OS VAGABUNDOS ILUMINADOS : TRECHOS DO LIVRO DE JACK KEROUAC SOBRE O DESPERTAR

 
Os Vagabundos Iluminados

O livro em que o escritor americano Jack Kerouac (1922-1969) relatou suas experiências “semi-fictícias” do despertar, ou da percepção da “natureza Divina, ou natureza do Buda, ou natureza de Alá, ou qualquer nome que se deseje dar a Deus”, como diz ele num trecho de “Os Vagabundos Iluminados” (The Dharma Bums), de 1958, considerada por muitos sua mais bem escrita e madura obra (publicada um ano depois de “On The Road“, sua mais famosa obra). Mas o trecho aqui é outro, do mesmo capítulo (22), que traz a intensidade das percepções de Kerouac (ou seja, do protagonista Ray Smith) sobre a natureza como costumamos chamar o mundo ao redor e sobre a natureza interior, onde está a mente de Buda, o despertar, a percepção da verdade e do vazio. “Tudo é o vazio mas tudo está desperto! As coisas são o vazio no espaço e no tempo e na mente; Compreendi tudo e, no dia seguinte, sentindo-me extremamente exultante”, conta ele numa parte do trecho.

Que é uma amostra pequena e luminosa da obra, porque além dessas experiências com as percepções do mundo, há a conhecida intensidade da escrita de Jack Kerouac, que fica clara no ritmo vivo da leitura. E há também a graça de temas como os diálogos familiares – “Do que você está falando, como assim, vazio, estou segurando esta laranja na mão, não estou?” – e a beleza do auto-diálogo, em que Jack “berra para as ervas” e faz “carinho nos cachorros que nunca discordavam de mim”.

A tradução é da Ana Ban, edição da LP&M Pocket de 2004:

“Uns sapos ficavam coaxando no riachinho nos momentos mais inoportunos, interrompendo minhas meditações como se fosse de propósito; uma vez, um sapo coaxou três vezes bem ao meio-dia e ficou quieto o resto da tarde, como se estivesse manifestando os Três Veículos. Dessa vez meu sapo coaxou uma vez só. Senti que era um sinal indicando o Veículo Primeiro da Compaixão e retomei determinado a deixar para lá a coisa toda, até a pena que eu sentia do cachorro. Que sonho triste e inútil. Mais uma vez no bosque, naquela noite, manuseando minhas contas de oração, fiz rezas estranhas como estas: “Meu orgulho está ferido, isso é o vazio; meu negocio é com o Darma, isso é o vazio; tenho orgulho da minha bondade para com os animais, isso é o vazio; minha concepção sobre a corrente, isso é o vazio; a pena de Ananda, até isso é o vazio”. Se houvesse algum mestre zen em cena, talvez ele tivesse ido até o cão acorrentado e o chutado, para dar a todos um repentino golpe de despertar. Minha dor estava mesmo em me livrar da concepção sobre as pessoas e os cachorros, e sobre mim mesmo.“Estava profundamente magoado com aquele negócio triste de tentar negar o que era. De qualquer modo, era um draminha comovente em um domingo de interior: “Raymond não quer que o cachorro fique acorrentado”. Mas então de repente, sob aquela árvore à noite, tive uma idéia surpreendente: “Tudo é o vazio mas tudo está desperto! As coisas são o vazio no espaço e no tempo e na mente”.
 
“Compreendi tudo e, no dia seguinte, sentindo-me extremamente exultante, achei que tinha chegado a hora de explicar tudo à minha família. Mais do que qualquer outra coisa, ficaram lá rindo. “Mas ouçam! Não! Olhem! É simples, deixem-me explicar da maneira mais resumida possível. Todas as coisas são o vazio, não são?” “Do que você está falando, como assim, vazio, estou segurando esta laranja na mão, não estou?” “É o vazio, tudo é vazio, as coisas só vêm para ir embora todas as coisas feitas precisam ser desfeitas, e elas precisam ser desfeitas simplesmente porque foram feitas!” Nem isso eles aceitavam. “Você e o seu Buda, por que é que você não aceita a religião em que nasceu?”, disseram minha mãe e minha irmã. “Tudo se foi, já se foi, já veio e já se foi”, berrei. “Ah”, andando com passos pesados de um lado para o outro, voltando, “e as coisas são o vazio porque aparecem, não aparecem? A gente as enxerga, mas são feitas de átomos que não podem ser medidos nem pesados nem segurados, até aqueles idiotas dos cientistas já sabem disso, não existe nenhuma descoberta avançada a respeito desse troço que chamamos de átomo, “as coisas são apenas combinações vazias de algum elemento que parece sólido porque aparece no espaço, não são grandes nem pequenas, nem distantes nem próximas, nem verdadeiras nem falsas, são pura e simplesmente fantasmas.” “Fantasmas!”, gritou o pequeno Lou, maravilhado. Ele concordava comigo de verdade, mas tinha medo da minha insistência nos “Fantasmas”. “Olha”, disse o meu cunhado, “se as coisas fossem o vazio, como é que eu poderia estar sentindo esta laranja, além de sentir seu gosto e engoli-la, quero ver você responder isso.” “Sua mente forma a laranja quando a enxerga, ouve, toca, cheira, experimenta e pensa a respeito dela, mas sem isso em mente, como você diz, a laranja não poderia ser vista nem ouvida nem cheirada nem mesmo mentalmente percebida, é que na verdade essa laranja depende da sua mente para existir! Você não enxerga isso? Por si só, ela é uma não-coisa, é uma coisa mental mesmo, só pode ser vista a partir da sua mente. Em outras palavras, é o vazio, mas está desperta.”
 
“Bom, mesmo que tudo isso seja verdade, eu continuo não dando a mínima.” Todo entusiasmado, voltei para o mato naquela noite e pensei: “O que significa eu estar neste universo infinito, pensando que sou um homem sentado sob as estrelas na varanda da terra, mas na verdade sou o vazio e estou desperto naquele vazio e despertar de todas as coisas? Significa que eu sou vazio e estou desperto, e eu sei que sou o vazio, que estou desperto, e que não há diferença entre mim e todas as outras coisas. Em outras palavras, significa que eu me transformei na mesma coisa que tudo o mais. Significa que eu me transformei no Buda”. Eu sentia aquilo de verdade e também acreditava naquilo e exultava só de pensar no que eu tinha para contar a Japhy quando voltasse para a Califórnia. “Pelo menos ele vai escutar”, pensei, amuado. Sentia enorme compaixão pelas árvores porque éramos a mesma coisa; fazia carinho nos cachorros que nunca discordavam de mim a respeito de nada. Todos os cães amam Deus. Eles são mais sábios do que seus donos. Disse isso aos cachorros, também, eles me ouviram com as orelhas em riste e lamberam meu rosto. Para eles, não fazia a mínima diferença, contanto que eu estivesse lá. São Raymond dos Cachorros era quem eu fui naquele ano, se não mais ninguém nem nada mais. Às vezes, no mato, eu só ficava lá sentado olhando para as coisas em si mesmas, tentando, de qualquer modo, adivinhar o segredo da existência. Ficava olhando para as ervas longas e amarelas e encurvadas que ficavam na frente da minha esteira de capim, meu Assento Tathagata da Pureza e que apontavam em todas as direções e conversavam cabeludas à medida que os ventos ditavam Ta Ta Ta, em grupos de fofoca com alguns ramos solitários orgulhosos de se exibir de um lado, ou os doentes e os meio-mortos caídos, toda a congregação de mato vivo ao vento de repente parecia soar como sinos e parecia pular de tanta animação e tudo aquilo era feito de uma coisa amarela que despontava do solo e eu pensava: É isso aí. “Rop rop rop”, eu berrava para as ervas, e elas me mostravam a direção do vento apontando seus ramos inteligentes para indicar e castigar e se esquivar, algumas enraizadas na idéia da terra úmida florescente de imaginação que havia passado seu carma para a própria raiz e o caule …. Foi sinistro. Eu caíra no sono e sonhara com as palavras: “Por meio deste ensinamento a terra chegou ao fim”, e sonhara com minha mãe anuindo com a cabeça inteira solenemente, humpft, e com os olhos fechados. Por que é que eu iria me preocupar com todas as dores arrepiantes e tudo que há de tediosamente errado no mundo, os ossos humanos não passam de linhas vãs perdendo tempo, todo o universo é um molde vazio de estrelas. “Eu sou o Rato Vazio Bhikku!”, sonhei.
 
Por que é que eu me importava com o chiado do pequeno euzinho que vagava por todos os lados? Eu atuava no campo da inspiração, isolamento, corte, expiração, exibição, decepção, desacontecimento, fim, finalização, elo cortado, nada, elo, seilá, acabou! “A poeira dos meus pensamentos guardada em um globo”, pensei, “nesta solidão atemporal”, pensei, e sorri de verdade porque estava vendo a luz branca em tudo em todos os lugares afinal.”
 
~ Jack Kerouac, em “Os Vagabundos Iluminados” (The Dharma Bums, 1958), edição LP&M (2004)

Fonte: http://dharmalog.com/2013/11/26/