MONSTROS DE GELATINA

Monstros de gelatina

E os filhos crescem e chegam em casa mostrando que a tarefa deles é a produção de um texto, e ainda dizem que só a gente pode ajudá-los a fazer isso. Mas aí, na hora que você vai ajudar, ele já fez tudo sozinho… E só me restou ficar orgulhosa…
“Foi uma vez que existia um reino lindo com muitos habitantes! O Rei era corajoso e muito forte. A Rainha era inteligente e boa. A pri
ncesa, meiga e gentil.
Um dia, ela caminhava na floresta e achou um monstro de três metros de altura. Correu e, aí, no castelo, estava tudo em gosma. E ela viu que o monstro já tinha passado lá, e ficou com sua família. E o monstro estava lá quando ela chegou, lutando com o príncipe. E ele ficou dentro do monstro, todo de gelatina.
Aí, lá em cima, um guarda, dos poucos que sobreviveram, tomou a gosma e ele adorou! E, ao rei, falou:
- Rei, o monstro é comestível.
- Então avise ao príncipe, ingênuo!
Chegando lá, ele disse:
- Dá pra parar de lutar um minuto?
E o príncipe e o monstro pararam. E o guarda cochichou para o príncipe:
- O monstro é de comer.
E, sem perguntas, o príncipe comeu o monstro e se casou com a princesa.
E viveram felizes eternamente!”
E, apesar de genial, pelo menos pra mim, que sou a mãe, meu filhote sentiu medo de ler o texto na escolinha, em frente à todos os coleguinhas… Uma pena…
- Oh filho… Por que não leu o texto na sala?
- Fiquei com medo…
- Mas medo de quê?
- Das pessoas rirem de mim…
- Mas você nunca vai saber se elas vão rir de você, se não tentar ler. Esse medo é de uma coisa que ainda não aconteceu, que está só na sua cabeça. E ela está te atrapalhando, porque você fez essa linda história e não mostrou pra ninguém… Olha que triste… Seria legal você enfrentar o medo, como o príncipe, no seu texto, enfrentou o monstro…
Ficou olhando pra mim um tempo, parado, pensando:
- Ah, tá! Entendi. O medo é igual ao monstro. Ele, na verdade, não é um monstro, ele é de mentira, de gelatina.
Aí, EU parei e pensei, pensei e pensei:
- Isso, meu filho! Isso mesmo!
E fiquei mais uma vez orgulhosa, e, apesar de não ter sido exatamente o que eu disse… Não é que é isso mesmo?
Não é que os medos, as vergonhas, os ciúmes, as inseguranças as quais reagimos todos os dias, esses monstros horrorosos que nos paralisam, que nos impedem de ser quem somos, de dar o melhor que temos, de ser livres, de ser inteiros, de falar o que queremos… Não é que esses monstros, na maioria das vezes, são falsos? São coisas que inventamos, que não experimentamos, que nem tentamos, que estão ou no passado ou no futuro da gente?
Coisas que a gente imagina, só imagina, que podem acontecer, coisas que a gente não tem coragem de enfrentar, com medo e rirem da gente, de não concordarem com a gente, de a gente fazer papel ridículo, da gente não ser aprovado… Como se precisasse de certificado pra ser gente?
E, quando experimentamos, bum! Muitas das vezes descobrimos que o monstro é de gelatina, que não era tão horrível assim, e que a gente tá fugindo à toa, que a gente pode vencer ele. E, pode ser, pode ser… Que até gostemos do sabor!
Do sabor de provar a vida!

Por: Paula Jácome

Fonte:http://chaentreamigas.com.br/