
É
possível haver algum relacionamento entre nós quando usamos a nós mesmos para
nossa satisfação mútua? Quando você usa outra pessoa para seu conforto, como
usa um móvel, você está se relacionando com aquela pessoa? Você está se
relacionando com o móvel? Você pode chamá-lo de seu e isso é tudo; mas você não
tem um relacionamento com ele. De modo semelhante, quando você usa outra pessoa
em seu proveito psicológico ou físico, geralmente chama essa pessoa de sua,
você a possui; e a posse é relacionamento? O Estado usa o indivíduo e o chama
de seu cidadão; mas ele não tem relacionamento com o indivíduo. Ele
simplesmente o usa, como uma ferramenta. Uma ferramente é uma coisa morta, e
não pode haver relacionamento com aquilo que está morto. Quando usamos o homem
com um propósito, ainda que nobre, nós o queremos com um instrumento, uma coisa
morta. Não podemos usar uma coisa viva, então nossa demanda é por coisas
mortas. O uso de outro torna aquela pessoa o instrumento morto de nossa
satisfação. O relacionamento pode existir apenas entre os vivos, e o uso é um
processo de isolamento. É esse processo de isolamento que gera conflito,
antagonismo entre o homem e o homem.
(...)
A existência é relacionamento; existir é estar relacionado.
Relacionamento é sociedade. A estrutura de nossa sociedade atual, por se basear
no uso mútuo, produz violência, destruição e infelicidade; e se o suposto
Estado revolucionário não alterar os fundamentos desse uso, só poderá produzir,
talvez um nível diferente, ainda mais conflito, confusão e antagonismo.
Enquanto precisarmos psicologicamente um dos outros, e nos usarmos não poderá
haver relacionamento. Relacionamento é comunhão; e como poderá haver comunhão
se houver exploração? Exploração envolve medo — e o medo, inevitavelmente, leva
a todo tipo de ilusões e infelicidade. O conflito só existe na exploração, e
não no relacionamento. O conflito, a oposição e a inimizade existem entre nós
quando há o uso de outro como um meio de prazer, de realização. Esse conflito,
obviamente, não pode ser resolvido pelo uso dele mesmo como um meio para uma
meta autoprojetada; e todos os ideais, todas as utopias, são autoprojetados.
perceber isso é essencial, pois assim conseguiremos experienciar a verdade de que
o conflito em qualquer forma destrói o relacionamento, o entendimento. Só há
entendimento quando a mente está silenciosa; e a mente não está silenciosa
quando está presa a uma ideologia, dogma ou crença ou quando está associada ao
padrão da própria experiência, de suas lembranças. A mente não está silenciosa
quando ela é disciplinada, controlada e verificada; essa mente é uma mente
morta, está se isolando por meio de várias formas de resistência, criando
assim, inevitavelmente, infelicidade para si mesma e para os outros.
A mente só está silenciosa quando não está presa em
pensamentos, que é a rede da própria atividade. Quando a mente está quieta, não
tornada quieta, um fator verdadeiro, o amor, toma forma.
Família: o
auto-interesse egocentrado
Você considera o casamento uma instituição para
estabelecer uma família? A família não é uma unidade em oposição à sociedade? Não
é o centro do qual todas as atividades se irradiam, um relacionamento exclusivo
que domina todas as outras formas de relacionamento? Ela não é uma atividade
fechada em si mesma que produz divisão, separação, o importante e o humilde, o
poderoso e o fraco? A família como um sistema parece resistir a tudo; cada
família se opõe a outras famílias, outros grupos. A família, como sua
propriedade, não é uma das causas da guerra?
(...) A família como está agora é uma unidade de
relacionamento limitado, fechada em si mesma e exclusiva. Os reformadores e os
supostos revolucionários tentaram abolir esse espírito de família exclusivista
que gera todo tipo de atividade antissocial; mas ela é um centro de
estabilidade como o oposto da insegurança, e a atual estrutura social no mundo
inteiro não pode existir sem essa segurança. A família não é uma simples
unidade econômica, qualquer esforço para resolver essa questão nesse nível
obviamente fracassará. O desejo por segurança não é apenas econômico, mas muito
mais profundo e complexo. Se o homem destruir a família, encontrará outras
formas de segurança por meio do Estado, do coletivo, da crença e assim por
diante, que, por sua vez, gerará os próprios problemas. Precisamos entender o
desejo por segurança interior e psicológica, e não simplesmente substituir um
padrão de segurança por outro.
Então o problema não é a família, mas o desejo de
estar seguro. O desejo de segurança não é, em qualquer nível, exclusivo? Esse
espírito de exclusividade revela-se na família, na propriedade, no Estado, na
religião, etc. Esse desejo de segurança interior não estabelece formas
exteriores de segurança que são sempre exclusivas? O próprio desejo de
estar seguro destrói a segurança. Exclusão e separação devem, inevitavelmente,
produzir desintegração; o nacionalismo, o antagonismo de classes e a guerra são
seus sintomas. A família como meio de segurança interior é uma fonte de
desordem e catástrofe social.
(...) Somente quando não procurarmos a segurança
interior é que poderemos viver exteriormente seguros. Enquanto a família for o
centro da segurança, haverá desintegração social; enquanto a família for usada
como um meio para um fim autoprotetor, deverá haver conflito e
infelicidade.(...) Enquanto eu usá-la, ou outra pessoa, para minha segurança
psicológica, interior, terei de ser exclusivo; eu serei o mais
importante, eu terei o maior significado; é a minha família,
a minha propriedade. O relacionamento de utilidade é baseado na
violência; a família como meio de segurança interior mútua provoca conflito e
confusão.
(...) Usar o outro como meio de satisfação e
segurança não é amor. O amor nunca é segurança; o amor é um estado no qual não
há o desejo de estar seguro; é um estado de vulnerabilidade; é o único estado
no qual a exclusividade, a animosidade e o ódio são impossíveis. Nesse estado,
a família pode tomar forma, mas ela não será exclusiva, fechada em si mesma.
(...) É bom estar consciente dos comportamentos
habituais do próprio pensamento. O desejo interior de segurança expressa-se exteriormente
pela exclusão e violência, e, enquanto seu processo não for totalmente
entendido, não poderá haver amor. O amor não é outro refúgio na busca por
segurança. O desejo por segurança precisa cessar totalmente para o amor
existir. O amor não é algo que possa ser produzido por meio da compulsão.
Qualquer forma de compulsão, em qualquer nível, é a própria negação do
amor.(...) Só o amor pode produzir uma revolução ou transformação radical no
relacionamento; e o amor não é um produto da mente. O pensamento pode planejar
e formular estruturas magníficas de esperança, , mas só levará a mais conflito,
confusão e infelicidade. O amor existe quando a mente astuta e fechada em si
mesma não existe.
A complexidade dos
relacionamentos
Relacionamentos são complexos e difíceis, e poucos
conseguem sair deles ilesos. Embora quiséssemos que fosse estático, duradouro e
contínuo, o relacionamento é um movimento, um processo que deve ser profunda e
completamente entendido, e não forçado a se conformar a um padrão interno ou
externo. A conformidade, que é a estrutura social, perde seu peso e autoridade
somente quando há amor. O amor no relacionamento é um processo purificador,
pois revela os mecanismos do Eu. Sem essa revelação, o relacionamento tem pouca
importância.
Mas como lutamos contra essa revelação! A luta
assume muitas formas: controle ou submissão, medo ou esperança, ciúme ou
aceitação e assim por diante. A dificuldade é que nós não amamos; e se
de fato amamos, queremos que isso funcione e uma forma particular, não
lhe damos liberdade. Nós amamos com nossas mentes e não com os nossos
corações. A mente pode se modificar, mas o amor, não. A mente pode se tornar
invulnerável, mas o amor, não; a mente pode sempre se retrair, ser
exclusivista, tornar-se pessoal ou impessoal. O amor não é para ser comparado e
tolhido. Nossa dificuldade está naquilo que chamamos de amor, que
realmente é da mente. Enchemos nossos corações com as coisas da mente e
mantemos nossos corações sempre vazios e cheios de expectativas. É a mente que
se apega, que é ciumenta, que controla e destrói. Nossa vida é dominada pelos
centros físicos e pela mente. Nós não amamos e deixamos em paz, mas ansiamos
ser amados; nós damos a fim de receber, que é a generosidade da mente, não do
coração. A mente está sempre buscando garantia, segurança; e pode o amor ser
garantido pela mente? Pode a mente, cuja própria essência é temporal, perceber
o amor, que é sua própria eternidade?
Mas mesmo o amor do coração tem seus próprios
truques; pois corrompemos tanto nosso coração que ele é hesitante e confuso. É
isso que torna a vida tão dolorosa e cansativa. Em um momento nós achamos que
temos amor e no próximo ele é perdido. Aí entra uma força imponderável, que não
é da mente, cujas fontes não podem ser sondadas. Essa força é mais uma vez
destruída pela mente; pois nessa batalha a mente, invariavelmente, parece ser a
vitoriosa. Esse conflito dentro de nós mesmo não será resolvido pela mente
astuta ou pelo coração hesitante. Não há um meio, uma maneira de fazer esse
conflito terminar. A própria busca por um meio é outro anseio da mente por
domínio, para livrar-se do conflito e ficar tranquila, para ter amor, para
tornar-se algo.
Nossa maior dificuldade é estar ampla e
profundamente atentos ao fato de que não existem meios para o amor como um
objetivo desejável da mente. Quando entendemos isso real e profundamente, há
uma possibilidade de receber algo que não é desse mundo. Sem o toque
desse algo, façamos o que quisermos, não poderá haver felicidade duradoura no
relacionamento. Se você receber essa graça e eu não, naturalmente,
estaremos em conflito. Você pode não estar em conflito, mas eu estarei; e em
minha dor e tristeza eu me desligarei. A dor é tão exclusiva quanto o prazer, e
até que exista aquele amor que não seja uma construção minha, o relacionamento
será dor. Se houver a benção daquele amor, você nada poderá fazer a não ser me
amar pelo que sou, pois então não moldará o amor segundo o meu comportamento.
Quaisquer que sejam os truques da mente, somos independentes; embora possamos
estar em contato um com o outro em alguns pontos, a integração não é com você,
mas dentro de mim. Essa integração não é resultado da mente em nenhum momento;
ela toma forma somente quando a mente está inteiramente silenciosa, tendo
alcançado o limite da suas forças. Somente assim não existe dor no
relacionamento.
Jiddu Krishnamurti — Comentários sobre o viver
O que chamamos relação,
é isolamento
é isolamento
A vida é experiência, experiência em relação. Não
se pode viver no isolamento; a vida portanto, é relação, e relação é ação. E como
adquirir a capacidade de compreender as relações, que é a vida? Não significam
as relações, não só comunhão com pessoas, mas também intimidade com coisas e
ideias? A vida são relações, que se expressam no contato com coisas, pessoas,
ideias. Compreendendo as relações, teremos capacidade para enfrentar a vida de
maneira completa, adequada. Nosso problema, portanto, não é ter capacidade —
pois esta não é independente das relações — porém, antes, compreender as
relações, o que naturalmente produzirá a capacidade de pronta flexibilidade,
pronto ajustamento, pronta reação.
As relações, sem dúvida, são um espelho em que nos
descobrimos. Sem relações não existimos. Ser é estar em relação, estar em
relação é existir. Só existis em relação, de outro modo não existis, a
existência nada significa. Não é porque pensais, que existis, que vos
tornais existentes. Existis porque estais em relação, e é a falta de
compreensão das relações que causa conflito.
Ora, não há compreensão das relações porque nos
servimos delas apenas como meio de promover alguma realização, promover
transformação, promover o "vir a ser". Mas as relações são um meio de
autodescobrimento, porque estar em relação é ser, é existência. Sem
relações, não existo. Para compreender a mim mesmo, preciso compreender as
relações. As relações são um espelho, em que posso ver-me, a mim mesmo. Esse
espelho pode deformar ou refletir fielmente o que é. Mas a maioria de
nós vê nas relações as coisas que prefere ver; não vê o que é.
Preferimos idealizar, fugir, preferimos viver no futuro, a compreender aquelas
relações no presente imediato.
Ora, se examinarmos nossa vida, as relações
existentes entre nós, veremos que elas constituem um processo de isolamento. Não estamos verdadeiramente interessados uns nos outros;
embora falemos muito a esse respeito, não estamos de fato interessados. Só estamos em relação com alguém enquanto essas relações nos
agradam, enquanto nos proporcionam um refúgio, enquanto nos satisfazem.
No momento em que ocorre qualquer perturbação, causadora de desconforto para
nós, abandonamos essas relações. Em outras palavras, só há relações enquanto
estamos satisfeitos. Isso pode parecer uma maneira rude de falar, mas se
examinardes realmente vossa vida, com muita atenção, vereis que é um fato. Evitar um fato é viver na ignorância, que nunca pode produzir
relações corretas. Se examinarmos nossas vidas e observarmos nossas
relações, veremos que elas são um processo de criação
mútua de resistência, de uma muralha por sobre a qual nos olhamos e nos
observamos, uns aos outros. Conservamos sempre a muralha e permanecemos atrás
dela, quer seja da muralha psicológica, quer seja da material, da muralha
econômica, da muralha nacional. Enquanto vivemos no
isolamento, atrás da muralha, não há relações
entre nós. Vivemos fechados, porque achamos muito mais agradável, muito
mais seguro. O mundo está tão fracionado, há tanto sofrimento, tanta dor,
guerra, destruição, miséria, que desejamos fugir e viver dentro das muralhas
protetoras de nosso ser psicológico. As relações, pois, no caso de quase todos
nós, são, de fato, um processo de isolamento, e é bem óbvio que tais relações
criam uma sociedade, também causadora de isolamento. É isso, exatamente, o que
está acontecendo no mundo inteiro: vós permaneceis no vosso isolamento, e
estendeis a mão por cima da muralha, chamando a isso nacionalismo,
fraternidade, ou o que quiserdes, mas o fato é que continuam a existir os
governos soberanos, com seus exércitos. Enquanto apegados às vossas limitações,
pensais poder criar a unidade mundial, a paz mundial — coisa de todo
impossível. Enquanto tiverdes uma fronteira nacional, econômica, religiosa, ou
social, é bem claro que não pode haver paz no mundo.
O processo de isolamento está ligado à busca de
poder. Quer estejamos buscando o poder individualmente, quer para um grupo
racial ou nacional, haverá isolamento, porque o próprio desejo de poder, de
posição, é separatismo. Afinal, é isso o que cada um deseja, não é verdade?
Cada um quer ocupar uma posição poderosa, uma posição de domínio, seja no lar,
seja no escritório, seja num regime burocrático. Procura cada um o poder e
nessa busca de poder fundará uma sociedade baseada no poder — militar,
industrial, econômico, etc. — o que também é evidente. O desejo de poder não é,
por sua própria natureza, causador de isolamento? Julgo muito importante
compreender isso, porque o homem que deseja um mundo pacífico, um mundo em que
não haja guerras, não haja destruição e miséria, em escala aterradora,
imensurável, deve compreender esta questão fundamental. Um homem afetuoso,
benevolente, não tem espírito de poderio e portanto não está ligado a
nacionalidade nem a bandeira alguma. Esse homem não tem bandeira.
Não há coisa tal como viver no isolamento; nenhum
país, nenhum povo, nenhum indivíduo pode viver no isolamento. Entretanto,
porque estais em busca de poder, de tantas maneiras diferentes, criais o
isolamento. O nacionalista é uma praga, porque, com seu espírito nacionalista,
patriótico, está construindo uma muralha de isolamento. Tão identificado está
com seu país, que ergue uma muralha contra outro país. Que acontece quando
construímos uma muralha contra alguma coisa? Essa coisa fica a chocar-se
constantemente contra vossa muralha. Quando resistis a uma coisa, essa própria
resistência indica que estais em conflito com ela. O nacionalismo, por
consequência, que é um processo de isolamento, que é um resultado de busca de
poder, não pode trazer paz no mundo. O homem que é nacionalista e fala de fraternidade,
está mentindo, está vivendo em estado de contradição.
Pode-se viver no mundo sem o desejo de poder, de
posição, de autoridade? Pode-se, é claro. Vivemos assim quando não nos
identificamos com uma coisa "maior". Essa identificação com uma coisa
"maior" — o partido, a pátria, a raça, a religião, Deus — é busca de
poder. Porque vós mesmos sois vazios, embotados, sois
fracos, gostais de identificar-vos com uma
coisa maior. Esse desejo de identificação com uma coisa maior é desejo
de poder.
As relações são um processo de auto-revelação e se,
desconhecendo a nós mesmos, desconhecendo as tendências de nossa mente e do
nosso coração, procuramos apenas estabelecer uma ordem externa, um sistema, uma
fórmula engenhosa, o que estabelecermos terá pouca significação. O importante é
que compreendamos a nós mesmos em relação com os outros. As relações se tornam,
assim, não um processo de isolamento, mas um processo no qual descobrimos
nossos próprios "motivos", nossos próprios pensamentos, nossos próprios
desígnios; e esta descoberta é o começo da libertação, o começo da
transformação.
Jiddu Krishnamurti — A primeira e última liberdade
Jiddu Krishnamurti — A primeira e última liberdade
Fonte:http://nossaluzinterior.blogspot.com.br/2013/11/
Comentários
Postar um comentário