SOBRE O CÍRCULO VICIOSO DO AMOR IMATURO - ELIZABETH MEDNICOFF


 

O Círculo Vicioso do Amor Imaturo -

Primeira Parte


por Elizabeth Mednicoff -
beth@novoequilibrio.com.br


Durante meu curso de Psicologia Integral, vivenciamos formas para identificarmos aspectos que ainda não estão muito claros e que por isso mesmo, acabam se repetindo durante nossas vidas sem nos darmos conta.

Tenho aprendido muitos exercícios e um deles foi desenvolvido baseado no texto abaixo facilitando o acesso às fases descritas. Esse exercício nos traz uma profunda reflexão e contato com a nossa criança e depois nos possibilita a ligação com o adulto de hoje.

Com essa análise podemos identificar crenças ou valores que devem ser modificados, trazendo uma nova forma de pensar e sentir e assim um novo comportamento que trará uma resposta positiva em sua vida.

O Círculo Vicioso começa na infância quando todas as imagens são formadas. A criança é indefesa e precisa de cuidados; ela não pode manter-se sobre as próprias pernas, não pode tomar decisões, não pode alimentar-se sozinha. Portanto, por necessidade, a criança tem uma afetividade egocêntrica. Consequentemente é incapaz de sentir um amor altruísta.

O adulto maduro desenvolve-se em direção a esse amor altruísta desde que a personalidade amadureça harmoniosamente e contanto que nenhuma das reações infantis permaneça oculta no inconsciente. Se isso acontecer apenas uma parte da personalidade vai crescer, enquanto a outra parte continuará imatura.

Existem, de fato, poucos adultos maduros tanto emocional quanto intelectualmente. Estou colocando esse texto exatamente por ser muito comum entre nós esse círculo vicioso, e com a proposta de tornar consciente uma maior parte desses passos percorridos na infância. Entrando em contato com cada sentimento de cada situação será possível ser revelado o seu processo inconsciente e transformado, colaborando para uma vida afetiva madura na vida adulta.

Para chegar a esse ponto sugiro que vá acompanhando cada parte descrita a seguir do processo infantil, entrando em contato com suas lembranças com a finalidade de procurar algo que ainda não era consciente. Use palavras-chaves do próprio texto para cada passo que achar significativo, formando um esquema para sua orientação de consciência.
A criança quer amor exclusivo
A criança anseia por um amor exclusivo que não é humanamente possível. O amor que ela quer é egoísta; não quer dividir amor com os outros, com os irmãos ou irmãs ou mesmo com um dos pais. Com frequência tem ciúmes de ambos os pais. Contudo, se ela sente que os pais não se amam, a criança sofre ainda mais.

Assim, o primeiro conflito surge de dois desejos opostos. Por um lado a criança deseja o amor de ambos os pais exclusivamente; por outro lado, ela sofre se os pais não se amam. Uma vez que a capacidade de amor de qualquer pai ou mãe é imperfeita, a criança não compreende que apesar da imperfeição a maioria dos pais é ainda assim plenamente capaz de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Todavia, a criança se sente rejeitada e excluída se o pai ou a mãe também amam outras pessoas.

Essa frustração faz com que a criança sinta-se rejeitada, o que, por sua vez, causa ódio, ressentimento, hostilidade e agressão. Essa é a segunda parte do círculo vicioso. A necessidade de amor incondicional que não pode ser satisfeita, gera ódio e hostilidade em relação às mesmas pessoas a quem mais se ama. De modo geral esse é o segundo conflito do ser humano em crescimento. Se a criança odiasse alguém a quem ela não amasse, ou se ela amasse à sua própria maneira e não desejasse amor em retorno, tal conflito não poderia surgir.

O fato de existir ódio pela própria pessoa que se ama muito, cria um importante conflito na psique humana. É óbvio que a criança sente-se envergonhada dessas emoções negativas e, portanto, coloca esse conflito no inconsciente onde ele se torna um "nó" para o futuro. O ódio causa culpa, porque a criança é ensinada desde cedo que é feio, que é errado e é pecado odiar. O que se dirá, então, sobre odiar os pais, a quem se deve amar e honrar acima de tudo.?

É essa culpa, vivendo sempre no inconsciente que, na personalidade adulta, causa toda sorte de conflitos internos e externos.

Medo do castigo e medo da felicidade

Ao se sentir culpado o inconsciente da criança diz: "Eu mereço ser castigado". A criança, por sua vez, sente medo de ser castigado e assim inicia-se uma outra reação na qual, sempre que você está feliz e sente prazer - apesar de esse ser um anseio natural do ser humano - sente que não merece. A culpa por odiar aqueles que mais ama convence a criança de que não é merecedora de nada que seja bom, alegre e prazeroso.

Portanto, a criança evita inconscientemente a felicidade, criando situações e padrões que parecem destruir o que é mais desejado na vida. É esse medo da felicidade que leva uma pessoa a todos os tipos de reações, sintomas, esforços não saudáveis, manipulações de emoções e até mesmo a ações que indiretamente criam padrões mentais que parecem acontecer involuntariamente, sem que a personalidade seja responsável por eles, atraindo para sua vida as mais diversas situações de escancarado auto-boicote (Lei da Atração).

Embora o desejo de felicidade jamais possa ser erradicado, ainda assim, devido a esse sentimento de culpa profundamente oculto, quanto mais se deseja a felicidade, mais culpado se sente. O medo de ser punido e o medo de não merecer a felicidade, cria então o desejo compulsivo de auto-punição como uma forma de evitar a humilhação de ser punido por outras pessoas, ou pelo destino, ou por Deus, ou pela vida.

Assim, a personalidade inflige um castigo a si mesma. Isso pode ocorrer de várias maneiras, como através de doenças físicas produzidas pela própria psique ou por vários infortúnios, dificuldades, fracassos ou conflitos em qualquer área da vida. Portanto, caso exista uma imagem relacionada com a profissão ou a carreira, por exemplo, ela será fortalecida pelo desejo inerente de auto-punição e assim dificuldades nesse aspecto surgirão constantemente na vida da pessoa. Ou se existir uma imagem ligada ao amor, à vida conjugal, o mesmo se aplicará nesse caso, frustrando sempre seus relacionamentos.

Portanto, se e quando você não for bem-sucedido em um desejo consciente e legítimo, e olhando para a sua vida descobrir que a satisfação desse desejo consciente foi constantemente frustrada, formando um padrão, como se você nada tivesse a ver com isso (como se um destino cruel tivesse se abatido sobre sua cabeça), pode estar certo de que não apenas uma imagem e uma conclusão errônea existem em seu interior, mas que, além disso, a necessidade de auto-punição também está presente.

A divisão original entre amor e ódio que iniciou o círculo vicioso causa mais divisões. Como exemplo, vimos que a necessidade de auto-punição coexiste com o desejo de não ser punido. Com isso uma parte oculta da psique argumenta: "Se eu for perfeito, se eu não tiver falhas nem fraquezas, se eu for o melhor em tudo o que fizer, então, as pessoas vão me amar incondicionalmente e não vou sentir ódio e, portante portanto não precisarei ser punido".


O Círculo Vicioso do Amor Imaturo - Final



Duas consciências

Você pensa que sendo tão perfeito pode fugir do castigo. Dessa forma, uma segunda consciência está sendo criada. Na realidade, existe apenas uma consciência: que é o Eu Superior, eterno e indestrutível. Não confunda esta consciência com a segunda consciência (Ego) artificialmente criada pela compulsão de compensar um suposto pecado. Na realidade, ninguém precisa ser punido.

O que acontece quando você não consegue atingir as metas impossíves exigidas pela segunda consciência (ego) de ser o certinho?

Inevitavelmente, o resultado será um sentimento de inadequação e inferioridade. Você se sente completamente isolado e envergonhado, com o seu segredo carregado de culpa de não apenas odiar, mas também de ser incapaz de ser o certinho. Esta consciência é muito orgulhosa para perceber que você simplesmente não pode ser tão perfeito. Portanto, necessariamente vai se sentir inferior.

Enquanto este fato não for sentido e experimentado você não pode abandonar os sentimentos de inferioridade. As racionalizações que usa para explicar os seus sentimentos de inferioridade, nunca são a verdadeira causa.
Sem os seus padrões artificialmente elevados você não sentiria a necessidade de ser melhor que, ou pelo menos tão bom quanto os outros em todos os campos da sua vida.

Poderia aceitar com tranquilidade que outras pessoas são melhores ou têm melhor desempenho em algumas áreas, enquanto você tem vantagens que os outros podem não ter. Não teria que ser tão inteligente, tão bem-sucedido, tão bonito quanto as outras pessoas. Esse jamais é o verdadeiro motivo para os seus sentimentos de inadequação e inferioridade.

Perpetuação da inadequação e da inferioridade

Essa inadequação e inferioridade servem para fechar ainda mais esse círculo vicioso. Novamente, a sua vozinha interior argumenta: "Eu fracassei. Sei que sou inferior, mas talvez se eu pudesse pelo menos receber uma grande quantidade de amor, de respeito e de admiração dos outros, isso traria a mesma satisfação pela qual eu originalmente ansiava e que me foi negada no passado, colocando-me assim forçosamente na posição de odiar e de criar todo esse círculo vicioso. A admiração e o respeito dos outros seriam também a prova de que eu não sou um fracasso. Assim, é possível agora receber o que meus pais me "negaram". Isso vai mostrar que eu não sou tão inútil quanto suspeito quando falho em corresponder aos padrões da minha consciência compulsiva".

Portanto, o círculo vicioso fecha onde começou e a necessidade de ser amado torna-se muito mais compulsiva do que era inicialmente.

Vale ressaltar que algumas pessoas podem desenvolver doenças que são uma forma de ataque de raiva infantil ou podem, simplesmente, tornar a vida difícil para aqueles que as cercam. Por meio de sua infelicidade essas pessoas infligem constantemente dificuldades aos outros com o objetivo de impor sua vontade e sua necessidade compulsiva de receber a utopia pueril de amor e cuidado perfeitos. Isso pode acontecer em vários graus. Às vezes é bastante óbvio, outras vezes é muito mais sutil e camuflado. O que as pessoas dizem quando entram em tal comportamento é: "Eu estou infeliz. Você tem que tomar conta de mim. Você tem que me amar."

Porém, só quando você deseja amor de maneira saudável e madura e apenas quando você está disposto a amar na mesma medida em que deseja ser amado, é que o amor virá. A vida é sempre justa e equilibrada; você nunca recebe mais do que investe. O que você dá, virá de volta, contanto que você não dê falsamente, sem sentir realmente, sem ser de verdade, só com o intuito de provar alguma coisa ou mostrar o que não é.
O amor que você deseja na idéia equivocada de que vai deixá-lo quite não é a resposta. É novamente começar o círculo com uma dose ainda maior de frustração.

A dissolução do círculo



O seu trabalho é descobrir esse círculo dentro de você. Terá que ver quando em criança você tinha justificativa para o fato de ter certos sentimentos, atitudes e incapacidades que agora não lhe servem mais. Terá também que aprender a ser tolerante com as suas emoções negativas. Você tem que compreendê-las. Tem que descobrir onde você se desvia do seu conhecimento consciente nas suas tendências, exigências e desejos emocionais.

As situações têm que se tornar completamente conscientes antes que você possa ter esperanças de romper o círculo. Vão ocorrer situações que parecem castigo, quando na verdade são o remédio para colocá-lo na trilha certa. Através das suas dificuldades, finalmente, poderá chegar ao ponto em que muda a sua direção interna.

Essa é a única liberação possível: libertação dos seus altos padrões compulsivos que o fazem sentir culpado e não merecedor.



Fonte:http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=6966