UM DIA AS MÁSCARAS CAEM - GRAÇA TAGUTI


    Um Dia as Máscaras Caem


As máscaras servem de disfarce, esconderijo e proteção. Talvez, por associações de ideias, tangenciemos espécies como o caramujo, o tatubola e a tartaruga que se defendem dos imprevistos e intempéries da natureza, com algo que os reveste, além de uma simples máscara: a carapaça. Digamos que estas criaturas possuam a priori um estigma constitucional de nascença. Mas e as máscaras que se acoplam à vida, em diversas situações, ensejando intenções inexplícitas ou sub-reptícias? Máscaras do cinismo, hipocrisia, do faz de conta, dos lobos em pele de cordeiro.
Utilizadas para diversos fins: lúdicos — como nos bailes de máscaras e no carnaval, religiosos, artísticos ou de natureza prática, as máscaras de proteção, a palavra advém do latim mascus ou masca = “fantasma”, ou no árabe maskharah = “palhaço”, “homem disfarçado”.
As máscaras existem desde a pré-história, quando o homem ainda não havia inventado a escrita. Algumas, primitivas, exibiam aparência grotesca, pois eram criadas visando afugentar os maus espíritos, ligados a crenças de alguns povos.
Em Veneza, no século 18 tornou-se um hábito cotidiano em homens, mulheres e crianças, que escondiam o rosto com uma meia máscara a lhes cobrir somente os olhos e o nariz. Em decorrência desse costume, instituiu-se a lei de Doge para extinguir esta prática, porque a polícia encontrava dificuldades em reconhecer os assassinos que constantemente atuavam nas vielas da cidade.
No Brasil, em suas cerimônias primitivas, os nativos ostentavam máscaras retratando animais, pássaros e insetos. Na Ásia, eram empregadas tanto em ritos espirituais como na realização de casamentos. Nas tribos de esquimós no Alaska as máscaras assumiam uma feição duplicada: de um lado humana, de outro animal.
As histórias e curiosidades acerca do uso das máscaras perdem-se nos séculos. Não é nosso interesse enunciá-las em detalhes. Apenas tencionamos, em breves pinceladas de contrastantes tachismos, estampar em algumas telas virginais do nosso imaginário ilações indutoras de reflexões, se possível caleidoscópicas.
Máscaras seduzem, vaticinam, expressam-se em silêncio. Escancaram desejos e hormônios atiçados em maquiagens noturnas rumo a baladas. Olhos dramáticos, cílios promissores, intenções fogosas. Sorrisos e silêncios se revestem também deste artifício, promovendo uma aura nebulosa e fascinante enquanto dissimulam intenções sacras ou pagãs.
Na política, discursos escondem mais que revelam, recorrendo à retórica costurada por pomposos advérbios e adjetivos, com o intuito de estruturar a mágica do vazio. De algodões doces que se perdem no ar ou desaparecem instantaneamente nas línguas. De bolas de sabão, promessas lúdico-transparentes, que alegram a atmosfera, mas se desfazem velozmente ao contato de mãos afoitas.
As máscaras permeiam juras de amor, quando na verdade a carnalidade é o que se busca. Paixões sôfregas turbinadas por instintos entregam cândidos buquês de rosas brancas a moças ainda ingênuas e crédulas no amor eterno — dada a extensão de suas carências.
Cazuza em uma de suas músicas contestava: “Brasil, mostra a sua cara Brasil mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim. Brasil qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim”. Em manifestações sociais deste século 21 assiste-se à alegoria de caras pintadas. De máscaras simulando o V de Vingança, de rostos sombrios cobertos com camisetas por vândalos cuja palavra de desordem se resume em depredar sempre.
Passeando brevemente pelo Oriente, percebemos no Teatro Nô a máscara corroborar com o distanciamento e a desindividualização do ator. Entreveem-se em sua concepção traços minimalistas: as máscaras ressaltam o essencial, dotando as personagens de um visual tão insólito quanto os sons não humanos que este teatro persegue.
As máscaras costumam sugerir metamorfoses em curso. Portanto, ao esconder um rosto, exacerbam outra personalidade. No ato de esvaziar a figura do ator, revestem-se logo de uma nova personagem. De certa forma poderíamos afirmar que tanto no Oriente como no Ocidente, independente de sua mística ou simbolismos, a máscara indica a presença de processos transformacionais. Seus significados são inerentemente apreendidos pelos povos, pois a máscara exclui o pensamento racional.
No filme “Festen, Festa de Família”, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier recorre à bela crueza estilística. Retrata todas as cenas com uma câmera na mão, de modo devastador e intimista, sem luz artificial e sem música, o que cria, antecipa ou intensifica climas na história. O enredo focaliza o desmascaramento de uma família, desvendando suas taras, perversões, violência e crueldades embebidas em inesperadas ações à mesa do jantar ( e exposições inadvertidas de segredos consanguíneos) em que se comemora um aniversário do patriarca.
Sabe-se que nos teatros da existência a realidade é inexorável: os panos caem, as coxias são dissecadas, os bastidores vêm à luz. Nos psicopatas, imiscuem-se, por detrás de gestos delicados e propensão social solícita, sua compulsão pela destruição física ou moral dos circunstantes, seguida de um prazer que beira o auge de inenarráveis delícias.
Há gente que nasce com a propensão de matar. Outros se ocupam em fertilizar a vida por onde passam. Haverá o gene da maldade? Pesquisas se multiplicam, embora certos estudiosos afirmem que determinados cromossomas ou sua má formação contribuam para danosos desvios de conduta.
Persona é um termo de origem latina, nome de uma máscara usada pelos atores na antiguidade. Jung empregou esta expressão visando demonstrar como uma pessoa adapta-se ao mundo; é sua máscara, sua maneira de ser que a conduz socialmente. Importa advertir, no entanto, quando alguém se identifica somente com a persona e se esquece de valores constitutivos de sua personalidade, tende a ficar frio e vazio. Como um balão de gás. Uma embalagem sem conteúdo. Um significante sem o significado.
Uma assumida marionete nos intercâmbios relacionais, que dança matreiramente conforme a música, a exemplo de um camaleão costumeiramente em estado de alerta. Aliás, o que mais se vê por aí, especialmente nas tessituras de manobras políticas, é um desfile em profusão de descarados e mascarados conchavos. Mas isso já é outra história. Que todos ansiamos por reescrevê-la juntos.

Graça Taguti
Professora e escritora.

Fonte:http://www.revistabula.com/561-um-dia-as-mascaras-caem/