YOGA E PRO$PERIDADE



YOGA E PRO$PERIDADE

Entrevista com Pedro Kupfer

Antes de começar, cabe o pensamento: nós precisamos mesmo deste tipo de discussão? É este tema realmente relevante para a vida de Yoga? Hoje em dia vemos muitos “profissionais” do Yoga focados em prosperar e totalmente refratários à ideia de olhar com compromisso e sinceridade para o Yoga que afirmam ensinar e praticar. Este tipo de conversação pode nos desviar, de fato, do tema central, que é a liberdade.

1. Você acredita que o equilíbrio que o Yoga traz em todos os níveis da vida tem a ver com estar realizado no mundo material também?

Bom, isso depende do que signifique a expressão “estar realizado no mundo material”. Falar em realização material ou em prosperidade implica definir padrões. Numa sociedade onde a maioria dos pastores têm meia dúzia de cabras, aquele que tiver duas dúzias é o mais próspero. Mas isso torna aquele pastor uma pessoa “realizada”? Numa sociedade onde a maioria das famílias têm um carro só, eu só me realizo materialmente se tiver dois?

Quantidade de coisas materiais não define realização em nenhum outro nível afora o material. Creio que o equilíbrio que o Yoga nos traz está mais vinculado com a maneira em que olhamos para as coisas que “temos”. Coloco a palavra “temos” entre aspas para lembrar que, a bem da verdade, nós não temos nada. Nem sequer podemos considerar que o corpo em que vivemos seja nosso.
Não somos donos nem da nossa pele, já que quando chega a hora, ela se enruga irremediavelmente. Não há dinheiro que possa comprar uma pele jovem, por mais que a publicidade queira nos convencer do contrário.


Ser rico em paciência e aceitação é muito mais desejável que ter todo o ouro necessário para comprar coisas que me façam parecer algo que não sou. Se estiver olhando para a realização material desde esse ponto de vista, estarei totalmente equivocado.

O Yoga existe para nos mostrar quem somos. Quando percebemos isso, construímos uma relação saudável com a prosperidade, que deixa de ser vista como fonte de felicidade ou realização pessoal. Assim, conhecendo a mim mesmo como plenitude, que e o que o Yoga me mostra, deixo de me comparar e estou bem com aquilo que tiver, a cada momento.

2. Na tradição, inicialmente o yogi renunciava ao mundo material para se realizar espiritualmente. Quando isso parou de acontecer (se parou) e o que seria essa renúncia simbolicamente nos dias de hoje?

Sempre houve dois estilos de vida através dos quais viver o Yoga: o da renúncia e o da ação. Portanto, essa afirmação não é correta. O yogi não precisava renunciar ao mundo material para se realizar espiritualmente.

Basta ver os exemplos de ṛṣis da antiguidade como Yājñavalkya, Viśvāmitra, Janaka ou Dasharatha. Eles eram todos casados, gente de família, e alguns deles ocuparam um lugar de muito destaque na sociedade em que viveram.

Renunciar não tem a ver com desfazer-se de objetos materiais, necessariamente, mas com olhar objetivamente para esses objetos, vendo-os como são. Nesse sentido, nada mudou ao longo dos últimos milênios.

O que valeu no passado continua valendo agora: se eu acreditar que minha realização pessoal depende de objetos materiais, estarei condenado a sofrer com o apego que eles me provocam quando os vejo como tábuas de salvação.

Se for capaz de perceber a limitação intrínseca a esses objetos como fontes de felicidade ou realização, deixarei de projetar neles a responsabilidade pela minha própria serenidade. Isso valeu ontem e permanece válido hoje.

3. Os textos de base do Yoga são milenares. O que, em sua opinião, permanece literal/ intacto em relação à parte material da vida e o que deve ser adaptado de acordo com as tantas mudanças em relação ao mundo de hoje, em que a parte material da vida parece engolir a maioria das pessoas em todas as camadas da sociedade?

Vale o que disse na resposta anterior: aqui nada mudou. O ser humano é o mesmo, as condições são as mesmas. A relação que cultivamos com os objetos é que pode diferir. Pessoas sofriam no passado por conta do número de cavalos que cada um tinha em relação ao vizinho. Hoje sofrem por causa do numero de cavalos de força do próprio carro, ao compará-lo com o motor do cavalo do vizinho.

O essencial, creio, é estabelecer aquilo que seria o mínimo para o meu próprio conforto e satisfação, e deixar de lado as comparações. Os brasileiros se comparam com os portugueses e sofrem pois percebem que os portugueses têm mais coisas: segurança, educação e saúde pública que funcionam, por exemplo.

Mas os portugueses também se queixam pois se comparam com os espanhóis, que têm mais do que eles. Estes, por sua vez, sofrem pois acham que têm pouco em relação aos franceses, que por sua vez se comparam com os ingleses e sofrem, e assim a coisa vai.

4. Entre tantas adaptações e fusões contemporâneas com os conceitos primordiais do Yoga, há profissionais misturando Yoga e coaching em cursos e consultorias de metas. Pode argumentar em que aspectos acha isso positivo ou negativo?

Não sei dizer nada em relação ao coaching. Não conheço a matéria. Mas, conhecendo o Yoga, creio queele se basta por si mesmo para o objetivo que se propõe: mostrar ao indivíduo que ele é intrínsecamente livre e que, para o viver livre e pleno, podemos prescindir daquilo que possa ser chamado realização material, caso essa realização implique as comparações que mencionamos na questão anterior.

5. Teoricamente o coach nos ajuda a estabelecer metas e a obter êxito, nos ajudando a conhecermos nossas fraquezas e qualidades para atingir o gol desejado. O que isso tem a ver com o trabalho do professor de Yoga (tanto o de hoje como no conceito original de guru-sisya)?

Vejo a atividade do professor de Yoga como uma extensão do amor que a pessoa nutre pelo estudo e a prática. O professor de Yoga é uma pessoa que faz da arte de ensinar uma extensão da sua verdadeira vocação, que é a busca do autoconhecimento.

Se a pessoa falhar na tarefa de ensinar e transmitir o Yoga como ele é, ou se tiver poucos alunos e quiser ter mais, pode até consultar um especialista em marketing ou um conselheiro para revisar seu approach, mas isso não tem a ver, necessariamente, com ser um yogi.

Há gente que aplica conceitos de marketing às aulas de Yoga para chamar mais gente mas isso não significa que o professor em questão tenha compreendido o objetivo real do Yoga. Número de alunos não mede conhecimento de Yoga, nem plenitude, nem realização pessoal.

O mesmo vale para a fama e o que poderíamos chamar de “ego espiritual”: pode haver alguém muito conhecido no meio do Yoga, alguém que possa ser considerado um grande praticante ou ótimo professor mas isso não torna a pessoa, necessariamente, um ser realizado.

O Yoga, visto em sua real perspectiva, não é para todo o mundo. Kṛṣṇa disse na Bhagavadgītā (VII:3): “Entre milhares de mortais, poucos se esforçam para atingir a perfeição, e entre os que conseguem atingi-la poucos são os que Me conhecem em essência”.

Como meio de conhecimento sobre o Ser, o Yoga é completo em si mesmo. Se o objetivo do professor de Yoga for mesmo mokṣa, a liberdade, talvez possamos de fato prescindir do conselho dos profissionais de coaching, já que o “objetivo desejado” é o autoconhecimento. Digo isso pois, sem conhecer a abordagem dessa disciplina, tenho a impressão de que ela não se ocupa dessa meta.

6. Independente de coaching, em que o Yoga pode nos ajudar a estarmos mais realizados no sentido material?

De novo, teríamos que voltar à definição de realização no mundo material. Realizar-se, nesse sentido, intuo, pode ter a ver com a capacidade de encontrar seu lugar no mundo, no tempo e no espaço em que vivemos.

Ter desejos é completamente natural. A questão está em saber lidar com eles, sem se tornar escravo dos caprichos do ego ou das modas que a sociedade de consumo nos empurra.

Devemos estar atentos para não nos tornar escravos dessas modas, para reconhecer as nossas necessidades reais e separá-las dos caprichos banais. O Yoga não nega a riqueza, a prosperidade ou a abundância mas põe um limite nelas.

Esse limite é o dharma: quando a pessoa tem o suficiente, recomenda-se que continue com a mesma atitude e trabalhe mesmo assim, mas dividindo, partilhando e dedicando uma parte do próprio esforço ao bem-estar comum.

Isso deixa o indivíduo tranquilo, pois o torna um contribuidor em relação à sociedade e não apenas um consumidor. Os contribuidores fazem a diferença com seus talentos e capacidades que gerar riqueza, prosperidade e bem-estar.

Consumidores são parasitas que tentam aproveitar ao máximo, acumular além do que é saudável ou necessário e ainda viver ansiosos por achar que ainda não têm o suficiente ou por ter que manter aquilo que juntaram.

Fonte:http://www.yoga.pro.br/artigos/1126/3058/yoga-e-properidade