunciou.

Hsing Yün

Prefácio do livro Budismo Significados Profundos, Escrituras Editora, São Paulo, dezembro de 2011.

Quatro estamos mentais para o estudo do Darma

Utilize a fé para estu­dar o Darma
A fé cega é inú­til. O Buda nunca pediu que acre­di­tas­sem nele cega­men­te; sem­pre conclamou as pes­soas a tes­tar seus ensi­na­men­tos e com­pro­vá-los por si pró­prias. Na verda­de, não há outra forma de estu­dar o Darma a não ser tes­tan­do-o e vol­tan­do a testá-lo todos os dias. O pro­ces­so de cres­ci­men­to e apren­di­za­do que se ini­cia quan­do entra­mos em con­ta­to com o Darma pela pri­mei­ra vez só ter­mi­na com a ilu­mi­na­ção. E pode­ria ser diferen­te? Como ­alguém pode­ria espe­rar se ilu­mi­nar sem se esforçar rumo a essa meta todos os dias, sem exce­ção?
Sendo assim, de que serve a fé? Já que é neces­sá­rio tes­tar o Darma, por que precisa­mos de fé para apren­dê-lo? A res­pos­ta a essa per­gun­ta está no que entendemos por “fé”. Em seu nível mais bási­co, a fé tam­bém pode­ria ser cha­ma­da de “con­fiança” ou “expec­ta­ti­va razoá­vel”. Um estu­dan­te universitário de mate­má­ti­ca pre­ci­sa con­fiar no pro­fes­sor e ter uma expec­ta­ti­va razoá­vel de que o curso que ele está fazendo o leva­rá a com­preen­der ­melhor a maté­ria. Do mesmo modo, um estu­dan­te do Darma pre­ci­sa ter con­fiança no Buda e ter uma expectativa razoá­vel de que seus ensi­na­men­tos o leva­rão à ilu­mi­na­ção.
O Buda ensi­nou como nos tor­na­mos ­sábios. A fé que se insi­nua e se move em nós quan­do ouvi­mos sua men­sa­gem é um cha­ma­do da sabe­do­ria mais ele­va­da sobre a qual ele fala­va. Depois de con­vi­ver algum tempo com o Darma, pas­sa­re­mos natu­ral­men­te a con­fiar nele cada vez mais. Nossa fé cres­ce­rá, por­que nossa expe­riên­cia dos ensinamentos do Buda nos mos­trou que eles são ver­da­dei­ros. A fé, assim como a sabedoria, cres­ce quan­do expos­ta ao Darma.
Fé, crença, con­fian­ça: sem elas, é impos­sí­vel fazer qual­quer coisa. A pró­pria vida ­baseia-se na fé e na espe­rança. Sun Yat-sen (1866-1925), con­si­de­ra­do o pai da China moder­na, criou o slo­gan “Fé é força”. O Tratado sobre a Perfeição da Grande Sabedoria diz: “O Budadharma (budismo) é um vasto ocea­no; entra­mos nele pela fé e o atravessamos pela sabe­do­ria”. Segundo o Sutra Avatamsaka (Sutra da Guirlanda de Flores): “A fé é a mãe de todas as vir­tu­des. Ela nutre todas as boas raí­zes”.
A fé é como a raiz de uma plan­ta. Nada cres­ce ou flo­res­ce se as raí­zes não forem for­tes. Quando se perde a fé, vai-se tam­bém a espe­rança; a vida torna-se som­bria. Quando a fé é adqui­ri­da, ganha-se a espe­rança, e a vida volta a ser mara­vi­lho­sa. No estu­do do Darma, é neces­sá­rio alcançar o equi­lí­brio cor­re­to entre a neces­si­da­de de crer no Darma e a de testá-lo. Se nele acre­di­tar­mos com fé dema­sia­da, tal­vez nunca venha­mos a fazer as per­gun­tas mais pene­tran­tes, que levam aos ­níveis mais pro­fun­dos de compreensão. Por outro lado, se gas­tar­mos tempo exces­si­vo ques­tio­nan­do toda e qualquer pala­vra, esta­re­mos nos privan­do da opor­tu­ni­da­de de apren­der o que quer que seja.
Há pes­soas que con­tes­tam tudo o que ouvem e argu­men­tam con­tra todo e qualquer aspecto do ensi­na­men­to do Buda. Essa ati­tu­de impos­si­bi­li­ta o apren­di­za­do, e não era a isso que o Buda se refe­ria ao dizer que sua men­sa­gem deve ser tes­ta­da. Dizia, isso sim, que deve­mos pri­mei­ro apren­der a men­sa­gem e – depois apli­cá-la em nossa vida. Aquele que apren­de o Darma cor­re­ta­men­te e o apli­ca cor­re­ta­men­te em sua vida se conven­ce de que ele é ver­da­dei­ro.

Utilize a dúvi­da para estu­dar o Darma
Vindo ­depois do que foi dito, essa suges­tão pode pare­cer estra­nha. No entan­to, já faz milê­nios que a dúvi­da cons­titui um impor­tan­te méto­do de estu­do do Darma. O Darma é como um gran­de sino: mal se ouve quan­do toca­do de leve; porém, quan­do toca­do com força, reper­cu­te tanto que seu som alcança o mundo todo.
O Darma pode ser tes­ta­do e com­pro­va­do. Enfocando todos os vagos –anseios de nos­sas dúvi­das dire­ta­men­te no Darma, tere­mos como res­pos­ta um sono­ro “sim”. Há um dita­do chan que se apli­ca aqui: “Pequenas dúvi­das levam a peque­nos des­per­ta­res. Grandes dúvidas levama gran­des des­per­ta­res”. Sem per­gun­tas, não obte­mos res­pos­tas. Sem dúvidas, não temos pon­tos de aces­so a novas infor­ma­ções. Quem tem cer­te­za de tudo não apren­de nada. Nunca tenha medo de fazer nenhu­ma per­gun­ta, já que, definitivamen­te, o Darma pode res­pon­der a todas as ques­tões.
No Budismo Chan, as dúvi­das são uti­li­za­das como téc­ni­ca de medi­ta­ção. Os mestres chan nos acon­se­lham a son­dar e explo­rar nossas sen­sa­ções de dúvi­da. Por cen­te­nas de anos, eles têm dito que as áreas mais obs­cu­ras do nosso ser são fon­tes incrí­veis de ener­gia que não apro­vei­ta­mos.
Vastos esta­dos de samádi (con­cen­tra­ção) podem se des­cor­ti­nar se ultra­pas­sar­mos as palavras e mer­gu­lhar­mos fundo nas reser­vas pri­mor­diais de mara­vi­lha­men­to e dúvi­da que jazem no fundo do nosso ser. As per­gun­tas, na medi­ta­ção chan, são ela­bo­ra­das para que nos apro­fun­de­mos nes­sas jazi­das de pro­dí­gio e sabe­do­ria. Os mes­tres chan nos aconselham a fazer ami­za­de com as dúvi­das. Sugerem tam­bém que nos per­gun­te­mos: “Como era meu rosto antes de eu nas­cer?”, “Quem está recitando o nome do Buda?”

Utilize a mente des­per­ta para estu­dar o Darma
As pes­soas vão à esco­la para adqui­rir conhe­ci­men­to. Estudam o Darma para se ilu­mi­nar. O pro­ces­so de ilu­mi­na­ção é uma combinação do [despertar] ‘gradual’ e do [despertar] ‘súbito’
 Vagarosamente, lemos e estu­da­mos os ensi­na­men­tos do Buda até que um dia, de repen­te, dize­mos: “Ah! Enten­di”. Então, damos o passo seguin­te, reco­meçan­do o mesmo pro­ces­so: gradual acu­mu­la­ção de informa­ções, segui­da de súbi­ta com­preen­são de como elas devem ser uti­li­za­das.
Se enten­der­mos esse pro­ces­so, pode­re­mos ­melhor apre­ciar os dois aspec­tos do cami­nho da ilu­mi­na­ção. Um deles ­baseia-se em um lento pro­ces­so de apren­di­za­gem, ao passo que o outro é algo que se agita em nós, repen­ti­na­men­te, quan­do o que foi aprendido pene­tra as cama­das mais pro­fun­das do nosso ser. Quando nos apli­ca­mos aos estu­dos, é neces­sá­rio aten­tar para ambos os aspec­tos.
Certa vez, um jovem estu­dan­te per­gun­tou a um mes­tre chan por onde deve­ria começar a estu­dar o Darma. O mes­tre disse: “Você ouve os pás­sa­ros can­tan­do nas árvo­res e os gri­los cri­cri­lan­do na grama? Pode ver a água fluin­do no ria­cho e as flo­res des­pon­tan­do nos cam­pos?” O jovem respondeu que sim. O mes­tre con­cluiu então: “É por aí que você deve começar a estu­dar o Darma”. Com essa res­pos­ta, o mes­tre mos­trou ao estu­dan­te duas coi­sas impor­tan­tes: que é preciso uti­li­zar a mente des­per­ta para come­çar seus estu­dos e que os estu­dos devem se fun­da­men­tar no mundo real que exis­te à nossa volta. Se ouvir­mos o mundo de forma recep­ti­va, a mente des­per­ta ouvi­rá a voz do Buda no mur­mú­rio de um rega­to, e os olhos verão o mundo do Darma em tudo o que contempla­rem.
Todos deve­mos apren­der a encon­trar a mente des­per­ta em nós. Depois de achá-la, é pre­ci­so aprender a con­fiar nela e uti­li­zá-la para des­co­brir o cami­nho rumo ao Buda que já exis­te den­tro de nós.
Outra his­tó­ria na crô­ni­ca do Budismo Chan ilus­tra o mesmo ponto de outra forma.
Quando mestre Longtan Chongxin (datas igno­ra­das) ainda era noviço, foi estu­dar sob a tute­la do mestre Tianhuang Daowu (748-807). Depois de ­vários anos, mestre Tianhuang Daowu ainda não lhe havia dado nenhuma lição, nem uma vez ­sequer, sobre o Darma. Sentindo-se des­mo­ti­va­do, Longtan Chongxin deci­diu pro­cu­rar outro lugar onde pudes­se ter aulas de ver­da­de. Ele foi ter com mestre Tianhuang Daowu e disse: “Vou embo­ra para poder estudar o Darma”. O mes­tre res­pon­deu: “Mas nós ensi­na­mos o Darma aqui. Por que a neces­si­da­de de ir embo­ra para estu­dar?” Longtan Chongxin repli­cou: “Passei mui­tos anos aqui e o senhor nunca me disse nada a res­pei­to do Darma”. O mes­tre ponderou: “Quando você me traz o chá, eu o acei­to. Quando você me traz ali­men­tos, sem­pre os como. Quando você me reve­ren­cia, sem­pre agra­de­ço e retri­buo com a cabeça. Qual foi o dia em que não lhe transmi­ti o Darma?” Ao ouvir essas pala­vras, Longtan Chongxin teve um gran­de desper­tar e resol­veu não aban­do­nar seu mes­tre.
A sabe­do­ria do Buda encon­tra-se den­tro de nós. Cada um deve encon­trá-la por si pró­prio. Professores e ­livros auxi­liam no apren­di­za­do, mas nada, nem nin­guém, pode fazer com que a mente ama­du­re­ça por nós. Ninguém ­jamais con­se­gui­rá nos mos­trar nosso verda­dei­ro ser. É tare­fa nossa des­co­brir quem real­men­te somos.

Utilize a não mente para estu­dar o Darma
A não mente não cal­cu­la, não com­pa­ra, não trama. A não mente é pura. É segu­ra. Não foi man­cha­da pelas com­ple­xi­da­des do ego­cen­tris­mo. Já vi che­ga­rem ao monastério pes­soas com inten­sa ati­vi­da­de men­tal, que­ren­do ilu­mi­nar-se o quan­to antes. Em geral, devo­tam-se aos estu­dos por um ou dois anos e... desis­tem. Isso acon­te­ce por­que já chegam com a mente cheia de coi­sas e, assim, não con­se­guem atin­gir o âmago da mensagem do Buda.
A inten­si­da­de da mente cons­trói uma mura­lha de ­ideias pre­con­ce­bi­das entre a pessoa e o Darma. Esse tipo de ati­tu­de impos­si­bi­li­ta o apren­di­za­do de novos con­teú­dos, quais­quer que sejam eles. Nossa ver­da­dei­ra mente é recep­ti­va ao que acon­te­ce à nossa volta e consegue ouvir sua pró­pria ins­pi­ra­ção, assim como a de ­outras pes­soas. A verdadei­ra mente é uma não mente sem indi­vi­dua­li­da­de.
Um aluno per­gun­tou ao mes­tre de medi­ta­ção: “Mestre, o senhor geral­men­te medi­ta duran­te lon­gos perío­dos de tempo. O senhor entra em medi­ta­ção atra­vés da mente ou da não mente?” O mes­tre respon­deu: “Não entro em medi­ta­ção atra­vés da mente, tam­pou­co da não mente. Entro em um esta­do que está além das dis­tin­ções rela­ti­vas”.
Em últi­ma ins­tân­cia, as ver­da­des con­ti­das no Darma estão além das dua­li­da­des e oposições. Transcendem os opostos: bem e mal, ale­gria e tris­te­za, calor e frio, certo e erra­do. A não mente pode ser vista como um esta­do men­tal capaz de levar a mente para além de todas as dua­li­da­des. É como um antí­do­to que cura a mente da ten­dên­cia de aferrar-se a pre­con­cei­tos limi­tan­tes. É quase impos­sí­vel sor­ver o rico néc­tar dos ensinamen­tos do Buda se os abor­dar­mos sem­pre de forma ana­lí­ti­ca ou bus­can­do compará-los a algu­ma coisa. Primeiro, é neces­sá­rio estar recep­ti­vo: isso é a não mente. Então, será pos­sí­vel absor­ver o Darma e torná-lo parte de nós mes­mos, des­co­brin­do que ele sem­pre este­ve em nós.
Um discípulo do mes­tre chan Guishan Lingyou (771-853) per­gun­tou-lhe: “Qual é o cami­nho?” O mes­tre respondeu: “A não mente é o caminho”. O discípulo disse: “Então, estou per­di­do!” Ao que o mes­tre repli­cou: “Então, encon­tre alguém que não este­ja per­di­do”. O discípulo ques­tio­nou: “Mas quem é que não está per­di­do?” O mestre disse: “Não existe ninguém além de você. Encontre a si mesmo!”
Do fundo do cora­ção, espe­ro que todos os apren­di­zes do Darma ado­tem essa atitude em seus estu­dos. Com recep­ti­vi­da­de ao mundo à nossa volta e sen­si­bi­li­da­de para as conclusões da nossa intros­pec­ção, os grandes ensi­na­men­tos do Buda nos leva­rão infali­vel­men­te à liber­ta­ção final.
A meta da não mente é ver o mundo como ele real­men­te é, e não como pen­sa­mos que é. Alcançando esse obje­ti­vo, será pos­sí­vel ver o Buda em tudo e, nele, o seu ver­da­dei­ro ser. Reconheceremos todo o uni­ver­so em uma única flor e a eter­ni­da­de em um sor­ri­so passagei­ro.

Os quatro pilares para estudo do Darma

Muitos se per­dem em seu estu­do do Darma por não apli­ca­rem cor­re­ta­men­te o que aprende­ram ou por apren­de­rem incor­re­ta­men­te. As ver­da­des ensi­na­das pelo Buda são verda­des fun­da­men­tais. São ver­da­dei­ras em todos os luga­res, em todos os tem­pos e para todas as pes­soas. Portanto, é extre­ma­men­te impor­tan­te con­fiar em si pró­prio duran­te os estu­dos.
Todos neces­si­tam de ­livros, expla­na­ções e pro­fes­so­res para estu­dar; entre­tan­to, nin­guém deve­ria ­jamais esque­cer que nos­sas mais pro­fun­das per­cep­ções da ver­da­de são, provavelmen­te, nos­sos guias mais impor­tan­tes. Os qua­tro pila­res são ­ideias que deve­mos ter em mente sem­pre que abor­dar­mos o Darma. Elas não nos deixam cometer mui­tos erros, não nos per­mi­tem ­seguir fal­sos mes­tres, ficar con­fun­di­dos com a lin­gua­gem, nem nos per­der nas vai­da­des da mente.
O Buda foi um bri­lhan­te mestre que, além de ensi­nar aos seres sencientes o que apren­der, os ensi­nou como apren­der. A pro­fun­didade do seu insight é reve­la­da pelo estudo. Nos pará­gra­fos a ­seguir, comentarei as ins­tru­ções do Buda sobre como estu­dar seus ensi­na­men­tos.

Apoie-se no Darma, não nas pes­soas

As pes­soas podem apenas inter­pre­tar o Darma, podendo, tão somente, ajudar-nos a aprendê-lo. Ninguém pode, simplesmente, dá-lo para nós. Quem não viven­cia as ver­da­des do Darma nem as apli­ca à pró­pria vida não aprende o Darma, ape­nas se infor­ma a res­pei­to dele. As ver­da­des mais ele­va­das exi­gem, em últi­ma ins­tân­cia, ser viven­cia­das. Por milha­res de anos, os mes­tres e pra­ti­can­tes budistas estu­da­ram as ver­da­des ensi­na­das pelo Buda até con­se­gui­rem experimentá-las por si mesmos.
Quem tenta tomar empres­ta­da a expe­riência ­alheia ou per­mi­te que a sen­sibilidade do outro subs­ti­tua a sua pró­pria não apren­de rapi­da­men­te. A sabe­do­ria é algo que não pode ser memo­ri­za­do. O Darma não deve ser imi­ta­do. Sempre que apren­de­mos algo com ­alguém, pre­ci­sa­mos exa­mi­nar essa men­sa­gem sob a lente da nossa intros­pec­ção. Então, se nos pare­cer ver­da­dei­ra, deve­mos inter­na­li­zá-la e fazê-la nossa. Caso con­trá­rio, busquemos res­pos­ta em outro lugar.
É des­ne­ces­sá­rio dizer que um pro­fes­sor que acon­se­lhe ­alguém a pre­ju­di­car a si pró­prio, ou aos ­outros, nunca deve ser segui­do. É ine­vi­tá­vel que pes­soas de todos os tipos nos aju­dem em nos­sos estu­dos, contudo, se as seguir­mos muito de perto ou indiscriminadamente, é pos­sí­vel que aca­bem por nos pre­ju­di­car. Não pen­sar por si próprio contradiz o ensi­na­men­to bási­co do Buda.
Certa vez, um aluno per­gun­tou ao mes­tre chan Zhaozhou (778-897) o que deve­ria fazer para apren­der o Darma. O mes­tre res­pon­deu: “Vou uri­nar agora. Você pode fazer isso por mim? É claro que não! Ninguém pode fazer por mim, algo assim tão sim­ples! Se real­men­te qui­ser apren­der o Darma, faça-o por si mesmo!

Apoie-se na sabe­do­ria, não no acú­mu­lo de conhe­ci­men­to

No cerne dos ensi­na­men­tos do Buda está a sabe­do­ria que já se encontra em nosso inte­rior. Assim, ao estu­dar, é neces­sá­rio que estarmos atentos a essa sabe­do­ria. Podemos ­encher a cabeça com mui­tos fatos a res­pei­to do Darma; entre­tan­to, nem mesmo uma biblio­te­ca reple­ta de relatos sobre fatos se igua­la a uma única per­cep­ção clara da ver­da­de que exis­te por trás deles. Ver a ver­da­de é sabe­do­ria, ao passo que conhe­cer a ver­da­de é ape­nas conhecimento.
Não há nada de erra­do com o conhe­ci­men­to, mas, por si só, ele nunca liber­ta­rá ninguém das ilu­sões. Assim como o Darma é um espe­lho que refle­te nossa sabe­do­ria inerente, esta pode ser um espe­lho que refle­te os even­tos de nossa vida. Se vol­ta­rmos esse espe­lho para o mundo, veremos as coi­sas como elas real­men­te são, e não como as nossas impurezas nos dizem que elas são. Com a pro­fun­da sabe­do­ria da mente inte­rna, pode­mos ver a vida como ela real­men­te é.
Todos deve­mos estu­dar o Darma e apren­der as com­ple­xi­da­des dos ensi­na­men­tos do Buda, mas, ao apren­der um fato novo, pre­ci­sa­mos tam­bém garan­tir que o absor­vamos em pro­fun­di­da­de, pois quando absorvemos os ensinamentos do Buda, profundamente, a sabe­do­ria ine­ren­te a todas as for­mas de vida conscien­te começa­rá a des­per­tar por si pró­pria.

Apoie-se no sig­ni­fi­ca­do das pala­vras, não nas pala­vras

O apren­di­za­do huma­no é adqui­ri­do, em gran­de parte, por meio da lin­gua­gem. É principal­men­te com pala­vras que o Darma é ensi­na­do, assim, as pala­vras devem ser res­pei­ta­das pelo impor­tan­te papel que desem­pe­nham em nossa vida, mas nem por isso deve­mos nos dei­xar apri­sio­nar por elas. As ver­da­des que o Buda descreveu com pala­vras não estão nas pala­vras em si; são ver­da­des que trans­cen­dem, completamente, as pala­vras. Esquecer isso é esque­cer a essência da men­sa­gem do Buda.
No pas­sa­do, era hábi­to dos mes­tres chan cho­car as pes­soas com pala­vras ou atos, justamen­te com o obje­ti­vo de abrir a mente delas para esse fato. As pala­vras devem ser uti­li­za­das, mas não pode­mos per­mi­tir que elas nos usem. Xingando seus dis­cí­pu­los ou ridicu­la­ri­zan­do a Joia Tríplice (ver Capítulo 5), os mes­tres chan pre­ten­diam cho­car levando à com­preensão de que nenhu­m pensamento produzido pode ser acei­to como ver­da­de e que nenhum con­jun­to de pala­vras é sacros­san­to. Até nossa reve­rên­cia pelo Buda pode se tornar um obs­tá­cu­lo para o nosso cres­ci­men­to se não com­preen­der­mos que o ver­da­dei­ro Buda é um esta­do men­tal, e não um mero sím­bo­lo ou his­tó­ria que exis­ta em algum lugar fora de nós.
O mes­tre chan Linji Yixuan (c.787-867) gri­tou certa vez, bem alto: “Se o Buda Shakyamuni vies­se aqui hoje e come­ças­se a pre­gar o Darma, eu o espan­ca­ria com uma vara até a morte e com seu cadáver ali­men­ta­ria os cães!”
A irre­ve­rência do Budismo Chan, prin­ci­pal­men­te por ser já tão anti­ga, é um valio­sís­si­mo ele­men­to da tra­di­ção budis­ta. Suas pala­vras fero­zes sempre nos lembram de que não deve­mos usar o budis­mo para com ele cons­truir cas­te­los no ar ou um mausoléu. Não é ver­da­dei­ro um ensi­na­men­to que não possa ser vivi­do e experimentado. Se não pudermos começar de onde estivermos, em nosso esforço para aprendê-lo, ele não será de nenhuma valia para nós. Poderíamos tam­bém espan­cá-lo com uma vara atéa morte e com ele dar de comer aos cães.
“De que serve o Tripitaka? Traga-o para mim que eu o usa­rei como trapo para fazer limpe­za!” Essa frase – que se refe­re aos ­sutras sagra­dos do budis­mo – é outra das famosas obser­va­ções cho­can­tes do mestre Linji. Ele foi um monge que dedi­cou sua vida ao Darma e agia desta maneira, não por ter se arrependido de sua decisão [de ser monge], mas para ensi­nar que não deve­mos nos afer­rar às pala­vras. Ele tam­bém pode­ria ter dito que a lin­gua­gem não passa de uma série de sons pro­nun­cia­dos pela boca de ­alguém, sendo a ver­da­de algo muito mais gran­dio­so do que isso. Palavras são como um dedo apon­tan­do para a Lua, e não a Lua em si.

Apoie-se no sig­ni­fi­ca­do total, não no par­cial

Isto sig­ni­fi­ca que deve­mos estu­dar até que tenhamos compreendido a ver­da­de pro­fun­da da men­sa­gem do Buda, sem nos permitirmos parar em ­níveis mais super­fi­ciais de com­preen­são. O Buda disse mui­tas coi­sas a dife­ren­tes tipos de pes­soas. Seu méto­do de ensi­no cos­tu­ma ser chama­do de “meios hábeis” ou “meios efi­cazes”, por­que o que era ensi­na­do a dife­ren­tes públi­cos depen­dia da capa­ci­da­de de com­preen­são de cada um deles.
Havia aque­les com maior difi­cul­da­de de apren­di­za­do, com neces­si­da­de de exempli­fi­ca­ções con­cre­tas de tudo o que o Buda dis­ses­se, ao passo que – outros, com maior capa­ci­da­de de apren­di­za­do, con­se­guiam com­preen­der os argu­men­tos dire­ta­men­te.
Os ensi­na­men­tos do Buda, por­tan­to, ver­sam sobre mui­tos e varia­dos assuntos. A abrangência de seu propósito é amplia­da ainda mais pelo fato de ele ter pre­ga­do o Darma duran­te 45 anos. À medi­da que o tempo pas­sa­va, seus alu­nos foram se aprimorando e sua men­sa­gem foi se apro­fun­dan­do para se adaptar às suas sen­si­bi­li­da­des mais aguçadas. A profusão de ­sutras e esco­las que são provenientes daque­le período é vasta e, por vezes, con­fu­sa até mesmo para estu­dan­tes avança­dos do Darma. Se não for­mos cui­da­do­sos, pode­mos ficar preo­cu­pa­dos com uma men­sa­gem secun­dá­ria, per­den­do de vista a ver­da­de profunda.
A ver­da­de pro­fun­da do Darma é a mente búdi­ca, ou a natu­re­za búdi­ca. Independentemente de quan­to estu­dar­mos, não deve­mos nunca nos per­mi­tir perdê-la de vista. A natu­re­za búdi­ca é a rea­li­da­de que se encon­tra den­tro de nós e que, ao mesmo tempo, nos trans­cen­de com­ple­ta­men­te. A forma cor­re­ta de estu­dar o Darma é desenvolven­do uma rela­ção com o Buda, tanto aque­le que está em nosso inte­rior como aque­le que nos trans­cen­de. Quando con­se­guir­mos ver o Buda em tudo, pode­re­mos dizer que real­men­te com­preen­de­mos o Darma.

Fonte:http://www.templozulai.org.br/os-quatro-pilares-para-estudo-do-darma.html