OS MANUSCRITOS DE QUMRAN DO MAR MORTO



vista do sítio arqueológico de Qumran

 
Ânforas onde foram 
encontrados manuscritos


O PERGAMINHO DO TEMPLO



OS MANUSCRITOS DE QUMRAN :
Considerado o maior achado arqueológico da atualidade, os MANUSCRITOS DO MAR MORTO são uma série de mais de 800 textos encontrados em cavernas, escritos e línguas hebraicas primitivas e que datam de 2000 anos e lançam uma luz direta sobre o longínquo período da onde emergiram o CRISTIANISMO e o JUDAÍSMO RABÍNICO. 

1-Em 70 depois de Cristo os romanos destruíram Jerusalém e o seu Templo, o que ficou para trás desta data mergulhou na obscuridade da história, uma barreira impenetrável para os estudiosos e consequentemente para o entendimento humano sobre o surgimento do cristianismo e do judaísmo dito rabínico, o judaísmo dos dias de hoje.
Antes de 70 A.D. sabe-se que haviam vários tipos de judaísmo que procuravam impor sua influência, depois da destruição do Templo de Jerusalém, emergiu uma única corrente judaica, um judaísmo normativo, que hoje denominamos judaísmo rabínico.
Note bem : apenas uma OUTRA forma de judaísmo sobreviveu à destruição do ano 70 - O CRISTIANISMO, que com algumas transformações veio a dominar o mundo ocidental. Que o leitor entenda que quando se denomina o cristianismo primitivo de "uma outra forma de judaísmo" isto é correto, quer queira ou não o cristianismo surgiu como um corrente judaica,  inspirada, concebida, por um judeu, num meio estrita e exclusivamente judeu. Os primeiros cristãos  eram judeus.

2-O mais antigo documento pós-70 do judaísmo rabínico é a MISHNÁ e data de 200 A.D.
As epístolas de PAULO  foram escritas antes da destruição do Templo.
Não há nenhum outro tipo de literatura cristã, com ecxeção talvez do EVANGELHO DE MARCOS, que date daquela época.

3- DAÍ vem a dificuldade dos estudiosos compreenderem como os 2 movimentos importantes : JUDAÍSMO RABÍNICO e CRISTIANISMO surgiram de toda a extraordinária variedade de judaísmo pré ano 70.
Os 2 desenvolveram-se do mesmo solo do judaísmo anterior ao ano 70.

4-De repente a arqueologia encontra em nossos dias OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO, uma biblioteca de mais de 800 volumes, originais, verdadeiros, intocados, sem erros de compilações, traduções ou modificações tendenciosas, não, são simplesmente uma multidão de textos incorrompidos, um retrato vivo e colorido de uma época remota, um material muito mais vezes mais puro e original do que a tão compilada e traduzida bíblia hebraica ou cristã. E estes textos ainda contém quase todos os livros do antigo testamento , mas desta feita sem distorções, um material original e puro. 

5-MANUSCRITOS DO MAR MORTO é a denominação para o material inscricional encontrado em 11 cavernas no vale chamado QUMRAN, na margem noroeste do mar morto. MAS frequentemente os estudioso incluem ainda manuscritos encontrados da mesma época encontrados em vales  próximos como MURABAAT , NAHAL HEVER, KHIBET MIRD, e MASSADA. 
Às vezes a denominação abrange  documentos até do vale DALIYEH  ao norte de JERICÓ.

6- Os documentos foram escritos entre 250 A.C. e 68 D.C.
Em 68 a comunidade de Qumram foi destruída pelos romanos, antecedendo ao ataque de Jerusalém em 70 a.d.

O texto de estudo a seguir é  baseado na leitura do livro "PARA COMPREENDER OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO" que é uma COLETÂNEA DE ARTIGOS DA REVISTA ESPECIALIZADA : "BIBLICAL ARCHEOLOGY REVIEW" , organizada por HERSCHEL SHANKS, o livro aborda os estudo bíblico arqueólogico dos manuscritos do mar morto no seu sentido mais restrito, OU SEJA, somente o estudo dos pergaminhos encontrados nas 11 cavernas de QUMRAN.

2 - FATOS HISTÓRICOS E ARQUEOLOGIA

SOBRE OS PERGAMINHOS

Os pergaminhos ou rolos encontrados nas cavernas de Qumran foram feitos de pele de cabra, e foram escritos em hebraico antigo e aramaico.

Muitos destes rolos não passam de pedaços e fragmentos mas alguns foram encontrados inteiros.
O impressionante número de 800 pergaminhos não se refere a quantidade de fragmentos, mas realmente a quantidade de rolos individuais, completos ou não, encontrados nas cavernas, pois em uma das cavernas que continha só ela 500 destes rolos, na verdade vão a mais de 50 a 100 mil a quantidade de fragmentos encontrados  que pertencem a estes 500 volumes.

É fora de dúvida que este material se trata do que restou de uma biblioteca da antiguidade, porém a origem dessa biblioteca e os autores dos documentos ainda são motivos de estudo e discussão.

Alguns estudiosos sustentam que foram escritos numa comunidade próxima, cujas ruínas são denominadas Qumran, outros dizem que a biblioteca deve ter sido trazida de Jerusalém para ser resguardada, quando os romanos atacaram a cidade e finalmente a destruíram em 70 depois de Cristo.
O que pode ter ocorrido é que alguns documentos podem ter sido escritos pela comunidade a eles associada (a comunidade de Qumran) mas outros certamente foram escritos muito antes da comunidade ser estabelecida naquele local.

Os documentos foram escritos entre 250 antes de Cristo e 68 depois de Cristo (250A.C. - 65 A.D.). 
Qumran foi destruída em 68 a.d. pelos romanos, antes de eles destruírem Jerusalém.
Aquele foi o período em que muitos dos documentos foram escritos, mas alguns são muito mais antigos, de  anos  até séculos antes.
Antes da descoberta dos rolos de Qumran, os mais antigos textos da bíblia hebraica datavam da idade média, do século X , os textos de Qumran são de 1000 anos antes ! , de uma época  em que os textos bíblicos ainda não haviam sido padronizados, imaginem então o valor incalculável destes manuscritos.

A caverna 1 forneceu 7 rolos completos  e mais fragmentos.
A caverna 3 continha somente o PERGAMINHO DE COBRE.
Em uma das cavernas somente um óstraco (peça de cerâmica com uma inscrição) foi encontrado.
Além dos 7 rolos intactos, somente mais 3 a 5 foram totalmente reconstituídos com o tempo, sem ficar uma única parte faltando.

Um destes rolos de pergaminho é único e muito misterioso : é o chamado PERGAMINHO DE COBRE, ele foi escrito em um folha de cobre. Trata-se do mapa de um tesouro oculto. Alguns especulam que ele seria um guia secreto do local onde os tesouros do Templo haviam sido escondidos para que não fossem pilhados pelos Romanos no ano 70.

Um único pergaminho que não pertence às cavernas e é  da época, e muito importante para entender reconsituir as origens físicas da seita de Qumran,  é o chamado DOCUMENTO DE DAMASCO, que foi encontrado numa sinagoga no Cairo.

Os textos podem ser divididos em 2 categorias:
TEXTOS BÍBLICOS e NÃO BÍBLICOS.
20 a 25% dos documentos são textos bíblicos. Todos os livros da BÍBLIA HEBRAICA estão aí representados exceto o LIVRO DE ESTER ( e é o único livro da bíblia que não menciona o nome de Deus).

TEXTOS NÃO BÍBLICOS : Podem ser subdivididos em vários tipos

-Hinos e salmos
-Comentários bíblicos
-Literatura de sabedoria
-Textos legais
-Uma carta
-Pseudoepígrafo (no estilo bíblico, com frequência falsamente atribuídos a um nome ilustre da antiguidade, como Enoc ou Noé)

Outra classificação : Se se tratam de textos de SEITA ou não, ou seja, se representam conceitos e idéias do grupo religioso particular que reuniu esta biblioteca.


SOBRE O CENÁRIO RELIGIOSO DA ÉPOCA 

Época turbulenta da história judaica, extremamente complexa. Governos instáveis que não asseguravam tranquilidade social. A política religiosa desempenhava um papel importante na preservação da estabilidade social, ou o contrário.

ZADOQUEUS : Linhagem judaica detentora exclusiva das funções de sacerdócio e liderança  religiosos, instituída por SALOMÃO.

MACABEUS -  No século II antes de Cristo, os Macabeus eram uma família de judeus de Modiin na Palestina Central, se rebelaram contra o suserano assírio (dinastia selêucida: Seleuco um dos generais de Alexandre O Grande que herdou parte de seu império) ANTÍOCO IV EPÍFANES e libertaram o templo de Jerusalém (acontecimento até hoje comemorado na festa de HACUNÁ)
Na verdae a batalha por um estado judeu independente se prolongou por um quarto de século, terminando finalmente com a instituição da dinastia ASMONÉIA de dirigentes judeus.
Já antes da revolta haviam sido instituídos SUMOS-SACERDOTES que não eram da linha dos ZADUQUEUS 
que foi estabelecida pelo REI SALOMÃO.
Esta usurpação continuou sobre o mandato dos asmoneus.



ASMONEUS : Linhagem judaica que acabou detentora dos direitos de liderança religiosa após a revolta iniciada pelos MACABEUS.Além disto  eram também detentores da liderança POLÍTICA.
Enfrentavam severa oposição por parte de vários segmentos religiosos da população, tanto pelo que se considerava uma usurpação do cargo de sumo sacerdote, como também pela síntese de HELENISMO  e JUDAÍSMO que eles preconizavam.

Após a dinastia dos ASMONEUS, surgiu na metade do século I a.C., o período HERODIANO, nome derivado da sua figura mais famosa HERODES, o grande.

Pouco antes do período ASMONEU, começaram a surgir numerosos grupos religiosos judeus, normalmente antagônicos, as vezes chamados de SEITAS, estes grupos continuaram disputando a supremacia no período herodiano.
O mais famoso deles era o grupo dos FARISEUS, mas também eram importantes o grupo dos SADUCEUS e até dos ESSÊNIOS.
Os HASSIDIN eram uma congregação pia  que desapareceu no período MACABEU, entre 175 e 37 a.C.. 

Grupos principais do período Herodiano:

FARISEUS : Estes foram o único grupo que sobreviveu à destruição de Jerusalém depois do ano 70 d.C., então o pensamento fariseu veio a ser a base do JUDAÍSMO RABÍNICO , o judaísmo que existe hoje.
Eram o grupo judeu mais benquisto entre o povo comum. Normalmente se acredita que suas determinações quanto as leis religiosas fossem as mais tolerantes e moderadas, mas nem sempre isto é verdade.
Aceitavam a LEI ORAL como a autêntica extensão da LEI ESCRITA DE MOISÉS.

SADUCEUS : Estes formavam o grupo sacerdotal ARISTOCRÁTICO, que detinha riquezas substanciais e proeminência política. Atuavam como DIPLOMATAS  e também CHEFES MILITARES. Também se consideravam como únicos sacerdotes legítimo, aparentemente adotando uma abordagem mais severa do que os fariseus em questões relativas às leis. 
Não aceitavam a LEI ORAL como extensão verdadeira da LEI ESCRITA de Moisés.

ESSÊNIOS : Apesar de se o menor grupo, são mais detalhados pelo historiador JOSEFO (37a.C. a 100d.C.).
Era uma seita regida por rigorosa organização, com regras severas para admissão e penas claramente definidas.
Haviam grupos de essênios espalhados por todo o país, incluindo Jerusalém, mas um grupo em particular  vivia numa comunidade no deserto, às margens do MAR MORTO.
Dedicavam a vida à estrita observância da lei.
Das 3 ordens a dos Essênios pode ser considerada verdadeiramente SEPARATISTA, mantinham-se afastados totalmente de seus compatriotas judeus, considerando-se os únicos verdadeiros filhos de Israel.
Achavam impuro até o serviço sacrificial do templo e ofereciam seus próprios sacrifícios.


Outros gurpos atuantes do período Herodiano:


ZELOTAS
SICÁRIOS
BETUSIANOS
*HASSIDIM (extinto no período macabeu)

E no fim do período Herodiano:

PRIMEIROS CRISTÃOS

ARQUEOLOGIA DO SÍTIO DE QUMRAN

O antigo centro de Qumran apresenta clara estratificação arqueológica, os estratos podem ser datados com facilidade e precisão através dos artefatos ali encontrados, principalmente as moedas.
No período de interesse principal ao tempo da comunidade de Qumran, o sítio apresenta 3 fases.

Período  Ia : São as ruínas das mais antigas estruturas comunais. 
                   A datação é muito dificultada pois restaram somente vestígios das fundações.
                   É certo que foi um período de curta duração pois muito poucos artefatos foram encontrados neste 
                   estrato, as mais antigas peças são 5 moedas de cobre do período selêucida do reinado de Antíoco 
                   VII Sidetes (138-129 a.C.). Estas e outras peças indicam a fundação da comunidade entre 140 e 100
                    antes de Cristo.
Período Ib : Neste período a comunidade foi quase totalmente reconstruída e ampliada.
                   As construções desta fase foram erguidas antes da época de Alexandre Janeu (103-76 a.C.)
                   Nesta fase o centro da comunidade tomou sua forma definitiva, houve ampliações e reformas e depois
                   elas foram destruídas no terremoto de 31 a. C. 
Período Ic:  Após um breve mas indeterminado período de abandono, o local foi reocupado e reconstruído 
                   exatamente sobre o plano do antigo complexo comunal.
                   Prosperou até 68 d.C. , quando então sofreu o  ataque e ocupação das tropas romanas do imperador
                   Vespasiano, enquanto a caminho de sua investida contra Jericó.

As estruturas da comunidade eram baseadas num complexo com instalações comunais para estudo, escrita, refeições, insdústrias domésticas e depósitos em geral. 
Aparentemente os membros desta comunidade não viviam nessas construções (ao menos a maior parte deles), mas em cavernas e abrigos que se irradiavam a partir do centro.
Desse modo as funções arquitetônicas das salas e estruturas exigiam uma forma especial de vida religiosa e comunal.
A conclusão acertada é que o povo dos manuscritos fundou a comunidade na segunda metade do século II a.C., e a ocupou com uma breve interrupção durante o reinado de Herodes, até os dias da REVOLTA JUDAICA (66-70 d.C.) que acabou com a destruição da nação judaica pelos romanos.

PALEOGRAFIA :
Os manuscritos pertencem a 3 períodos de desenvolvimento paleográfico (3 tipos de escrita).
Estilo arcaico : uma pequena série de escritos bíblicos, datando entre 250 a 150 antes de Cristo.
Estilo intermediário : uma grande quantidade de escritos, bíblicos e não bíblicos, do período asmoneu, entre 150 e 30 antes de Cristo.
Estilo da seita : escritos que se referem especificamente a assuntos da seita, muitos compostos e compilados em Qumran, aparecem somente na metade do período asmoneu, ou seja em torno do ano 100 antes de Cristo.
Estilo tardio : um conjunto relativamente grande de manuscritos herodianos, datados entre 30 a 70 depois de Cristo.

-As origens da comunidade de Qumran devem ser datadas de um pouco antes de 100 antes de Cristo.
-Textos em quantidade,  não relacionados com a seita, pertencem a até 150 antes de Cristo.
-Os textos do período arcaico (antes de 150 e até 250 antes de Cristo) são muito raros, provavelmente são rolos originais trazidos pela comunidade ao tempo de sua fundação.
-As cópias de manuscritos de seita como a REGRA DA COMUNIDADE e o DOCUMENTO DE DAMASCO pertencem ao ano 100 antes de Cristo.
-Já os comentários da seita sobre HABABUC e NAUM e outras partes da Bíblia datam em sua maioria da segunda metade do século I antes de Cristo (50 a.C.), eles contém o acervo tradicional de interpretações bíblicas desenvolvidas na comunidade em sua hisória anterior e registradas por escrito numa época relativamente tardia da vida da seita.

TIPOS DE TEXTOS :

Um estudo inicial dos manuscritos de Qumran, levado a cabo por Frank M. Cross, supostamente identificava 3 tipos de texto que favoreciam visões filosóficas seguintes :
MASSORÉTICO - o tradicional texto hebraico, adotado pelo judaísmo rabinico como oficial
PENTATEUCO SAMARITANO - antes da introdução de algumas polêmicas alterações samaritanas
SEPTUAGINTA - que endossa o texto preservado apenas na tradução grega.

Na verdade depois pode se concluir que o texto predominante era na verdade PROTOMASSORÉTICO , portanto o processo de padronização,por meio do qual esse texto veio a se tornar oficial no judaísmo rabínico, pode ter ocorrido muito antes do que se supunha.
Apesar disto REALMENTE existiam os 3 tipos de texto. 

3 - SEITA  DE QUMRAN - Seriam Essênios?

 ESSÊNIOS :

A COMUNIDADE DE QUMRAN foi organizada para ser um novo ISRAEL, uma verdadeira seita, que repudiava os sacerdotes e os cultos de Jerusalém. Nada disto se aplica aos Fariseus e Saduceus, mas se ajusta perfeitamente ao que se conhece da seita dos ESSÊNIOS.
Eram um GRUPO SACERDOTAL, seu chefe era um sacerdote, o arquiinimigo da seita era um sacerdote, designado como SACERDOTE ÍMPIO. 
Em protocolos da sociedade essênia, os sacerdotes tinham precedência, num tempo futuro, um MESSIAS e SACERDOTE estaria acima do tradicional MESSIAS REAL ou DAVÍDICO.
A seita adotava um esquema de sacrifícios na comunidade, a comunidade estava atenta às tradições sacerdotais, às leis cerimoniais, às ordens dos sacerdotes e ao calendário litúrgico, tinham um interesse absoluto pela ortopraxia sacerdotal, quer dizer, a correta prática e observância ortodoxa.

A comunidade se referia aos seus sacerdotes como FILHOS DE ZADOQUE, os membros da antiga linhagem de sumos sacerdotes estabelecida nas ESCRITURAS.
Desprezavam os sacerdotes de Jerusalém que diziam ser ilegítimos.
Os sacerdotes essênios esperavam com fé a intervenção divina para legitimar sua causa.
Prediziam a morte violenta do SACERDOTE ÍMPIO e seus seguidores, procuravam nas escrituras as profecias sobre o final dos tempos, quando eles, os pobres do deserto, finalmente seriam reinstalados numa nova e transfigurada Jerusalém.

Os Essênios estariam na vanguarda de um movimento de visão teológica chamada APOCALIPSISMO
Os últimos profetas do Antigo Testamento, principalmente DANIEL, assim como as comunidades BATISTA e CRISTÃ posteriormente, viam-se vivendo nos últimos dias da idade antiga e o despontar do reino de Deus.
A comunidade vivia num apocalipsismo cristalizado. Toda sua vida, instituições e práticas eram uma preparação ou realização da vida na NOVA ERA do governo de Deus.
A sua vida era uma reconstituição dos últimos dias do tempo do ARMAGEDON e ao mesmo tempo,como escolhidos,  participavam das dádivas e glórias dos novos tempos do reino de Deus.

Para os membros de Qumran a chave para estes mistérios futuros estava acessível através da leitura das profecias bíblicas com a compreensão concedida ao intérprete inspirado, aquele que le sobre o poder do ESPÍRITO SANTO. 
Eles desenvolveram um corpo de exegese tradicional, sem dúvida inspirado pelos padrões estabelecidos por seu fundador, que se reflete na maioria de suas obras, principalmente seus comentários bíblicos, PESHARIM, onde registraram por escrito susas tradições comuns.

EXEGESE APOCALÍPTICA :
Contém 3 princípios
1- a profecia se refer aberta ou cripticamente aos últimos dias
2- os chamados últimos dias são na realidade o presente, o tempo em que a seita viveu.
3- a história da redenção do antigo Israel, seus ritos e instituições, são protótipos dos eventos e personagens do novo Israel.

O acampamento essênio no deserto encontrou seu protótipo no acampamento mosaico de Números (Num 2-4,9,15-10,28). Os essênios se retiraram para Qumran a fim de preparar o caminho do Senhor no deserto.
-Deus havia feito seu pacto no deserto, então eles voltavam ao deserto para sua NOVA ALIANÇA.
-Israel no deserto se havia distribuído em vários exércitos para a GUERRA SANTA da conquista, também os essênios se organizavam em formação de batalha e escreviam liturgias da SAGRADA CAMPANHA DO ARMAGEDON, vivendo para o dia da segunda conquista, quando marchariam para SION com seus chefes messiânicos, e seguiam a lei da pureza para os soldados em guerras santas, conforme ditavam as Escrituras, um regime ascético que ao mesmo tempo antecipava a vida com os santos anjos diantes do trono de Deus, situaç~]ao que exigia pureza ritual semelhante.

Os ritos da seita revelam esta tipologia apocalíptica :
Os membros do conselho da comunidade eram em número igual ao dos chefes de Israel e Levi no deserto.
Como Deus enviara Moisés, Aarão e Davi, assim eles esperavam 3 messias - PROFETA, SACERDOTE e REI.
O fundador da comunidade tinha o apelido bíblico de MESTRE DA JUSTIÇA (Oséias 10,12 e Joel 2,23)
Os inimigos da seita recebiam denominações tiradas das profecias - FALSO ORÁCULO, LEÃO COLÉRICO...

A conclusão de Frank Moore Cross   é que os essênios de Qumran eram uma comunidade formada e dirigida por um grupo de sacerdotes zadoqueus. Na segunda metade do século II a.C., sem poder reconquistar sua antiga autoridade na teocracia de Jerusalém e sofrendo perseguição ativa da nova casa de sacerdotes no poder, refugiaram-se no deserto. Ali encontrando nova esperança nos sonhos apocalípticos, prepararam-se para o julgamento iminente, quando seus inimigos seriam derrotados e eles, os eleitos de Deus, teriam sua vitória final, de acordo com as predições dos profetas.

O estudioso também conclui que o SACERDOTE ÍMPIO poderia bem ser SIMÃO MACABEU o último dos irmãos macabeus, que com seus 2 filhos foi assassinado numa fortaleza em Jericó, estas mortes associadas com a cidade maldita de Jericó está descrita numa profecia de Reis 16,34, que já havia se realizado mas foi re-predita novamente pela seita de Qumran.

JÔNATAS o segundo dos irmãos Macabeus é que foi o primeiro usurpador do cargo de sumo sacerdote, então afirmam alguns que ele é quem devia ser identificado com o sacerdote ímpio. Isto é pouco provável, pois Jônatas teve pouco tempo de reinado e foi um reinado frágil, em que ele teve que se defender ainda de oposição estrangeira.
Já SIMÃO sim conseguiu consolidar o poder macabeu, livrar totalmente Jerusalém do jugo Selêucida e foi no governo dele que houve uma suprema assembléia dos sacerdotes e povo e chefes da nação e anciões do país,  em 140 antes de Cristo, no 3° ano do seu reinado, ali foi instaurado seu decreto, gravado em bronze e assentado em pilares no monte Sion. Simão foi proclamado sumo sacerdote de jure, ficando a função a cargo de sua família permanentemente, "até surgir um profeta fiel" (1 Macabeus 14,30-39).
4 - SEITAS  DE QUMRAN  II    -  Seriam  SADUCEUS ?

(Comentários sobre o artigo de Lawrence H. Schifmann - As origens saducéias da seita dos manuscritos do mar morto )

Schifmann contesta a teoria dominante de que a seita de Qumran seria a seita dos ESSÊNIOS e afirma que suas características estariam mais próximas ao SADUCEUS.
Primeiro é afirmado que o termo ESSÊNIO pode designar várias seitas que tinham características em comum. A coleção de textos de Qumran se compõem de manuscritos bíblicos, textos especiais da seita ( em geral escritos de acordo com suas peculiaridades linguísticas), além de toda luma variedade de outros textos reunidos pelas pessoas que ali viviam. A ligação desses outros textos com a seita não é muito clara. Aparentemente, muitos textos foram levados de outros lugares para Qumran e conservados porque tinham alugmas afinidades com asc renças dos membros da seita. Podem ser originários de outros grupos de seitas mais antiga e, de certa, diferentes ou talvez tenham procedido de grupos contemporâneos com ideologias próxima à de Qumran.
Certos textos não podem ser considerados representantes da seita de Qumran propriamente dita, pois não inclulem seus temas, polêmicas e terminologia característicos nem são escritos na linguagem e estilo típicos das obras da seita.
Textos encontrados  depois de Qumran em MASSADA, a fortaleza de Herodes no deserto a 56km ao sul de Qumran), que foi ocupada pelos rebeldes ZELOTAS durante a primeira revolta judaica contra Roma, e um manuscrito CÂNTICOS DO SHABAT (liturgia angélica), tem similares nos textos de Qumran. Os defensores de MASSADA possuíam livros semelhantes aos de QUMRAN. 
A conclusão do estudioso é que os livros de Qumran façam parte da herança comum do JUDAÍSMO do SEGUNDO TEMPLO e não seriam originários nem exclusivos dos círculos da seita de Qumran.

MMT - O documento "algumas regras relativas à Torá" proveniente da CAVERNA 4 :

Este documento é conhecido também como CARTA HALÁQUICA, pois parece uma carta contendo 22 leis religiosas (halahot) , na verdade ele é um documento básico da seita de Qumran.
O antigo autor do documento afirma que a seita rompeu com o sistema vigente em Jerusalém em vista das divergências com relação àquelas leis religiosas. E afirma que ela retornará se seus adversários se retratarem, pois, conforme está dito ali, estes sabiam o tempo todo que a razaõa estava com a seita.
Schifmann fez uma comparação do MMT com a MISHNÁ e o TALMUDE, que apresentam uma identificação com os FARISEUS e SADUCEUS, os 2 movimentos florescentes antes da destruição do templo no ano 70.
Ele conclui do estudo que a seita de Qumran tem suas origens nos SADUCEUS.

A seita judaica dos SADUCEUS, apartou-se dos seus correlegionários e tornou-se adversária dos fariseus, quando se engajou na revolta dos MACABEUS (168-164 antes de Cristo), após a revolta os dirigentes asmoneus retomaram o controle sobre a terra e sobre o templo, até então nas mãos do suserano selêucida ANTÍOCO IV.
Os ASMONEUS passaram a administrar o templo de comum acordo com os FARISEUS, esta situação perdurou até o período herodiano, que se iniciou quando HERODES, assumiu o poder em 37 antes de Cristo.
Alguns Saduceus afastaram-se dos seus princípios e assumiram a nova realidade, outros não e romperam de vez com o sistema vigente.
O MMT é uma carta escirta por aqueles que se recusavam a aceitar as normas legais anunciadas pelos sumos sacerdotes asmoneus. Na parte relativa às leis contesta com os saduceus partidários da acomodação, expondo, por um lado, a lei correta e, por outro, a lei enunciada pelos asmoneus. No fim da carta o autor se dirige ao próprio dirigente asmoneu e tenta atraí-lo para as posições do MMT, alertando que Deus somente abençoa aqueles governantes que segue o SEU caminho.
O MMT , segundo Schifmann, demonstra que ou a seita não era de essênios, ou que o movimento essênio deve ser redefinido como tendo emergido de fontes saducéias. É possível concluir isto usando como base somente o DOCUMENTO DE DAMASCO, manuscrito descoberto em uma sinagoga do Cairo antes dos rolos de Qumran.
O documento de Damasco parece obra de ZADOQUEUS e tem muita semelhança com os Saduceus, afirmou um estudo de Schecther.

No MMT também pode-se concluir que o material talmúdico atual é muito mais acurado do que se pensava,  que a visão farisaica realmente  predominou no período asmoneu e que ela não seria uma invenção posterior anacrônica do judaísmo rabínico.
Confirma isto também o fato de que a terminologia e algumas leis registradas em fontes rabínicas, algumas em nome dos fariseus e outras atribuídas a sábios anônimos do século I, eram na verdade aplicadas e aceitas pelos fariseus.
O judaísmo rabínico incorporado no TALMUDE não é uma invenção pós-destruição, as raízes do judaísmo rabínico remontam pelo menos ao período asmoneu.

No PESHER NAHUM, um texto de Qumran, os saduceus são denominados MANASSÉS, os adversários dos EFRAIM ( fariseus). Neste texto os saduceus são descritos como membros aristocráticos da classe dominante.

Uma série de leis dos saduceus encontradas no MMT tem equivalentes no PERGAMINHO DO TEMPLO
Os saduceus não aceitavam qualquer lei que não tivesse relação com a Bìblia

Conclusões de Schifmann :
Um processo de sectarismo e de mentalidade separatista foi evoluindo durante todo o período asmoneu e atingiu seu apogeu no período herodiano. Um grupo de sacerdotes originalmente saduceus, tiveram a liderança do MESTRE DA JUSTIÇA, que provavelmente só passou a chefiar após o MMT ser escrito, se transformou no grupo que recolheu e redigiu os rolos da seita de Qumran.

O judaísmo rabínico pós destruição de Jerusalém se baseou em linhas gerais, no farisaísmo, embora também incluísse alguns aspectos das tradições das seitas e dos grupos apocalípticos.
O cristianismo, a princípio herdou o apocalipsismo imediato desses grupos minoritários, ou seja, o cristianismo é em grande parte a continuação de tendências oriundas do judaísmo do Segundo Templo e que foram rejeitadas pela corrente principal farisaico-rabínica.
5 - SEITAS  DE QUMRAN  III    -  ESSÊNIOS ou SADUCEUS ?

O estudioso James C. Vanderkam argumenta contra as conclusões de Schifmann e afirma seguramente que a seita de Qumran aproxima-se muito mais do modelo ESSÊNIO que SADUCEU :

As 3 principais seitas judaicas que existiram entre o período da primeira revolta, promovida pelos macabeus em 150 antes de Cristo e a segunda revolta dos zelotas em 70 depois de Cristo, tem como fonte histórica mais antiga o historiador do século I antes de Cristo, JOSEFO, também outra fonte confiável e da época é o geografo PLÍNIO, dito "o velho". 
Eles comentaram sobre os FARISEUS , SADUCEUS e OS ESSÊNIOS. 
Sobre os SADUCEUS e FARISEUS também existem relatos na MISHNÁ e no TALMUDE, porém estes escritos são bem mais tardios que as fontes anteriores.Já  os essênios, apesar de menor importância no contexto histórico são mais detalhadamente descritos, especialmente por PLÍNIO o velho, talvez porque eram uma seita muito peculiar, vivendo à margem da sociedade, numa comunidade isolada no deserto e com regras e preceitos rígidos e bem distintos das demais seitas.

A defesa da teoria de que o povo que reuniu e compilou os pergaminhos do Mar Morto na comunidade de Qumran eram mesmo os Essênios, baseia-se principalmente em duas espécies de informações :
-Os relatos do geógrafo PLÍNIO
-O teor dos próprios pergaminhos, comparados com suas crenças, leis e costumes relatados pelo historiado JOSEFO, que coincidem plenamente.

Um trecho do relato de Plínio, na sua obra "história natural", onde ele descreve a Judéia e o mar Morto:

"No lado ocidental do mar Morto, mas fora do alcance das exalações da costa, vive a tribo solitária dos essênios, marcadamente diferente de todas as outras tribos do mundo inteiro, pois não tem mulheres e renunciou a todo desejo sexual, não usa dinheiro e tem apenas as tamareiras por companhia. Dia após dia, o agrupamento de refugiados tem o número de seus membros reposto por muitas pessoas que chegam cansadas da vida e que para lá foram atiradas pelas vagas da sorte, para adotar seus costumes. Assim durante tempos milenres ( se contados ninguém acreditaria) uma raça onde não há nascimentos vive para sempre, tão grande é, para sorte sua, o número de homens cansados da vida!
Situada mais abaixo destes existia antigamente a cidade de Ein Guedi,perdendo apenas para Jerusalém na fertilidade de sua terra e de seus bosques de tamareiras, mas agora, como Jerusalém, um monte de cinzas."

Bem o único lugar no lado ocidental do mar Morto, ao norte de Ein Guedi, onde se encontraram vestígios arqueológicos de um centro comunal é Qumran.
Ou seja é uma informação bastante precisa dos Essênios e que se localizavam em Qumran.

Algumas imprecisões podem ser apontadas, e são elas:
-Provavelmente a cidade citada como Jerusalém era na verdade Jericó
-A antiguidade da comunidade descrita por Plínio é certamente exagerada.
-Plínio não escreveu os relatos conforme os viu, ele baseou-se em mais de 100 autoridades para escrever seu livro, segundo consta ele pegou informações fidedignas da época dos acontecimentos.

Mais um argumento a favor da seita de Qumran como sendo de Essênios é o fato de que alguns rolos com textos específicos da seita, tem teor que se ajusta notavelmente ao que os escritores antigos, Plínio, Fílon e em especial Josefo, nos dizem a respeito das crenças e práticas dos essênios.
Os textos da seita coincidem muito mais com o pensamento e atitude dos essênios do que com os dados das fontes sobre as posições de fariseus e saduceus.

O MANUAL DA DISCIPLINA : 
Este é o mais importante texto de seita de Qumran, no tocante a estas comparações, é também chamado de REGRA DA COMUNIDADE  (Sereh Hay-Yahad). 
Ele descreve algumas crenças fundamentais do grupo, o processo e as cerimônias de iniciação para novos membros e as regras que governavam sua vida diária e comunitária.

Texto de Josefo sobre a doutrina do destino ou da  predeterminação, sob o ponto de vista das 3 seitas:

"Quanto aos fariseus, eles dizem que certos acontecimentos são obra do destino, mas não todos, no que concerne a outros eventos, se vão ou não se realizar, só depende de nós mesmos
A seita dos essênios, no entanto, declara que o destino é o senhor de todas as coisas e que nada acontece aos homens que não esteja de acordo com a vontade dele.
Mas os saduceus descartam o destino, sustentando que isto não existe e que as ações humanas não se consumam de acordo com sua vontade, mas que tudo está em nosso próprio poder, de form a que nós mesmos somos responsáveis por nosso bem estar e, se sofremos algum infortúnio, este se deve a nossa própria imprevidência."

Comparando o texto acima com o MANUAL DA DISCIPLINA de Qumran :

"Tudo o que é e o que será vem do Deus da Sabedoria. Antes mesmo que todas as coisas existissem, Ele estabeleceu sua finalidade e quando, como lhes foi ordenado, elas vieram a ser, é de acordo com Seu glorioso desígnio que cumprem sua tarefa, sem modificação"

e mais :

"O Anjo das Trevas afasta do caminho os filhos da justiça e, até o fim, todos os seus pecados, iniquidades, perversidade e todos os seus atos ilícitos são causados por seu domínio, de acordo com os mistérios de Deus."

Cross argumenta que, com sentimentos deste tipo a seita se coloca o mais longe possível dos saduceus, um pouco mais perto dos fariseus e claramente mais próxima dos essênios.

Outros argumentos a favor dos Essênios:

Josefo nos conta que a propriedade dos bens era comunitária, que qualquer um que a eles se juntasse teria seu patrimônio incorporado ao patrimônio de toda a congregação.
O Manual de Disciplina afirma exatamente a mesma coisa, após passado o segundo ano de um neófito na comunidade seus bens eram finalmente então agregados ao patrimônio comum.

Até um fato trivial é extremamente coincidente : Josefo relata que : "Eles tem o cuidado de não cuspir no meio do grupo ou para a direita. ". E o Manual de Disciplina aponta: "Aquele que tiver cuspido numa Assembléia da Congregação cumprirá penitência por 30 dias. "

Numa comparação entre os relatos de Josefo  e os manuscritos da seita, ocorrem 27 paralelos sobre os essênios, 21 prováveis paralelos, 10 casos em que os relatos de Josefo não constam em nada nos manuscritos, e 6 discrepâncias entre o que conta Josefo e o que contém os manuscritos.2 entre as 6 discrepâncias não concordam entre si até mesmo entre os manuscritos.

O DOCUMENTO DE DAMASCO tem uma discrepância com o MANUAL DE DISCIPLINA no que tange a questão da propriedade comum dos bens.
Enquanto o manual de disciplina afirma a agregação dos bens individuais num tesouro comum o documento de damasco fala em depositar ganhos em 2 dias de cada mês para usar em obras caritativas.
Acreditam os estudiosos que o documento de damasco rege regras para essênios que vivam nas vilas e cidades, já o manual de disciplina é somente para a comunidade isolada dos essênios de Qumran.

Intrigante seria o fato de que algumas informações  encontradas nos manuscritos não foram verificados em nenhum outro relato da antiguidade, por exemplo o calendário usado em Qumran de 364 dias, outro fato é a informação de que eles esperavam 2 messias!

Apesar das evidências a favor dos essênios serem os fundadores da comunidade de Qumran, o estudioso concorda que existem semelhanças entre o pensamento essênio e saduceu, e poderia ter acontecido que os essênios tivessem se originado de uma corrente saducéia.
A comunidade de Qumran foi fundada e dirigida por filhos de ZADOQUE,  o nome Saduceu parece derivar deste mesmo ZADOQUE.
Mas nos manuscritos se encontram também umas poucas concordâncias com os fariseus, além das discordâncias dos essênios com os Saduceus. Os textos de Qumran , os de seita, tem doutrinas anti-saducéias.

Conclusão :
O que se pode ter mais certeza é que tanto ESSÊNIOS quanto SADUCEUS tiveram uma origem comum na classe sacerdotal da Judéia, e ambos parecem ter se oposto ao abrandamento de algumas leis e punições por parte dos fariseus.
Então eles concordam em alguns pontos, pois são dissidências de uma mesma fonte, mas o fato de discordarem profundamente em outros pontos é o que os faz serem GRUPOS INDEPENDENTES. 
Não teriam os historiadores comtemporâneos citados as 3 seitas.

6 - O DOCUMENTO DE DAMASCO

             Em 1897 foi encontrado numa GUENIZÁ , um depósito de sinagoga, onde se guardam cópias de textos sagrados, um pergaminho datado do século XI, ou seja um documento medieval, que continha um texto em hebraico antigo, o tipo de escrita era hebraico primitivo  que era usado antes da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., não tinha nenhuma das modificações que ocorreram na língua hebraica após a destruição do templo no ano 70, o que vale dizer que o texto era uma transcrição literal de um texto muitíssimo mais antigo que a idade média, era um texto de antes do ano 70 antes de cristo.
              O texto foi encontrado na milenar sinagoga de BEN ENZRA em Fostat no Cairo, um importante centro judaíco nos séculos XI e XII.


              Solomon Schetcher foi o estudioso que o encontrou e o estudou. O relato do que o pergaminho continha deixou o mundo científico da época desconcertado, pois o texto falava de uma seita judaica com características próprias e peculiares, com muitas particularidades, que não pertenciam claramente a nenhuma seita conhecida nos anais da história judaica. 
               O relato de Schechter falava de uma estranha e muito bem estruturada e desconhecida irmandade judaica dos tempos do Segundo Templo, que se caracterizava por fervorosa piedade, propriedade comum dos bens e crença num messias. As diferenças doutrinárias com o judaísmo dominante levaram-na a um completo isolamento da maioria da nações judaicas, foi o que conjecturou Schechter. 
              O interessante é que muito do que Schechter traduziu e concluiu do texto viria a coincidir exatamente com o que se encontraria  50 anos mais tarde, em 1947, com a descoberta dos manuscritos do mar morto, Solomon Schechter entretanto nunca sequer sonhou em Qumran, na sua comunidade misteriosa, e morreu antes dessa descoberta, porém mesmo assim foi ele o primeiro que conseguiu nos dar o primeiro retrato reconhecível desta seita de Qumran.
               Seu registro da história e das leis da irmandade continha a maior parte dos misteriosos e intrigantes personagens, lugares e eventos que eram tão peculiares a SEITA DE QUMRAN onde foram encontrados os manuscritos do Mar Morto.
               Em seu estudo sobre o DOCUMENTO DE DAMASCO, publicado em 1910, Schechter já falava do desconhecido chefe da seita, O MESTRE DA JUSTIÇA, e de seu terrível inimigo, O HOMEM DO ESCÁRNIO.
Falou também da seita ter empreendido um "fuga para Damasco" ( daí o nome "documento de damasco")  para escapar á perseguição em sua terra e de lá ter adotado uma NOVA ALIANÇA. Ainda revelou que mesmo após a morte do Mestre da Justiça, a seita acreditava que, permanecendo fiel a seus ensinamentos, ele retornaria com um MESSIAS.
              Neste ponto se percebe que este documento tem os mesmos personagens e fatos que foram encontrados nos MANUSCRITOS DO MAR MORTO, como o COMENTÁRIO DE HABACUC e o MANUAL DA DISCIPLINA. 

CARAÍSMO

                 Solomon Schechter conseguiu remover da Guenizá do Cairo todos os pergaminhos e manuscritos ancestrais que estavam lá acumulados ao longo dos séculos, em 1910 publicou 2 volumes sobre 2 textos mais incomuns do que encontrara no Cairo. O nome da obra era DOCUMENTOS DAS SEITAS JUDAICAS, o volume II tinha o título de FRAGMENTOS DO LIVRO DOS MANDAMENTOS DE ANAN.
ANAN é considerado o oitavo fundador do CARAÍSMO, uma dissidência judaica baseada na interpretação literal das escrituras sagradas rejeitando o TALMUDE e a TRADIÇÃO ORAL, esta seita ainda existe com um pequeno número de seguidores.No volume I tem uma parte chamada, FRAGMENTOS DE UMA OBRA DOS ZADOQUEUS,  e é nesta parte que ele relata os achados do DOCUMENTO DE DAMASCO, que hoje em dia é considerado o PRIMEIRO manuscrito do mar morto. 
                   O documento de Damasco é um códice, ou seja um livro, consiste de 2 manuscritos imcompletos e parcialmente coincidentes, sendo o primeiro do século X e o segundo do século XII, ambos escritos em hebraico bíblico, sem as evoluções da língua hebraica que ocorreram depois do ano 70 d.C. A partir do que Schechter traduziu, leu e estudou ele tirou conclusões surpreendentes, dignas de um verdadeiro sábio. Ele escreve : " A seita deve ter possuído também alguns pseudo-epígrafos, hoje perdidos". e continua em outras partes: "isso poderia sugerir que a seita possuía algum tipo de manual contendo suas doutrinas e, talvez, um conjunto completo de regras de disciplina". 50 anos depois com a descoberta dos manuscritos do mar morto, todas estas afirmações proféticas foram totalmente comprovadas.

SEITA DO ZADOQUES

O DOCUMENTO DE DAMASCO revela a história de uma seita judaica que se considerava o VERDADEIRO ISRAEL e que se opunha ferozmente aos dirigentes religiosos judeus de Jerusalém. O início da seita pode ser de certo modo determinado até uma chamada "IDADE DA IRA", que ocorreu em 196 antes de Cristo, 390 anos após a destruição de Jerusalém pelos babilônicos ( em 586 a.C.)
Durante esta idade da ira as pessoas piedosas procuravam em vão o caminho da justiça. Um MESTRE DA JUSTIÇA enviado por DEUS surgiu para guiá-las , mas um poderoso inimigo apareceu também, o HOMEM DO ESCÁRNIO. Em consequência o Mestre e seus seguidores fugiram da Judéia para a terra de Damasco, onde adotaram uma NOVA ALIANÇA e onde também o mestre foi "recolhido". Esperava-se que ele surgisse novamente no FINAL DOS TEMPOS.
A segunda parte do documento de Damasco contém as leis da seita, que refletem uma orgtanização altamente estruturada.
Os membros da seita se dividiam em sacerdotes, chamados FILHOS DE ZADOQUE, levitas, israelitas e prosélitos. As leis também tem sua interpretação pessoal sobre injunções bíblicas como a estrita observância do SHABAT, a absoluta monogamia sem divórcio, e severas regras de limpeza como parte da prática religiosa. A seita seguia um calendário heterodoxo, com um ano de 12 meses, cada um com 30 dias e mais 4 intercalados.
Schechter aventou a hipótese de que o povo do manuscrito ser a misteriosa SEITA DOS ZADOQUES, mencionada nos poucos conhecidos textos CARAÍTAS.

ZADOQUE foi o principal sacerdote do REI DAVI e fundador da linhagem de onde saíram todos os SUMOS SACERDOTES do Templo, até o século II antes de Cristo.
A partir daí sob o domínio Grego, o posto de sumo sacerdote era dado a quem oferecesse o maior lance, até que sob os MACABEUS, os próprios ASMONEUS assumiram. Para os membros da seita do documento de damasco todos os sumos sacerdotes que não foram da linhagem de zadoque eram usurpadores.

Na Caverna 4 de Qumran que continha quase 15000 fragmentos de pergaminhos, pertencentes a mais de 500 manuscritos, foi possível descobrir ao menos 7 cópias do DOCUMENTO DE DAMASCO!
Desta vez estava comprovado que o pergaminho medieval do documento de damasco era mesmo uma cópia integral e fiel de um texto de 2000 anos atrás.

JOÃO BATISTA - JESUS CRISTO - APÓSTOLO PAULO

Na época em que foi publicado o estudo de Solomon Schechter sobre o Documento de Damasco o curador dos manuscritos hebraicos do museu britânico, Dr. George Margoliouth anunciou suas próprias conclusões sobre o texto estudado por Schechter :

Segundo Margoliouth o texto se originava de uma primitiva comunidade judaico-cristã  que se empenhava em combinar a total observância da Lei Mosaica com os princípios da NOVA ALIANÇA. Pelo que Margoliouth entendeu do documento de damasco, a seita tinha 2 messias, o primeiro sacerdotal, descendente de Arão, e seria JOÃO BATISTA; o outro, o Mestre da Sabedoria (ou Mestre da Justiça) seria JESUS. Quanto ao Homem do Escárnio, este seria PAULO de Tarso, que a seita abominava, pois Paulo era cidadão romano convertido ao Cristianismo e um HELENIZADOR cristão.
Mas vale dizer que estas conclusões foram tiradas em 1910, nesta época só era sabido que o documento de damasco era um texto da época de Jesus, sem definição de data ou quaisquer outros detalhes. Com a descoberta dos MANUSCRITOS DO MAR MORTO pode-se verificar que o Documento de Damasco falava sobre a COMUNIDADE DE QUMRAN, e nas cópias do documento de damasco encontradas nas cavernas de Qumran pode-se datar a criação do texto em 80 a 75 antes de Cristo.

Fonte:http://www.cientifica.50megs.com/arqueologiahtm/marmorto1.htm