FOME DE DEUS : A BUSCA DE ESPIRITUALIDADE NO MUNDO ATUAL - LIVRO DE FREI BETTO

 

Frei Betto pensa a espiritualidade

no mundo atual em 'Fome de Deus'

 
Frei Betto reflete sobre o papel da fé e da espiritualidade no mundo e nas pequenas ações cotidianas em "Fome de Deus". O livro, escrito com textos curtos, aborda questões como a oração, o amor ao próximo, a fé e a vida de santos.
Autor de "Batismo de Sangue", "Típicos Tipos", "Calendário do Poder" e "A Mosca Azul", o religioso ganhou duas vezes o Jabuti, o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte e o Prêmio Alba de Literatura.
Abaixo, leia um trecho de "Fome de Deus".
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Entre a cruz e o pão
Divulgação
Uma palavra de conforto pode ser ssenciail para sermos melhores
Uma palavra de conforto pode ser essencial para sermos melhores
A cruz é o símbolo católico do cristianismo. Segundo publicitários, a mais simples e genial logomarca já criada: dois pedaços de pau cruzados ou apenas dois riscos perpendiculares gravados na parede, ou ainda dois dedos colados, um na vertical, outro na horizontal.
Pena que a confissão religiosa que celebra a vida como dom maior de deus adote como símbolo um instrumento de morte. Cruzes são encontradas nos cemitérios sobre tumbas. Não é o caso de Jesus, que deixou vazio o seu túmulo de pedra. Sua morte não é o fato central da fé cristã. O fato central é a sua ressurreição. Como diz Paulo, não houvesse Jesus ressuscitado, a nossa fé seria vã (1ª Coríntios 15,14).
Como simbolizar a ressurreição? Até hoje não conheço quem tenha se mostrado suficientemente criativo para consegui-lo. Há pinturas e imagens em que Jesus aparece revestido de um corpo glorioso, mas elas parecem evocar um homem saindo do banho...
Na igreja primitiva, era o peixe o símbolo secreto de fé cristã, em referência ao batismo pela água. Assim como os peixes vivem nas profundezas do mar, dos rios e dos lagos, os cristãos, mergulhados nas catacumbas, onde foram encontradas várias pinturas de peixes, renasciam pela água batismal. Para santo Agostinho, Cristo é o peixe vivo no abismo da mortalidade, como em águas profundas (De Civitate Dei, XVIII, 23). Além disso, peixe, em grego - ichthys- era considerado acróstico de Iesous Christos Theou (H)yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador).
Foi a perseguição romana que induziu as comunidades a adotar a cruz, instrumento de suplício e morte do império. Nela Jesus foi sacrificado. A mais antiga cruz que se conhece data do século
IV e está gravada no portal da igreja de Santa Sabina, em Roma, no monte Aventino, anexa ao convento que abriga o governo geral da ordem dominicana.
Cessada a perseguição à Igreja, a cruz passou da clandestinidade para a centralidade nas torres dos templos. E, aos poucos, tornou-se o eixo do cristianismo. A ponto de a Via Sacra, antes da reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II, contar com apenas catorze estações. Encerrava-se com a morte no Calvário. Hoje, são quinze. A ressurreição de Jesus é o ponto culminante dessa forma de devoção cristã.
A predominância da cruz incutiu no catolicismo uma espiritualidade lúgubre. Padres e beatas vestiam-se de preto. O riso, a alegria, as cores, pareciam banidos da liturgia. Enfatizava-se mais a morte de Jesus pela redenção de nossos pecados e, de quebra, as penas do inferno, do que a sua ressurreição como vitória da vida, de Deus, sobre as forças da morte. Mais a dor que o amor.
Como simbolizar a ressurreição? Através de algo que expresse a vida. E não conheço melhor símbolo que o pão. Alimento universal, é encontrado em quase todos os povos ao longo da história, seja feito de trigo, milho, mandioca, centeio, cevada ou qualquer outro grão ou tubérculo. E tem uma propriedade especial: come-se todos os dias, sem enjoar.
"Eu sou o pão da vida", definiu-se Jesus (João 6,48). Porque o pão representa todos os demais alimentos. E a vida, como fenômeno biológico, subsiste graças à comida e à bebida. São os únicos bens materiais que não podem faltar ao ser humano. Caso contrário, ele morre.
No entanto, é vergonhoso constatar que, hoje, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), mais de 1 bilhão de pessoas vivem, no mundo, em estado de desnutrição crônica. Isso em países ditos cristãos, muçulmanos, budistas... Para que serve uma religião cujos fiéis não se sensibilizam com a fome alheia? Por que tanta indiferença diante dos povos famintos? O que significa adorar a Deus se ficamos de costas ao próximo que padece fome? (1º João 3,17).
Jesus fez da partilha do pão e do vinho, da comida e da bebida, o sacramento central da comunidade de seus discípulos - a eucaristia. Ensinou que repartir o pão é partilhar Deus. Na Palestina do século I, havia miseráveis e famintos (Mateus 25,34-45; Lucas 6,21). Muitos empobreciam em decorrência da perda de suas terras, do peso das dívidas, dos tributos exigidos pelo poder romano, dos dízimos cobrados pelas autoridades religiosas. Diante disso, Jesus assumiu a causa dos pobres e promoveu um movimento indutor da partilha dos bens essenciais à vida (Marcos 6,30-44), em que o fio condutor é o alimento, em especial, o pão.
Desde o início de sua militância, a partilha do pão foi a marca de Jesus (Lucas 1,53; 6,21). A comensalidade era a expressão vivencial mais característica de sua espiritualidade, para a qual havia uma íntima relação entre o Pai (o amor de Deus e a Deus) e o pão (o amor ao próximo). Pai nosso e pão nosso. Deus só pode ser aclamado como "Pai nosso" se o pão não for só meu ou teu, mas nosso, de todos. É o que explica a ausência de preconceitos por parte de Jesus quando se tratava de sentar-se à mesa com pecadores e publicanos, ainda que isso lhe valesse a fama de "comilão e beberrão" (Lucas 7,34; 15, 2; Mateus 11,19).
Partilhar o pão era um gesto tão característico de Jesus que permitiu que os discípulos de Emaús o identificassem (Lucas 24,30-1). E a ceia tornou-se o sacramento por excelência da presença e da memória de Jesus (Marcos 14,22-4; 1ª Coríntios11,23-5).
O pão - eis o símbolo (= aquilo que une) mais expressivo da prática de Jesus, a ponto de transubstanciá-lo em seu corpo. E todo pão que se oferece a um faminto tem caráter sacramental (Mateus 25,34). É ao próprio Jesus que se oferece.
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"Fome de Deus"
Autor: Frei Betto
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 176
Quanto: R$ 21,90