ÍNDIOS GUARANI-KAIOWÁ : SENTIMENTO DE BECO SEM SAÍDA

Guarani-kaiowá: sentimento de beco sem saída

A Constituição brasileira de 1988 mudou a lógica da política indigenista do Estado brasileiro.  Houve enormes avanços na questão de demarcações de terras e, o que é mais importante, no reconhecimento dos direitos da diferentes etnias, com suas diversidades culturais, e na qualidade de vida das aldeias.

Não gosto, em geral, da expressão “qualidade de vida”, tantas vezes usada para vender apartamentos para a classe média que, na prática, significam o oposto do que prometem. Mas, neste caso, se justifica. Houve aumento na expectativa de vida e na população indígena em grande parte do país. A educação nas aldeias melhorou e as relações com os poderes públicos avançaram.

Mas…

Bom, o fato é que a questão não foi ainda completamente resolvida. E, principalmente nas regiões de maior desenvolvimento econômico, em que as áreas indígenas têm altíssimo interesse para a produção e para a especulação fundiária, os grupos indígenas não conheceram essas mudanças. Às vezes, na verdade, caminhou-se em sentido contrário.

O caso dos Guarani-Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, é um dos mais significativos disso. Em carta recentemente divulgada, endereçada ao governo e à Justiça, que reproduzo abaixo, a terrível a sensação de estarem aprisionados num beco sem saída é expressa claramente. Vai também mais abaixo um vídeo, também de 2012, sobre a situação.

“Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio/extermínio histórico de povo indígena/nativo/autóctone do MS/Brasil, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça Brasileira”, escrevem os indígenas, que assinam como “50 homens, 50 mulheres, 70 crianças”.

Os Caiowá e os Kaingang, do Oeste paulista e do norte do Paraná, são os grupos indígenas que conheci mais de perto.  Muitos de meus colegas de escola e de futebol, parentes, primos, amigos eram, mesmo que isso não fosse declarado, descendentes diretos deles.

Hoje município, Nantes, com esse nome afrancesado, era parte de Iepê, cidade dos meus pais onde passei alguns anos como morador e muitos meses na casa de minha avó.  Nantes era conhecida por Coroados, nome português dos Kaingang, e Iepê recebeu este nome porque seus fundadores achavam que ele significava “Liberdade” em guarani. As duas cidades ficam no Oeste paulista, já perto do Paraná, na região de Presidente Prudente. A companhia de energia elétrica da região se chamava Caiuá.

Escrevo isto antes de republicar o texto porque, muitas vezes, não nos damos conta da proximidade das tragédias que estamos vivendo. São os índios da minha aldeia que se sentem ameaçados e que, para reagir, muitas vezes encontram apenas no suicídio uma forma paradoxal de resistir.

Justiça brasileira ordena expulsão de indígenas Guarani Kaiowá
Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil
CEDFES

Nós (50 homens, 50 mulheres, 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, vimos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de despacho/ordem de nossa expulsão/despejo expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, em 29/09/2012.

Recebemos esta informação de que nós comunidades, logo seremos atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal de Navirai-MS. Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver na margem de um rio e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.

Assim, entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio/extermínio histórico de povo indígena/nativo/autóctone do MS/Brasil, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça Brasileira.

A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas?? Para qual Justiça do Brasil?? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados 50 metros de rio Hovy onde já ocorreram 4 mortos, sendo 2 morreram por meio de suicídio, 2 morte em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um (01) ano, estamos sem assistência nenhuma, isolada, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia-a-dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay.

De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali estão o cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser morto e enterrado junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais.

Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal, Assim, é para decretar a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e para enterrar-nos todos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem morto e sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo de modo acelerado. Sabemos que seremos expulsas daqui da margem do rio pela justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo/indígena histórico, decidimos meramente em ser morto coletivamente aqui. Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.



Salve Dilma! Aqueles que irão morrer te saúdam. from Tekoa Virtual Guarani on Vimeo.

Fonte:http://revistasamuel.uol.com.br/blogs/agora/guarani-kaiowa-sentimento-de-beco-sem-saida/