VENEZA - CIDADE MONUMENTO : O ABISMO DA ALMA



Está ali no mar Adriático. Mas não está sozinha. Está acompanhada, aliás, bem acompanhada, por nada menos que 120 ilhas. Em cada ilha, lado a lado, o sonho de um dia vir a ser continente. E existem os canais. Ao todo 177 que se espalham na laguna entre a foz dos rios Po e Piave. Encontro-me em Veneza. Em um bonito dia de Setembro de 1998. Além da geografia que aprendi nos bancos escolares e além das representações de Colombinas e Pierrôs apaixonados nos carnavais dessa cidade cinematográfica, Veneza me faz lembrar Shakespeare. E penso ver dobrar em uma esquina o seu Mercador e já noutra algum membro da família Capuletto. Veneza e Verona parecem palcos armados para encenar as mais lancinantes tragédias da vida humana, aquelas que tratam da luta pelo amor, da luta pela justiça e da luta pela liberdade. Não existem forças mais poderosas a atiçar a imaginação humana que essas três. E também não existem chamamentos humanos mais eficazes que essa convocação para demonstrar ao longo da existência que esta pode valer a pena ser vivida.

Naqueles canais que encantam qualquer ser humano com 51% de emoções em pleno uso, encontro o cenário ideal para imaginar uma Europa medieval, onde a desonra no amor era lavada no próprio sangue, onde a morte nos braços da amada era sempre uma opção para a louca juventude da Idade Média. O nome Veneza que se origina dos Vênetos, dois povos da antiga Europa. Um deles foi uma tribo celta, marinheira, que viveu na região da atual Bretanha e daí certamente vem esse clima de mal-disfarçado de misticismo que Veneza abriga. Do outro povo, que ainda vive no hoje chamado Vêneto não tem nada de extraordinário: celebrizou-se como criadores de cavalos.
Quatrocentas pontes formam o traçado de uma cidade flutuante e como um pequeno barco flutuando sobre a calma dos lagos Veneza demonstra sua vocação maior: unir, juntar o que surgiu separado no espelho da superfície, colar pedaços de destinos, acalmar torrentes de lágrimas de amantes e amadas. Como pequenos afluentes, estas pontes terminam levando ao grande canal. São então 3 quilômetros de comprimento, cortando Veneza de noroeste a sudeste. Esta grande canal é o Champs Elysées parisiense, onde as gôndolas são árvores em movimento, é também a nossa Avenida Atlântica, onde o praia é ladeada por belas fachadas de casarões centenários onde bandeiras com brasões tremulam o tempo todo. O estilo dos seus prédios e decorações varia do bizantino ao renascentista. As obras da escola veneziana são representadas nos palácios, nos edifícios públicos e nas igrejas da cidade. A cidade possui ainda grandes museus, como o Ca’ d’Oro (palácio gótico), igrejas históricas e a biblioteca Vecchia. Em 1868, foi fundada a universidade.
Veneza tem seu charme cosmopolita: pequenas estações onde barcos especiais levam e trazem pessoas de dezenas de nacionalidades, como se fossem estações de um metrô em Londres ou em Frankfurt. Os passageiros jovens não hesitam em colocar um vistoso chapéu cheio de pontas, multicolorido e com guizos. Os adultos lançam olhares enternecidos aos casais de namorados que alheios ao mundo trocam beijos nos canais da capital, passeando impunemente sonhos e indícios de que algo mais corre no coração além de sangue em profusão. Esse sentimento chamado amor, por exemplo.
Ao descer em uma dessas estações digo ao meu amigo Gianmauro Zaganelli: “Vamos nos perder seguindo que direção?” Ele ri. Tanto quanto eu, apesar de ser um simpático cinquentão italiano de Perugia, é sua primeira visita a Veneza. Teve que dirigir quase dois mil quilômetros para levar esse amigo que conheceu no Rio há exatos 20 anos. Terminamos nos perdendo em uma viela. Todas as vielas se parecem, todas as pontes parecem ter saído da mesma marcenaria, com o mesmo verniz preto descascando sobre estas vistosas gôndolas passam silenciosas. Há algo de misterioso no ar. É o silêncio de Veneza. Um silêncio pesado, quase palpável. Um silêncio que encobre tantos séculos de conspirações e intrigas, um silêncio de quem flagrou personagens como Dante ou Da Vinci, Bocaccio ou Veronese a cruzar suas pontes, levando na almas sonhos que iriam embalar a alma de gerações futuras.
Meio perdido e meio encontrado vamos a uma galeria onde são mostrados vídeos feitos com Fellini: Os Sonhos de Fellini. Em um, o gênio de Amarcord e de 8 ½ é surpreendido por um trem em alta velocidade que vem ao seu encontro, ele acorda alarmado e grita. Na outra seqüência ele está explicando ao seu terapeuta o sonho e recebe uma aula da psicologia assinada por Jung. E como não poderia deixar de ser o sonho termina com o terapeuta dizendo que segurança mesmo somente mantendo uma poupança em uma Caixa de Risparmio de Itália. Foi aí que me senti meio encontrado: um brasileiro sempre tem algo de Fellini na alma. E Fellini retrata a festa, as cores em movimento, a nostalgia de uma infância perdida em algum escaninho da memória, ao som de uma retreta, de uma banda de música no coreto da pracinha de uma cidade imaginária e eternamente provinciana.
Nesta galeria observo cartazes imensos anunciando festivais cinematográficos e outros acontecimentos que atraem os visitantes durante todo o ano. É a beleza de Veneza atraindo o combustível para seu principal gerador de economia, o turismo. Ainda assim, antes de chegarmos à parte antiga de Veneza podemos ver estaleiros e numerosas fábricas químicas e metalúrgicas. É na Veneza nova que estão alegados 317.837 habitantes, conforme leio em um Censo de 1993. É o presente extraindo do passado nutrientes para manter uma economia sólida sem destruir este extenso e tão belo patrimônio veneziano, italiano, de toda a humanidade. De repente sou atraído pela revoada de pombos, pelo frenesi do amplo pátio. É a praça de São Marcos, reinando centro de Veneza e de longe a zona mais visitada, onde se encontram a catedral dediacada a veneração de São Marcos e o palácio Ducal. Originalmente, a igreja de São Marcos foi construída, entre 829 e 832, para abrigar o corpo do santo de mesmo nome, quando este foi levado de Alexandria para Veneza no ano 828. A basílica atual data do século XI. Seus arcos de meio ponto e as cúpulas são claramente influenciados pelo estilo arquitetônico bizantino. A catedral foi erguida seguindo o modelo cruciforme da igreja justiniana dos Santos Apóstolos de Constantinopla, com cinco cúpulas. Sua construção foi iniciada em 1063. E, acima de tudo, é um colírio para os cansados olhos do viajante que inconsciente de um milênio de história que separam seus olhos daquela construção única, se aventura a guardar na própria alma o mausoléu que conserva o santo de Veneza.
É uma cidade monumento como aliás, tantas cidades européias. A região de Veneza foi povoada na Antigüidade pelos vênetos e a cidade foi fundada no ano de 452?d.C. pelos habitantes de cidades do norte da Itália que buscavam escapar da invasão alemã. Em 697, os venezianos organizaram a cidade como uma república governada por um dux eleito. As Cruzadas e o desenvolvimento resultante do comércio dos produtos asiáticos fizeram de Veneza o centro comercial com o Oriente mais importante. Nos séculos?XIII e XIV, Veneza se viu envolvida em uma série de guerras com Gênova, outro importante pólo comercial da região. No final do século?XV, a cidade-estado era a principal potência marítima do mundo cristão. As invasões turcas e outros ataques estrangeiros ocorridos em meados do século XV marcaram a decadência da supremacia veneziana. Em 1797, foi conquistada e dissolvida por Napoleão Bonaparte, que cedeu o território para a Áustria. Quase um século depois, em 1886, após a Guerra Austro-prussiana, Veneza passou a fazer parte do recém-criado Reino da Itália. Este é o resumo da Opera. Para que hoje pudéssemos desfrutar dessa visão pacífica de casais inebriados de amor, galerias que passam sonhos fellinianos, pombos em festivas revoadas, muitas guerras foram travadas e muitos tratados de paz foram assinados, muitas invasões tiveram êxito e outras tantas foram rechaçadas. Veneza oferece um painel variado da história humana, uma história marcada pela estupidez com que reinos eram derrubados, vidas ceifadas, sonhos apagados da memória da civilização.
Fonte: Extrato do livro Viajar é Preciso, de Washington Araújo