CHE GUEVARA : O MITO E A REALIDADE



Che Guevara: o mito e a realidade


O que está vivo e o que está morto, hoje, de Che Guevara?  Por si, esta pergunta é, talvez, a única maneira para relembrar os quarenta anos da morte do legendário revolucionário argentino sem cair nos estereótipos estabelecidos, e infalivelmente relembrados, pelos seus numerosos admiradores e difamadores. Foi a história que, de alguma forma, decidiu o que devia e o que não devia sobreviver de Ernesto Rafael Guevara de la Serna (seu verdadeiro nome). E é sempre a história que, dia após dia, continua a determinar a evolução de seu mito. O marxismo-leninismo, de que o médico argentino (nascido em Rosário em 14 de junho de 1928 e morto em La Higuera , na Bolívia, em 9 de outubro de 1967) foi um dos mais coerentes e ferrenhos intérpretes na América Latina, é um aspecto obsoleto de Che. A face opressiva e desumana de tal doutrina já é admitida por todos (ou quase). A mesma Cuba que Guevara contribuiu para “libertar” e para construir é uma demonstração disso. Ainda mais obsoleto, quase extinto da memória coletiva, é o Che teórico da guerrilha. O seu livro A Guerra de Guerrilha, manual de guerra não-convencional, escrito em 1960 para induzir os potenciais revolucionários a imitar o vitorioso exemplo cubano, teve consequências funestas para a América Latina. Suas páginas impeliram milhares de jovens a morrer nas montanhas e, ao mesmo tempo, prepararam a implacável repressão das ditaduras militares dos anos setenta.Atualmente, a violência política não mais parece a via necessária para transformar profundamente uma sociedade (ainda bem!). Entretanto, Che acreditava piamente nela: “Uma revolução sem armas? – declarou na juventude a seu amigo Alberto Granado – Você está louco?”. E, em uma carta aos pais, antes de partir para combater no Congo, insistiu na sua convicção com uma autêntica profissão de fé: “Creio na luta armada como única solução para os povos que lutam para libertar-se e sou coerente com as minhas convicções”. Hoje raros assinariam tais afirmações.Nos últimos anos, começou a definhar o jargão terceiro-mundista, utilizado por Guevara e por autores de seu tempo, entre os quais Jean Paul Sartre. Um certo radicalismo verbal, empregado para descrever a condição das populações do Sul do mundo, começa a se esgarçar. Entretanto, o que perde o vigor, na realidade, é a divisão idealizada das “massas deserdadas” do Terceiro Mundo, como únicos sujeitos revolucionários capazes de destruir ou  regenerar a sociedade corrompida do Ocidente. Idealizar os pobres é uma forma de intelectualismo que leva a não compreendê-los mais. O mesmo Guevara, que nas últimas fases da sua vida se sentia investido de uma missão redentora nos confrontos dos pobres do Terceiro Mundo, percebeu-o amargamente. Na Bolívia, onde esperava acender  o rastilho que haveria de deflagrar a revolução em toda a América Latina, bateu de frente com a frieza quase irônica dos camponeses aymara, dos quais esperava apoio para a guerrilha. “São impenetráveis como as rochas – anota, em 6 de julho de 1967, no Diário de Bolívia –. Quando um fala, parece, no fundo dos olhos, que estamos zombando dele”. Poucos meses depois, exatamente pela falta do indispensável apoio popular, foi capturado e morto pelos militares bolivianos. Uma morte sórdida, quixotesca.Não encontra mais muitos defensores, enfim, aquela explosiva mistura de utopia e crueldade, de amor e ódio, que diferenciava o Che. Em seu ensaio mais importante, O socialismo e o homem em Cuba, Guevara diz que “o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor”, mas deve também “unir a um espírito apaixonado uma mente fria e tomar decisões dolorosas sem contrair um músculo”. Isto significou, na prática, uma longa lista de execuções ordenadas por ele e, às vezes, feitas por ele mesmo. Há significado a instauração, em Cuba, de um sistema que aprisiona dissidentes. E isto explica também algumas de suas frases mais cruéis, que seus detratores aproveitam para demolir-lhe a imagem: “Peguem um fuzil e arrebentem a cabeça de cada imperialista com mais de quinze anos”; ou: “O ódio como fator de luta – ódio intransigente contra o inimigo – que impulsiona para além dos limites naturais do ser humano e o transforma em uma real, violenta, seletiva e fria máquina para matar”.Porém, além de seus aspectos mais fanáticos e dogmáticos, mantêm-se indubitavelmente vivas e atuais muitas características de Che. Senão seu mito não teria a vivacidade que, sem dúvida, conserva e que não depende exclusivamente do fato de que a revolução cubana, apesar de machucada, estar ainda em pé. Está viva, sobretudo, a imagem de Che. Aquela do guerreiro de fino trato, romântico, belo, esportivo, culto, macho e, ao mesmo tempo, capaz de ternura. Não há lugar do mundo onde, mais cedo ou mais tarde, não se encontre a foto de Che, sério e altivo, que o fotógrafo Alberto Korda imortalizou, quase por acaso, durante uma manifestação em Cuba. O merchandising surgido em torno de Che é extremamente diversificado: a clássica camiseta, agendas, boina, macacões, poster, objetos kitsch, etc.Para Álvaro Vargas Llosa (O mito Che Guevara e o futuro da liberdade), tudo isto é indício claro de que Che, de campeão do comunismo, converteu-se na mais clássica marca capitalista. Mas fica evidente demais a tentativa de banalizar a imagem do mito. Deve haver alguma coisa a mais. Talvez nos vários acessórios com a marca Che Guevara, o cínico comércio capitalista se confunde e responde à necessidade do homem e, principalmente, dos jovens em expressar o próprio desejo de inconformismo, rebelião e heroísmo. Aquele rosto, que nos olha em milhões de camisetas de jovens do século 21 deixa de ser um símbolo revolucionário marxista ordodoxo, para se tornar, no mundo pós-comunista, um símbolo mais geral do espírito de rebelião e do homem que levanta a cabeça contra quem o quer apenas domesticado e submisso.De Che sobrevive, sem dúvida, também o aventureiro boêmio, descomprometido, ansioso em pôr o pé na estrada e experimentar a vida e o mundo. O filme de Walter Salles Diários de motocicleta, que relata a épica viagem em moto, feita pelo jovem Ernesto Guevara e seu amigo Alberto Granado pelas belezas e misérias da América Latina, concentra-se exatamente neste aspecto, pouco contagiado pela ideologia e, portanto, mais apresentável. Mas o filme não consegue colher ao fundo quanto a revolução representava para Guevara, antes ainda do que uma escolha política, um fato existencial. Desde a juventude, nada lhe horrorizava mais do que a rotina e o formalismo. Era um revolucionário dentro, antes de realizá-lo também fora.A principal diferença entre Che e os escritores marginais norte-americanos da mesma época (Kerouac, Burroughs, Corso, etc.) é a sua vocação social. A urgência e a impaciência que Guevara nutria para salvar vidas humanas da desnutrição e das doenças ligadas à pobreza são nobres sentimentos humanos que, ainda hoje, conservam todo o seu valor. São sentimentos dos quais tem necessidade o nosso mundo, onde o hedonismo, o individualismo e a banalidade continuam a avançar. Exato, tais sentimentos são também os que estimularam Che a trocar a medicina por uma revolução. É preciso aprender de seus erros.Além do mais, é vivo – e continua a criar confusão – o paralelo entre Guevara e Jesus Cristo, amparado em uma famosa foto onde o cadáver do guerrilheiro se assemelha, de maneira impressionante, ao Cristo morto de Mantegna (Andrea Mantegna, pintor italiano do séc. 15, ndr). Guevara, “homem que quis carregar todos os homens” (Ítalo Calvino) e que se sacrificou por este ideal, agradou e continua a agradar muito aos católicos de esquerda. Alguns teólogos da libertação, inspirados por uma profunda e sincera mística da pobreza, chegam a venerar Che como um santo, quando não como o verdadeiro Cristo libertador. Frei Betto, publicou, em julho, na agência Adital, uma “Carta aberta a Che”, que parece uma autêntica oração a Deus: “Lá onde você se encontra, Che – lê-se no final – abençoe todos nós que compartilhamos de suas idéias e de sua esperança. Abençoe também os que estão fatigados, os aburguesados ou os que  fizeram da luta uma profissão para o próprio benefício...”.   No modo como Che viveu e morreu existe, indubitavelmente, um forte componente de ascetismo estóico-cristão: adaptação à fadiga, às privações, à dor, à recusa ao luxo e aos prazeres sofisticados. Também a sua utopia evoca à mente o cristianismo primitivo. Mas transformá-lo em um modelo cristão é demais! Che considerava Cristo como um revolucionário falido e acreditava piamente na violência, nos processos e nas execuções sumárias de potenciais inimigos da revolução. Como ateu materialista, sacrificava-se unicamente para criar o paraíso neste mundo. A sua libertação era terrena. A salvação eterna não lhe interessava.Mais do que um santo, Che foi e permanece um herói romântico e internacionalista, um tipo de homem que tem algo em comum com o santo. Disse-o magnificamente Angel Rama, em um breve texto, dentro da antologia Guevariana: “O heroísmo produz a mesma luz fascinante e o mesmo pânico da santidade, porque é feito da mesma atroz enormidade e provoca, no imenso coro de nós, que assistimos à tragédia, a terrível consciência de sermos os destinatários daquele sacrifício”. Mas o aspecto talvez mais vivo e politicamente influente de Che é o seu patriotismo latino-americano, finalmente liberto da gaiola dogmático-ideológica. Desde os anos da juventude, Che Guevara concebeu a América Latina, desde o Rio Bravo até a Terra do Fogo, como uma grande nação única, destinada a se unir e conquistar plena soberania. Che Guevara era argentino de nascimento, mas se sentia sobretudo latino-americano. O seu anti-imperialismo visceral, antes de se revestir de marxismo, procedia da tradição dos grandes homens da América: Simon Bolivar, Ruben Darío, José Martí.Quando Che uniu-se à revolução cubana, assim o fez neste espírito; na época, ainda não se tinha transformado em marxista. Também Fidel Castro se movia neste sulco: quando comandava a guerrilha na Sierra Maestra, o Partido comunista cubano considerava-o apenas um bem intencionado aventureiro, cujas táticas não poderiam ter sucesso. Antes de se aproximar de Moscou, Castro queria “assegurar ao povo um regime de justiça social, baseado na democracia popular e na soberania política e econômica”, e já pensava na criação de um mercado único latino-americano.A integração política e econômica da América Latina, a formação de um grande Estado continental nas terras libertadas por Bolivar, é uma idéia ainda viva, que assume força cada vez maior. A História caminha nesta direção. O historiador católico uruguaio Alberto Methol Ferré falou de uma “segunda fase da luta pela independência”, em cujo término haverá aquela unificação que o Libertador não conseguiu realizar. Cada latino-americano, ao menos nesta aspiração, pode reconhecer-se em Che Guevara.

por Alessandro Armato

Fonte:http://www.pimemilano.com/

BIOGRAFIA

Ernesto Guevara de la Serna, guerrilheiro e revolucionário, nasceu no dia 14 de junho de 1928 na cidade de Rosário, Argentina. Em 1945 mudou com a família para Buenos Aires onde matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, formou-se em março de 1953 como especialista em alergia.
Em 24 de dezembro de 1953, chega na Guatemala onde o presidente Jacobo Arbenz Guzmán iniciara um amplo programa de reforma agrária expropriando as terras da poderosa empresa norte-americana United Fruit. O governo dos EUA ameaçam intervir militarmente para garantir seus direitos. A 18 de junho de 1954, mercenários pagos pelos americanos invadem o país processando um golpe militar que derruba o governo constitucional de Arbenz e instala a ditadura do coronel Castillo Armas, fiel aos interesses exportadores da United Fruit, cujas terras são devolvidas. Segundo alguns autores, esta experiência será decisiva na definição política de Guevara.
Ele teria de sair imediatamente da Guatemala, pois tinha sido condenado à morte por ter apoiado o regime anterior.
Acompanha a leva de exilados que se dirigiam ao México (12 de setembro de 1954). Lá conheceu a peruana Hilda Gadea, marxista convicta com a qual Che casará em maio de 1955.
É no México também que encontra Fidel Castro (junho de 1955) e os cubanos do "Movimento 26 de Julho" exilados. Do México Fidel comandava a oposição ao regime ditatorial de Fulgêncio Batista totalmente pró-EUA. Mantinha a intensão de invadir Cuba e derrubar o governo do ditador.
Che como agora era chamado, devido ao uso dessa interjeição típica dos argentinos, integraria a futura expedição como médico, apesar das crises crônicas de asma que o acompanhavam desde os 3 anos de idade.
No dia 25 de novembro de 1956, 82 homens partem a bordo do velho iate Granma para invadir Cuba. Desembarcam no dia 2 de dezembro, e três dias depois são cercados e atacados pelos soldados numa emboscada, sobrando apenas 12 homens. Estes conseguem refugiar-se em Sierra Maestra onde tomam contato com os camponeses e a guerrilha se multiplica e ganha prestígio, tanto dentro como fora de Cuba, obtendo inúmeras ações vitoriosas contra as tropas do governo. Em 1957 Che é nomeado comandante da 2ª Coluna que se formou.
Em 1 de janeiro de 1959, Guevara toma a cidade de Santa Clara e em 8 de janeiro, Fidel Castro entra triunfalmente em Havana.
Che assume o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) e o Banco Nacional. As relações entre o governo de Fidel e os EUA tornam-se tensas a partir do momento que este tenta diminuir o domínio norte-americano sobre a economia cubana. Em abril de 1961 a CIA invadiu Cuba com um exército de mercenários e refugiados cubanos. Esta invasão à Baía dos Porcos resulta num fracasso total.
Che em 1961 transfere-se para a direção do Ministério das Indústrias. Discursa numa reunião da OEA em Punta del Este e denuncia o imperialismo americano e seu aliados. Em 19 de agosto de 1961 de passagem pelo Brasil é condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo então presidente Jânio Quadros que renunciaria uma semana depois.
Fidel declara-se socialista e aproxima-se da URSS recebendo dela misseis nucleares que poderiam atingir os EUA, é a "crise dos mísseis" de 1962, Kennedy ordena o bloqueio de Cuba pela Marinha e ameaça invadí-la. Sem consultar os cubanos, os soviéticos retiram os mísseis. Durante todo este período, escreve e publica suas principais obras.
Em 11 de dezembro de 1964 discursa na ONU onde oferece o apoio de Cuba para as lutas de libertação no Terceiro Mundo. Depois parte para a África onde toma um melhor conhecimento dos movimentos de libertação nacional africanos.
Em 1965 retira-se da vida pública e abandona os cargos que ocupava em Cuba e participa de alguns combates no Congo Belga entre agosto de 1965 e março de 1966.
Em setembro de 1966 chega à Bolívia para estabelecer um centro de treinamento de guerrilha, onde deveria servir de quartel-general tanto para revolucionários bolivianos quanto para aqueles que iriam chefiar revoluções em países vizinhos. A posição boliviana era estratégica pois ocupava geograficamente o centro do continente sul-americano.
Uma série de desentendimentos entre o PC boliviano e a guerrilha faz com que o primeiro retire o seu apoio, deixando Guevara e seus homens completamente isolados.
No dia 8 de outubro de 1967 trava o último combate contra o Exército no vale do rio Yuro, onde é ferido e capturado com vida. Em 9 de outubro é executado.
Guevara foi um teórico que colocou em prática as ideias do marxismo. Suas ações e ideias tiveram um papel fundamental nas lutas do Terceiro Mundo para libertarem-no do jugo do imperialismo e a modificação das estruturas sócio-econômicas vigentes.

Fonte:http://www.algosobre.com.br/biografias/che-guevara.html



HISTÓRIA DE VIDA

Ernesto Rafael Guevara de la Serna, conhecido como "Che" Guevara (Rosário, 14 de junho de 1928[1]La Higuera, 9 de outubro de 1967)[nota 1], foi um político, jornalista, escritor e médico argentino-cubano[4].
Guevara foi um dos ideólogos e comandantes que lideraram a Revolução Cubana (1953-1959) que levou a um novo regime político em Cuba. Ele participou desde então, até 1965, da reorganização do Estado cubano, desempenhando vários altos cargos da sua administração e de seu governo, principalmente na área econômica, como presidente do Banco Nacional e como Ministro da Indústria, e também na área diplomática, encarregado de várias missões internacionais.
Convencido da necessidade de estender a luta armada revolucionária a todo o Terceiro Mundo, Che Guevara impulsionou a instalação de grupos guerrilheiros em vários países da América Latina. Entre 1965 e 1967, lutou no Congo e na Bolívia, onde foi capturado e assassinado de maneira clandestina e sumária pelo exército boliviano, em colaboração com a CIA, em 9 de outubro de 1967.
A sua figura desperta grandes paixões, a favor e contra, na opinião pública, e converteu-se em um símbolo de importância mundial. Foi considerado pela revista norte-americana Time uma das cem personalidades mais importantes do século XX.[5] Para muitos dos seus partidários, representa a rebeldia, a luta contra a injustiça social e o espírito incorruptível. Em contrapartida, muitos dos seus detratores o consideram como um criminoso, responsável por assassinatos em massa, e acusam-lo de má gestão como ministro da Indústria.
Seu retrato fotográfico, obra de Alberto Korda, é uma das imagens mais reproduzidas do mundo e um dos ícones do movimento contracultural. Tanto a fotografia original como suas variantes, algumas apenas com o contorno do seu rosto, têm sido intensamente reproduzidas, para uso simbólico, artístico ou publicitário.

Ernesto Guevara
CheHigh.jpg
Che Guevara (fotografia de Alberto Korda intitulada Guerrilheiro Heroico)
Nome completoErnesto Rafael Guevara de la Serna
Nascimento14 de junho de 1928[1]
Rosário, Província de Santa Fé
Argentina
Morte9 de outubro de 1967 (39 anos)
La Higuera, Bolívia
OcupaçãoMédico, fotógrafo, guerrilheiro
AssinaturaCheGuevaraSignature.svg


Biografia

O pequeno Ernesto, em 1929.

Muitas biografias dizem que Ernesto Che Guevara de la Serna nasceu no dia 14 de junho de 1928, mas segundo outras fontes, nasceu no dia 14 de maio de 1928, exatamente um mês antes[1].
Era o mais velho dos cinco filhos de Ernesto Guevara y Lynch (1901–1997) e de Celia de la Serna y Llosa (1906–1965), ambos pertencentes a famílias da classe alta argentina. Um bisavô paterno, Patricio Julián Lynch y Roo (1789 - 1881), grande estancieiro e armador, foi considerado, em seu tempo, como um dos homens mais ricos da América do Sul.[6]
Seus pais alternavam a sua residência da capital de Buenos Aires com a de Caraguatay, na província de Misiones, separados por 1.800 km de hidrovia, onde as plantações de erva mate estavam em sua propriedade. É a partir daqui que se aproxima o momento do nascimento, os pais de Ernesto decidiram voltar a Buenos Aires para que foi devidamente testemunhado, utilizando linhas de navegação que operam no rio Paraná. No entanto, a entrega foi em frente e tiveram que descer no porto de Rosário, onde, no Hospital Centenário, Che Guevara nasceu[7].
O filho foi registrado no dia seguinte com o nome de Ernesto Guevara de la Serna e depois que a mãe recebeu alta, se hospedaram por alguns dias em um apartamento, até que ambos fossem capazes de continuar a viagem para Buenos Aires.
Nos Primeiros anos de Ernesto, ele ia viajando entre as casas que seus pais tinham em Buenos Aires e Caraguatay, indo e vindo em barcos a vapor do rio Paraná, conforme as necessidades de produção de erva-mate e do clima.Ernesto foi apelidado pelos seus pais de Ernestito, para diferenciá-lo do pai, depois de Tete, pelo qual foi apelidado e indistintamente chamado pela sua família e pelos seus amigos de infância.
Em Buenos Aires, moraram nas áreas típicas da classe alta, primeiro no bairro de Palermo (Santa Fe e Guise), em seguida, na cidade de San Isidro (Calle Alem) e, finalmente, no bairro da Recoleta (Sanchez de Bustamante 2286). Vivendo em San Isidro, com dois anos de idade teve o primeiro ataque de asma, uma doença que iria sofrer por toda sua vida e que iria levar a família para ir á Córdoba. O pai sempre culparia a mãe pela asma de Ernesto, atribuindo isso à bronquite agravada pela falta de atenção para com este em uma manhã fria enquanto nadava no aristocrático Clube Náutico San Isidro! [8]
Em Caraguatay, os pais de Ernesto contrataram uma babá para seu filho, Carmen Arias, uma galega que viveria com a família até 1937 e que foi quem lhe deu o apelido de Tete. Da erva dos pais de Ernesto e da estância em Misiones, adquiriu um gosto para mate, que foi sua paixão em toda a sua vida.[9]
Devido à gravidade e persistência da asma afetando Ernesto, a família tentou achar um lugar com um clima mais adequado. Seguindo as recomendações dos médicos, decidiu se mudar para a província de Córdoba, um destino clássico na época para as pessoas com problemas respiratórios, devido às condições meteorológicas e as altitudes mais elevadas. Após passar um tempo na cidade de Córdoba, capital da província, a família estabeleceu-se em Alta Gracia.
Em 1944, os negócios da família de Che vão mal e Ernesto emprega-se como funcionário da Câmara de uma vila, nos arredores de Córdoba, para ajudar as finanças em casa, sem deixar, contudo, de estudar.

Che em 1945, com 17 anos.

Em 1946, terminou o liceu. Os Guevara mudaram-se para Buenos Aires e Ernesto ingressou na universidade, estudando medicina. Continuando a situação econômica a deteriorar-se, foram obrigados a vender com prejuízo a plantação de mate que tinham desenvolvido. Na capital, Ernesto empregou-se outra vez como funcionário municipal e mais tarde numa tipografia, continuando, não obstante, o curso de medicina. Houve um período durante o qual trabalhou como voluntário num instituto de pesquisas sexuais, então mantido pelo partido comunista. Nesse mesmo ano de 1946, foi chamado ao serviço militar, que, ironicamente, o recusou por inaptidão física.
Depois da Segunda Guerra Mundial, com a vitória dos aliados, a oposição a Juan Domingo Perón ganhou novo ânimo. Os estudantes constituíram a sua camada mais aguerrida. Che participou nessas lutas.
Fez uma viagem, começada de moto e terminada a pé, pelas províncias argentinas de Tucumán, Mendoza, Salta, Jujuy e La Rioja, na qual percorreu diversos resorts Andinos.
E em 1951, seis meses antes de se formar em Medicina, decide interromper o curso - para desespero de seu pai - e iniciar, com Alberto Granado, uma grande viagem pelo continente, de Buenos Aires a Caracas, na velha motocicleta do companheiro, uma Norton 500 cc, fabricada em 1939 e apelidada de La Poderosa II.[10] Nessa viagem, Guevara começa a ver a América Latina como uma única entidade económica e cultural. Visita minas de cobre, povoações indígenas e leprosarias, interagindo com a população, especialmente os mais humildes. De volta à Argentina em 1953 acaba os estudos de Medicina e passa a dedicar-se à política.
Em 1953, Guevara atuou como repórter fotográfico cobrindo os Jogos Pan-Americanos do México, por uma agência de notícias argentina. Ainda em julho de 1953, inicia sua segunda viagem pela América Latina. Nessa oportunidade visita Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, El Salvador e Guatemala.
Foi por causa da visão de tanta miséria e impotência e das lutas e sofrimentos que presenciou em suas viagens que o jovem médico Ernesto Guevara concluiu que a única maneira de acabar com todas as desigualdades sociais era promovendo mudanças na política administrativa mundial.
Em sua passagem pela Guatemala, onde chegou em dezembro de 1953, Che presencia a luta do recém-eleito presidente Jacob Arbenz Guzmán, liderando um governo de cunho popular, na tentativa de realizar reformas de base, eliminar o latifúndio, diminuir as desigualdades sociais e um dos principais objetivos, garantir a mulher no mercado de trabalho.
O governo americano se opunha a Arbenz e, através da CIA, coordenou várias ações, incluindo o apoio a grupos paramilitares, contra o governo eleito da Guatemala, por não se alinhar à sua política para a América Latina.
As experiências na Guatemala são importantes na construção de sua consciência política. Lá, Che Guevara autodefine-se um revolucionário e posiciona-se contra o imperialismo americano.
Nesse meio tempo, Che conhece Hilda Gadea, com quem se casa e de cuja união nasce sua primeira filha, Hildita.
Em 1954, no México através de Ñico López, um amigo das lutas na Guatemala, ele conhece Raúl Castro que logo o apresentaria a seu irmão mais velho, Fidel Castro. Esse organiza e lidera o movimento guerrilheiro 26 de Julho, ou M26, em referência ao assalto ao Quartel Moncada, onde em 26 de julho de 1953, Fidel Castro liderou uma ação militar na qual tentava tomar a principal prisão de presos políticos em Santiago. Guevara faz parte dos 72 homens que partem para Cuba em 1956 com Fidel Castro e dos quais só 12 sobreviveriam. É durante esse ataque que Che, após ser duramente espancado pelos rebeldes, larga a maleta médica por uma caixa de munição de um companheiro abatido, um momento que tempos depois ele iria definir como o marco divisor na sua transição de doutor a revolucionário.

Che em 1958

Em seguida eles se instalam nas montanhas da Sierra Maestra de onde iniciam a luta contra o presidente cubano Fulgencio Batista, que era apoiado pelos Estados Unidos.
Os rebeldes lentamente se fortalecem, aumentando seu armamento e angariando apoio e o recrutamento de muitos camponeses, intelectuais e trabalhadores urbanos. Guevara toma a responsabilidade de médico revolucionário, mas, em pouco tempo, foi se tornando naturalmente líder e seguido pelos rebeldes.
Após a vitória dos revolucionários em 1959, Batista exila-se em São Domingos e instaura-se um novo regime em Cuba, de orientação socialista. Mas teria sido a hostilidade dos Estados Unidos que levou Fidel Castro ao seu alinhamento com a URSS. "Eu tinha a maior vontade de entender-me com os Estados Unidos. Até fui lá, falei, expliquei nossos objetivos. (…) Mas os bombardeios, por aviões americanos, de nossas fazendas açucareiras, das nossas cidades; as ameaças de invasão por tropas mercenárias e a ameaça de sanções econômicas constituem agressões à nossa soberania nacional, ao nosso povo".)[nota 2]


 Governo cubano


Che Guevara em Moscovo

Guevara, então braço direito de Fidel, torna-se um dos principais dirigentes do novo estado cubano: Embaixador, Presidente do Banco Nacional, Ministro da Indústria.
Che esteve oficialmente no Brasil em agosto de 1961, quando foi condecorado pelo então presidente, Jânio Quadros, com a Grã Cruz da ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.[11] A outorga dessa condecoração foi o desfecho de uma articulação diplomática, iniciada pelo Núncio apostólico no Brasil, monsenhor Armando Lombardi, seguindo às instruções da Santa Sé, solicitando a ajuda do governo do Brasil para fazer cessar a perseguição movida contra a Igreja Católica em Cuba. Jânio Quadros solicitou a mediação de Che junto a Fidel. Guevara atendeu ao pedido de Jânio e concordou em ser o intermediário do apelo do Vaticano junto ao governo cubano.[12] Meses antes alertara Fidel da existência da "operação Magusto", a invasão da Baía dos Porcos tentada por 1.297 anticastristas exilados, oriundos da ditadura de Fulgêncio Batista. A "operação Magusto" foi uma operação militar planejada pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), autorizada pelo presidente John Kennedy, que ocorreu em 17 de abril de 1961 e foi derrotada três dias depois. Em 1° de maio (ou 16 de abril, segundo outras fontes) Fidel Castro declarou que Cuba se tornaria um país socialista, e buscou apoio militar de Moscovo para se defender das tentativas de invasões americanas e de ameaças representadas por planos dos militares norte-americanos, do tipo da "Operação Mongoose", autorizada em 4 de novembro de 1961 por Kennedy,[13] ou da "Operação Northwoods" de 1962.[14][15][16] Em 1° de dezembro de 1961 Fidel Castro declarou que a revolução cubana se tornara marxista-leninista.[17]
Em 8 de agosto de 1961, Che discursou numa reunião da OEA em Punta del Este. Em 1964 Ernesto Che Guevara representou oficialmente Cuba nas Nações Unidas, tendo pronunciado um discurso em francês por ocasião da sua 19ª Assembleia Geral, em 11 de dezembro de 1964.[18] Participou do Seminário Econômico de Solidariedade Afro-asiática entre 22 e 27 de fevereiro de 1965 em Alger, quando criticou publicamente, pela primeira vez, a política externa da União Soviética. Nesse mesmo ano, Guevara, deixa Cuba para propagar os ideais da revolução cubana pelo mundo com ajuda de voluntários de vários países latino americanos, contra os conselhos dos soviéticos mas com o apoio de Fidel Castro. Em 4 de outubro de 1965 Fidel Castro anunciou que Ernesto Che Guevara deixara a ilha para lutar contra o imperialismo.

 Retorno à guerrilha e morte

Ele parte primeiramente para o Congo com um grupo de 100 cubanos "internacionalistas", tendo chegado em abril de 1965. Comandante supremo da operação, atuou com o codinome Tatu (do suaíle), e encontrou-se com Kabila. Por seu total desconhecimento da região, dos seus costumes, das suas crenças religiosas, das relações inter-tribais e da psicologia de seus habitantes, o "delírio africano" de Che resultou numa total decepção. Em seguida parte para a Bolívia onde tenta estabelecer uma base guerrilheira para lutar pela unificação dos países da América Latina e de onde pretendia invadir a Argentina. Enfrenta dificuldades com o terreno desconhecido, não recebe o apoio do partido comunista boliviano e não consegue conquistar a confiança dos poucos camponeses que moravam na região que escolheu para suas operações, quase desabitada. Nem Che nem nenhum de seus companheiros falavam a língua indígena local. É cercado e capturado em 8 de outubro de 1967 e executado no dia seguinte pelo soldado boliviano Mario Terán, a mando do Coronel Zenteno Anaya e também do vice-presidente René Barrientos, na aldeia de La Higuera. Os boatos que cercaram a execução de Che Guevara levantaram dúvidas sobre a identidade real do guerrilheiro,[19] que se utilizou de uma miríade de documentos falsos, de vários países, para entrar e viver na Bolívia.
Em 1997 seus restos mortais foram encontrados por pesquisadores numa vala comum, junto a outras ossadas, na cidade de Vallegrande, a cerca de 50 km de onde ocorreu a sua execução. Sua ossada estava sem as mãos, que foram amputadas logo após a sua morte.[3] Seus restos mortais foram transferidos para Cuba, onde, em 17 de outubro do mesmo ano, foram sepultados com honras de Chefe de Estado, na presença de membros da sua família e do líder cubano e antigo companheiro de revolução Fidel Castro. Seu corpo encontra-se no Mausoléu Guevara, em Santa Clara, província de Villa Clara.[20]

Guevara em selo postal da Federação Russa de 2009, em comemoração aos 50 anos da Revolução Cubana

Execuções e campo de trabalhos forçados

Segundo o escritor estadunidense Paul Berman, Che Guevara liderou pessoalmente os primeiros pelotões de fuzilamento da Revolução Cubana, e fundou o sistema de campos de trabalho forçado de Cuba, sistema que depois seria usado para encarcerar homossexuais, dissidentes e, mais tarde, vítimas de AIDS.[21]
O site do projeto Cuba Archive, uma associação mantida por cubano-americanos sediada em Nova Jersey (EUA), cujo objetivo é contabilizar violações de direitos humanos em Cuba, oferece um levantamento da cifra de fuzilamentos comandados por Ernesto "Che" Guevara. O grupo existe desde 1996, compilando informações com base em documentos oficiais.[22]
Em 17 de fevereiro de 1957, Che executou de maneira sumária o camponês Eutimio Guerra, considerado o primeiro traidor do grupo guerrilheiro em Sierra Maestra:
“Era uma situação incômoda para as pessoas e para [Eutimio], de modo que acabei com o problema dando-lhe um tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio, com o orifício de saída no [lobo] temporal direito. Ele arquejou um pouco e estava morto. Ao tratar de retirar seus pertences, não consegui soltar o relógio, que estava preso ao cinto por uma corrente e então ele me disse, numa voz firme, destituída de medo: ‘Arranque-a fora, garoto, que diferença faz...’. Assim fiz e seus bens agora me pertenciam.”[23][24]

O campo de Guanahacabibes

De acordo com Jon Lee Anderson, Guanahacabibes "era um campo de reabilitação na extremidade ocidental de Cuba, uma zona isolada, pedregosa e infernalmente quente (...) Ali tinham que se submeter a períodos de trabalho físico impessoal, a fim de se redimirem antes de retornarem ao trabalho. As sanções deviam ser aceitas "voluntariamente" e podiam durar de um mês a um ano, dependendo da falta, geralmente de tipo ético.”[25]
Segundo Tirso Saenz, o local se chamava de fato Uvero Quemado e ficava na península de Guanahacabibes. Era um acampamento, dentro de uma plantação de eucaliptos. De acordo com o autor, se uma pessoa se recusasse a aceitar a sanção, podia não ir para lá, mas também não poderia mais trabalhar no ministério.[26]
Segundo Jorge G. Castañeda, foi o Che quem criou esse que foi o primeiro campo de trabalho em Cuba. "Embora ele próprio tenha passado alguns dias ali, voluntariamente, estava estabelecendo um dos mais odiosos precedentes da Revolução Cubana: o confinamento de dissidentes, homossexuais e, mais tarde, de pacientes de AIDS/SIDA."[27] Sua justificação:
"Só em casos duvidosos se envia a Guanahacabibes gente que deveria ir para a cadeia. Eu acredito que quem deve ir para a cadeia deve ir para a cadeia, de qualquer maneira. Seja um velho militante, seja quem for, deve ir para a cadeia. Para Guanahacabibes enviam-se pessoas que não devem ir para a cadeia, gente que atentou contra a moral revolucionária, em maior ou menor grau, com sanções simultâneas de privação de cargos, em outros casos não, sempre como um tipo de reeducação por meio do trabalho. Trabalho duro, não trabalho bestial, mas condições de trabalho duras sem serem bestiais [...]” [28]
Fruto da admiração de Ernesto Che Guevara pela URSS e pela China, Régis Debray, antigo companheiro de guerrilha de Che na Bolívia, faz notar: "Foi ele, e não Fidel, que inventou, em 1960, na península de Guanaha, o primeiro 'campo de trabalho corretivo' (nós diríamos de trabalhos forçados)..."[29]

O homem e o mito


Monumento em Cuba baseado na foto Guerrillero heroico, de Alberto Korda

A reprodução da imagem de Che Guevara em camisetas e cartazes geralmente utiliza uma famosa pintura feita pelo artista plástico irlandês radicado nos Estados Unidos Jim Fitzpatrick, a partir da foto tirada por Alberto Diaz Gutiérrez, conhecido profissionalmente como Alberto Korda, divulgada pela revista Paris Match[30] em 1967, pouco antes de sua morte, a qual se tornou a segunda imagem mais difundida da era contemporânea, atrás apenas de uma imagem de Jesus Cristo. A revista norte-americana Time incluiu Ernesto Che Guevara na sua lista das 100 personalidades mais importantes do século XX, na secção "Líderes e Revolucionários".[5] Na Argentina foi eleito o maior político argentino do século XX, obtendo 59,8% dos votos, em enquete feita por TV.[31]
A imagem do Che é mítica em toda a América Latina. Na localidade onde foi assassinado em 1967, ergue-se atualmente uma estátua em sua homenagem. Ironicamente passou a ser conhecido na região como "San Ernesto de La Higuera" e a ser cultuado como santo pela população local, que o ignorou quando, em vida, o Che esteve entre eles. Sua imagem mítica, capturada por Korda e imortalizada no desenho de Fitzpatrick, surge nos locais os mais diversos: em anúncios do banco de investimentos luxemburguês Dexia,[32] num retrato feito com folhas de coca meticulosamente sobrepostas,[2] exibido no gabinete do presidente Evo Morales,[33] em biquínis usados por Gisele Bündchen num desfile da marca Companhia Marítima,[34] em tatuagens no braço de Maradona e no peito de Mike Tyson.[30]
O regime cubano ainda hoje homenageia Che Guevara. em Cuba, é objeto de veneração quase religiosa[carece de fontes?]. As crianças nas escolas cantam: "Pioneros por el comunismo, Seremos como el Che". Seu mausoléu em Santa Clara atrai, todos os anos, milhares de visitantes, muitos dos quais estrangeiros.[32]

Estátua em bronze em Rosário

Para seus críticos, no entanto, essa glorificação messiânica é injustificável, e Che Guevara estaria longe de ser um humanista. Pessoalmente, teria aprovado centenas de execuções sumárias, decretadas pelo tribunal revolucionário de Havana. Como procurador-geral, foi comandante da prisão Fortaleza de San Carlos de La Cabaña, onde, nos primeiros meses da revolução, ocorreram 120 fuzilamentos. Ele mesmo teria afirmado, em carta de 5 de fevereiro de 1959, a Luis Paredes López, de Buenos Aires:
"Os fuzilamentos não são apenas uma necessidade do povo de Cuba, mas também uma imposição desse povo."[35]
Os "campos de trabalho coletivos" na península de Guanaha foram uma criação sua.[32] O próprio Che Guevara nunca fez segredo de que acreditava ser a luta armada a solução para os problemas que denunciava:
"Como poderíamos contemplar o futuro luminoso e próximo se dois, três, muitos Vietnams desabrochassem na superfície do globo, com sua cota de mortes e suas tragédias imensas, com seu heroísmo cotidiano, com seus golpes repetidos ao imperialismo, com a obrigação que lhe traz de dispersar suas forças, sob o ódio crescente dos povos do mundo !" [36]
Mas se, por um lado, advogava a violência da luta armada como meio de atingir seus objetivos, por outro Che manifestava preocupações de ordem moral. Numa famosa entrevista com o jornalista Jean Daniel (L'Express, 25 de Julho de 1963, p. 9.), Che dizia:
"O socialismo económico sem a moral comunista não me interessa. Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação. (…) Se o comunismo passa por alto os factos da consciência, poderá ser um método de repartição, mas já não é uma moral revolucionária".[37]
Sobre a liberdade de pensamento disse:
"Não é possível destruir uma opinião com a força, porque isso bloqueia todo o desenvolvimento livre da inteligência."(Che Guevara, "Il piano i gli uomini", Il Manifesto n° 7, deciembre del 1969, p. 37.)[37]
Em El socialismo y el hombre en Cuba,[38] expõe suas ideias acerca do que seja um revolucionário:
"Deixe dizer-lhe, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade. Quiçá seja um dos grandes dramas do dirigente; este deve unir a um espírito apaixonado uma mente fria e tomar decisões dolorosas sem que se contraia um músculo.(…) Nessas condições, há que se ter uma grande dose de humanidade, uma grande dose de sentido de justiça e de verdade para não cair em extremos dogmáticos, em escolasticismos frios, em isolamento das massas. Todos os dias é preciso lutar para que esse amor à humanidade vivente se transforme em fatos concretos, em atos que sirvam de exemplo, de mobilização.[39]

 A trilha de Che: empreendimento turístico

Com um investimento de 611 mil dólares e um projeto trianual - que foi parcialmente financiado pela governo da Inglaterra através do seu Departamento de Desenvolvimento Internacional - o governo boliviano procura incentivar o turismo na região por onde Che Guevara passou, e onde encontrou sua morte. Para isso foi criada uma trilha turística, a "trilha de Che", que seguindo suas pegadas, inicia-se, por rodovia, em Santa Cruz de la Sierra, atravessa a localidade inca de Samaipata, e prossegue pelos vilarejos Vallegrande e La Higuera. Essa trilha turística busca levar o turismo internacional de massas a esse distante rincão das selvas bolívianas, aproveitando o mito Che Guevara.[40][41]

Filme biográfico Diarios de Motocicleta (2004)


Na Sierra Maestra com Raúl Castro

Em 2004 foi apresentado um filme, Diarios de Motocicleta, dirigido Walter Salles, nos gêneros aventura e drama biográfico, cujo roteiro foi baseado nos livros de Ernesto "Che" Guevara de La Serna (Notas de viaje) e Alberto Granado (Con el Che por America), contando a aventura desses então dois colegas universitários na travessia do continente sul-americano numa velha motocicleta Norton 500 cc, fabricada em 1939 e apelidada de La Poderosa II,[10] numa viagem que se estendeu de Buenos Aires a Caracas.

Filme épico Che apresentado no 61° Festival de Cannes

Em 2008 foi exibido um filme-acontecimento do 61º Festival de Cannes, intitulado "Che", de Steven Soderbergh, com 4h28 de duração, em duas partes [42]
Na primeira metade descreve a participação de Che na Revolução Cubana (1959) e avança até o discurso do guerrilheiro na ONU, em 1964. A segunda parte de "Che" se concentra nos 341 dias que ele passou na selva boliviana, treinando guerrilheiros, até sua morte, em outubro de 1967.
"… há muitos aspectos da vida de Che que as pessoas não conhecem. Se contássemos o que ocorreu na Bolívia sem mostrar o que houve antes, não haveria o contexto para entender a história." disse Soderbergh. Sobre os que desaprovam o fato do filme "Che" retratar um perfil positivo do guerrilheiro e favorável às suas ações, Soderbergh afirmou: "Conheço bem a argumentação dos que são anti-Che e sei que qualquer quantidade de barbaridades que incluíssemos nesse filme não seria suficiente para satisfazê-los".[43]

 Ver também

Notas

  1. Segundo o escritor Jon Lee Anderson, Che Guevara teria nascido no dia 14 de maio e não a 15 de junho como consta de todas as biografias. Anderson cita como fonte uma das amigas da mãe de Che que lhe afirmou que à época do nascimento dele, sua mãe, Célia de la Serna, teve de adiar a data em um mês porque ela havia se casado grávida e, se não o fizesse, sua família descobriria o seu segredo. Che Guevara foi capturado em 8 de outubro de 1967 (não no dia 9) e morto no dia seguinte.[2] A pedido de Juan Coronel Quiroga, amigo pessoal do então ministro da defesa da Bolívia, as mãos de Ernesto Che Guevara foram cortadas, mantidas em formol e entregues a ele: "Por anos guardei as mãos de Che Guevara debaixo de minha cama, em um grande pote de vidro.(…)"[3]
  2. Fala de Fidel Castro a Louis Wiznitzer, enviado especial de O Globo a Havana, em entrevista publicada em 24 de março de 1960.

Referências

  1. a b c A data de nascimento que aparece em sua certidão de nascimento é 14 de junho de 1928, mas, segundo Julia Constenla, historiadora e amiga pessoal da mãe de Ernesto Guevara, Célia de la Serna estava grávida quando se casou com Ernesto Guevara y Lynch, e a verdadeira data do nascimento do Che teria sido 14 de maio. Constenla afirma que a data da certidão de nascimento foi modificada para um mês mais tarde, a fim de evitar escândalo. Entrevista com Julia Constenla por Luciana Peker "Página/12, 3 de março de 2005. O biógrafo Jon Lee Anderson aceita como válida essa versão. Jon Lee Anderson (1997):Che Guevara: Uma Vida Revolucionária, Barcelona: Anagrama, pg. 17.
  2. a b DUARTE, Douglas. "Che". Piauí, p. 3
  3. a b SCHELP, Diogo e TEIXEIRA, Duda. "Especial Che", São Paulo: revista Veja, Edição 2028, 3 de outubro de 2007, p. 88
  4. Segundo o artigo 12°, alínea "d" da Constituição de Cuba de 7 de fevereiro de 1959, chamada [www.bibliojuridica.org/libros/6/2525/38.pdf Lei Fundamental da República], também são considerados cidadãos cubanos por nascimento os estrangeiros de mérito excepcional alcançados na luta pela libertação de Cuba. Em 9 de fevereiro (algumas fontes sugerem mesmo dia 7) um decreto do Conselho de Ministros reconheceu essa condição ao Che. Na sua famosa carta de despedida escrita a Fidel Castro (1965), ele renuncia à sua nacionalidade cubana. A validade dessa renúncia foi discutida.
  5. a b DORFMAN, Ariel. Heroes & Icons - Che Guevara.. Time, 14 de junho de 1999.
  6. Árbol genealógico - Patrick Lynch y Blake & Maria Rosa de Galayn de la Cámara
  7. A certidão de nascimento feita em 15 de junho de 1928, relata que Guevara nasceu no dia anterior, às 3:05 pm, no endereço declarado pelo pai, ou seja, o apartamento alugado em Entre Rios, 480. No entanto, o testemunho de membros da família são consistentes ao considerar que Ernesto nasceu na maternidade do Hospital Centenário.
  8. Ernesto Guevara Linch. Mi hijo El Che. [S.l.]: Plaza & Janes Editores, S.A.. 139-140 p.
  9. Ernesto Guevara Linch. Mi hijo El Che. [S.l.]: Plaza & Janes Editores, S.A..
  10. a b Granado, Alberto. Che veio a se formar em medicina em 1953. MundoAndino.com
  11. Jânio condecora Guevara (em português). Folha de S.Paulo (20 de agosto de 1961). Página visitada em 17 de outubro de 2012.
  12. CORRÊA, Vilas-Bôas. O uísque e as rugas. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 15 de fevereiro de 2002
  13. KESSLER, Ronald. The CIA at War: Operation Mongoose.
  14. RUPPE, David. U.S. Military Wanted to Provoke War With Cuba. Nova York: ABC News, 1 de maio de 2001
  15. 1961: Invasão da Baía dos Porcos (em português). Deutsche Welle. Página visitada em 17 de outubro de 2012.
  16. Chairman, Joint Chiefs of Staff, Justification for US Military Intervention in Cuba (includes cover memoranda), 13 de março de 1962, TOP SECRET, 15]
  17. Fidel Castro completa 81 anos nesta segunda-feira.. Havana: France Press, 12 de agosto de 2007 - in Folha Online
  18. Discurso de Che Guevara na 19ª Assembléia Geral das Nações Unidas, 11 de dezembro de 1964
  19. David Smith (23 de dezembro de 2007). Barbie 'boasted of hunting down Che' (em inglês). The Observer. The Guardian. Página visitada em 17 de outubro de 2012.
  20. Che Guevara no Find a Grave.
  21. Berman, Paul. The Cult of Che. 24 de setembro de 2004.
  22. Cuba Archive
  23. Luther 2001, p. 97-99.
  24. ANDERSON, 1997, p. 237.
  25. ANDERSON, Jon Lee. Che - uma biografia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997. p.647
  26. SAENZ, Tirso W. O ministro Che Guevara: testemunho de um colaborador. Garamond, 2004.
  27. CASTAÑEDA, Jorge G. Che Guevara: a vida em vermelho. 1. ed. Companhia de Bolso. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 231
  28. GUEVARA, Ernesto Che Actas del Ministerio. Reunião bimestral de 20 de janeiro de 1962, p.166.
  29. DEBRAY, Régis. Loués soient nos seigneurs. 1. ed. Paris: Gallimard, 1996. p. 185
  30. a b SCHELP, Diogo e TEIXEIRA, Duda. Especial Che. São Paulo: revista Veja, edição 2028, 3 de outubro de 2007, p. 90, 92.
  31. Che Guevara é eleito o maior político argentino do século XX., Buenos Aires: Agência EFE, in Globo.com, 8 de outubro de 2007
  32. a b c Che Guevara, un héritage controversé - Radio France Internationale, 8 de outubro de 2007
  33. "Os Últimos Dias de Che", Brasil: The History Channel, 9 de outubro de 2007
  34. LACEY, Marc. Che, ícone revolucionário, vira biquíni. - O Estado de S. Paulo, 14 de outubro de 2007.
  35. "Los fusilamientos son, no tan sólo una necesidad del pueblo de Cuba, sino también una imposición de este pueblo. Carta do Che a Luis Paredes López, no site do Centro de Estudios Che Guevara (em espanhol).
  36. GUEVARA, Ernesto Che. Mensaje a los pueblos del mundo a través de la Tricontinental.. 16 de abril de 1967
  37. a b SCAUZILLO, Robert J. Ernesto 'Che' Guevara: A Research Bibliography. in Latin American Research Review, Vol. 5, No. 2 (Verão 1970), pp. 53-82
  38. Originalmente, trata-se de uma carta enviada ao jornalista uruguaio Carlos Quijano, diretor do semanário Marcha, e publicada em 12 de março de 1965
  39. GUEVARA, Ernesto Che El socialismo y el hombre en Cuba. "Déjeme decirle, a riesgo de parecer ridículo, que el revolucionario verdadero está guiado por grandes sentimientos de amor. Es imposible pensar en un revolucionario auténtico sin esta cualidad. Quizás sea uno de los grandes dramas del dirigente; éste debe unir a un espíritu apasionado una mente fría y tomar decisiones dolorosas sin que se contraiga un músculo. (...) En esas condiciones, hay que tener una gran dosis de humanidad, una gran dosis de sentido de la justicia y de la verdad para no caer en extremos dogmáticos, en escolasticismos fríos, en aislamiento de las masas. Todos los días hay que luchar porque ese amor a la humanidad viviente se transforme en hechos concretos, en actos que sirvan de ejemplo, de movilización.
  40. ATKINSON, David. Che Guevara legacy lives on in Bolivia. La Higuera, Bolivia: BBC News, 26 de agosto de 2004.
  41. ATKINSON, David. In Bolivia, shadowing the ghost of Che Guevara., Los Angeles Times, 19 de março de 2006
  42. Soderbergh mostra seu 'Che' em Cannes e conquista crítica. FONSECA, Rodrigues. Cannes: O Globo Online, 21 de maio de 2008, 19h26]
  43. 61º Festival de Cannes: "Cuba me interessa menos do que Che", diz diretor. ARANTES, Silvana. Cannes: Folha de S. Paulo (Ilustrada), 23 de maio de 2008

Bibliografia

Em português
Esboço de bibliografia organizado por ordem cronológica das primeiras edições em Portugal e/ou no Brasil.
Em castelhano
1964: Sobre el sistema presupuestario de financiamiento.
1965: El socialismo y el hombre en Cuba.
1967: Mensaje a los pueblos del mundo a traves de la Tricontinental.
Em francês
Em inglês


Ligações externas
Alguns artigos publicados no Brasil por ocasião do 40º aniversário da morte de Che Guevara
Fonte:http://pt.wikipedia.org/wiki/Che_Guevara


ANATOMOMIA DE UM MITO - VÍDEO E DOCUMENTÁRIO